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O que está acontecendo nesses últimos dias no Brasil não é novo. E não pode ser pensado a partir das mesmas lógicas e padrões da sociedade industrial. É preciso buscar entender o tempo que estamos vivendo, como as dinâmicas de relação e poder se estabelecem e quais as novas demandas e padrões de luta. Não são questões fáceis e nem ensejam respostas precipitadas. O jogo é muito mais complexo no modelo atual.

Há alguns anos venho conversando sobre redes com diferentes grupos. E, entre outras coisas, tenho afirmado que estamos vivendo numa mudança de era. Estamos passando da Era Industrial para a Era Informacional. Isso tem levado a grandes transformações na economia, na cultura e também na política.

Quando migramos da sociedade agrícola para a industrial, isso já ocorreu. Foram grandes as transformações e enormes as resistências. Houve quem preferisse destruir as máquinas do que tentar entender suas possibilidades e potencialidades. Hoje a mesma coisa está ocorrendo. A sociedade em redes não permite respostas analógicas. E os partidos e movimentos tradicionais de esquerda ainda resistem em entender esse novo processo. Não entenderam que na sociedade em redes uma das grandes crises se dá em relação às organizações intermediárias. A indústria cultural foi uma das primeiras a ser afetadas por esse fenômeno. As gravadoras de música, por exemplo, tentaram resistir a ele com a criminalização do que chamavam de pirataria. Tiveram que mudar a estratégia e perderam muito espaço. Na indústria da informação está ocorrendo o mesmo. Boa parte dos grandes grupos desse setor está ruindo porque decidiu enfrentar as mudanças e não buscar se adaptar a elas. Na política, os partidos são as organizações intermediárias. São as gravadoras da indústria da música. E as pessoas que estão nas ruas não querem ser representadas por eles. Querem se representar. É uma crise da democracia representativa, para a qual ainda não se tem respostas nem soluções. E para ser franco, poucas pistas.

De qualquer forma, a resposta tradicional a isso é a de que esses movimentos negam a política. Essa é uma daquelas respostas simples que não dialogam com o problema. Entre outras coisas porque nunca se discutiu tanto questões da política como nesses anos de redes em redes.

E essas redes nascem nas ruas e se articulam na internet. Nascem na internet e se manifestam nas ruas. Elas não são produzidas em escala industrial e nem em linhas de produção. E nelas há forças centrais, mas não há um centro. E as forças centrais podem inclusive ser contraditórias.

É preciso pensar em movimentos e não num único movimento. Movimentos que em alguns momentos podem se juntar a partir de uma sensação de que algo precisa mudar. E de alguma forma é isso que parece estar acontecendo no Brasil dos últimos dias.

Geração Facebook e Passe Livre – Há um bom tempo que representantes de movimentos tradicionais de esquerda dizem frases como: “essa galera do Facebook não sai do sofá”. E além de não participar dos debates que acontecem na internet, deslegitimam aqueles que o fazem. A geração Facebook já havia saído do sofá em alguns países. E agora resolveu sair do sofá no Brasil questionando, entre outras coisas, a política tradicional.

Antes de entrar no debate propriamente dito do que é participação política na dinâmica de redes, um parênteses. O Facebook é uma plataforma, como foi o Oktuk, que hoje é um cemitério de perfis. O Facebook em breve será substituído por outra plataforma, mas as redes que nele se articulam não mais se dissiparão. Essas redes são anteriores a internet. Elas são espaços de esfera pública. Na França da revolução burguesa, os cafés de Paris faziam esse papel. Nas greves dos ABC do fim da década de 70, as comissões de base organizavam o chão da fábrica e o Sindicato dos Metalúrgicos era o principal aglutinador daquele movimento que vinha debaixo. E ao mesmo tempo o Sindicato se articulava com outros sindicatos do Brasil e do mundo construindo uma rede de lutas que foi fundamental para, no Brasil, derrotar a ditadura.

Nas novas dinâmicas de rede o que está ocorrendo é que essas organizações tradicionais preferiram o velho ao novo. Negar a rede parece ser uma forma de se defender do novo. É um equívoco brutal.

Isso não tem a ver diretamente com o Movimento Passe Livre, mas tem. O Passe Livre já há algum tempo se articula e debate a questão do transporte público no Brasil. Seus líderes, basta assistir às entrevistas que têm concedido, sabem do que falam e têm bem clara sua pauta. Nos últimos anos esse movimento já vinha crescendo, tanto que nas últimas manifestações contra o governo Kassab, houve forte repressão e, inclusive, vereadores petistas que atuavam com o momento foram agredidos.

A primeira ação do MPL no governo Haddad também foi grande, mas dessa vez havia uma insatisfação generalizada e difusa contra uma outra série de coisas. Há gente contra a realização da Copa no Brasil, movimentos sociais indignados com o governo Dilma pela ausência de interlocução, grupos de direita doidos para acabar com o PT, gente da periferia de São Paulo que não suporta mais a ação policial repressiva, outros contra a PEC 37 etc. Quando o MPL resolveu continuar na rua, as redes sociais que estão na internet, em especial no Facebook, começaram a aderir a essa luta. E buscaram reconstruir sua narrativa. E isso, neste exato momento, está em disputa.

