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A Virada Cultural é um dos principais eventos da cidade de São Paulo, tanto pelo seu gigantismo de público, como pelo fato de que no dia em que acontece, a cultura ocupa as ruas e o centro da pauta. Neste final de semana, isso ficou ainda mais claro. Mesmo com uma final de Campeonato Paulista programada, o paulistano ficou mais ligado na Virada Cultural do que no futebol. Isso é algo para se pensar.

O fato de ser um sucesso de público é algo notadamente importante para a vivacidade cultural da cidade, mas não significa dizer que ela é um evento que está resolvido. Que não deve ser melhorado e repensado em alguns aspectos. Antes de entrar nesta seara, porém, vale um parêtenses. No ano passado, o SPressoSP publicou uma série de reportagens denunciando que a Virada não era só um evento importante, mas que também teria se tornado um negócio interessante para algumas empresas e servidores públicos. Algumas das reportagens dessa série podem ser lidas, aqui, aqui, aqui e aqui. Vale a pena relê-las para refletir sobre algumas questões. Uma delas, é a de que uma das pessoas denunciadas naquele episódio continua à frente da Virada na edição deste ano, mesmo com a mudança do governo. E nem isso  impediu que o ex-prefeito José Serra acusasse o evento de estar aparelhado pelo PT pelo seu twitter: “ Só me preocupa que a Virada Cultural seja usada para aparelhamento político-partidário, o que já começou a acontecer este ano”, escreveu hoje.

A verdade é outra. Neste ano, não foi uma única pessoa que mandou sozinha na Virada. A atual administração acertadamente constituiu uma curadoria com pessoas respeitadas no meio cultural. A comissão participou da definição dos palcos, convidados etc. Muita gente boa foi convidada para essa curadoria e você pode conhecê-los aqui.

Esse é um avanço que precisa ser registrado. Essa curadoria da Virada Cultural não pode se desintegrar. Ela pode até ganhar nos integrantes, mas precisa ser permanente para realizar uma mudança no seu conceito. Que a Virada seja menos um evento. E seja mais um processo. O que não significa, em absoluto, terminar com o evento ou torná-lo algo insignificante.

Muita gente séria já defende isso há algum tempo em São Paulo. Há uma necessidade de incorporar a lógica das viradas no dia a dia da cidade. E não apenas em uma data específica. O espaço público precisa ter mais cultura nos finais de semana e isso pode e deve ser feito com intervenções na circulação quando necessário. Além disso, o que há algum tempo já se discute é que a Virada Cultural não poderia ser algo apenas a se realizar no Centro. E esse foi um dos equívocos desta edição. Tudo foi canalizado para o Centro, radicalizando uma opção que já ganhava corpo na gestão Serra/Kassab. Há, na cidade, muitos outros centros, que precisam de cultura e visibilidade. Por que não colocar a Daniela Mercury para tocar em Itaquera? Por que não espalhar a Viradinha, que foi uma excelente ideia, pelos bairros da cidade? Por que não levar programação para a terceira idade para todos os pontos da cidade, fazendo com que a Virada ganhe um público que não vai ao Centro de madrugada por motivos óbvios?

Evidente que esse processo seria impossível de ser construído pela atual gestão que assumiu apenas em janeiro com a responsabilidade de organizar entre outras coisas, o aniversário da cidade, parte do Carnaval e agora a Virada Cultural. É muita coisa, para ser realizada e transformada  em curto espaço de tempo. Por isso é preciso começar a olhar desde hoje para frente. Pensar na Virada de 2014, que acontecerá nas proximidades da Copa do Mundo.

Além dessa questão da descentralização e do processo, outra mudança importante é que a Virada Cultural não pode continuar sendo um balcão de negócios nos dias que a antecedem. É preciso abrir editais com muita antecedência para que aqueles que desejarem dela participar se inscrevam e possam ser avaliados pelos curadores. Outro ponto importante a se resolver é a negociação dos valores dos shows e atrações. Isso não pode acontecer no varejo. É necessário que se definam faixas de pagamento e que as atrações sejam classificadas nessas faixas a partir de critérios bem objetivos. Isso ou que o próprio interessado dispute no segmento de cachê que ele considera que se encaixa. Por exemplo, serão 50 atrações de chachê A, 200 de cachê B e 500 de C. O grupo interessado se inscreve para disputar a participação no cachê que considera sua faixa.

