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Segue um artigo simplemesmente sensacional de Maria Rita Kehl publicado na Folha de hoje. Alguém precisava dizer isso.

MARIA RITA KEHL
ESPECIAL PARA A FOLHA

“Quem não reagiu está vivo”, disse o governador de São Paulo ao defender a ação da Rota na chacina que matou nove supostos bandidos numa chácara em Várzea Paulista, na última quarta-feira, dia 12. Em seguida, tentando aparentar firmeza de estadista, garantiu que a ocorrência será rigorosamente apurada.

Eu me pergunto se é possível confiar na lisura do inquérito, quando o próprio governador já se apressou em legitimar o morticínio praticado pela PM que responde ao comando dele.

“Resistência seguida de morte”: assim agentes das Polícias Militares, integrantes do Exército e diversos matadores free-lancer justificavam as execuções de supostos inimigos públicos que militavam pela volta da democracia durante a ditadura civil militar, a qual oprimiu a sociedade e tornou o país mais violento, menos civilizado e muito mais injusto entre 1964 e 1985.

Suprimida a liberdade de imprensa, criminalizadas quaisquer manifestações públicas de protesto, o Estado militarizado teve carta branca para prender sem justificativa, torturar e matar cerca de 400 estudantes, trabalhadores e militantes políticos (dos quais 141 permanecem até hoje desaparecidos e outros 44 nunca tiveram seus corpos devolvidos às famílias –tema atual de investigação pela Comissão Nacional da Verdade).

Esse número, por si só alarmante, não inclui os massacres de milhares de camponeses e índios, em regiões isoladas e cuja conta ainda não conseguimos fechar. Mais cínicas do que as cenas armadas para aparentar trocas de tiros entre policiais e militantes cujos corpos eram entregues às famílias totalmente desfigurados, foram os laudos que atestavam os inúmeros falsos “suicídios”.

HERZOG

A impunidade dos matadores era tão garantida que eles não se preocupavam em justificar as marcas de tiros pelas costas, as pancadas na cabeça e os hematomas em várias partes do corpo de prisioneiros “suicidados” sob sua guarda. Assim como não hesitaram em atestar o suicídio por enforcamento com “suspensão incompleta”, na expressão do legista Harry Shibata, em depoimento à Comissão da Verdade, do jornalista Vladimir Herzog numa cela do DOI-Codi, em São Paulo.

Quando o Estado, que deveria proteger a sociedade a partir de suas atribuições constitucionais, investe-se do direito de mentir para encobrir seus próprios crimes, ninguém mais está seguro. Engana-se a parcela das pessoas de bem que imaginam que a suposta “mão de ferro” do governador de São Paulo seja o melhor recurso para proteger a população trabalhadora.

Quando o Estado mente, a população já não sabe mais a quem recorrer. A falta de transparência das instituições democráticas –qualificação que deveria valer para todas as polícias, mesmo que no Brasil ainda permaneçam como polícias militares– compromete a segurança de todos os cidadãos.

Vejamos o caso da última chacina cometida pela PM paulista, cujos responsáveis o governador de São Paulo se apressou em defender. Não é preciso comentar a bestialidade da prática, já corriqueira no Brasil, de invariavelmente só atirar para matar –frequentemente com mais de um tiro.

Além disso, a justificativa apresentada pelo governador tem pelo menos uma óbvia exceção. Um dos mortos foi o suposto estuprador de uma menor de idade, que acabava de ser julgado pelo “tribunal do crime” do PCC na chácara de Várzea Paulista. Ora, não faz sentido imaginar que os bandidos tivessem se esquecido de desarmar o réu Maciel Santana da Silva, que foi assassinado junto com os outros supostos resistentes.

Aliás, o “tribunal do crime” acabara de inocentar o acusado: o senso de justiça da bandidagem nesse caso está acima do da PM e do próprio governo do Estado. Maciel Santana morreu desarmado. E apesar da ausência total de marcas de tiros nos carros da PM, assim como de mortos e feridos do outro lado, o governador não se vexa de utilizar a mesma retórica covarde dos matadores da ditadura –”resistência seguida de morte”, em versão atualizada: “Quem não reagiu está vivo”.

CAMORRA

Ora, do ponto de vista do cidadão desprotegido, qual a diferença entre a lógica do tráfico, do PCC e da política de Segurança Pública do governo do Estado de São Paulo? Sabemos que, depois da onda de assassinatos de policiais a mando do PCC, em maio de 2006, 1.684 jovens foram executados na rua pela polícia, entre chacinas não justificadas e casos de “resistência seguida de morte”, numa ação de vendeta que não faria vergonha à Camorra. Muitos corpos não foram até hoje entregues às famílias e jazem insepultos por aí, tal como aconteceu com jovens militantes de direitos humanos assassinados e desaparecidos no período militar.

Resistência seguida de morte, não: tortura seguida de ocultação do cadáver. O grupo das Mães de Maio, que há seis anos luta para saber o paradeiro de seus filhos, não tem com quem contar para se proteger das ameaças da própria polícia que deveria ajudá-las a investigar supostos abusos cometidos por uma suposta minoria de maus policiais. No total, a polícia matou 495 pessoas em 2006.

Desde janeiro deste ano, escreveu Rogério Gentile na Folha de 13/9, a PM da capital matou 170 pessoas, número 33% maior do que os assassinatos da mesma ordem em 2011. O crime organizado, por sua vez, executou 68 policiais. Quem está seguro nessa guerra onde as duas partes agem fora da lei?

ASSASSINATOS

A pesquisadora norte-americana Kathry Sikkink revelou que o Brasil foi o único país da América Latina em que o número de assassinatos cometidos pelas polícias militares aumentou, em vez de diminuir, depois do fim da ditadura civil-militar.