O MPL diz que a pauta é a tarifa. E faz muito bem em fazer isso. Mas também é fato que nas conversas de rede esse, neste momento, não é o ponto de pauta mais prevalente. Muita gente tem dito que a luta é por direitos e não por vinte centavos. E outros já querem o impeachment de Dilma.

Não foi diferente no Egito, na Tunísia, na Espanha e nem no Ocuppy Wall Strett. De novo, não existe movimento, mas movimentos. E neste novo contexto as pautas estarão sempre em disputa quando o povo for às ruas. Às organizações intermediárias, enquanto a democracia representativa resistir, restará a possibilidade de tentar dialogar com a parte das ruas que tiver apreço pela democracia. E lutar para que o processo democrático não seja dinamitado. E nem em relação a isso há garantias quando existe disputa. Movimentos podem começar de um jeito e terminar de outro.
A disputa é política – Há risco de que esse movimento iniciado pelo Passe Livre seja capturado pela direita? Claro que sim. Não os líderes do Passe Livre, que parecem bem mais preparados do que a média dos políticos tradicionais. Mas as ruas podem fugir do controle.

Há risco que vem venha a ocorrer um processo de Ciberturbas, como caracteriza David Ugarte? Algo como ocorreu em Paris na revolta das periferias? Claro que sim. E em alguns cantos isso já começa a dar sinais concretos.

Mas há também a possibilidade enorme de se avançar e de o Brasil dar um passo mais largo no sentido de ampliar seus canais democráticos. Mas para isso será necessário passar a entender a política de forma dialógica e não analógica. E passar a fazer a política com seus instrumentos e não na base da planilha. A tecnocracia substituiu o deus mercado no Brasil. Antes tudo se resolvia na lógica do mercado. Hoje na base das planilhas. Os movimentos sociais estão enfraquecidos e muitos deles por compromissos com o atual governo têm abdicado das lutas. Enquanto isso novos movimentos têm surgido a partir de outras dinâmicas e criado novos paradigmas de participação. Os caminhões de som se tornaram coisas do passado. E a parte mais raivosa da direita já percebeu isso.

Segue, na sequência, um estudo  produzido pela Interangentes, dirigida pelos sociólogos Sérgio Amadeu e Tiago Pimentel. A partir dele é possível verificar como as conversas de rede foram mudando de lugar nos últimos dias. Nos primeiros dias havia uma grande dispersão, mas o MPL era um dos nós principais das conversas. Depois o Anonymous ganhou protagonismo. E nos últimos monitoramentos alguns grupos de direita ampliaram muito sua participação. Se não houver disputa nas ruas e nas redes, esses grupos podem capturar boa parte dessa luta.

Na Era Informacional a fragmentação não está em disputa, ela é um dado de realidade. O que está em disputa é a política, que não está sendo praticada na sua essência nem pelos governos que se dizem com viés de esquerda e nem pelos movimentos tradicionais de esquerda. A política como um espaço de construção de um mundo melhor e de diálogo. A política como espaço de transformação da realidade.

E quando falta política, a violência prevalece. E os riscos passam a ser grandes.

Estudo da Interagentes

Para proceder a análise das redes durante os principais momentos das manifestações contra a redução da tarifa dos transportes públicos, a Interagentes coletou dados do Facebook e plotou em grafos. Para isso, aplicou filtros que permitem, a partir da relação de cada ator com os demais, calcular os “nós” mais centrais no debate.

Os grafos abaixo representam dados das redes entre as 16h e 0h de três diferentes dias. Os dias  são a quinta-feira (13), marcada pelos confrontos entre manifestantes e policiais, a segunda-feira (17), dia da grande manifestação dos 100 mil, e a terça-feira (18), em que diversas outras manifestações tiveram lugar, inclusive a que culminou em depredação da Prefeitura de Sâo Paulo.

A análise dos grafos sugere que ao longo desses dias houve um expressivo aumento da quantidade de emissores envolvidos, bem como do número total de pessoas.

Em uma análise prévia do dia 13 a Interagentes detectou um padrão de liderança distribuída, que pode ser verificado nesta análise que apontou grande aprovação ao movimento. Ainda que não fosse o maior nó de rede, a página Passe Livre São Paulo ocupava um papel de destaque naquele momento. No decorrer das manifestações seguintes a página Passe Livre São Paulo vai perdendo cada vez mais a sua centralidade no debate até quase dissolver-se no curso do(s) movimento(s).

A tendência parece indicar que o MPL configura-se hoje como propositor orignal, mas já sem o caráter de principal articulador. Ao mesmo tempo em que aumenta a quantidade de pessoas envolvidas outros grupos tendem a se apropriar das conversas sobre as manifestações. E a influenciar na sua agenda. É o caso de diversas páginas que levantam a pauta da ‘corrupção’ e o anti-petismo, entre outras coisas.

