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Tenho visto ultimamente, a pé, nos ônibus e no metrô, muitos jovens carregando instrumentos musicais, e fico otimista, pensando que teremos mais e mais músicos de alta qualidade no futuro,

É gente com violino, violoncelo, violão, flautas diversas, sax, trompete…

Um amigo meio pessimista diz que eles estudam música, mas se quiserem ganhar dinheiro vão ter que esquecer tudo o que aprenderam e bandear pro sertanejo universitário, pagode ou axé.

No meu otimismo, insisto que há bons grupos musicais formados por jovens.

Esse amigo me disse o seguinte:

― Nas praias frequentadas por surfistas, tem uns caras que ficam andando com uma prancha pra lá e pra cá, mas nem entram na água. Usam a prancha pra se passar por surfistas e paquerar as meninas. São chamados de surfistas da areia.

E completou:

― Será que esses caras que carregam instrumentos musicais não estão fazendo a mesma coisa? Podem estar fazendo pose de músicos só pra impressionar as meninas.

Refutei, dizendo que existem também muitas meninas carregando instrumentos musicais. E elas não precisam disso pra impressionar os rapazes.

Mas lembrei-me de um caso que pode dar razão ao meu amigo crítico. Aconteceu há bastante tempo.

Eu trabalhava num escritório no centro da cidade, e um dos meus colegas de trabalho era o Carlos, que morava na zona leste, e gostava muito de música.

Por isso, ele tinha sempre vontade de puxar assunto com um cara que tomava o mesmo ônibus que ele, de manhã, carregando sempre uma caixa de violino. Era do tipo de oclinhos redondos, cara de intelectual, que não se enturmava com o pessoal do ônibus.

Tanto o Carlos como o suposto violinista quase sempre tinham que ficar de pé, no ônibus superlotado. E o Carlos olhava a cara do sujeito que parecia estar nas nuvens, agarrado ao seu violino como se o considerasse uma preciosidade, e tocando mentalmente alguma música.

Um dia, o Carlos chegou bem atrasado ao trabalho, mas rindo sem parar. Perguntei o que era e ele contou:

― Sabe aquele sujeito que eu te contei que vem de ônibus com um violino? Bom… Hoje, o ônibus bateu num caminhão, ele estava de pé, caiu e a caixa do violino abriu. Só que, em vez de violino, o que tinha dentro era uma marmita.

Julia Pastrana

Em fevereiro, saiu a lista de 11 mil vestibulandos da USP e da Faculdade de Medicina da Santa Casa convocados pela Fuvest na primeira chamada, e me bateu a curiosidade de olhar se alguns nomes ainda sobrevivem.

Exemplos? Sebastião, Benedito, Baltazar, Alaor, Nair, Olímpia, Inácia e Janete.

Nomes que foram comuns há algumas décadas hoje são raridades. A moda funciona até em relação aos nomes das pessoas, e atualmente as novelas têm muito a ver com isso, assim como jogadores de futebol e artistas.

É curioso ver as mudanças. Uns nomes que, na minha infância, eram considerados caipiras, de repente se tornaram moda nas cidades e sobrevivem até hoje, com força. É o caso de Gabriela, Joana e Manuela.

Em 2009 e 2011, os jornais noticiaram pesquisas sobre nomes registrados em cartórios de todo o Brasil, e deu uma coisa óbvia: Maria e José eram os campeões, mas só em nomes compostos, como Maria Eduarda, Maria Clara, Maria Luísa, José Carlos e José Luís. Ana quase empata com Maria nos nomes compostos femininos. Nos masculinos, há muitos nomes compostos com João, Antônio e Francisco.

Os campeões mesmo são outros. Os nomes femininos mais registrados eram Júlia, campeão absoluto, além de Giovana, Sofia, Isabela, Beatriz, Manuela e Yasmim. É interessante notar que as pessoas gostam de dar um toque “estrangeiro” nos nomes, colocando Giulia em vez de Júlia ou escrevendo Isabella com ll e Yasmim em vez de Jasmim.

Entre os nomes masculinos, Gabriel e Miguel foram os campeões, seguidos de Artur, Mateus, Davi, Lucas e Rafael e Felipe.

Na lista da Fuvest, vi que alguns nomes sobrevivem, mas precariamente. Muitos apareceram só uma vez. É o caso de Rute, Fátima, Rosa, Aparecida, Aurora, Rita, Fausto, Célia, Cleide, Neusa, Geraldo, Afonso, Clóvis, Ari, Horácio e Vicente. Então, entre os calouros de 2013, se alguém tiver um nome desses, não vai ter nenhum xará entre os colegas.

Surpreendente é que não há nenhuma Elizabeth, Hélia, Rosa, Ivana, Madalena, Nilza, Amélia, Roseli, Rosali, Dulce, Iracema e Iraci, por exemplo. E nem Rui, Batista ou João Batista, Cristóvão, Jurandir, Américo, Afrânio, Ernesto Ari e Sebastião.

Isso sem contar alguns que eu já suspeitava que são nomes de maiores de não sei quantos anos, e que não apareceram em nenhum dos convocados, como Ademar, Jacinto, Ubiratã, Ubirajara, Eugênio, Juraci, Euclides, Bento, Norberto, Nivaldo, Dio­­nísio, Nilo, Zacarias, Adalberto, Gualberto, Zeferino, Alípio, Jânio, Silas, Agnaldo, Agildo, Rozendo, Orozimbo, Boaventura, Benício, Onofre, Rivaldo, Roberval e Baltazar.