Mudou o perfil socioeconômico dos mortos, torturados e desaparecidos; diminuiu o poder das famílias em mobilizar autoridades para conseguir justiça. Mas a mortandade continua, e a sociedade brasileira descrê da democracia.

Hoje os supostos maus policiais talvez sejam minoria, e não seria difícil apurar suas responsabilidades se houvesse vontade política do governo. No caso do terrorismo de Estado praticado no período investigado pela Comissão da Verdade, mais importante do que revelar os já conhecidos nomes de agentes policiais que se entregaram à barbárie de torturar e assassinar prisioneiros indefesos, é fundamental que se consiga nomear toda a cadeia de mando acima deles.

Se a tortura aos oponentes da ditadura foi acobertada, quando não consentida ou ordenada por autoridades do governo, o que pensar das chacinas cometidas em plena democracia, quando governadores empenham sua autoridade para justificar assassinatos cometidos pela polícia sob seu comando?

Como confiar na seriedade da atual investigação, conduzida depois do veredicto do governador Alckmin, desde logo favorável à ação da polícia? Qual é a lisura que se pode esperar das investigações de graves violações de Direitos Humanos cometidas hoje por agentes do Estado, quando a eliminação sumária de supostos criminosos pelas PMs segue os mesmos procedimentos e goza da mesma impunidade das chacinas cometidas por quadrilhas de traficantes?

Não há grande diferença entre a crueldade praticada pelo tráfico contra seis meninos inocentes, no último domingo, no Rio, e a execução de nove homens na quarta, em São Paulo. O inquietante paralelismo entre as ações da polícia e dos bandidos põe a nu o desamparo de toda a população civil diante da violência que tanto pode vir dos bandidos quanto da polícia.

“Chame o ladrão”, cantava o samba que Chico Buarque compôs sob o pseudônimo de Julinho da Adelaide. Hoje “os homens” não invadem mais as casas de cantores, professores e advogados, mas continuam a arrastar moradores “suspeitos” das favelas e das periferias para fora dos barracos ou a executar garotos reunidos para fumar um baseado nas esquinas das periferias das grandes cidades.

PELA CULATRA

Do ponto de vista da segurança pública, este tiro sai pela culatra. “Combater a violência com mais violência é como tentar emagrecer comendo açúcar”, teria dito o grande psicanalista Hélio Pellegrino, morto em 1987.

E o que é mais grave: hoje, como antes, o Estado deixa de apurar tais crimes e, para evitar aborrecimentos, mente para a população. O que parece ser decidido em nome da segurança de todos produz o efeito contrário. O Estado, ao mentir, coloca-se acima do direito republicano à informação –portanto, contra os interesses da sociedade que pretende governar.

O Estado, ao mentir, perde legitimidade –quem acredita nas “rigorosas apurações” do governador de São Paulo? Quem já viu algum resultado confiável de uma delas? Pensem no abuso da violência policial durante a ação de despejo dos moradores do Pinheirinho… O Estado mente –e desampara os cidadãos, tornando a vida social mais insegura ao desmoralizar a lei. A quem recorrer, então?

A lei é simbólica e deve valer para todos, mas o papel das autoridades deveria ser o de sustentar, com sua transparência, a validade da lei. O Estado que pratica vendetas como uma Camorra destrói as condições de sua própria autoridade, que em consequência disso passará a depender de mais e mais violência para se sustentar.

No dia 21 de julho, como o leitor pode checar aqui fiz o que chamei de uma análise rápida das pesquisas Datafolha SP, Rio, BH, Poá e Recife. Publico aquele texto com atualização a partir dos resultados divulgados hoje. Vou utilizar este método até o fim da eleição, correndo o risco óbvio de errar na análise de previsões futuras, mas buscando ajudar àqueles que passam por aqui a entender alguns movimentos eleitorais. Leitura de pesquisa não é algo tão complexo como parece. Mas atualmente os “analistas” da mídia tradicional têm preferido usá-las para fazer discurso. Hoje, por exemplo, há gente destacando a “estagnação” de Haddad como o fato político deste Datafolha. Quando a notícia é primeira queda de Russomanno e a rejeição recorde de Serra. Enfim, sigamos.

O texto do dia 21/7 vai em letra normal e o atual em negrito. Abaixo dele, coloco o resultado de hoje do Datafolha.

São Paulo

São Paulo apresenta um resultado aparentemente surpreendente, mas que tem lógica. Com a desistência de Netinho, que tinha 6% no último DataFolha, a tendência era que os candidatos mais conhecidos na periferia da cidade, onde se concentravam seus votos, crescessem. Dois deles tinham mais chances, Serra e Russomano. Haddad, Chalita e Soninha são pouco conhecidos nos bairros populares.

O que surpreende é que mesmo com a desistência de Netinho, Serra tenha variado negativamente um ponto. Ele tinha 31% em 25 de junho e agora tem 30%.

A análise que se pode fazer desse movimento é que a cidade não quer Serra prefeito. E que o tucano pode ter chegado ao seu teto. Ou seja, mesmo com a desistência de adversários, não cresce.

Outra questão importante é que na mesma pesquisa 40% dos eleitores dizem que tenderiam a votar num candidato indicado por Lula. Ou seja, Haddad tem ao menos este potencial de votos, porque Lula vai trabalhar intensamente pela sua candidatura. Por outro lado, 72% dos eleitores não votariam num candidato apoiado por Kassab. Isso pode levar Haddad a passar o tucano ainda no primeiro turno. É uma previsão arriscada, mas é algo que não surpreenderia. Basta que João Santana consiga colar Lula em Haddad e Serra em Kassab que isso pode se configurar. A ameaça de Haddad é alta rejeição do apoio de Maluf, 77%. Espera-se que o 1,5 minuto que o petista vai ter na TV seja suficiente para aliviar essa carga negativa chamada Maluf.