Alguns grupos ligados aos Anonymous, no entanto, parecem conservar sua relevância no debate público das redes.

Grafo dia 13

Grafo dia 13 – Principais “nós” de rede:
1. AnonymousBR
2. Anonymous Rio
3. Passe Livre São Paulo
4. Quero o Fim da Corrupção
5. AnonymousBrasil

 

Grafo dia 17

Grafo dia 17 – Principais “nós” de rede:
1. AnonymousBrasil
2. AnonymousBR
3. A Verdade Nua & Crua
4. Movimento Contra Corrupção
5. Quero o Fim da Corrupção

Grafo dia 18

Grafo dia 18 – Principais “nós” de rede:
1. AnonymousBR
2. AnonymousBrasil
3. Movimento Contra a Corrupção
4. Anonymous Brasil
5. Anonymous Rio

 

O rapaz da foto acima é forte e bem fornido de músculos. Sinceramente, parece um pouco fora do padrão dos que costumam ir às ruas lutar por seus direitos. Sinceramente não parece ninguém do Movimento Passe Livre. E ontem vi alguns outros rapazes parecidos com o da foto na marcha que saiu do Largo da Batata.

Eles estavam sempre com alguma roupa branca e portavam bandeiras do Brasil. Alguns tinham a bandeira amarrada na cintura e outros na cabeça, como uma bandana. Em geral, cabelos curtos. E todos eram fortes. Típicos fortes de academia.

Claro que entendi o que aquilo significava. Conversei com alguns amigos a respeito. Podem atestar a minha preocupação ao menos três: Lino Bocchini, Bruno Torturra e Gilberto Maringoni.

Não sei se o garoto da foto é um deles. Mas seus atos precisam ser investigados.

A direita no Brasil sempre entrou em movimentos para ou tentar desmoralizá-los ou para mudar sua direção. A polícia sempre se utilizou de métodos heterodoxos nesses tipos de situação. Os professores estaduais de São Paulo que o digam. A presidenta da Apeoesp, Bebel, tem muito a dizer sobre o assunto.

Os ativistas que estavam nas ruas estão atentos. E não tenho dúvida de que o Movimento Passe Livre está preocupado com isso.

Mas é hora de ir atrás da identidade desse rapaz. Quem é ele? Por que tanta volúpia no ataque ao prédio da Prefeitura?

Outra coisa, por que a PM que tem uma base ao lado do prédio do governo municipal não apareceu na hora dessa ação violenta?

Uma coisa é a PM não usar a violência contra manifestantes pacíficos. Outra é facilitar a ação de provocadores e bandidos.

 

Eram 18h, uma hora depois do horário combinado para a concentração, uma multidão lotava as ruas de Pinheiros. E a marcha começou. Há muito tempo São Paulo não tinha uma manifestação política como a realizada hoje. Ao menos desde o impeachment de Collor. Há tanto tempo não aconteciam tantas marchas simultâneas Brasil afora.

Em eventos assim é difícil fazer cálculos, mas em São Paulo, não é exagero dizer que umas 100 mil pessoas marcharam de maneira vibrante pelas ruas. E a partir de um local que nunca foi ponto de marchas, o Largo da Batata.

Aliás, marchas diz muito mais do que marcha no caso do que se viu na noite de hoje. Eram movimentos que se uniram contra o aumento das tarifas do transporte público. Mas que tinham várias demandas e hashtags. Algo mais parecido em alguns aspectos com as marchas de aberturas do Fórum Social Mundial.

Causas diferentes a cada trecho. Blocos com diferentes mensagens. Mas também não eram uma marcha típica do Fórum. Havia uma luta central e comum, que tem a ver com a dinâmica dos tempos de urbanidade e da necessidade de mobilidade. Uma luta dialógica, pós-industrial. Que não se organiza na dinâmica dos processos fordistas, em linhas de produção. E com direção única. Em São Paulo, por exemplo, de repente as marchas se dividiram e foram para cantos diferentes.

Foram para pontos diferentes, mas desbarataram todos os partidos políticos. E fizeram com que Alckmin se tornasse irmão de fé do ministro Zé Eduardo Cardoso. Um chamou o movimento de baderneiros organizados. E o outro ofereceu a PF para botar o movimento no eixo.

Pode-se dizer que esse tipo de política tradicional perdeu de goleada na noite de hoje. E a democracia representativa se enfraqueceu. Isso não quer dizer que o que virá será melhor. Mas quer dizer que é preciso ajeitar o rumo.

Os partidos que se reivindicam de esquerda no Brasil estavam atuando na zona de conforto. Vivendo dos louros de uma política social de fato bem sucedida e importante para o país, mas que não poderia ser um fim em si mesma.