Na mesma situação estão os nomes femininos Margot, Dalva, Neide, Diva, Odete, Jandira, Celeste, Nair, Eunice, Nadir, Araci, Ofélia, Benedita, Sebastiana, Mércia, Idalina, Magda, Margarida, Ida, Margarete, Eudóxia, Maria Aparecida, Cândida, Zulmira, Hortênsia, Eneida, Zuleica, Zulmira, Zélia, Zilda e Zenaide.

Mais uma coisa interessante a notar: nomes que inspiraram muita gente de esquerda na nomeação dos filhos já são coisa do passado. Vladimir ou Wladimir ausente nos nomes dos calouros da Fuvest é um deles. Aliás, lembrando de Lênin tenho uma teoria: quando se coloca um nome numa criança em homenagem a um grande cara, o sujeito tende a crescer contrariando a homenagem. Nenhum Lênin ou Lenine que conheci (não conheço o cantor Lenine) era de esquerda.

E tem as homenagens que viram anti-homenagem: um cara colocou no filho o nome Ernesto, em homenagem a Che Guevara. Poucos anos depois, o general Ernesto Geisel assumiu o governo… Ah, Ernesto não aparece nenhuma vez na lista da Fuvest. Nem Fidel. Luís Carlos, nome que homenageava Prestes, também vai sumindo: só apareceu um, ao contrário de muitos outros nomes compostos com Luís. Luís Carlos agora é raro, é nome do passado.

Lembro-me também de nomes que foram moda numa época específica, como os indígenas Maíra, depois do lançamento do livro de Darcy Ribeiro com esse nome, e Aritana, quando apareceu com destaque na imprensa um Aritana índio do Xingu que era um verdadeiro galã.

Mas nessas listas de nomes sempre aparecem alguns bem diferentes. Vi na lista da Fuvest nomes como Exupério, Cairo, Caira e Quedima. E tem também dois chamados Zeca, que antes só vi como apelido de José.

Nomes raros, “diferentes”, podem ter consequências inesperadas, sua raridade pode até virar problema. Um dos meus amigos de juventude tinha uma namorada chamada Onofra, uma menina bonita e simpática. Mas adolescente é implicante, e amigos dele gozavam tanto do nome dela que se deu o fim do namoro depois de uma discussão. Uma bobagem, não é? Mas acontece.
Com certeza algum leitor está pensando: “Que moral tem esse cronista com esse nome atrapalhado pra falar dos nomes alheios?”. Pois é… Não tenho.

Termino lembrando que nome diferente, esquisito, tem uma vantagem e uma desvantagem. A vantagem é que não vou entrar na lista da Sociedade de Proteção ao Crédito por culpa de ninguém. A desvantagem é que se entrar, ou cometer alguma besteira, não dá pra inventar que é um xará. F

Esta crônica é parte integrante da edição 120 da revista Fórum

Luizim não tinha ainda nem um mês de São Paulo. Saiu do Sul de Minas disposto a trabalhar e estudar e já estava empregado. Tinha também arrumado um colégio para fazer o curso noturno.

Nesse pouco tempo de São Paulo, aprendeu a se virar bem na cidade, conhecia razoavelmente o centro e o bairro de Pinheiros, onde foi morar, mas ainda não tinha se acostumado com certas coisas.

Em Minas, numa cidade pequena, não tinha essa coisa de pegar ônibus diariamente. Aliás, andar em qualquer veículo motorizado era um luxo. Quando pegava a jardineira — o que era só de vez em quando, pra ir às cidades “grandes” da região, Guaxupé e Muzambinho — ela esperava o passageiro se acomodar, ainda que de pé, e saía devagarinho, ele se equilibrava fácil dentro dela.

Em São Paulo era uma loucura, tudo era muito apressado, achava que ninguém tinha paciência pra nada, e muitas pessoas não eram dispostas a ter uma atitude compreensiva com quem não estava acostumado ao ritmo da cidade.

Num sábado, início da tarde, fazendo quatro semanas de vida na Pauliceia, o Luizim foi visitar um conterrâneo num bairro próximo. Depois de um bate-papo em que rolaram muitas saudades da família e da cidade natal, mas ao mesmo tempo uma vontade de encarar a cidade grande e “vencer” nela, foi pegar o ônibus de volta para casa.

Estava na rua da Consolação, longe do ponto, viu o ônibus que queria tomar se aproximar e passar por ele. O ônibus parou para pegar alguns passageiros, ele correu e o alcançou quando já ia saindo, com a porta aberta. Entrou correndo e o ônibus deu uma arrancada brusca, antes que ele se segurasse “naqueles canos de travessado”. Perdeu o equilíbrio, rodopiou e caiu em direção a uma mulher que estava sentada num banco que fica de costas para a janela, o que na época se chamava “banco dos bobos”. Uma mão dele passou rente ao rosto dela e se afirmou na janela do ônibus. A outra foi direto num seio da danada. Pra quê! Foi um escândalo!

A mulher começou a falar alto:

— Sem-vergonha! Finge que tá caindo pra se aproveitar da gente. Pensa que eu não vi suas intenções?