A candidatura de Russomano não deve ser desprezada, mas é preciso verificar em que patamar estará depois de duas semanas de horário eleitoral. A tendência é que Haddad cresça no eleitorado dele, que é o eleitorado de Lula.

Outro ponto negativo para o tucano é seu índice de rejeição de Serra, 37%. Não chega a inviabilizá-lo para a disputa num segundo turno, mas é muito alto. Seu marqueteiro deve estar bastante preocupado.

Atualizando

A análise acima ainda está atual e os apontamentos realizados naquela ocasião sobre a possibilidade de Serra ser ultrapassado por Haddad ainda no primeiro turno se mostra quase natural no momento.

Na ocasião, disse que a candidatura Russomanno não poderia ser desprezada. E que depois de 15 dias de programa eleitoral era um bom momento para analisá-la. Hoje, ele é quase um nome certo no segundo turno. Há sinais de que parou de crescer e pode baixar um pouco mais. Se isso acontecer e Haddad crescer, Serra vai ter de atacá-lo mais fortemente. Neste caso, uma porcentagem dos que hoje afirmam votar em Russomanno na periferia podem migrar para Haddad. E na classe média alguns votos dele podem ir para Chalita.

Até por isso a situação de Serra é desesperadora. Ele vai ter muita dificuldade para atrair votos se vier a bater mais forte nos adversários. E ao mesmo tempo se não bater, não muda o quadro atual.

Seu índice de rejeição que era de 37% em 21 de julho, agora está em 46%. Nas zonas populares da cidade deve beirar os 60%.

Datafolha de hoje

Russomanno (PRB) – 32%
José Serra (PSDB) – 20%
Fernando Haddad (PT) – 17%
Gabriel Chalita (PMDB) – 8%
Soninha (PPS) – 5%
Paulinho da Força (PDT) – 1%
Carlos Giannazi (PSOL) – 1%
Em branco/nulo – 7%
Não sabe – 9%


Rio de Janeiro

Os 10% de Marcelo Freixo  (PSoL) contra os 54% de Eduardo Paes (PMDB) parecem uma enorme distância. E são. Mas levando em consideração que um tem o apoio de quase todos os partidos e é prefeito e o outro tem apenas um movimento de parte da sociedade civil a ampará-lo, é preciso ficar atento.

Freixo tem potencial de crescimento se utilizar seu pequeno tempo no horário eleitoral para enviar mensagens diretas e agudas, com soluções para problemas crônicos do Rio. E pode ganhar musculatura se nos debates conseguir encurralar o atual prefeito.

Em isso acontecendo, como o Rio que é uma cidade que permite ondas. Não surpreenderia que vivesse mais uma. E aí, Paes terá vida dura. Por ahora, é favoritíssimo.

Atualizando

Paes continua favoritíssimo e no mesmo patamar de julho, 54%. Dificilmente não vai levar no primeiro turno, mas Freixo já chegou aos 18%. O que é praticamente o dobro das intenções de voto que tinha ao final de julho.

O problema de Freixo é que o filho de César não emplacou com nem a filha de Garotinho como vice. E ele dificilmente vai ter sozinho uma votação suficiente para provocar um segundo turno.

Datafolha de hoje:

Eduardo Paes (PMDB) – 54%
Marcelo Freixo (PSOL) – 18%
Rodrigo Maia (DEM) – 4%
Otavio Leite (PSDB) – 3%
Aspásia (PV) – 2%
Cyro Garcia (PSTU) – 1%
Fernando Siqueira (PPL) – Não atingiu 1%
Antonio Carlos (PCO) – Não atingiu 1%
Branco/nulo – 9%
Não sabe – 8%

Belo Horizonte

O atual prefeito Marcio Lacerda (PSB), apoiado por Aécio, tem 44%. O ex-ministro Patrus (PT), 27%. Para quem tinha uma eleição tranqüila, Lacerda abriu a guarda e passa a ter a renovação de seu mandato em risco.

Quem conhece Patrus sabe que ele é o mineiro típico. Daqueles que come pelas bordas e espera o centro do prato esfriar. O lançamento de sua candidatura saiu meio que atabalhoadamente, mas empolgou boa parte da cidade e dos movimentos sociais que estavam decepcionados com o PT.

Desde a gestão de Fernando Pimentel que parte da esquerda está em crise com os rumos da administração da cidade.

Se Patrus souber canalizar este sentimento de insatisfação para a sua candidatura, sua campanha crescerá nas ruas. Some-se a isso o fato de que a presidente Dilma agora está tratando da campanha de BH como uma de suas prioridades, a eleição por lá promete.

Atualizando

O quadro mudou muito pouco desde julho. Patrus perdeu o tempo de TV do PSD e isso prejudicou sua campanha. O efeito Lula e Dilma em BH parece não ter sido suficiente para aproximá-lo de Lacerda, mas ainda há jogo na capital mineira. Qualquer erro pode ser fatal. Lacerda ainda é favorito para levar no primeiro turno. Até porque um segundo turno em BH é muito improvável. Só há dois candidatos com votos na cidade.

Datafolha de hoje
Marcio Lacerda (PSB) — 49%

Patrus Ananias (PT) — 31%.
Vanessa Portugal (PSTU) – 2%
Maria da Consolação (PSOL), Tadeu Martins (PPL) e Alfredo Flister (PHS)  - 1%
Branco ou nulo – 8%
Indecisos – 9%.