Hoje o grito das ruas foi um alerta. Não significa um Fora Dilma ou algo parecido. Na marcha de São Paulo esse tipo de protesto foi residual. Havia muito mais gente xingando Alckmin do que Dilma ou Haddad. Tanto que parte do movimento se dirigiu para o Palácio dos Bandeirantes.

As ruas podem errar, mas elas em geral mandam sempre bons recados. Ainda há tempo para fazer diferente. Não é uma primavera brasileira. Mas pode ser. Não é Fora Dilma, mas pode ser. Não é contra o Haddad, mas pode ser. E está quase sendo contra o Alckmin, pelo que vi hoje.

Talvez a melhor definição seja a que ouvi de um amigo há pouco. Não é de direita e nem de esquerda. Mas pode vir a ser de direita e de esquerda.

O que aconteceu hoje não se responde com análises apressadas. É preciso buscar sair do convencional. E até por isso tanta gente que se diz de esquerda está com medo das ruas. Infelizmente.

Por Felipe Rousselet

Pressionada por uma multidão que gritava palavras de ordem contra a TV Globo, Patrícia Poeta teve que defender, em pleno Jornal Nacional, a cobertura jornalística da emissora durante os protestos contra os aumentos das tarifas do transporte público em São Paulo. Patrícia afirmou que a emissora produziu reportagens desde o início dos protestos, que sempre destacou que era um movimento pacífico, condenou a violência policial e, quando necessário, noticiou atos de vandalismo e depredação.

Quem precisa defender-se em rede nacional, no seu jornalístico mais importante, sabe que a coisa é séria. De nada vale a defesa de Patrícia aos ouvidos dos manifestantes. Talvez tenha alguma importância para aqueles que ainda não entenderam a dimensão destes protestos que tomaram as ruas brasileiras.

Afinal, se o jornalismo global fosse tão correto como afirma Patrícia, os manifestantes, que agora não são mais retratados pela “grande imprensa” como vândalos, aplaudiriam a emissora da família Marinho e não o contrário.

Hoje pela manhã o prefeito Fernando Haddad esteve com uma das lideranças do Movimento Passe Livre, Nina Cappelo, estudante de Direito da USP. O objetivo da reunião foi antecipar o encontro de amanhã, com o Conselho da Cidade, cujo principal tema será o do aumento da tarifa.

Na reunião, realizada às 8h30, foram discutidas algumas possíveis soluções para financiar o transporte público com o objetivo de impedir que seja bancado quase que exclusivamente pela população. O prefeito Fernando Haddad teria ponderado que há pautas comuns que podem unir o movimento e o seu governo, como a de que os grandes municípios deveriam receber uma parcela do recurso arrecadado pela Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) para auxiliar o subsídio ao transporte público municipal.

A reunião entre o prefeito e a representante do MPL aconteceu antes da coletiva de imprensa que o movimento concedeu a aproximadamente 50 jornalistas no auditório do Sindicato dos Jornalistas. Confrontados com a informação, Erica de Oliveira, Caio Martins, Rafael Siqueira e Monique Félix, que concederam a coletiva pelo MPL, preferiram não confirmar o encontro com o prefeito.

O blogue, porém, checou a informação recebida com diferentes fontes e antes de publicar tentou via a assessoria do MPL o contato da representante que esteve na reunião.

Na coletiva, entre outras coisas, os representantes do MPL afirmaram que vão participar da reunião do Conselho da Cidade amanhã e que, na ocasião, convidarão o prefeito para participar de uma reunião de negociação, na quarta-feira, às 10h, no Sindicato dos Jornalistas. O MPL entende que o Conselho da Cidade não é o local apropriado para uma negociação.

O blogue também apurou que para pressionar o governo do Estado e a Prefeitura a intensificarem as negociações, o MPL está considerando convocar novo ato para a terça-feira.

Na coletiva de hoje as lideranças foram muito cobradas pelos jornalistas dos veículos tradicionais a respeito do fato das manifestações estarem parando a cidade. A resposta de Caio Martins, estudante de história, deveria levar aos que têm a mesma preocupação de muitos jornalistas à reflexão. “É até irônico ouvir este tipo de pergunta. Se uma manifestação em uma via para a cidade inteira alguma coisa está errada, né? A cidade está parada. E o nosso movimento também é para mudar isso. Para que os governos passem a olhar mais o transporte público e menos o individual”.

  • Manifestantes cercados e atacados pela Força Policial: democracia, só que não

    São quase duas da manhã e estamos aqui, um grupo de nove jovens amigos/as, reunidos/as, agitados/as e não conseguimos dormir antes de denunciar o que vivemos hoje pelas ruas do centro de São Paulo.Era por volta das 18h quando descemos a Rua Augusta em direção ao Teatro Municipal para a concentração do Quarto Ato contra o aumento das tarifas.As notícias que circularam durante o dia prenunciavam que o a manifestação seria tensa. Mas, apesar do medo, estávamos leves e confiantes na democracia. Fomos nos incorporando a vários outros companheiros que seguiam para o ato. O que portavam? Flores, vinagre e câmeras fotográficas.Ao chegar no Teatro, o clima já estava tenso. A forte presença policial contrastava com o desejo de paz da maioria dos manifestantes, evidenciados em falas, gritos pela não violência e em atitudes absolutamente pacíficas.Seguimos com a multidão, reivindicando a revogação do aumento das tarifas e, mais do que isso, o direito ao transporte público, à cidade e, óbvio, a nos manifestarmos.