Outro avanço, seria que a escolha dos palcos da Virada passasse por uma audiência pública com grande antecedência para que a cidade se envolvesse neste debate da ocupação dos espaços públicos.

Por fim, mas não menos importante. A grande notícia da Virada nos portais durante o dia de hoje foi a da violência que teria levado duas pessoas à morte e ferido várias outras. Esse é um tópico que não pode se perder de vista num evento deste porte. Há quem esteja levantando a hipótese pelas redes sociais de que o governo do Estado não teria atuado com a devida responsabilidade. E que a PM teria feito corpo mole no combate, por exemplo, aos arrastões. Essa matéria do UOL, por exemplo, também precisa ser lida com atenção. O Ministério Público poderia investigar essas suspeitas. Mas também a questão da segurança precisa ser pensada na lógica do processo.

É importante que a Virada Cultural seja grande, mas não é o seu gigantismo que a define como importante. Por isso, seria bom que a edição deste ano fosse o início do seu recomeço. E não a reafirmação do modelo anterior. E se há algo que pode simbolizar essa renovação é a foto do prefeito Fernando Haddad assistindo, em meio ao público, ao show dos Racionais MC´s.  A periferia no centro. O centro na periferia. As trocas que a Virada Cultural permite fazer, precisam ser incorporadas no pensar das cidade.

 

(Foto: Divulgação)

 

Paulo Bernardo esteve ontem em São Paulo para uma audiência com o prefeito Fernando Haddad. Ao sair, afirmou: “O prefeito me disse que tem abertura para discutir (na Câmara Municipal) mudança na legislação. Ele me falou da intenção da prefeitura de estabelecer políticas públicas na área de comunicação, por exemplo, uma rede de wi-fi na cidade”. E acrescentou: “Eu disse ao prefeito: ‘você quer uma rede de wi-fi na cidade, mas se fizer uma rede chinfrim, o pessoal vai fazer uma festa, inaugura, dali a dois meses vai começar a reclamar que a internet é muito lenta. Vão falar mal de quem? Vão falar do Fernando Haddad.”

Se tivesse lido essa declaração em outro veículo e assinada por outro jornalista, duvidaria. Mas o texto é do talentoso amigo Eduardo Maretti e foi publicado na Rede Brasil Atual, que até onde sei não tem nada contra Paulo Bernardo e nem contra Haddad. A propósito, Paulo Bernardo nos idos tempos foi ligado ao movimento sindical bancário e era um petista de quatro costados. E hoje, a quem serve Paulo Bernardo?

O PT aprovou recente resolução defendendo a regulamentação da área de comunicação e questionando os 60 bilhões de isenção (que Bernardo diz serem 6 bilhões) para as teles. E Bernardo, que se diz petista, fez de conta que não era com ele. Agora Bernardo vem a São Paulo defender as teles e tentar colocar reio no governo municipal porque este quer distribuir wi-fi grátis na cidade. Vem em nome das teles ou do governo federal? Qual é o papel de um ministro? Incentivar políticas públicas ou tentar impedi-las em nome de interesses privados?

Dilma sabia que Paulo Bernardo viria a São Paulo com esta missão hoje? Isso foi discutido em âmbito federal?  Foi Dilma quem solicitou a ele que fizesse lobby tentando impedir a cidade de abrir o sinal da internet em alguns pontos?

Entrei em contato com algumas pessoas que estão na equipe do secretário Simão Pedro (Obras e Serviços) e que estudam formas de criar condições para lançar uma política pública de banda larga na cidade. Quando lia os trechos da reportagem, a perplexidade era imensa. Em nenhum momento a equipe do ministro ou assessores dele procuraram assessores da prefeitura que estão trabalhando no tema. Ou seja, Bernardo não tem nenhum elemento para dizer que o plano é chinfrim. Mas mesmo assim saiu atacando-o porque as teles estão morrendo de medo que se implantado com sucesso em São Paulo, um plano desses as fará perder parte do mercado que as alimenta com monstruosos lucros operando um serviço de péssima qualidade.