Porto Alegre

O favoritismo já imaginado por este blogueiro da candidatura do atual prefeito, José Fortunati (PDT) está se confirmando. Ele abriu 8% em relação à deputada Manuela (PCdoB). Já o candidato petista Adão Villaverde corre o risco de ter o pior desempenho da história do partido. No momento tem apenas 3%.

O eleitorado brasileiro é conservador e um detentor de cargo executivo tem que se esforçar muito para não se reeleger. Fortunati não tem uma avaliação ruim e isso o coloca em boa situação para disputar novo mandato.

Manuela terá de ser muito criativa para superar essa dificuldade. Para Villaverde, essas dificuldades parecem quase intransponíveis.

Atualizando 

Fortunati abriu ainda mais distância de Manuela e a candidatura de Villaverde não emplacou. Na análise de julho isso foi apontado como tendência. Se o atual prefeito tiver sangue frio e não errar, pode até levar no primeiro turno. Mas as chances de segundo turno ainda são grandes.

Datafolha de hoje

José Fortunati (PDT) – 41%
Manuela d´Ávila (PC do B) – 30%
Villa (PT) – 7%
Roberto Robaina (PSol) – 2%
Wambert di Lorenzo (PSDB), 1%
Erico Correa (PSTU), 1%;
Indecisos – 12%
Branco e nulo – 6%.

Recife

Com 35%, Humberto Costa (PT) está em primeiro, seguido pelo ex-governador Mendonça Filho, 22%. Mas quem parece ser o grande adversário do petista é Geraldo Júlio (PSB) que tem 7%, mas que com o apoio do governador Eduardo Campos deve crescer.

Se Geraldo Júlio passar para o segundo turno a eleição de Costa fica ameaçada. Se a disputa for com Mendonça Filho, suas chances são boas.

Muita gente está tratando a disputa de Recife como uma prévia da articulação para a disputa presidencial, mas quem conhece Eduardo Campos diz que sua primeira preocupação é com sua própria sucessão. Sua tese é de que se o PT viesse a reeleger o prefeito da capital iria tentar indicar um nome para disputar o governo.

Se isso era uma possibilidade com a disputa que se avizinha pela capital, agora é uma realidade. Vai ter pau na eleição de Pernambuco entre PSB e PT também em 2014.

Atualizando

Na análise de julho apontou-se que disputa possivelmente seria com Geraldo Júlio, que tinha 7%. A novidade da atual pesquisa é a candidatura do tucano Daniel Coelho cresceu muito e ameaça tirar Humberto Costa do segundo turno. A ocorrer isso, o PT pernambucano entraria numa crise terrível. Em fórmula 1 costuma-se dizer que chegar é uma coisa e passar é outra. Na corrida eleitoral, ao contrário. É muito difícil reverter uma tendência. E atualmente Daniel cresce e Humberto cai. Se nada for feito as linhas vão se encontrar e a colocação dos candidatos vai se alterar antes do dia 7 de outubro.

Datafolha de hoje:

Geraldo Julio (PSB) – 34% das intenções de voto
Humberto Costa (PT) – 23%
Daniel Coelho (PSDB) – 19%
Mendonça (DEM) – 8%
Edna Costa (PPL) – 1%
Esteves Jacinto (PRTB) – 1%
Roberto Numeriano (PCB) – 1%
Branco/nulo/nenhum – 6%
Não sabem – 7%

Ana de Hollanda caiu hoje. Sem a mesma importância que teria sua queda do ponto de vista simbólico se tivesse ocorrido com uns seis meses de governo Dilma.

Sua passagem pelo governo foi tão bizarra, que Ana sempre esteve em todas as listas de ministros cambaleantes.

Mas sua fraqueza foi por um período sua força.

Aninha, nas palavras de Dilma. Cuidou da Culturinha, na bela definição que Cláudio Prado deu há pouco na Pós-TV, do Fora do Eixo.

Dilma não dá a devida importância para o Ministério da Cultura. E por isso Ana ficou tanto tempo à frente dele.

Agora, com Marta, a Cultura voltará ao centro da pauta.

Não há possibilidade de a ex-prefeita aceitar a insignificância a que Aninha foi submetida com sua culturinha.

E Marta também não vai aceitar trabalhar com um grupo tão incompetente como o que sustentou Ana.

Ana se vai, sem deixar saudades.

E sem grandes tremores de terra.

E por isso nem os seus mais ardorosos críticos soltaram rojões.

Porque todos sabiam que sua incompetência a derrotaria, mas imaginavam que isso ocorreria mais cedo.

Mas sempre se pode dizer: antes tarde do que nunca.

Boa sorte e bom trabalho à senadora Marta.

E boa vida à Ana.

Que teve o destino natural dos arrogantes medíocres.

Um final sem epílogo e charme.

Simplesmente medíocre.

Os últimos movimentos da campanha do candidato José, forma utilizada por Russomanno para se referir ao tucano, dão a entender que ele prefere o homem do bispo no segundo turno. E que vai buscar interromper a qualquer custo o crescimento de Haddad.

Os estrategistas do PSDB parecem imaginar que num segundo turno contra Russomanno conseguirão ter o discurso da responsabilidade do eleitor a seu favor.

A chance desta operação dar certo é muito pequena, primeiro porque o eleitorado petista na cidade de São Paulo é consistente. E depois porque a atual rejeição a Serra é imensa.

Mas como rejeição não tem histórico nas urnas, apresento os dados do voto petista na cidade.

