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A Virada Cultural é um dos principais eventos da cidade de São Paulo, tanto pelo seu gigantismo de público, como pelo fato de que no dia em que acontece, a cultura ocupa as ruas e o centro da pauta. Neste final de semana, isso ficou ainda mais claro. Mesmo com uma final de Campeonato Paulista programada, o paulistano ficou mais ligado na Virada Cultural do que no futebol. Isso é algo para se pensar.

O fato de ser um sucesso de público é algo notadamente importante para a vivacidade cultural da cidade, mas não significa dizer que ela é um evento que está resolvido. Que não deve ser melhorado e repensado em alguns aspectos. Antes de entrar nesta seara, porém, vale um parêtenses. No ano passado, o SPressoSP publicou uma série de reportagens denunciando que a Virada não era só um evento importante, mas que também teria se tornado um negócio interessante para algumas empresas e servidores públicos. Algumas das reportagens dessa série podem ser lidas, aqui, aqui, aqui e aqui. Vale a pena relê-las para refletir sobre algumas questões. Uma delas, é a de que uma das pessoas denunciadas naquele episódio continua à frente da Virada na edição deste ano, mesmo com a mudança do governo. E nem isso  impediu que o ex-prefeito José Serra acusasse o evento de estar aparelhado pelo PT pelo seu twitter: “ Só me preocupa que a Virada Cultural seja usada para aparelhamento político-partidário, o que já começou a acontecer este ano”, escreveu hoje.

A verdade é outra. Neste ano, não foi uma única pessoa que mandou sozinha na Virada. A atual administração acertadamente constituiu uma curadoria com pessoas respeitadas no meio cultural. A comissão participou da definição dos palcos, convidados etc. Muita gente boa foi convidada para essa curadoria e você pode conhecê-los aqui.

Esse é um avanço que precisa ser registrado. Essa curadoria da Virada Cultural não pode se desintegrar. Ela pode até ganhar nos integrantes, mas precisa ser permanente para realizar uma mudança no seu conceito. Que a Virada seja menos um evento. E seja mais um processo. O que não significa, em absoluto, terminar com o evento ou torná-lo algo insignificante.

Muita gente séria já defende isso há algum tempo em São Paulo. Há uma necessidade de incorporar a lógica das viradas no dia a dia da cidade. E não apenas em uma data específica. O espaço público precisa ter mais cultura nos finais de semana e isso pode e deve ser feito com intervenções na circulação quando necessário. Além disso, o que há algum tempo já se discute é que a Virada Cultural não poderia ser algo apenas a se realizar no Centro. E esse foi um dos equívocos desta edição. Tudo foi canalizado para o Centro, radicalizando uma opção que já ganhava corpo na gestão Serra/Kassab. Há, na cidade, muitos outros centros, que precisam de cultura e visibilidade. Por que não colocar a Daniela Mercury para tocar em Itaquera? Por que não espalhar a Viradinha, que foi uma excelente ideia, pelos bairros da cidade? Por que não levar programação para a terceira idade para todos os pontos da cidade, fazendo com que a Virada ganhe um público que não vai ao Centro de madrugada por motivos óbvios?

Evidente que esse processo seria impossível de ser construído pela atual gestão que assumiu apenas em janeiro com a responsabilidade de organizar entre outras coisas, o aniversário da cidade, parte do Carnaval e agora a Virada Cultural. É muita coisa, para ser realizada e transformada  em curto espaço de tempo. Por isso é preciso começar a olhar desde hoje para frente. Pensar na Virada de 2014, que acontecerá nas proximidades da Copa do Mundo.

Além dessa questão da descentralização e do processo, outra mudança importante é que a Virada Cultural não pode continuar sendo um balcão de negócios nos dias que a antecedem. É preciso abrir editais com muita antecedência para que aqueles que desejarem dela participar se inscrevam e possam ser avaliados pelos curadores. Outro ponto importante a se resolver é a negociação dos valores dos shows e atrações. Isso não pode acontecer no varejo. É necessário que se definam faixas de pagamento e que as atrações sejam classificadas nessas faixas a partir de critérios bem objetivos. Isso ou que o próprio interessado dispute no segmento de cachê que ele considera que se encaixa. Por exemplo, serão 50 atrações de chachê A, 200 de cachê B e 500 de C. O grupo interessado se inscreve para disputar a participação no cachê que considera sua faixa.