    Nossa intenção era parar a Paulista, chamar a atenção dos governantes e exigir o diálogo, mas quem parou a Paulista foi a polícia. Poucos metros de caminhada e o choque cercou os manifestantes e realizou a primeira dispersão. A partir daí éramos vários atos pela região central da cidade. Seguimos com um grupo que subiu a Augusta para tentar chegar a Paulista. Também fomos cercados, recuamos pela Bela Cintra e também ficamos sem saída. Fomos encurralados até chegar na Consolação. Vimos um cenário de guerra, vários dos grupos que haviam se dispersado voltaram a se encontrar, mas estávamos cercados pelo choque e pela cavalaria de todos os lados. Todos. Não havia para onde escapar e se proteger. Muitas bombas e balas de borracha atingiam os manifestantes. O desespero começou a tomar conta. Faltava o ar, os olhos ardiam, medo de perder os companheiros e, principalmente, o sentimento de indignação, humilhação e revolta. A solidariedade prevaleceu, quem tinha vinagre, oferecia, indicavam caminhos livres, davam as mãos.

    Conseguimos correr por uma das ruas. Recuamos. Tinha duas adolescentes conosco, estávamos preocupados, cansados. Precisávamos encontrar um local seguro. Seguimos pelas ruas paralelas à Consolação na região de Higienópolis. Estava deserta, nos sentimos a salvo. Encontramos mais um pequeno grupo de amigos numa padaria. Um alivio. Tomávamos uma água.

    De repente, onde não havia mais aglomeração de manifestantes, mais fumaça, mais barulho, mais bomba. Começamos a correr. Nos separamos dos outros. Nesse momento, éramos apenas nove amigos. Resolvemos caminhar calmamente, não haveria motivo para sermos atacados. Não fazíamos nada de mais. Estávamos enganados. Uma viatura parou diante de nós. Policiais apontaram a arma e ordenaram: “corram que vamos atirar”. Corremos e eles cumpriram a promessa. Atingiram uma amiga. Nos desesperamos. As ruas estavam desertas, não havia onde entrar. estávamos sozinhos. Humilhados e indignados pela arbitrariedade, pela violência, pela covardia, gritamos por socorro.

    Duas moças passavam de carro, se escandalizaram com a covardia que presenciaram. Pararam o carro e disseram para entrarmos. Nove pessoas num Palio. A solidariedade e o senso de justiça nos salvou. Elas moravam por ali e nos levaram para o apartamento, para ficarmos em segurança até que pudéssemos sair.

    Mais amizade, mais solidariedade. Fizemos um pedido de ajuda pelas redes sociais. Precisávamos de dois carros para nos tirar dali em segurança. Poucos minutos e dezenas de ajuda foram oferecidas. Fizemos e recebemos diversos telefonemas para saber dos outros amigos/as espalhados/as, feridos/as, presos/as. Havia uma rede de pessoas trocando informação, solidariedade, força. Fomos acolhidos num local seguro, onde passaremos a noite.

    Como nos sentimos agora? Humilhados e indignados, sim. Mas não derrotados. O que vimos hoje nos fez ver o tamanho do desafio que temos para consolidar a democracia e também nos fez sentir que somos fortes, somos muitos e somos bons. Partilhamos de momentos emocionantes de luta, coragem, lucidez. Fomos acolhidos e recebemos imensa solidariedade que alimentaram ainda mais o nosso sentimento de força. Essa rede pode crescer, temos certeza. Não vamos recuar. Enquanto a passagem não baixar, São Paulo vai parar.

     

    Ingrid Evangelista,  Juliana Giron, Paolla Menchetti, Rafael Lira, Vanessa Araújo Correia, Vânia Araújo Correia, Victória Satiro e Vitor Hugo Ramos

(Foto:Pedro Chavedar)

Os momentos históricos são diferentes, mas o que está acontecendo em São Paulo precisa ser discutido do tamanho que merece. Manifestantes não podem ser presos sob acusação de formação de quadrilha, crime inafiançável. Se isso vier a prevalecer, estaremos entrando num cenário de ditadura contra a luta social. Será um novo AI-5, o instrumento que faltava para a tão sonhada criminalização dos movimentos sociais que vem sendo arquitetada há tanto tempo pelas forças conservadoras do país. E que ganhou hoje o apoio, em editorial, da Folha e do Estado de S. Paulo.

Na última terça-feira foram 20 presos. Hoje, fala-se em mais de 60. Muitos deles jovens que carregavam apenas vinagre para se defender do já previsto ataque de bombas da Polícia Militar. Entre esses que carregavam vinagre, um fotógrafo da Carta Capital.