O pior resultado do partido em São Paulo desde 1988, quando a eleição era em um turno único e Erundina venceu com 29,84%, aconteceu em 1996, quando a mesma Erundina teve 22,83%. Esse foi o ponto fora da curva do histórico. Afora isso, o PT sempre teve 30% ou mais nas disputas paulistanas.

Em 1992,  numa eleição muito difícil, pois a campanha da mídia contra o governo Erundina era massacrante, Suplicy fez 30,68% dos votos no primeiro turno.

Nas últimas três eleições com Marta Suplicy, o voto do PT foi sempre acima de 30% no primeiro turno. Em 2000, quando venceu, cravou 38,13%. Em 2004, 35,82%. E na última eleição, em 2008, contra Alckmin e Kassab, fez 32,79%

Ou seja, Serra dificilmente vai fazer Haddad ter menos do que 25% dos votos, o que parece suficiente para levar um candidato ao segundo turno. Mas este blogueiro arrisca dizer que Haddad vai ter os 30% históricos do PT.

A estratégia dos tucanos está desprezando a história do voto na cidade. Ou seja, o ódio de Serra ao PT parece ser maior do que a lógica.

Mas antes de encerrar esse texto preciso dizer uma coisa pra quem acompanha este blogue, Haddad vai chegar nessa votação histórica do PT só lá pra frente. Nos últimos dias do primeiro turno.

Diferente de Marta, que já entrou nas disputas anteriores com altos índices, ele ainda vai ter que convencer o eleitorado de suas qualidades. No segundo turno, a história é outra. Sua rejeição é menor e isso pode vir a ser decisivo para a vitória do PT pela terceira vez em São Paulo.

Segue uma Carta Aberta de Theotonio dos Santos, economista, cientista político e um dos formuladores da Teoria da Dependência. Hoje é um dos principais expoentes da Teoria do Sistema Mundo. Mestre em Ciência Política pela UnB e doutor “notório saber” pela UFMG e pela UFF. . Coordenador da cátedra e rede UNU-UNESCO de Economia Global e Desenvolvimento sustentável – REGGEN.

O texto é um primor e contribui tanto para entender o quanto o governo do PSDB  foi deletério para o Brasil como ajuda a impedir que a mídia tente “lavar branquinho” a história e produzir uma nova versão do que foram os anos FHC.
THEOTONIO DOS SANTOS: CARTA ABERTA A FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

Meu caro Fernando,

Vejo-me na obrigação de responder a carta aberta que você dirigiu ao Lula, em nome de uma velha polêmica que você e o José Serra iniciaram em 1978 contra o Rui Mauro Marini, eu, André Gunder Frank e Vânia Bambirra, rompendo com um esforço teórico comum que iniciamos no Chile na segunda metade dos nos 1960.

A discussão agora não é entre os cientistas sociais e sim a partir de uma experiência política que reflete contudo este debate teórico. Esta carta assinada por você como ex-presidente é uma defesa muito frágil teórica e politicamente de sua gestão. Quem a lê não pode compreender porque você saiu do governo com 23% de aprovação enquanto Lula deixa o seu governo com 96% de aprovação.Já discutimos em várias oportunidades os mitos que se criaram em torno dos chamados êxitos do seu governo. Já no seu governo vários estudiosos discutimos, o inevitável caminho de seu fracasso junto à maioria da população. Pois as premissas teóricas em que baseava sua ação política eram profundamente equivocadas e contraditórias com os interesses da maioria da população. (Se os leitores têm interesse de conhecer o debate sobre estas bases teóricas lhe recomendo meu livro já esgotado: Teoria da Dependência: Balanço e Perspectivas, Editora Civilização Brasileira, Rio, 2000). Contudo nesta oportunidade me cabe concentrar-me nos mitos criados em torno do seu governo, os quais você repete exaustivamente nesta carta aberta.O primeiro mito é de que seu governo foi um êxito econômico a partir do fortalecimento do real e que o governo Lula estaria apoiado neste êxito alcançando assim resultados positivos que não quer compartilhar com você… Em primeiro lugar vamos desmitificar a afirmação de que foi o plano real que acabou com a inflação. Os dados mostram que até 1993 a economia mundial vivia uma hiperinflação na qual todas as economias apresentavam inflações superiores a 10%. A partir de 1994, TODAS AS ECONOMIAS DO MUNDO APRESENTARAM UMA QUEDA DA INFLAÇÃO PARA MENOS DE 10%. Claro que em cada pais apareceram os “gênios” locais que se apresentaram como os autores desta queda. Mas isto é falso: tratava-se de um movimento planetário. No caso brasileiro, a nossa inflação girou, durante todo seu governo, próxima dos 10% mais altos. TIVEMOS NO SEU GOVERNO UMA DAS MAIS ALTAS INFLAÇÕES DO MUNDO. E aqui chegamos no outro mito incrível. Segundo você e seus seguidores (e até setores de oposição ao seu governo que acreditam neste mito) sua política econômica assegurou a transformação do real numa moeda forte. Ora Fernando, sejamos cordatos: chamar uma moeda que começou em 1994 valendo 0,85 centavos por dólar e mantendo um valor falso até 1998, quando o próprio FMI exigia uma desvalorização de pelo menos uns 40% e o seu ministro da economia recusou-se a realizá-la “pelo menos até as eleições”, indicando assim a época em que esta desvalorização viria e quando os capitais estrangeiros deveriam sair do país antes de sua desvalorização, O fato é que quando você flexibilizou o cambio o real se desvalorizou chegando até a 4,00 reais por dólar. E não venha por a culpa da “ameaça petista” pois esta desvalorização ocorreu muito antes da “ameaça Lula”. ORA, UMA MOEDA QUE SE DESVALORIZA 4 VEZES EM 8 ANOS PODE SER CONSIDERADA UMA MOEDA FORTE? Em que manual de economia? Que economista respeitável sustenta esta tese? Conclusões: O plano Real não derrubou a inflação e sim uma deflação mundial que fez cair as inflações no mundo inteiro. A inflação brasileira continuou sendo uma das maiores do mundo durante o seu governo. O real foi uma moeda drasticamente debilitada. Isto é evidente: quando nossa inflação esteve acima da inflação mundial por vários anos, nossa moeda tinha que ser altamente desvalorizada. De maneira suicida ela foi mantida artificialmente com um alto valor que levou à crise brutal de 1999.