Entre outras coisas, no projeto de wi-fi grátis de São Paulo discute-se que onde o sinal for aberto aproximadamente 1 mil pessoas possam vir a se conectar ao mesmo tempo tendo uma banda superior a 1 Mbps. Bem diferente do PNBL chinfrim que Paulo Bernardo falou que ia implantar, mas que virou plano de negócios das teles. Hoje, o governo federal e a Telebrás só entram onde as teles não têm interesse em operar.

O ex-bancário, sindicalista, petista e agora ministro, trabalha para o governo e para a sociedade brasileira? Porque se é isso, melhor refletir sobre a visita de ontem a São Paulo, onde se comportou como um garoto de recado das teles.

 

O ex-ministro Juca Ferreira aceitou o convite do prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad, e assumirá a pasta da cultura da cidade de São Paulo partir de janeiro.

Juca foi secretário-executivo de Gilberto Gil de 2003 a 2008  e assumiu o ministério nos dois últimos anos. A gestão Juca-Gil é referência internacional pela forma como eles atuaram com o movimento social do setor e também  pela implementação do Cultura Viva e a relação com a cultura digital.

Juca foi convidado na quarta-feira e só deu o sim a Haddad na noite de hoje. Ele estava morando em Madrid, Espanha, e trabalhava na secretaria geral Ibero-Americana, órgão da Cúpula Ibero-Americana de chefes de Estado e de governo, que reúne 22 países, Brasil incluso.

Atualmente Juca é filiado ao PT, mas durante todo o tempo que esteve no MinC foi do PV, partido pelo qual teve dois mandatos a vereador em Salvador.

Juca também teria recebido convite de Jacques Wagner para assumir a secretaria de Cultura do Estado da Bahia. As pessoas com as quais se relaciona politicamente avaliaram que o convite de Haddad neste momento da história de São Paulo era irrecusável.

As pesquisas de opinião dão uma diferença de 15 a 20 pontos nos votos válidos à favor de Haddad. Com essa margem de segurança, ele só colocaria sua eleição em risco se fosse massacrado no debate da Globo. Dúvido que alguém seja suficientemente maluco para dizer isso. Aliás, isso é quase praticamente impossível no formato Globo. Como a Globo é ruim de debates.

Mas no que diz respeito ao conteúdo, Serra voltou a insistir no mensalão e na questão das OS na área de saúde, os seus temas preferenciais neste segundo turno. Haddad buscou destacar que seu plano de governo foi produzido por especialistas e que a coligação de Serra teve 8 anos à frente da cidade para fazer aquilo que ele promete agora.

Uma das promessas de Serra foi a de iluminar São Paulo inteira em 1 ano. Falou isso sem corar. Como se não tivesse feito parte de quase todos os governos estaduais desde 1982. E como se seu grupo não estivesse à frente da prefeitura há 8 anos.

O momento mais hilário do encontro foi quando o tucano disse que não tira suas propostas da cartola, mas sim da cachola. Os tuiteiros que debatiam o debate se divertiram.

Em suma, Haddad foi melhor nos dois primeiros blocos e se enrolou um pouco no último, permitindo pequena vantagem para Serra. Se fosse um jogo de futebol, o resultado teria sido um 2 a 1 sem emoção. E sem ter animado as torcidas.

No atual momento, isso é muito melhor para Haddad. Até porque, eleição é campeonato e ele está com muitos pontos à frente.

A virada se tornou praticamente impossível.

A eleição se aproxima do seu ato final em São Paulo. Num primeiro momento, parecia que seria  um espetáculo teatral com estrutura clássica de três atos: apresentação, climax e desenlace. O climax seria a definição de quem iria para o segundo turno contra Russomanno. Ou Serra ou Haddad. E o desenlace, como sempre nessa estrutura, óbvio. Quem fosse, seria o vitorioso.

Mas isso que parecia o óbvio nunca convenceu este blogueiro. E não ocorreu. Não haveriam só três atos nesta campanha. Russomanno não foi para o segundo turno. E Serra  no segundo turno não conseguiu ameaçar Haddad.