E xingou, xingou, conquistando aos poucos alguns adeptos, a começar por uma mulher com cabelo cheio de laquê, que afirmava ser essa uma nova tática dos tarados: fingir que estava caindo pra apalpar os seios das moças. Luizim nem chiou. Achou que não valia a pena tentar explicar, que ninguém ouviria, e ficou calado, injuriado. Outros foram aderindo à “vítima” daquele tarado. Uns cinco minutos depois já estavam quase querendo linchar o rapazinho tão novo — pela cara nem tinha dezoito anos ainda — e já tão safado.

Como ele não falava nada, não respondia nem reagia, uma das esbravejadoras desconfiou:

— Acho que ele é surdo-mudo. Não ouviu nada, não falou nada…

Aí outros foram olhando, aderindo ao pensamento dela e por fim a própria vítima estava reconhecendo:

— Coitado… acho que ele caiu sem querer… Foi desequilíbrio…

E o Luizim achou divertida a conversão de todos. Pagou a passagem e passou a roleta sem falar nada e ficou escutando as declarações de pena dele, enquanto pensava: “Quer dizer que surdo-mudo não faz sacanagem? Só porque acham que sou surdo-mudo agora sou um santo?”.

Bom, se fosse hoje teria que censurar seus pensamentos politicamente incorretos. Hoje em dia cara que não ouve nada não é mais surdo, é “deficiente auditivo”. E mudo também… Seria deficiente áudio-oral?

Fechemos o parêntese, voltemos ao Luizim no ônibus. Ficou na dele, sendo olhado com piedade por pessoas que minutos antes queriam matá-lo. Aí chegou ao ponto em que devia descer. Desceu. No chão, andou uns três metros, virou-se para trás e gritou para todo mundo no ônibus:

— Ô, mudaiada!

Aí sim, viu gente braba. O ônibus parou e abriu a porta para a horda correr atrás dele. E como corriam!…

Esta crônica é parte integrante da edição 118 da Fórum

Andei me lembrando de umas histórias de apreciadores de cachaça da minha terra, que já andei contando no livro Santa Rita Velha Safada. Como pouca gente leu esse livro, acho que vale repetir aqui, juntando três delas.

1. Na minha infância, eu era um grande admirador de um grande poeta analfabeto, o Rosário, que declamava suas “décimas” (esse era o nome que dava aos poemas) em troca de doses de Levanta e Cai, a cachaça mais popular da cidade.

Um dia, ele entrou na venda do Luizinho, pediu uma cachaça, e o vendeiro disse que a cachaça tinha acabado. Na verdade, não queria vender ao Rosário, que já estava meio calibrado. Só que o poeta acreditou, fez uma cara muito triste e sapecou:

Cachaceiro entrou na venda,
sentiu mágoa e chorou,
quando o vendeiro disse
que a cachaça acabou.

Oh! Que notícia cruel!
Oh! Que notícia tirana!
Não sei pra que tanto engenho,
não sei pra que tanta cana!

2. Outro apreciador da Levanta e Cai era o Micuim. Num sábado à noite, bebeu bastante e dormiu na porta da casa de uma velha que odiava cachaceiros. No domingo de manhã, quando saía para ir à missa, ela deu de cara com o Micuim dormindo atravessado em frente à sua porta. Resolveu dar-lhe uma reprimenda e uns conselhos. Cutucou-o com o bico do sapato, ele acordou, e ela disse:

– Seo Micuim, você vive bêbado, parece que perdeu o gosto pela vida, não acredita em Deus, não acredita em nada…

Ele a interrompeu:

– Pera aí! Eu acredito em dois santos.

Ela se admirou e pensou que ele até podia ter salvação, perguntou em que santos ele acreditava. Ele fez uma cara séria e respondeu:

– São Risal, quando tô de ressaca, e São Duíche, quando com fome.

3. Por falar em “São Risal”, isso não existia por aquelas bandas. Apareceu no final da década de 1950. E vejam o que aconteceu na venda do Zé Fernandes.

Tinha um ou outro freguês sentado em latas de óleo ou caixões e ele quase cochilando atrás do balcão, esperando o tempo passar, quando Bastião Ponte entrou agitado, reclamando mais e mais alto que de costume:

– Olha, seu Zé, eu não aguento mais a Gioconda. É o dia inteiro “Bastião faz isso, Bastião faz aquilo”, não me dá sossego! Não aguento mais, eu quero é morrer pra descansar um pouco, é o único jeito! O senhor tem um veneno bom aí?

Gioconda era uma irmã dele, e ele vivia com ela, fazendo pequenos serviços.

– É verdade, Bastião. A tua vida é ruim mesmo, vou te arranjar um veneno que é batata, mata mesmo – respondeu o vendeiro.

Bastião não esperava isso. Pensou que ele ia começar com aquela conversa de “não faça isso, calma…” e lhe dar uma boa dose de pinga. Mas em vez disso, Zé Fernandes não só concordou com a sua vontade de se suicidar como até começou a procurar o veneno. Ele começou a ficar incomodado e falou com um freguês da venda:

– Eu vou me suicidar!

– Também… Com uma vida ruim como a tua, tem que se suicidar mesmo.

Quando ia falar com outro freguês, Zé Fernandes lhe mostrou o veneno, num envelope escrito “Sonrisal”:

– É um veneno novo, mata na hora!

Colocou o Sonrisal em meio copo d’água e ele começou a ferver. Bastião nunca tinha visto aquilo, um veneno que ferve no copo, e dirigiu-se a outro freguês:

– Vou morrer. O Zé Fernandes tá preparando um veneno pra mim!

– Isso mesmo! Só assim a Gioconda para de te encher o saco.