Outro avanço, seria que a escolha dos palcos da Virada passasse por uma audiência pública com grande antecedência para que a cidade se envolvesse neste debate da ocupação dos espaços públicos.

Por fim, mas não menos importante. A grande notícia da Virada nos portais durante o dia de hoje foi a da violência que teria levado duas pessoas à morte e ferido várias outras. Esse é um tópico que não pode se perder de vista num evento deste porte. Há quem esteja levantando a hipótese pelas redes sociais de que o governo do Estado não teria atuado com a devida responsabilidade. E que a PM teria feito corpo mole no combate, por exemplo, aos arrastões. Essa matéria do UOL, por exemplo, também precisa ser lida com atenção. O Ministério Público poderia investigar essas suspeitas. Mas também a questão da segurança precisa ser pensada na lógica do processo.

É importante que a Virada Cultural seja grande, mas não é o seu gigantismo que a define como importante. Por isso, seria bom que a edição deste ano fosse o início do seu recomeço. E não a reafirmação do modelo anterior. E se há algo que pode simbolizar essa renovação é a foto do prefeito Fernando Haddad assistindo, em meio ao público, ao show dos Racionais MC´s.  A periferia no centro. O centro na periferia. As trocas que a Virada Cultural permite fazer, precisam ser incorporadas no pensar das cidade.

 

(Foto: Divulgação)

 

Ontem em uma entrevista coletiva sobre o caos na segurança pública de São Paulo e as chacinas da periferia, o governador Geraldo Alckmin ao fazer seu balanço afirmou que está na hora de discutir a legislação federal que, segundo ele, seria frágil do ponto de vista da punição, principalmente para os jovens.

Na entrevista, o governador insistiu em falar a palavra federal, numa clara tentativa de buscar tirar do seu colo o massacre das últimas semanas. Alckmin não disse claramente, mas insinuou que vai iniciar uma cruzada pela mudança da legislação no que diz respeito à maioridade penal e a penalização de menores.

A entrevista do tucano deu a senha para que, principalmente, comunicadores de rádio, começassem a tocar bumbo no sentido de que “as coisas não podem mais continuar do jeito que estão”.

E aí surgem as soluções: diminuição da maioridade penal e penas mais duras. Entre eles, alguns já começam a pedir a aprovação da pena de morte no país.

Não se discute por que no momento em que São Paulo vive uma das suas piores crises de segurança o Rio de Janeiro esteja conseguindo melhorar em muito a sua gestão neste setor, obtendo bons resultado no processo de pacificação de parte do seu território.

Essas contraditórias realidades não são debatidas na mídia tradicional paulistana. O umbigo tucano paulista não permite que experiências bem sucedidas em outros estados sejam sequer discutidos. E nem que os resultados de diferentes políticas públicas sejam confrontados.

A São Paulo tucana é o centro do mundo e se há algo errado aqui o problema são os outros. A lei federal é que é responsável pelas centenas de assassinatos das últimas semanas e não os erros acumulados nos sucessivos governos tucanos.

Aliás, os erros desses sucessivos governos tornaram os aparelhos de segurança no estado tão ruins ou piores do que eram na época da ditadura militar. A polícia de São Paulo não é democrática e o cidadão comum, principalmente de periferia, não confia nela. No máximo, a teme. Até por saber que ela está contaminada por membros ativos na cadeia do crime. Tanto que muitos dos policiais assassinados no recente período são da corregedoria. E o cidadão esclarecido sabe que quem confronta o policial da corregedoria não é o bandido clássico, mas o bandido policial que é investigado por esse departamento.

Mas, Alckmin continua fazendo de conta. E no seu mundo de faz de conta, tem a mídia tradicional para lhe fazer coro. E o grito da vez será endurecer a lei para que mais jovens pretos e pobres sejam confinados e retirados da vida social. Permitindo que os bandidos de fato continuem o massacre.

A crise é tão pesada, que as pessoas estão com medo, inclusive, de tratar do problema de forma clara. Incluindo jornalistas e estudiosos de segurança.