Mas isso não significa que a eleição esteja decidida.

Se o candidato de sempre do tucanato tem uma qualidade ele é a da insistência. Ele parece um daqueles seres que ressuscitam sempre no final do filme para te assustar. Quando já lhe haviam enterrado num caixão de aço, eis que surge do nada e transformam o final da história em algo quase imprevisível.

Serra ainda pode querer dar este susto final na campanha de Haddad. E conta pra isso com toda a aliança midiática tradicional.

Suas chances, sem dúvida, são quase desprezíveis. O voto tem história e os sinais que a história do voto dão em São Paulo é de que o desejo de mudança é maior do que qualquer preconceito, incluindo o anti-petismo.

Além disso, a diferença entre Haddad e Serra no debate SBT-UOL foi tão grande que qualquer eleitor mais consciente passou a ter vergonha de votar no tucano.

Enfim, Serra ainda está a rondar a vitória tão aguardada por tanta gente emSão Paulo. A vitória de uma cidade que deseja ser feliz e não se entrega covardemente a um projeto que se orgulha de resgatar símbolos fascistas, como a dimensão lombrosiana na definição do caráter.

O momento é de quase vitória do melhor projeto para São Paulo, mas isso não é o suficiente para comemorações. O tempo não é o de comemorações.

Haddad tem tudo para ganhar as eleições. E se vencer, teremos tudo para cobrar dele um bom governo. Mas poucas vezes tanta boataria e baixaria foram plantadas no submundo de uma campanha como nesta reta final da eleição paulistana.

Os capangas de Serra na rede inventaram até o cancelamento do ENEM.

Por isso, olho vivo. Eles ainda não desistiram desta eleição. E vão fazer qualquer coisa pra empastelá-la. Eles são os mortos vivos.

Tive o prazer de poder participar do encontro de Haddad com artistas de periferia que aconteceu há alguns dias. Foi uma reunião muito mais simbólica do que eleitoral. Um evento fechadao e sem grandes divulgações. Um papo onde Haddad ficou umas três horas praticamente ouvindo. Falou pouco. Como se quisesse aproveitar ao máximo aquele momento para saber o que pensavam artistas tão importantes. Meu amigo Pedro Alexandre Sanchez fez um excelente relato deste evento e até por isso não vou me alongar aqui.

Na ocasião, uma fala que me impressionou demais foi a de Mano Brown.  Ao pegar o microfone, já disse: eu não vim aqui para falar de cultura, vim aqui para falar de extermínio. Ou seja, sabia que para falar de cultura, tinha que falar de cor da pele, de classe social e de território. O Pense Novo disponibilizou o vídeo com esta fala, vale a pena assistir.

 

No debate da Bandeirantes, José Serra desafiou Haddad na primeira oportunidade que teve a responder uma pergunta onde listava uma série de coisas que ele julgava serem ações de cunho inclusivo do ponto de vista social. E a cada exemplo que dava, surgia a pergunta: é pra rico ou pra pobre?

Serra tinha como objetivo convencer o eleitorado que ele era uma pessoa que governa para pobre. Evidente que a intenção era tão sem aderência à realidade que virou piada.

Hoje, um leitor me enviou uma página no Facebook que já agrega vários exemplos de “é pra rico ou é pra pobre” que mostram a verdadeira face dos governos tucanos na cidade de São Paulo e também no Estado.

A verdade é que a política higienista e o combate aos movimentos sociais é uma tônica dos governos tucanos.

Foi assim nos anos FHC, quando as privatizações foram realizadas com a política do porrete. Não havia diálogo e a polícia era convocada para dar borrachas nos manifestantes que a questionavam. Tem sido assim na relação com os professores do estado de São Paulo durante todos os anos tucanos.

E não foi diferente na gestão Serra-Kassab na cidade de São Paulo.

Há exemplos de sobra para responder a Serra fazendo a mesma pergunta: é pra rico ou pra pobre?


Por isso, para completar o post, segue uma listinha de ações da gestão Serra-Kassab que nos ajudam a responder se é para rico ou para pobre.