E ele foi de um em um, esperando um “deixa disso” pra dizer “tem razão” e se mandar rápido. Mas só recebeu estímulos para o suicídio. Já estava apavorado, quando Zé Fernandes chamou:

– Ô, Bastião, o veneno tá pronto. Vai tomar ou não vai?

– Mas esse veneno mata mesmo?

– Ora, se mata! Quero até pedir pra você beber depressa e colocar imediatamente o copo no balcão. Não quero que você caia morto com o meu copo na mão e ele quebre, vai me dar prejuízo.

Esta crônica é parte integrante da edição 116 de Fórum.

Amijubi? Dizem que é uma união de parte das palavras amizade e júbilo. Mas você poria esse nome num filho?

E Zuzeco, mistura de azul com ecologia?

E Fuleco, mistura de futebol com ecologia? A palavra lembra mais o adjetivo “fuleiro”.

Que a Fifa e a CBF tenham escolhido o tatu-bola como mascote da Copa de 2014, vá lá. Ele é um bicho inofensivo, não faz mal a ninguém, as pessoas é que fazem mal a ele. Tanto que o coitado está em perigo de extinção.

A sua escolha tem sentido, é um animal que vira bola, portanto tem algo a ver com o futebol, embora mais uma vez como vítima dos homens: bola, no futebol, é para ser chutada.

A Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci) tinha proposto que nosso ídolo, o Saci, fosse o escolhido. Seria legal para estimular o maior conhecimento da nossa cultura popular, da riquíssima mitologia indígena, no caso a tupi-guarani. Mas há algum tempo eu mesmo já vinha pensando que se a Copa for mal organizada e causar vergonha, ou se a seleção brasileira for uma porcaria e não chegar nem às quartas-de-final, tendo o Saci como mascote, uns bobões iriam dizer: “Também, com um mascote como o Saci”.

Iam culpar nosso perneta. E uns mais bobões ainda iriam, com a história de serem “politicamente corretos” (no resto podem ser incorretos em tudo), ficar remoendo que o Saci fuma. Para eles, tudo bem que Baco, romano, fosse homenageado com bacanais; Dionísio, grego, fosse homenageado com festas dionisíacas; que Zeus, o principal mito grego, forçasse a barra para se tornar amante de muitas mulheres e matasse ou mandasse matar os maridos delas. O grande mal é o Saci, porque ele fuma!

Bom, o Saci se livrou dessa. Se formos mal ou promovermos uma Copa bagunçada, a culpa já não será do nosso ícone, nosso mito mais popular.

A escolha que a Fifa e a CBF fizeram até que foi boa. Tem algo a ver com o meio ambiente, uma causa que é de quase todo mundo. O que acho ruim é a forma que fazem as coisas, e a finalidade maior dessas instituições por acaso futebolísticas: ganhar dinheiro, faturar, faturar, faturar…

Decidem tudo às escuras e tomam todas as providências para que ninguém ouse não dar lucro elas. Usou, tem que pagar. O Saci já tem desenhos aos montes por aí, e muitas outras pessoas desenhariam seu próprio Saci. Seria difícil controlar, não?

Mas o tatu-bola só foi anunciado depois de devidamente registrado na caixa registradora, epa!, nos cartórios, como propriedade delas. Não vou ser “do contra”, minha torcida é para que a Copa seja um sucesso, e a seleção seja campeã, jogando bonito.

Voltando à Fifa e à CBF, para dar um toque “democrático”, fazem um concurso para escolher o nome do personagem. E, coitado, que alternativas! Amijubi, Zuzeco ou Fuleco? Olha, dona Fifa… Não, não vou falar.

Antes já nomearam a bola de futebol oficial com o nome de Brazuca, com Z mesmo. Mais uma submissão dos “brasucas” aos gringos. O sufixo “uca” é pejorativo, e nem puseram brasuca com “s”, é com “z”. Será que viramos colônia da Fifa?

Agora, vamos escolher “democraticamente” o nome oficial do tatu-bola da Fifa. Amijubi, Zuzeco ou Fuleco! Que horror!

Lembrei-me agora dum caso que contei num livro, sobre um tatu. Não era tatu-bola, mas vá lá. Na verdade, é sobre um conhecido meu. E repito o causo aqui. Que tal Celsão, para o nome do tatu mascote? Leiam abaixo e pensem se não é merecido.
Celsão é separado da mulher e se mantém irredutível na atual solteirice.

– Mulher é que não me falta – diz ele.

Mas às vezes falta! E naquelas noites de frio, em que um cobertor de orelhas é melhor do que qualquer outro, pode-se ocasionalmente ver o Celsão descer sorrateiramente o Beco da Cadeia, olhar para os lados assegurando-se de que ninguém está vendo (a gente fica de tocaia), bater levemente na janela da ex-mulher, a janela se abrir e ele pular sorrateiramente para dentro.

Uma manhã, flagrado quando saía da casa de sua ex-mulher, explicou:

– Tatu que é esperto não esquece buraco antigo. F

Esta crônica é parte integrante da Fórum 115.

–Malandro, trambiqueiro, tem que ser simpático mesmo…

Uma mulher dava bronca numa moça que foi enganada em não sei quê por um sujeito e dizia que o cara era muito simpático, não imaginava que ele fosse um enganador.