O jornalista da Carta Capital já foi solto, mas a grande maioria dos jovens ainda está amargando o gosto da cela. Quem não está sendo acusado de formação de quadrilha, pode obter a liberdade pagando 20 mil reais.

Ou seja, a partir de agora quem for para a rua lutar é bandido de alta periculosidade. E o pior disso tudo é que tem gente que se diz de esquerda que está aplaudindo essa ação nefasta.

Cansei de ver os metalúrgicos do ABC parando a Anchieta para reivindicar aumentos. Cansei de ver os bancários de São Paulo fechando as ruas do centro de São Paulo em suas campanhas salariais. Participei de greves gerais convocadas pela CUT e que interrompiam avenidas de todo o país. E muitas vezes vi gente com pedaço de pau e o que tivesse na frente indo para cima de policiais e da cavalaria. E também vi muitos sindicalistas com o rosto jorrando sangue.

A polícia brasileira sempre foi violenta com os movimentos sociais. E é essa violência que estamos assistindo contra os manifestantes no centro de São Paulo que está engordando o caldo das manifestações do Passe Livre. Essa violência que o jovem da periferia vive no seu cotidiano é também a gasolina dos protestos. Não é só os vinte centavos.

Muito mais gente vai para a rua da próxima vez. E Alckmin está dando risada. Porque isso vai fazer bem para a sua popularidade. Afinal, em São Paulo há um eleitorado que quer o xerife na rua. Quer ver sangue. E quer ver quem luta, quem protesta, quem para avenidas, na cadeia. Que sonha em ver a extinção “dessa raça”.

A questão é que se os movimentos sociais que não estão diretamente envolvidos nos protestos atuais aceitarem essa criminalização absurda do Movimento Passe Livre, estarão assinando o seu atestado de óbito. Quando quiserem lutar serão tratados da mesma forma.

A não ser que já tenham abdicado da luta como um instrumento de construção de uma sociedade mais justa. E aí também já terão assinado seu atestado de óbito. Movimento que não luta numa sociedade tão desigual como a nossa não é movimento.

Para o movimento social agora não é hora de se discutir os exageros. É hora de defender os direitos. O que está em curso é muito mais perigoso do que pode parecer à primeira vista. A continuar assim, em breve, líderes sociais estarão sendo presos acusados de terrorismo.

O professor da USP, Pablo Ortelado, está na manifestação do Passe Livre. Ele é uma das pessoas mais bem informadas que conheço sobre o movimento. Acabei de falar com ele, que está nas proximidades do Teatro Municipal. Em resposta à pergunta sobre como estava a manifestação, Ortellado respondeu: “uma multidão vibrante ocupou aqui. Tá muito bonito”.

Segundo ele, estão chegando notícias de que na Praça do Patriarca a PM está fazendo revistas e prendendo gente até com vinagre. Essa notícia já foi confirmada por vários veículos de informação.

Uma das coisas que também chamou a atenção de Ortelado é de que mudou o perfil dos manifestantes. “Não são mais só jovens. Tem gente de todos os lados e de todas as idades”.

A repórter da Fórum, Adriana Delorenzo, que também está na manifestação, disse que há bandeiras de vários partidos e movimentos. E que impressiona a quantidade de pessoas presentes.

(Foto: Pedro Chavedar)

Em meio aos protestos contra o aumento das tarifas do transporte público em São Paulo, e a cobertura focada em depredações e confrontos realizada por parte da grande mídia, um jovem jornalista teve uma excelente ideia para contribuir com a pluralidade de vozes na cobertura deste e de outros eventos.

Leonardo Sacco, 23 anos, recém-formado jornalista pela Faculdade Cásper Líbero, criou o tumblr Manifeste-se. O site reúne diversos relatos de pessoas que estavam presentes nas manifestações do Movimento Passe Livre. Os relatos não passam por qualquer edição. A iniciativa abre espaço para que os verdadeiros protagonistas dos fatos publiquem suas versões dos acontecimentos. Relatos que na maioria das vezes são ignorados pela “grande imprensa”.

O repórter Felipe Rousselet entrevistou o jornalista Leonardo Sacco. Confira abaixo:

Como surgiu a ideia de criar o Manifeste-se? 

Vi um pessoal discutindo bastante, um monte de informação desencontrada no evento no Facebook da manifestação em SP. Pensei um pouco e cheguei à conclusão de que se a informação for mais organizada, ela atinge mais gente. Daí surgiu o tumblr, pra reunir essas informações. Por isso não tem edição e nem nada. Porque é um espaço pro pessoal falar o que vê nas ruas e que dificilmente eles teriam voz para chegar em um grande veículo. A internet, funcionando como agente de veiculação de informação, é uma arma poderosa demais.

Como você avalia a cobertura que a mídia está fazendo sobre os protestos do Movimento Passe Livre?