Perseguição a camelôs
O prefeito Gilberto Kassab publicou em 29 de maio, no Diário Oficial do Município, que centenas de ambulantes estavam com seus Termos de Permissão de Uso (TPU) cassados. Kassab ainda determinou que todos teriam 30 dias para deixarem as ruas, sem qualquer alternativa de realocação, como shoppings populares. Os comerciantes se mobilizaram e a Defensoria Pública acabou conseguindo na Justiça reaver o direito dos comerciantes voltarem a trabalhar.

Sem arte nas ruas e na periferia
Kassab também proibiu doações a artistas de rua e a própria presença deles na Avenida Paulista. O Sarau do Binho, na zona sul, foi fechado pela prefeitura, após oito anos de sucessivas tentativas de obtenção de licença para funcionar serem negadas. A indignação tomou conta das redes sociais, com protestos de artistas e famosos, como Emicida. Em julho deste ano, Kassab ameaçou fechar outro local de cultura popular: a tradicional roda de samba no Largo Santa Cecília, realizada há quase 12 anos. Por duas semanas, os participantes tiveram de cancelar a roda após ameaça da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Questionados sobre o motivo pelo qual não podiam continuar, os guardas apenas respondiam “porque não”. Os sambistas e frequentadores se organizaram e fizeram abaixo-assinado e protesto pela permanência da roda de samba.

Saúde pública vira caso de polícia
Em parceria com o governo do estado, a prefeitura iniciou em janeiro deste ano, a chamada “Operação Sufoco” na região central de São Paulo conhecida como Cracolândia, por concentrar pessoas em situação de rua viciadas em crack. A ação foi duramente criticada pela truculência da Polícia Militar e Guarda Civil Metropolitana, sem contar com assistência social. A operação foi implantada antes do centro de tratamento médico para usuários estar pronto e às vésperas do lançamento de um programa de combate ao crack do governo federal. Foram denunciados casos de agressões e violência contra as pessoas. As violações aos direitos humanos foram levadas à ONU. Juristas, ativistas e moradores do entorno afirmaram que a operação pretendia fazer uma “limpeza social” na região.

Fogo em favelas
Somente em 2012 foram registrados 34 incêndios em favelas de São Paulo. O último ocorreu na favela do Moinho, em 17 de setembro, deixando cerca de 300 pessoas desabrigadas. Dados levantados pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) sobre valorização imobiliária mostram que não houve incêndios em favelas cujo território sofreu desvalorização. Enquanto isso, o Programa de Prevenção contra Incêndios em Assentamentos Precários (Previn) não recebeu nenhuma verba da Prefeitura neste ano. Um projeto implantado durante a gestão da Marta Suplicy (PT) na cidade conseguiu, nos seus dois anos de atividade, controlar todos os focos de fogo em favelas antes que se tornassem grandes incêndios. Apesar do custo reduzido e do sucesso nas ações, ele foi extinto por José Serra (PSDB) em 2005, e Kassab não reativou o trabalho de prevenção. Criada em abril deste ano, a CPI dos Incêndios em Favelas, da Câmara Municipal de São Paulo, tem se mostrado ineficiente. Das reuniões previstas, foram realizadas apenas três, enquanto outras cinco foram adiadas por falta de quórum.

Jardim Pantanal
De dezembro de 2009 até o início de 2010, moradores do Jardim Pantanal e do Jardim Romano, na zona leste de São Paulo, enfrentaram semanas de alagamentos, com ruas imersas em água e esgoto. Sem qualquer previsão de novas moradias, os moradores protestaram contra Kassab. As famílias desalojadas não haviam sido informadas dos planos de construção, na região, do Parque das Várzeas do Tietê. Na ocasião, houve denúncias de que os planos eram que as pessoas deixassem o bairro por conta dos alagamentos agilizando a construção do parque. No início de 2010, a Justiça obrigou a Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo (Sabesp) a prestar esclarecimentos à Defensoria Pública do Estado de São Paulo, sobre a razão da falta de drenagem de água do alagamento ocorrido na região e da limpeza do sistema de esgoto.