Lembrei-me, então, de um trambiqueiro que conheci, o Aparecido, meu colega de trabalho numa época que tive que ir para o interior. Morava, segundo ele mesmo, na “casa mais bonita da cidade”. Casa própria, por sinal, só que ele nunca havia pago nenhuma prestação. Cada vez que a Caixa Econômica ameaçava lhe tomar a casa de volta, ele recorria a alguns amigos, altos políticos da Arena, o partido do governo ditatorial, e eles impunham à Caixa uma renegociação da dívida, e ele não pagava de novo, até nova renegociação.

Um dia, um amigo e colega de trabalho anunciou seu casamento, e o Aparecido se ofereceu para fazer uma lista para arrecadar dinheiro para a lua de mel dele, em vez de cada amigo dar um presentinho.

Arrecadou uma baita grana, porque o amigo era muito popular. Então, levou solenemente para ele não o dinheiro arrecadado, mas um cheque único dele mesmo, Aparecido, com a soma dos valores da lista e já incluindo a sua parte do presente também. Só que o cheque era sem fundos. O noivo depositou o cheque, e pagou muitas coisas na viagem com cheques… E todos os cheques voltaram por falta de fundos!

Passados uns meses, o Aparecido começou a me falar de uma amiga dele, funcionária da prefeitura, que queria me conhecer. Fiquei desconfiado. Afinal, sou mineiro.

Um dia, trouxe a moça até um restaurante em que iríamos jantar tomando vinho e me apresentou. Era bonita, e ele praticamente jogava a moça pra cima de mim. Como mineiro, de novo, lembrei-me do ditado “Esmola demais, o santo desconfia”, e tirei o corpo fora. Pouco tempo depois, fiquei sabendo que a moça estava grávida dele, e quando ele a levou para me conhecer, estava no início da gravidez. Imaginou que se eu tivesse um caso com ela, poderia me “culpar” pela gravidez.

Mais tarde, conversando sobre o que já tínhamos feito antes, contei que estudei Geografia e que tinha feito estágio no Instituto Geográfico e Geológico de São Paulo (IGG). E ele me disse que trabalhou nesse instituto durante anos.

Por coincidência, na semana seguinte estava em São Paulo, fui comprar um mapa no IGG e aproveitei para visitar meus colegas de trabalho, do meu tempo de estágio. A sala tinha umas dez pessoas, cada uma em suas respectivas mesas de trabalho. Conversava com todos eles e falei:

– Estou trabalhando com um cara que já trabalhou aqui.

– Quem? – perguntaram.

– Ele se chama Aparecido.

Fez-se um silêncio total. Um dos amigos me puxou pelo braço e me chamou pra tomar um cafezinho. No café, me falou:

– Não fale esse nome aqui que pega mal.

Contou, então, que a mulher de um dos colegas de trabalho teve um problema grave de saúde, numa época em que quase ninguém tinha plano de saúde, e ele não conseguia tratar a mulher na rede pública, que era bem pior do que hoje. Fora o Hospital das Clínicas, que era excelente, não havia praticamente mais nada.

O sujeito precisou levantar todo o dinheiro possível, pegar empréstimos, pois não tinha propriedades, e entre as coisas que resolveu vender havia uma Enciclopédia Barsa, ainda na caixa, que acabara de receber. Pagou 1,5 mil cruzeiros nela poucos dias antes de a mulher ter o diagnóstico da doença. E venderia por 500.

O Aparecido, simpático, o proibiu de fazer isso.

– Faz uma rifa – disse. – Com cem bilhetes a 20 cruzeiros, você arrecada 2 mil.

Mas o sujeito era tímido, tinha vergonha de sair vendendo rifa pros colegas. O Aparecido se prontificou:

– Traz a enciclopédia pra eu mostrar pra todo mundo, que eu vendo.

Vendeu mesmo. Falava da dificuldade do amigo e da qualidade da enciclopédia, e arrecadou 2 mil cruzeiros.
Só que o dinheiro não foi para o amigo com a mulher doente. E o ganhador da rifa também não recebeu a enciclopédia.

Esta crônica é parte integrante da edição 113 de Fórum

Na época da Constituinte, um bando de amigos quis que eu me candidatasse a deputado. Nós discutíamos muito sobre política, tínhamos muitas propostas para algum parlamentar do nosso lado que fosse participar da criação da nova Constituição do Brasil, e esses amigos acharam que eu é que devia levar essas propostas lá. Fizeram até um folheto citando as coisas que defendíamos, e distribuíram na feira livre da Vila Madalena, num sábado.

Não aceitei. Sabia que tinha muito pouca chance de ser eleito e também não tenho vocação para a coisa.

E pedi para abandonarem a ideia de minha candidatura, com um argumento:

— Se eu me candidatar, podem acontecer duas coisas ruins: uma delas é perder, e a outra é ganhar.

Não me imaginava convivendo numa boa com um direitistas fanáticos e outras figuras que certamente estariam no Congresso. Ser parlamentar exige isso, cordialidade no trato com esse pessoal, para aprovar propostas.

Mais tarde me propuseram de novo que eu me candidatasse a um cargo qualquer, e aí já eram outros tempos, em que a imprensa passou (e continua até hoje) a vasculhar o passado de políticos de esquerda, dos quais não gosta. Gente apoiada pela mídia tem o passado – e até o presente – blindado, mas quem ela não gosta, tá frito. Qualquer coisa vira escândalo.