Avalio que ela faz o que sempre fez: espera o caldo engrossar e simplesmente coloca só aquilo que convém. Em SP, por exemplo, houve mais de uma hora de caminhada completamente pacífica e o que se viu nos relatos era apenas o clima de guerra civil. Nunca que dá para falar que ela está boa ou imparcial… Acho que o que está acontecendo nas ruas deve ser relatado por inteiro, desde o pacífico ao violento, na maioria das vezes sem opinião, apenas relato. E não é isso que estamos vendo.

Fiquei sabendo que Manifeste-se fará uma cobertura colaborativa do protesto de hoje. Como será esta cobertura?

A ideia é essa mesmo. Queremos todo tipo de relato, mas estamos, através de conhecidos, organizando uma rede que faça uma cobertura diferenciada, não apenas com relatos do tipo “eu vi acontecer”. Uma cobertura mais jornalística mesmo, para mostrar a todos que a mídia tem sim como fazer algo imparcial e informativo ao mesmo tempo nesse tipo de manifestação.

Qual a sua avaliação sobre os protestos contra o aumento das tarifas do transporte público?

Por conta de trabalho, não pude ir a nenhuma ainda, mas apoio sim.  Acredito que o povo precisa ir mais para a rua, que ele precisa se manifestar e acabar com essa alienação de que “está tudo bem”. Não, não está. Pagar 3,20 por um sistema de transporte caótico é um absurdo. Quanto ao ponto da violência, sou contra, não apoio depredação, mas também acredito que há um lado no qual a pessoa que está lá é agredida e reage. Não temos que focar na destruição, mas sim no quê se propõe a tentar o movimento.

Você planeja manter o Manifeste-se para além dos protestos do Movimento Passe Livre, dando espaço para outras manifestações e movimentos?

Apesar de ter sido criado agora, o tumblr não é anexo ao MPL, ele serve para qualquer tipo de denuncia, de relato… Do Brasil inteiro, sobre qualquer coisa que a mídia geral não dê cobertura adequada. O tumblr não tem nenhum tipo de opinião, simplesmente republicamos TUDO que nos é repassado na íntegra. Sem edição, inclusive. Para servir como um palanque do povo na internet.

Por fim, como devem proceder aquelas pessoas que quiserem colaborar com o Manifesta-se?

Enviar email para tumblrmanifestacao@gmail.com ou pela nossa página no Facebook,  https://www.facebook.com/oquenaosainatv.


PS: A Revista Fórum também vai realizar uma cobertura colaborativa em tempo real dos protestos de hoje. Se você estiver no ato e quiser participar, basta postar sua colaboração citando a Revista Fórum no Faceboook ou no Twitter (@revistaforum). 

No último domingo estive no Novo Hotel Jaraguá, no Centro de São Paulo, e fiz uma entrevista de aproximadamente uma hora com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Na ocasião, ele tratou de diversas questões relativas à área. A entrevista completa será publicada na edição de julho da Fórum. Como há uma parte quente, segue como aperitivo o trecho onde Padilha explica os motivos que o levaram a impedir a campanha “sou feliz sendo prostituta”.

 

Ministro, nos últimos dias o senhor enfrentou a polêmica da campanha de prevenção da AIDS para prostitutas. Houve a demissão do coordenador do programa de DST-Aids e já se sabe que há funcionários do ministério que pediram demissão em solidariedade a ele. Essa sua ação também foi mal recebida por vários movimentos, como o senhor explica isso?

Padilha: Em primeiro lugar assim, eu tenho muita responsabilidade para enfrentar essas polêmicas. Enquanto for ministro da Saúde do país a assinatura do Ministério da Saúde não vai entrar em um cartaz que diz, “Sou feliz sendo prostituta”. Porque não cabe ao Ministério da Saúde priorizar nas suas campanhas de saúde algo que é uma percepção individual. A frase não é nem dialogando com o fato de se existe prostituta feliz ou se existe prostituta triste. A frase é inversa, inclusive, fala que o motivo da felicidade é ser prostituta. Acho que há varias prostitutas que são felizes e várias outras prostitutas que são tristes. Como qualquer outra pessoa, prostituta fica triste e fica feliz. O que não cabe ao Ministério da Saúde é colocar no centro de uma campanha sua um tema que é de percepção individual e deixar de lado aquilo que é fundamental para esse público das prostitutas, que é a proteção.

Como ministro da Saúde sou cobrado, não só pelo setor social, sou cobrado pelo Tribunal de Contas da União também. Eles querem saber qual que é a mensagem de saúde que estou colocando em uma campanha que é publicitária. Sou cobrado por órgãos de controle. E, além disso, o Mistério da Saúde tem um rito de definição das suas publicidades para todas as áreas…

Essa publicidade foi aprovada pela Secom?