Segundo mito – Segundo você, o seu governo foi um exemplo de rigor fiscal. Meu Deus: um governo que elevou a dívida pública do Brasil de uns 60 bilhões de reais em 1994 para mais de 850 bilhões de dólares quando entregou o governo ao Lula, oito anos depois, é um exemplo de rigor fiscal? Gostaria de saber que economista poderia sustentar esta tese. Isto é um dos casos mais sérios de irresponsabilidade fiscal em toda a história da humanidade. E não adianta atribuir este endividamento colossal aos chamados “esqueletos” das dívidas dos estados, como o fez seu ministro de economia burlando a boa fé daqueles que preferiam não enfrentar a triste realidade de seu governo. Um governo que chegou a pagar 50% ao ano de juros por seus títulos para, em seguida, depositar os investimentos vindos do exterior em moeda forte a juros nominais de 3 a 4%, não pode fugir do fato de que criou uma dívida colossal só para atrair capitais do exterior para cobrir os déficits comerciais colossais gerados por uma moeda sobrevalorizada que impedia a exportação, agravada ainda mais pelos juros absurdos que pagava para cobrir o déficit que gerava. Este nível de irresponsabilidade cambial se transforma em irresponsabilidade fiscal que o povo brasileiro pagou sob a forma de uma queda da renda de cada brasileiro pobre. Nem falar da brutal concentração de renda que esta política agravou drasticamente neste pais da maior concentração de renda no mundo. Vergonha, Fernando. Muita vergonha. Baixa a cabeça e entenda porque nem seus companheiros de partido querem se identificar com o seu governo…te obrigando a sair sozinho nesta tarefa insana.

Terceiro mito – Segundo você, o Brasil tinha dificuldade de pagar sua dívida externa por causa da ameaça de um caos econômico que se esperava do governo Lula. Fernando, não brinca com a compreensão das pessoas. Em 1999 o Brasil tinha chegado à drástica situação de ter perdido TODAS AS SUAS DIVISAS. Você teve que pedir ajuda ao seu amigo Clinton que colocou à sua disposição os 20 bilhões de dólares do tesouro dos Estados Unidos e mais uns 25 BILHÕES DE DÓLARES DO FMI, Banco Mundial e BID. Tudo isto sem nenhuma garantia. Esperava-se aumentar as exportações do pais para gerar divisas para pagar esta dívida. O fracasso do setor exportador brasileiro mesmo com a espetacular desvalorização do real não permitiu juntar nenhum recurso em dólar para pagar a dívida. Não tem nada a ver com a ameaça de Lula. A ameaça de Lula existiu exatamente em consequência deste fracasso colossal de sua política macroeconômica. Sua política externa submissa aos interesses norte-americanos, apesar de algumas declarações críticas, ligava nossas exportações a uma economia decadente e um mercado já copado. A recusa dos seus neoliberais de promover uma política industrial na qual o Estado apoiava e orientava nossas exportações. A loucura do endividamento interno colossal. A impossibilidade de realizar inversões públicas apesar dos enormes recursos obtidos com a venda de uns 100 bilhões de dólares de empresas brasileiras. Os juros mais altos do mundo que inviabilizava e ainda inviabiliza a competitividade de qualquer empresa. Enfim, UM FRACASSO ECONOMICO ROTUNDO que se traduzia nos mais altos índices de risco do mundo, mesmo tratando-se de avaliadoras amigas. Uma dívida sem dinheiro para pagar… Fernando, o Lula não era ameaça de caos. Você era o caos. E o povo brasileiro correu tranquilamente o risco de eleger um torneiro mecânico e um partido de agitadores, segundo a avaliação de vocês, do que continuar a aventura econômica que você e seu partido criou para este país.

Gostaria de destacar a qualidade do seu governo em algum campo mas não posso fazê-lo nem no campo cultural para o qual foi chamado o nosso querido Francisco Weffort (neste então secretário geral do PT) e não criou um só museu, uma só campanha significativa. Que vergonha foi a comemoração dos 500 anos da “descoberta do Brasil”. E no plano educacional onde você não criou uma só universidade e entrou em choque com a maioria dos professores universitários sucateados em seus salários e em seu prestígio profissional. Não Fernando, não posso reconhecer nada que não pudesse ser feito por um medíocre presidente.Lamento muito o destino do Serra. Se ele não ganhar esta eleição vai ficar sem mandato, mas esta é a política. Vocês vão ter que revisar profundamente esta tentativa de encerrar a Era Vargas com a qual se identifica tão fortemente nosso povo. E terão que pensar que o capitalismo dependente que São Paulo construiu não é o que o povo brasileiro quer. E por mais que vocês tenham alcançado o domínio da imprensa brasileira, devido suas alianças internacionais e nacionais, está claro que isto não poderia assegurar ao PSDB um governo querido pelo nosso povo. Vocês vão ficar na nossa história com um episódio de reação contra o verdadeiro progresso que Dilma nos promete aprofundar. Ela nos disse que a luta contra a desigualdade é o verdadeiro fundamento de uma política progressista. E dessa política vocês estão fora.Apesar de tudo isto, me dá pena colocar em choque tão radical uma velha amizade. Apesar deste caminho tão equivocado, eu ainda gosto de vocês ( e tenho a melhor recordação de Ruth) mas quero vocês longe do poder no Brasil. Como a grande maioria do povo brasileiro. Poderemos bater um papo inocente em algum congresso internacional se é que vocês algum dia voltarão a frequentar este mundo dos intelectuais afastados das lides do poder.