E de novo me neguei a aceitar a candidatura, tanto pela certeza de que não ganharia como porque, se desse zebra e ganhasse, não aguentaria ocupar qualquer cargo político. Fui assessor parlamentar de um deputado petista em 1983 e não aguentei seis meses no cargo, pedi demissão mesmo sabendo que ficaria desempregado, pois a época era de uma recessão braba.

Mas brinquei de novo:

— Já imaginou a imprensa vasculhando a minha vida? Iam descobrir que quando era criança roubava jabuticaba no quintal dos vizinhos, e já adolescente andei roubando frango para cozinhar num boteco, de madrugada.

Era hábito da juventude de Nova Resende roubar frangos e a gente mesmo cozinhar num bar, bebendo até de madrugada. E eu fiz isso também. Ah, que escândalo! E algum jornalista que faz sem vacilar o que o patrão manda, se fosse à minha terra, poderia ficar sabendo que eu fui a prostíbulos também. Minha primeira relação sexual foi com uma prostituta. Vixe! Haja escândalo!

Mas nessa brincadeira, lembrei-me demais dos roubos de frango. Mesmo quando já morava em São Paulo, quando voltava a Nova Resende, às vezes participava de umas expropriações dessas. Era uma coisa que todo mundo sabia, até o promotor de Justiça participava de “ceias”, fingindo não saber a origem das aves.

Numa dessas vezes que voltei lá, o Tonho, um amigo que morou em São Paulo, tinha se mudado para a cidade e aberto um bar, que se tornou o preferido dos ladrões de frango. Podiam cozinhar lá e pagar só a bebida e o arroz.

Assim, pouco antes da meia-noite, depois de tomar umas cachaças para rebater o frio, saíam algumas duplas em direções diversas, à procura de galinheiros ou quintais onde se criavam frangos soltos. Às vezes, todos os grupos conseguiam roubar um ou dois, então sobrava frango. E o Tonho construiu um galinheiro no quintal, uma espécie de depósito de frangos roubados, que seriam usufruídos em noites de busca infrutíferas pelos quintais alheios.

Num período de escassez, mudou-se para a cidade um roceiro que trouxe com ele um montão de frangos, que ficavam soltos num quintal muito grande. Tornou-se o alvo preferido da turma.

Um dia ele saiu pela cidade avisando que tinha comprado uma espingarda e que mandaria bala em quem fosse roubar frango em sua horta à noite. Esperava desencorajar o pessoal.

No dia seguinte, um vizinho lhe perguntou:

— E aí, seu Ângelo, suas ameaças deram certo?

Ele fez uma cara triste e respondeu:

— Nada… Esta noite levaram até o rei do terreiro.

Me contaram depois que deu um trabalho danado pra cozinhar o galo dele, quer dizer, o “rei do terreiro”.

Esta crônica é parte integrante da edição 112 de Fórum.

Quando alguma pessoa que eu gosto parte desta para uma melhor, que espero que seja melhor mesmo, procuro me lembrar das coisas boas e divertidas que ela fez. Os índios de línguas do tronco tupi-guarani chamam o local para onde vão os mortos bons de “Terra sem Males”. Então, apesar de a gente ficar triste por perder uma pessoa amiga, faz bem pensar que ela está lá, numa boa, mesmo eu sendo materialista.

Minha amiga Léa Depresbiteris é uma que merece estar nesse lugar sem males. E vou me lembrar de algumas das muitas coisas divertidas dela.

Ela foi assaltada dentro do carro várias vezes num mesmo semáforo do centro de São Paulo. Numa dessas vezes, entregou o dinheiro ao ladrão, que ainda ficou falando alguma coisa, mantendo os dedos de uma das mãos em cima do vidro entreaberto. Para parar de ouvir a encheção do sujeito, ela fechou o vidro e os dedos de uma das mãos do assaltante ficaram presos entre o vidro e a parte de cima da porta. Nesse momento, o sinal abriu e ela foi saindo, com os dedos do assaltante presos. Se acelerasse, o sujeito seria arrastado pelos dedos, no mínimo quebraria alguns deles. O cara gritou, a Léa parou, abriu o vidro para ele tirar a mão e pediu desculpa.

– Devia ter arrastado o sujeito, quebrando os dedos dele – dizia muita gente. Mas esse não era o estilo dela.

Viajamos muitas vezes juntos, para o exterior e para o interior. A Léa com o marido, Mário, e eu com a minha mulher, Célia.

Muito novidadeira, ela sempre queria provar as coisas mais diferentes, principalmente comidas e bebidas com nomes sonoros. Antes de aprender a falar espanhol, na Argentina, num restaurante ela pediu para beber um licuado de durazno e eu fiquei gozando: “Você pediu só por causa do nome, não é?”. Confirmou e disse não saber o que era. Contei que era suco de pêssego, ela riu, bebeu e confirmou que era mesmo.

Em Cochabamba, comprou folhas de coca para mascar, como faziam os índios. Na Bolívia, a gente tomava chá de coca direto (não tem nada a ver com cocaína), porque senão as consequências da altitude seriam trágicas. Mas mascar a folha exige prática: não se pode engoli-las, só fazer um “bolo” delas na boca e ficar engolindo o caldo. Ela engoliu as folhas e, para piorar, o pessoal que vendia coca eram cholas não muito higiênicas. Acho que tinha algumas impropriedades nelas (micróbios, bactérias…), e o resultado é que a Léa ficou com uma baita diarreia que nada curava. Durou vários dias. Chegamos a ir a um pronto-socorro em La Paz, mas não resolveu.