Padilha: Não e nem pelo ministério foi. Vou explicar como isso se deu. Eu segunda à noite em São Paulo, saindo da gravação de um programa que terminou entre oito e nove horas, quando recebi uma ligação do chefe da assessoria de comunicação do Ministério falando que um repórter do Estadão o procurou dizendo que botaram um cartaz, uma peça nas redes sociais, no site do programa de DST-AIDS que era polêmica. Veja, não era no site do Ministério da Saúde e as peças não tinham passado pela assessoria de comunicação do Ministério. Nem o coordenador da comunicação e nem eu estávamos ciente do que estava acontecendo. E então ele me falou que a principal peça tinha a frase “sou feliz sendo prostituta”. De imediato eu disse para que ele tirasse a peça do ar porque se ela não tinha sido discutida isso por si só já era um motivo para retirá-la do site. E pedi que ele agendasse uma reunião com o comitê de publicidade para a gente analisar a campanha, refazer as peças, ou seja, fazer aquilo que for necessário. Isso foi segunda-feira à noite. Naquela mesma noite falei com o diretor do departamento. E, num primeiro momento, ele disse que a responsabilidade era do departamento. Que eles haviam colocado as peças nas redes sociais.

No outro dia de manhã cedo, umas nove, dez da manhã, fui dar uma coletiva sobre a campanha da paralisia infantil, no lançamento da campanha da paralisia infantil. E na coletiva eu avisei que o material estava suspenso e que não tinha passado pela equipe de publicidade do ministério. E o Ministério não iria assinar uma campanha que fala: “Sou feliz sendo prostituta”. E aqui não tem nenhum conteúdo moral. Tem o fato de que não cabe ao Ministério da Saúde entrar na ala do que é percepção individual.  E as prostitutas que não são felizes sendo prostitutas? Eu não vou dialogar com elas? Qual a mensagem que eu estou passando de proteção do corpo, de cuidado ao corpo. O recurso de publicidade do Ministério da Saúde é de utilidade pública. Toda mensagem do Ministério da Saúde tem que ter um comando ao cidadão ou de defesa do seu direito ou de onde ele busca aquele serviço. Não tem nenhuma peça no Ministério da Saúde que não saia sem uma mensagem como essa. Se não eu sou cobrado pelo Tribunal de Contas da União pelo recurso que é utilizado. Naquela peça, por exemplo, Não tinha nenhuma mensagem sobre o uso da camisinha… Por exemplo, esse é um dos públicos fundamentais para gente difundir o uso da camisinha feminina . A gente podia ter a imagem daquelas prostitutas femininas segurando a camisinha feminina, mas não tinha uma mensagem sobre isso. Depois disso, chamamos a direção do departamento e definiu-se pela exoneração. O motivo da exoneração foi fundamentalmente porque a direção do departamento assumiu a responsabilidade de colocar uma matéria com a assinatura do ministério sem que ela passasse pela publicidade. E, além disso, não concordava em retirá-la e não concordava em manter o fluxo, que é de todas as áreas do Ministério da Saúde, de que qualquer material de publicidade e de campanha passe pelo assessor de comunicação. Esse foi o motivo da demissão.

O que precisa ficar claro é que nós vamos continuar a política de trazer os públicos vulneráveis como protagonistas das nossas campanhas. Há tempos estamos fazendo isso. Fizemos materiais para prostitutas, travestis, usuários de drogas. Fizemos e vamos continuar fazendo.  Vamos manter a estratégia de construir esses materiais ouvindo esses públicos. Mas tem um debate que nós precisamos fazer que é o seguinte, nós precisamos atingir o gay, a prostituta e o travesti, mas não só aquele que está organizado dentro do movimento. Porque esse público já têm espaço. Já tem espaço de construção da sua consciência, de cuidado ao corpo, da proteção. Tem rede de solidariedade para se proteger. Eu quero falar com a prostituta que não é organizada, que não está no movimento… Essa foi uma discussão técnica que nós fizemos sobre o eixo que o material da campanha tinha. O eixo do material era: “Menina sem vergonha, não tenha vergonha de usar camisinha”. A relação que a prostituta tem com quem a contrata, não é uma relação que ela não usa camisinha por ter vergonha, as vezes é uma relação de violência. Às vezes ela não usa camisinha porque aquela relação é desigual, da contratação e de violência. E é por isso que o eixo da campanha tem que ser prostituta protegida usa camisinha. Eu quero falar com a prostituta que não é organizada, que não está no movimento.

Existe sempre uma atenção na construção de qualquer material de publicidade. São ouvidas pessoas do movimento, especialistas da área, profissionais de saúde, gestores, técnicos… Isso acontece para qualquer tema do Ministério, até campanha de vacinação. O Zé gotinha tem que aparecer assim, tem que aparecer assado… Quando eu fiz questão de botar a marca do SUS no Zé Gotinha foi um debate enorme dentro do ministério. Todas as campanhas são construídas com muito debate. Pra finalizar, quero deixar claro que essa mudança na direção do departamento não mudará a política de buscar sempre um dialogo com os movimentos sociais e com os representantes da população vulnerável.