Fraude bilionária na Controlar
Em março de 2012, o Ministério Público abriu investigação para apurar suposta fraude no contrato celebrado entre a Prefeitura de São Paulo e a Controlar S.A para a instalação do programa de inspeção veicular. Tanto Kassab como o Secretario Municipal do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, tiveram seus bens bloqueados pela Justiça. O MP aponta pelo menos 30 irregularidades na licitação e estima que houve um prejuízo de R$ 1 bilhão aos cofres públicos. Investigado criminalmente desde 2011, o MP oficializou a denúncia ao Tribunal de Justiça nesta terça (2). Kassab é acusado de crime de responsabilidade e tem 15 dias para apresentar defesa.

Esquema de propinas na Habitação
Nomeado por Serra em 2005, Hussain Aref Saab, ex-diretor do Aprov (Departamento de Aprovação das Edificações), da Secretaria Municipal de Habitação, teve um crescimento patrimonial vertiginoso nos sete anos em que esteve no cargo. Aref acumulou R$ 50 milhões e 106 apartamentos. O órgão que dirigia era responsável pela aprovação de grandes e médias construções na cidade. Denúncias revelaram um esquema de propinas para a liberação de obras irregulares. Uma ex-diretora financeira da BGE, empresa do grupo Brookfield, afirmou que a multinacional pagou R$ 1,6 milhão a Aref Saab e ao vereador Aurélio Miguel (PR) para liberar obras dos shoppings Higienópolis e Paulista, na capital. O Ministério Público Estadual investiga o envolvimento de Kassab no esquema.

Subprefeituras militarizadas e desmanteladas
Kassab nomeou coronéis da Reserva da Polícia Militar para 30 das 31 subprefeituras da cidade. As subprefeituras ainda tiveram uma queda de 61% em seus orçamentos somados, enquanto isso a Secretaria da Coordenação das Subprefeituras aumentou 516%, entre 2005 e 2012. Criadas em 2002, na gestão Marta Suplicy (PT), o objetivo das subprefeituras era a descentralização e democratização da gestão pública, facilitando a participação popular, já que cabia aos subprefeitos a decisão, direção e gestão dos assuntos em nível local. Com Kassab, o efeito foi inverso, a Secretaria passou a concentrar o poder e passar as ordens para os subprefeitos. A prefeitura ainda concentra recursos nas áreas mais ricas da cidade. Em 2012, o subprefeitura Pinheiros teve um aumento de 12% e a de M’Boi Mirim, uma redução de 46%.

Terreno público a venda
Foi aprovado na Câmara o projeto de lei da Prefeitura (PL271/2011) que prevê a venda de uma área de 20 mil metros quadrados no Itaim-Bibi, um dos bairros mais caros da cidade e onde já quase não há mais terrenos vagos. A prefeitura pretende vender o quarteirão para o mercado imobiliário, porém no local funcionam duas escolas, uma creche, um pronto-socorro, um teatro e uma unidade da Associação de Pais e Amigos Excepcionais (Apae). A proposta é criticada por urbanistas e moradores, que se mobilizaram para evitar a tragédia.

Esquema de favorecimento na Virada Cultural
Uma das únicas iniciativas de cultura na cidade – que dura dois dos 365 dias do ano – a Virada Cultural foi alvo de denúncias sobre um suposto esquema de favorecimento a um grupo de empresas. Revelada pelo SPressoSP, a denúncia atinge pessoas da gestão Kassab, em especial José Mauro Gnaspini, assessor do secretário de Cultura Carlos Augusto Calil. O Ministério Público instaurou inquérito civil para investigar os contratos das empresas que participaram do evento. Após as reportagens do SPressoSP, outro denunciante revelou que o contrato de um dos trabalhos que fez com a Virada Cultural, depois de pronto, foi refeito para que se acrescentassem mais 10 mil reais.