Com a melhor disposição possível, mas com amor à verdade, me despeço.

Acho desnecessário dizer para o leitor deste blogue que o Russomanno do horário eleitoral é muito diferente do da vida real.

No dia a dia, o deputado federal do PRB é alguém bem mais arrogante e autoritário. E um sujeito cujos vínculos são absolutamente elitistas.

Mas para quem tinha alguma dúvida disso, essa nota que pesquei da edição de 7 de setembro de 2006 na Folha de S. Paulo publicada no Painel é a prova dos nove.


Sabe com quem…
Celso Russomano (PP-SP) bateu boca ontem no estacionamento da Câmara com um taxista que obstruía a passagem de seu carro. Aos berros, o deputado destratou o motorista.

…está falando? Em seguida, chamou um segurança para deter o taxista, que já havia se desculpado. Quando o passageiro tentou acalmar Russomano, o parlamentar disparou: “Não me chame de você! Sou deputado federal!”.

Se como deputado o sujeito já se comporta deste jeito, imaginem se ele for eleito prefeito.

Reportagem de capa da Folha de S. Paulo de hoje que reproduzo a seguir não deixa margem a qualquer dúvida. O PSDB que vive fazendo discursinho anti-corrupção é contra o tal do mensalão é o partido que tem mais gente fichas sujas entre os candidatos a cargos públicos.
O PT, mesmo sendo o maior partido do Brasil, aparece apenas na oitava colocação neste quesito.
Como a reportagem de Daniel Carvalho e Valmar Hupsel Filho é clara. Limito-me a reproduzi-la.
Os TREs (Tribunais Regionais Eleitorais) barraram até agora a candidatura a prefeito de 317 políticos com base na Lei da Ficha Limpa, mostra levantamento da Folha nos 26 Estados do país.

O número deve aumentar, já que em 16 tribunais ainda há casos a serem julgados.

Entre esses fichas-sujas, 53 estão no Estado de SP.

Na divisão por partido, o PSDB é o que possui a maior “bancada” de barrados, com 56 candidatos –o equivalente a 3,5% dos tucanos que disputam uma prefeitura. O PMDB vem logo atrás (49). O PT aparece na oitava posição, com 18 –1% do total de seus postulantes a prefeito.

Todos os candidatos barrados pelos tribunais regionais podem recorrer ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A presidente do tribunal, Cármen Lúcia, já disse que não será possível julgar todos os casos antes das eleições, mas sim até o final do ano, antes da diplomação dos eleitos.

Os nomes barrados pelos TREs irão aparecer nas urnas eletrônicas, mas todos os seus votos serão considerados sub judice até uma eventual decisão no TSE.

Exemplo: se o ficha-suja tiver mais votos, mas seu recurso for rejeitado, assume o segundo colocado na eleição.

Entre os barrados, destacam-se o ex-presidente da Câmara dos Deputados Severino Cavalcanti (PP-PE) e a ex-governadora Rosinha Garotinho (PR-RJ).

Severino tenta se reeleger prefeito de João Alfredo (PE) e foi enquadrado na lei por ter renunciado ao mandato de deputado federal, em 2005, sob a acusação de ter recebido propina de um concessionário da Câmara.

Já Rosinha Garotinho, atual prefeita de Campos (RJ), teve o registro negado sob a acusação de abuso de poder econômico e uso indevido de meios de comunicação durante as eleições de 2008.

A maioria dos barrados foi enquadrara no item da Lei da Ficha Limpa que torna inelegível aqueles que tiveram contas públicas rejeitadas por tribunais de contas.

De iniciativa popular, a lei foi sancionada em 2010, mas só passa a valer na eleição deste ano. A lei ampliou o número de casos em que um candidato fica inelegível –cassados, condenados criminalmente por colegiado ou que renunciaram ao cargo para evitar a cassação.

“A lei anterior era permissiva demais”, disse Márlon Reis, juiz eleitoral e um dos autores da minuta da Ficha Limpa. Para André de Carvalho Ramos, procurador regional eleitoral de São Paulo, os próprios partidos vão evitar lançar fichas-sujas.

 

A campanha de Serra exibiu semana passada uma inserção onde o rejeitado tucano, 42% no Datafolha, tenta explicar o inexplicável e prometer, de novo, o inacreditável.

No vídeo, Serra afirma que deixou a Prefeitura em 2006 para evitar que o PT vencesse as eleições para o Governo do Estado. O tucano afirma que fez isso para que os petistas não “quebrassem” o Estado como, segundo ele, quebraram a Prefeitura. Serra disse que recebeu a Prefeitura com R$ 16 mil em caixa da ex-prefeita Marta Suplicy.

A lorota já foi desmascarada pelo TCM (Tribunal de Contas do Município), que julgou e aprovou as contas da gestão de Marta. A ex-prefeita deixou superávit de R$ 91 milhões, mesmo com a dívida herdada da gestão Pitta (veja na matéria do SPressoSP).

Serra usa uma mentira para sustentar outra mentira.

Na sequência apresento dois vídeos. O primeiro é uma edição caprichada das vezes que Serra afirmou que não abandonaria seu cargo para disputar eleições, e mesmo assim, na maior cara de pau, o fez. O segundo é a propaganda eleitoral em que Serra afirma que se for eleito novamente prefeito vai cumprir o mandato até o final.