Na Espanha, queria chegar a Valência, e só quando chegamos soubemos por quê: queria tomar orchata de chufa. Desde que ouvira Caetano Veloso se referir a esse troço numa música que ela ficou com isso na cabeça. Chufa (ou xufa) é um pequeno tubérculo, e orchata (ou orxata) é um caldo leitoso e doce feito com a tal chufa.

Mas nessa viagem à Espanha quem deu uns foras não foi a Léa, foram o Mário e a Célia. Logo que chegamos a Madri, os dois queriam comer calamares, quer dizer, lula. Estavam fissurados. Achavam que a lula de lá tinha algo de especial.

No almoço, já chegaram ao restaurante falando sem parar, brincando:

– Calamares!!! Calamares!!!

Comemos calamares.

Para jantar, fomos a um outro restaurante. A Léa pediu alguma coisa que não me lembro, eu pedi uma carne, a Célia queria algum peixe e o Mário também. Abriram o cardápio na página de “pescados” e perguntaram ao garçom o que eram setas.

– Es um pescado muy bueno…

Ele não sabia explicar direito o que era. Pediram assim mesmo… Era lula com cogumelo.

No almoço do dia seguinte, eu pedi não sei o quê, a Léa só quis um consomê, a Célia e o Mário se interessaram por um outro pescado muy bueno. Veio, era um outro tipo de lula, menorzinho. O certo é que lá pelo quinto dia de Espanha não aguentavam mais comer lula.

Tudo o que pediam, era lula. Nunca imaginei que pudesse existir tantos pratos com nomes diferentes à base de lula. Nem eles, que foram os novidadeiros muito gozados pela Léa e por mim.

Este artigo é parte integrante da edição 111 de Fórum

Carta do Henfil

11/01/2012 | Publicado por mouzarbenedito em Sem categoria - (5 comentários)

Meu primeiro contato com o Henfil foi quando a Global Editora quis publicar uma versão da revista Mafalda e o Quino exigiu: “Só se a tradução for feita pelo Henfil”.

Mas ele era ocupado demais. A solução foi alguém traduzir e o Henfil dar um toque final. Paulo Schilling, que havia voltado do exílio e publicava livros pela Global, me indicou para ser o tradutor.

Assim, um dia nos reunimos: Henfil, Quino, Zé Carlos e eu, para tratar da tradução. O Henfil convenceu o Quino de que a versão teria que ser meio pro portunhol, pois as traduções com uma Mafalda italiana, portuguesa etc., não tinham a mesma graça.

Mais tarde, para mandar colaborações para o Pasquim, levava até a casa do Henfil, que as mandava para o Rio. Ele se divertia com as minhas bobagens e me chamou para trabalhar como “ator” no programa dele, de um minuto, na TV Abril (horário comprado pela editora na TV Gazeta). Depois ele me contou que estava mesmo era me preparando para encarar câmeras e virar ator como guerrilheiro no filme que ele planejava, Deu no New York Times.

Mas ele foi para o Rio e os planos mudaram. Mandei os originais do meu livro de causos Santa Rita Velha Safada, perguntando se ele topava fazer a apresentação, e ele me deu um monte de sugestões, mas bestamente acabei não fazendo as mudanças que ele propôs. Mesmo assim, quando a Editora Busca Vida topou publicar o livro, em 1987, ele fez a apresentação.

Mexendo em papéis velhos, achei a carta do Henfil com as sugestões e me emocionei. E resolvi mostrar pra todo mundo. É um misto de vaidade (sim!) e de reverência ao grande cara que ele era. Aí vai…

Rio, 24/5/85

Mouzar

Putis! Tô aqui + ou – recuperado das hospitalizações. Falta um pouquinho. E o filme começou a andar. Tamos viajando para achar os lugares onde a ação se passa. Mas, no meio disto tudo não pude deixar de ler duma vez só a tua literatura. Na medida em que lia, uma ideia comercial ia se formando na minha cabeça. Acho que há uma forma deste livro chegar a muita gente. Assim:

1) Em vez de editar por uma editora elitista, pegar uma “Melhoramentos” ou algo assim, destas que penetram em todas as livrarias do interior.

2) Dirigir o livro para um público que raramente compra livros, o pessoal com raízes no campo (no interior e nas grandes cidades!). Este pessoal adora “causos”, se identifica com os personagens que se parecem com os da cidade dele.

3) Assim, evitar o palavrão desnecessário, para não virar uma linguagem do livro. Só usar o palavrão quando for o fecho da história, como naquela do “buceta para todo mundo”; Cortar tudo que for só sacanagem. Este público é moralista e hipócrita. Gosta de vez em quando de uma coisa picante, mas muito, eles se assustam.

4) Observei que 90% do material que você escreveu conta uma mentira. Assim, para tornar o livro enxuto, cortar tudo que não for “causo de mentira”, primeiramente para honrar o novo título do livro que poderia ser Mentiras do Sertão! (ou algo assim, desde que aparecesse a palavra “Mentiras”)

Acho que assim, você chamaria a atenção deste leitor com raízes interioranas que adora estes torneios de “causos” ou “mentiras”.

Se você achar que é o caso, vai ter que tirar as historinhas que não honrarem o título.

Posso inclusive sugerir cortes. E, se der e quiser, até ajudo a enxugar o texto de algumas para facilitar o entendimento do leitor do interior.