Cidade proibida
As proibições de Kassab foram a marca de suas gestões, sempre sem consulta popular via decreto. Inimagináveis, elas viraram motivo de chacota nas redes sociais, com direito a Tumblr e Marchinha do Proibidão. O prefeito proibiu desde feirante poder gritar em feira livre até mendigo de deitar em banco de praça, que passaram a ter barras de ferros “antimendigos”. Aliás, na ligação das avenidas Paulista e Doutor Arnaldo, ele colocou construções de concreto, com piso de chapisco com superfície das rampas, áspera e irregular, para impedir a permanência de moradores de rua. Há mais de 50 anos na Praça Roosevelt, os feirantes foram proibidos de permanecer no local, tiveram que mudar para outra rua. O ápice de suas proibições foi a tentativa de acabar com a distribuição de sopa a moradores de rua. Com a mobilização da população, o prefeito foi obrigado a recuar.

 
Colaborou: Adriana Delorenzo

Dois dos principais artistas da periferia de São Paulo, Criolo e Emicida, já confirmaram presença no evento que está sendo convocado pelo Facebook para o próximo domingo (21). Depois do Festival “Amor sim, Russomanno não”, que reuniu milhares na Praça Roosevelt, agora é a vez do “Existe Amor em SP”.

Além dos rappers, Gaby Amarantos e Karina Buhr prometeram participar. O evento é promovido por dezenas de coletivos e ativistas. Um dos grupos que está organizando é o Fora do Eixo.

A praça que ficou rosa-choque há 15 dias deve reunir milhares novamente. “São pedestres, ciclistas, trabalhadores, desempregados, artistas, ativistas, cidadãos de todos os bairros que estão se encontrando, articulando e descobrindo que, juntos, podem ocupar a rua em nome de uma cidade mais pública, humana, inclusiva e gentil”, diz a página do evento no Facebook.

O festival acontece a partir das 14h, qualquer pessoa pode participar, a única recomendação é ir vestido de rosa-choque.

O candidato tucano José Serra ativou o que existe de mais terrível na política, o discurso do ódio contra um grupo social para tentar tirar proveito eleitoral. Serra, porém, terceirizou os ataques ao invés de fazê-los pessoalmente. Quem fala por ele no discurso anti-homossexuais é o bispo Silas Lima Malafaia, pastor carioca, com formação em psicologia e lider da Assembleia de Deus-Vitória em Cristo.

A estratégia da dupla foi desmascarada recentemente em reportagem do Portal Terra, que fotografou no IPad de Serra uma mensagem com o seguinte conteúdo: “Ele (Malafaia) pediu para avisar que não vê problema em você se desvincular dele nas entrevistas”.

O link está aqui.

Ou seja, Malafaia faz o papel de anjo do mal atacando Haddad e os homossexuais e Serra pode posar de bonzinho, dizendo que as declarações dele não tem nada a ver com a sua campanha.

Se refestela com os votos do preconceito, mas tenta escapar da rejeição que isso causa. É mais uma ação nefasta e reveladora do caráter do candidato tucano.

Principalmente, porque o que Malafaia faz não é defender ideias. É estimular o ódio contra uma população que tem sofrido todos os tipos de violência na história recente do país. É um discurso, sim, homofóbico. Malafaia é o pastor que falou que os cristãos deveriam “baixar o porrete” e “entrar de pau” contra os participantes da Parada Gay em São Paulo. E que agora diz que “vai arrebentar em cima de Haddad” e conclama evangélicos a “não darem refresco para ele”.

A terceirização desses ataques soa ainda mais irônica porque é feita por um pastor do Rio de Janeiro. Serra escala um carioca para atacar Haddad. Logo ele, um candidato tão cioso do seu paulistanismo provicinciano e que criticou a presidenta da República por vir “meter o bico” nas eleições da cidade.

Pela lógica serrista, uma presidenta da República manifestar apoio a uma candidatura do seu partido é “meter o bico”. Mas um pastor vir para São Paulo estimular o ódio contra um grupo social estimado em 18 milhões de brasileiros, pode.

O bico de Malafaia interessa eleitoralmente ao bicudo Serra. E ele não tem nenhum escrúpulo em usá-lo, mesmo que isso estimule ações de violência como as que tem se repetido na Avenida Paulista e no seu entorno.

A verdade é que Serra está fazendo de tudo para que a eleição de São Paulo se transforme num pântano, porque sabe que é na imundice que suas chances aumentam.