Tem como acreditar no segundo video depois de assistir o primeiro ? De sua opinião, quanto vale a palavra do Serra ?

O debate realizado na noite de ontem pela RedeTV e pelo jornal Folha de S.Paulo teve uma audiência pífia, marcou apenas 3 pontos no Ibope. A emissora ficou apenas em quarto lugar, com menos de um terço da audiência do terceiro lugar, o SBT (10 pontos). Ou seja, poucas pessoas o assistiram e dificilmente ele vai impactar nos futuros resultados das pesquisas eleitorais.

Porém, do ponto de vista psicológico eleitoral, ele teve um grande significado. O candidato do PSDB, José Serra, se comportou e foi tratado como um “nanicão”. O que é o “nanicão”.

O “nanicão” é um candidato um pouco maior que o candidato nanico. Quais são os candidatos nanicos? Levy Fidélix e Eymael são dois exemplos. Sempre disputam todas as eleições e sabem que suas chances são inexistentes. Porém, cumprem um papel de coadjuvantes no processo eleitoral e mantêm a legenda partidária, que lhes garantem tempo de TV para acordos políticos em diversas cidades brasileiras.

No caso de Serra, seu papel não é esse e por isso ele não pode ser chamado só de nanico. Entretanto, durante o debate ficou claro que seus principais concorrentes não o tratavam como o principal adversário. Por exemplo, no bloco de perguntas entre candidatos, vários preferiram perguntar a outros do que a Serra. Em outros tempos ele seria o primeiro escolhido para o enfrentamento. Seria o alvo preferencial de todos. Não foi isso que aconteceu ontem.

Russomano e Haddad não o trataram como o adversário a ser batido. Além disso, nos únicos confrontos que teve, com Chalita e Giannazi, o tucano saiu derrotado.

No embate com o candidato do PMDB, Serra tentou insinuar que o peemedebista era mentiroso. Quando Chalita teve direito à palavra lançou logo um Paulo Preto e um Aref na testa do tucano, deixando-o completamente grogue. Gianazzi também não perdeu a oportunidade de mandar o Privataria Tucana no pescoço de Serra.

Quanto aos outros candidatos, a situação deve permanecer inalterada.

Russomanno cometeu algumas gafes que podem ser utilizadas na internet e em outros momentos da campanha. Por exemplo, o candidato do PRB afirmou que seu partido “aceita até candidatos homossexuais”, veja bem, “ATÉ”. Ato falho  que permite um grande debate sobre o posicionamento de Russomanno nessa seara da orientação sexual.

O candidato do PRB também afirmou que a Igreja Universal não é a dona do PRB. Quando até as quase inexistentes esquinas de Brasília sabem que isso é mentira. Hoje a Universal controla o PRB da mesma forma que controla a Rede Record e o jornal Folha Universal. Ou seja, faz de conta que é algo mais amplo, mas tudo precisa passar pelo crivo da igreja.

Enfim, o debate de ontem não muda a situação eleitoral na cidade de São Paulo, mas pode ter sido a pá de cal que faltava para enterrar as pretensões de Serra chegar ao segundo turno.

A constatação óbvia do debate de ontem é que o tucano está sem pegada, sem discurso e sem condições de se reabilitar.

Depois dessa lufada de novidades em várias pesquisas das cidades onde os meios de comunicação têm força, a tendência é que nas próximas as alterações sejam menos impactantes.

O eleitor costuma assistir e prestar atenção no horário eleitoral principalmente nos primeiros e últimos dias. É nesses momentos que se dão as maiores alterações nas intenções de voto.

E isso se repetiu neste ano.

Tanto que em São Paulo, Serra despencou e Haddad e Russomano cresceram. Sendo que o primeiro cresceu muito mais do ponto de vista proporcional.

Na próxima pesquisa, esse crescimento não deve manter o mesmo ritmo. E o mesmo deve acontecer em outras cidades, levando à sensação de que tudo parou. O que também não é verdade.

Nesta etapa as pesquisas qualitativas são muito mais importantes que as quantitativas. É nelas que os marqueteiros vão buscando entender as fragilidades dos adversários e preparam suas ações.

E nelas também que se percebe qual é o voto mais frágil. Em São Paulo, mesmo estando na dianteira o voto de Russomano parece ser mais frágil do que o de Haddad.

Os tucanos sabem que se ele não vier a cair, Serra fica fora do segundo turno.

Há outras cidades onde o cenário eleitoral mudou muito com a entrada em cena da TV. Recife talvez seja a principal delas. A movimentação foi forte depois do início do horário eleitoral. Até porque o candidato Geraldo Júlio, apoiado por Eduardo Campos e Jarbas Vasconcelos, tem muito mais tempo que o seu principal adversário, o petista Humberto Costa.

Mas como seu tempo é imenso, há o risco de isso gerar uma intoxicação no eleitorado. O que foi seu ponto forte agora, se não for bem administrado daqui pra diante, pode se tornar seu ponto fraco.

Na eleição de 2008, o atual prefeito de BH, Márcio Lacerda (PSB), disparou quando as pessoas ficaram sabendo que ele tinha o apoio de Aécio Neves e Fernando Pimentel. Ou seja, PT e PSDB. Mas na reta final do primeiro turno quem cresceu foi Leonardo Quintão (PMDB), com um discurso de que o compromisso dele era com o eleitor.

Lacerda venceu, mas passou um sufoco danado no segundo turno.

Essas primeiras lufadas têm que ser dimensionadas na sua exata dimensão. Elas são uma árvore. O dia do voto é a floresta.