Enfim, meti a colher fundo no livro que é teu. Mas acho muito difícil um tipo de publicação tão terra, chegar ao gosto pasteurizado do habitual mercado de consumo elitista. Que compra e não lê Cem anos de solidão. Agora, me diz: quem compra Meu pé de laranja lima? São milhares…

Óbvio que, acertado o público receptivo (interior), vamos chamar a atenção dos outros.

Bão, vê aí e eu, na medida em que pare aqui no Rio, vou te dando uma mão. Acho que basta deslocar a sua estrada para oeste (interior do interior e das cidades) e tudo vai funcionar. Só uma editora ampla poderá levar sua antologia… Ei! Olha um bom nome para o livro: Antologia de Mentiras do Sertão… Quem sabe? Mas pode ser só Mouzinas do Sertão.

Fala!

Abração.

Henfil

Este artigo é parte integrante da edição 104 da revista Fórum.

Andei pensando numas coisas que gostaria de publicar aqui, mas que não justificam uma crônica inteira. Então juntei algumas delas. Confiram.

* Morando no último dos quatro andares de um prédio na Vila Madalena, minha área de serviço é invadida frequentemente por bem-te-vis, maritacas, sabiás e sanhaços, que vão comer as frutas que deixo para eles, às vezes atacando também frutas que estão na cozinha. Ouvindo os bem-te-vis, concluí que os pássaros também têm sotaque.
Aqui eles cantam rápida e repetidamente “bem-te-vi-bem-te-vi-bem-te-vi”, e na minha memória os bem-te-vis do interior cantam com mamolência: “beeeemmmm-te-viiiiiiii”. Confirmei isso recentemente, em São Luiz do Paraitinga, ouvindo um bem-te-vi cantar assim, com sotaque caipira, igual ao da minha terra.

* A ciência tem evoluído com uma rapidez danada, e não sei por que ainda não inventaram pílulas de friorias. Isso mesmo, o contrário de calorias. Assim, a gente podia traçar uma feijoada com duas mil calorias e contrabalançar com algumas pílulas.

* Dona Maria das Graças, beata solteira, virgem militante, ouvindo notícias sobre a ideia de se criar um “Dia do Orgulho Heterossexual”, como contraponto ao “Dia do Orgulho Gay”, está pensando em juntar colegas como ela (uma raridade, convenhamos – isso é que é minoria!) para lançar a proposta de criação do “Dia do Orgulho Virginal”.

* Tive um colega de trabalho que se negava a usar guarda-chuva. Às vezes, saíamos andando pela rua São Bento ou rua Direita, no centro de São Paulo, sempre cheias de gente a pé (já eram fechadas para carros) e quando chovia ficava aquele mar de guarda-chuvas. Só o Heitor tomando chuva e se negando a usar o dito-cujo. E levando barbatanas de guarda-chuva na testa, no rosto e até nos olhos. Ele virava pra mim e dizia: “O povo brasileiro não está preparado para andar de guarda-chuva”.

* Jogar na loteria hoje é difícil. Você está querendo fazer só uma fezinha e tem que enfrentar uma fila de gente pagando contas de luz, água, telefone e carnês do baú da felicidade, sacando dinheiro, pondo crédito em telefone pré-pago e não sei que mais. No caso de uma casa lotérica perto de casa tem mais: uma velhinha fica o dia inteiro à toa ali perto. Quando se forma uma fila grande, na hora do almoço, ela entra ostensivamente usando seus direitos de idosa, fura a fila e faz seu jogo e seus pagamentos bem devagar.
Um dia, estava na fila para jogar e, de repente, ouvi latidos finos atrás de mim. Uma mulher estava com um cachorrinho pentelho no colo e ele não parava de latir. Ela olhou para mim e disse em tom de cobrança: “Ele não gosta de gente de boné”, insinuando que eu devia tirar o boné. Eu respondi que não gosto de cachorro pentelho. Não tiro o boné nem pra gente, vou tirar pra cachorro?

* Com essa zorra atual na Inglaterra, lembrei-me de uma coisa que não tem nada a ver com ela. Um amigo que morou em Londres na década de 1970 me disse na época (e acreditei) que os bêbados podiam ir em cana (devia ser por uma noite, sei lá). Mas como não existia ainda o bafômetro, perguntei qual o critério para considerar uma pessoa bêbada. Era o seguinte: se o cara estivesse de pé, não podia ser preso. Assim, quando a polícia aparecia, tinha bêbado que se agarrava num poste, ficava de pé. Mas às vezes a polícia ficava ao lado, esperando ele se cansar. Aí, quando o cara punha a bunda no chão podia ser preso. E era.

*“O Brasil não fez o dever de casa” ou “o Brasil tem que fazer o dever de casa”
Quantas vezes li ou ouvi com raiva gente falando uma besteira dessas, como se o país tivesse que obedecer o FMI, os EUA e a Europa, no estilo “farei tudo que meu mestre mandar”. É uma expressão de gente submissa, influenciada por economistas de direita que defendem interesses do capital internacional. Odeio quando alguém sai com uma frase dessas. Agora gostaria de perguntar a eles: vocês estão cobrando que os Estados Unidos e a Europa Ocidental façam o “dever de casa”?

* Lembro a quem interessar possa que em 31 de outubro (começando lá pelo dia 28) comemoraremos o Dia do Saci e seus amigos. E que continuamos querendo o Saci como mascote da Copa do Mundo de 2014, a se realizar no Brasil. Mas que seja uma Copa que mereça!