Mas a São Paulo da diversidade pode derrotar a dupla Serra e Malafaia. E o melhor, sem abrir mão de princípios de respeito à libedade e aos direitos humanos. De alguma forma seria um ajuste de contas com 2010, quando o discurso do ódio serrista fez a candidatura de Dilma recuar em vários temas defendidos por mulheres e grupos LGBT.

Os institutos de pesquisas e os resultados que produzem se tornaram instrumentos importantes tanto de arrecadação como de desequilíbrio no jogo eleitoral.

O caso do Datafolha em São Paulo é exemplar, mas não é o único. O instituto dos Frias manteve o candidato petista sempre em terceiro lugar e com relativa distância dos seus opositores. Em vários momentos da campanha, treckings e pesquisas realizadas por empresas já apontavam Haddad embolado com Serra.

No sábado anterior ao pleito, o Datafolha entrevistou 3.959 pessoas e cravou Serra, 28, Russomanno, 27, e Haddad, 24. Errou feio. Faltavam apenas algumas horas para a eleição cujo resultado foi  Haddad com com sete pontos à frente de Russomanno. Quando o Datafolha afirmou que ele estava a três pontos atrás. Uma diferença de 10 pontos.

Pode-se dizer que o problema é metodológico, mas depois do que vi e vivi em Bragança Paulista onde contribui na comunicação do candidato a prefeito que venceu a eleição por apenas 21 votos, passei a ter convicção de que há algo muito mais do que estranho no reino das pesquisas eleitorais.

Nos dias 24 e 25 de setembro, o Ibope fez uma pesquisa na cidade encomendada pelo jornal Diário de Bragança, veículo vinculado ao grupo político da família Chedid que apoiava o candidato derrotado do DEM, o médico Renato Frangini. Pelo resultado, que virou imediatamente a estrela do programa eleitoral do candidato e que passou a ser veiculado insistentemente na rádio FM do mesmo grupo político, o candidato estava disparado na frente com 37%. E o do PT, Fernão Dias, tinha apenas 23%.

Uma diferença de 14% a dez dias da eleição.

Acontece que além de ter pesquisas de outros institutos que registravam a eleição embolada, com pequena vantagem para o candidato do DEM, a campanha de Fernão Dias também havia tido acesso a uma pesquisa do mesmo Ibope, contratada por um empresário local. O campo havia sido realizado praticamente nos mesmos dias da contratada pelo jornal e nela a diferença entre o candidato do DEM e o do PT era de apenas 4%.

Evidente que um resultado com diferença de 10% em pesquisas realizadas pelo mesmo instituto praticamente nos mesmos dias enseja mais do que uma desconfiança de um problema metodológico na apuração dos resultados.

Mas como essa pesquisa pareceu não ter sido suficiente para enterrar as chances do candidato do PT na cidade, as vésperas da eleição o jornal Gazeta Bragantina publicou outra ainda mais favorável ao candidato do DEM, onde ele vencia por 39,7% a 18,4%.

E para completar a lambança, na sexta-feira (dia que o jornal não costuma circular) esse mesmo Gazeta Bragantina fez uma edição especial vinculando o PT a atos criminosos. A tiragem foi muito superior à normal e o jornal foi distribuído em quase em todas as casas da cidade. O PT representou contra o jornal e a justiça eleitoral condenou-o a veicular direito de resposta para o partido, o que vai acontecer na próxima edição, com a eleição já decidida.

Mesmo assim, o candidato Fernão Dias venceu por 21 votos.  É quase certo, porém, que a vitória teria sido mais folgada não fosse toda essa armação entre mídia local, grupos conservadores e institutos de pesquisa.

O que vivenciei em Bragança certamente se repetiu em várias outras cidades do Brasil. E o que o Datafolha tentou fazer com Haddad, em São Paulo, talvez passe pelo mesmo circuito do que vivenciei na região bragantina. Essa relação entre grupos de pesquisa, veículos de mídia e partidos políticos têm sido uma tônica. E desequilibram a disputa política. É preciso denunciar e levar à investigação casos como este. Antes que isso se naturalize no processo eleitoral.

PS: A proposito, o resultado final percentual em Bragança foi Fernão Dias 38,07% e Frangini, 38,05. Como podem notar, muito diferente dos apontados pelas pesquisas.