André Camarante, da Folha de S. Paulo, está vivendo fora do Brasil porque ousou fazê-lo. E a Folha está calada em relação a isso porque não ousa desagradar os tucanos. E Alckmin? Ué, ele culpa o federal. E pede uma lei mais dura, bem dura. Para jovens, que em geral são pretos e pobres.

 

 

Segue um texto porrada do meu amigo Sérgio Vaz. Neste sábado, começa a 5a mostra da Cooperifa, no Sesc Santo Amaro.

 

PAZ NA PERIFERIA

Se homicídio fosse esporte olímpico, São Paulo ganharia medalha de ouro. Mas como não é, ficamos nós com as medalhas de sangue e de lágrimas. E pra mim, nenhuma vida vale mais do que a outra, porque quem morre, deixa mais do que saudade, deixa família, filhos, lembranças… O homicídio é um crime extremamente deselegante.,
É assustador tudo que está acontecendo na periferia pauli

 stana, é como se voltássemos ao final dos anos 80 e início dos anos 90, onde todos tínhamos medo de sairmos às ruas e sermos executados pelo simples fato de existirmos.
Pois é, esses dias estão de volta. O medo e a morte tomou conta das ruas.
A chacina é uma viagem que te leva mesmo você não tendo passagem.
Não vejo outra forma de combater o crime, que não a educação pública de qualidade.
Nós abandonamos as crianças, os professores e o ensino público, agora estamos com o cu na mão com medo dos adultos.
As Escolas públicas estão parecendo privadas, e só agora essa sociedade hipócrita está sentindo o cheiro, através desses crimes bárbaros de jovens que sangram nas calçadas quando deviam estarem suando nos bancos das universidades. Ah!, é contra as cotas raciais, né? Se quiserem podemos reservar uma cota de violência pra vocês. É, essa violência que vocês vem nos jornais, e nós, ao abrirmos as janelas… e desde sempre.
Muitas vezes o resultado de ensino de qualidade mínima é presídio de segurança máxima.
Podem mandar tanques de guerras, aviões da FAB, invadirem favelas, matarem todos nós nas esquinas escuras da periferia, porque se não investirem na educação, vão ter que continuar matando, matando, matando…porque vocês já sabem quem morre: nós os brasileiros pobres e pretos.
As pessoas pedem a redução da maioridade penal, eu quero o aumento da maioridade educacional.
Chega de convites para enterros e visita em presídios, quero convite para assistir formaturas.
Viver, ainda que doa, é melhor do que deixar saudades, porque nenhuma vida é maior que a outra. Ela vale tanto para o Elefante como para a formiguinha.No silêncio da noite, um grito. No grito da noite, o silêncio.Se puderem, tenham paz.

Sergio Vaz
poeta

 

Sergio Vaz
 S

As pesquisas de opinião dão uma diferença de 15 a 20 pontos nos votos válidos à favor de Haddad. Com essa margem de segurança, ele só colocaria sua eleição em risco se fosse massacrado no debate da Globo. Dúvido que alguém seja suficientemente maluco para dizer isso. Aliás, isso é quase praticamente impossível no formato Globo. Como a Globo é ruim de debates.

Mas no que diz respeito ao conteúdo, Serra voltou a insistir no mensalão e na questão das OS na área de saúde, os seus temas preferenciais neste segundo turno. Haddad buscou destacar que seu plano de governo foi produzido por especialistas e que a coligação de Serra teve 8 anos à frente da cidade para fazer aquilo que ele promete agora.

Uma das promessas de Serra foi a de iluminar São Paulo inteira em 1 ano. Falou isso sem corar. Como se não tivesse feito parte de quase todos os governos estaduais desde 1982. E como se seu grupo não estivesse à frente da prefeitura há 8 anos.

O momento mais hilário do encontro foi quando o tucano disse que não tira suas propostas da cartola, mas sim da cachola. Os tuiteiros que debatiam o debate se divertiram.

Em suma, Haddad foi melhor nos dois primeiros blocos e se enrolou um pouco no último, permitindo pequena vantagem para Serra. Se fosse um jogo de futebol, o resultado teria sido um 2 a 1 sem emoção. E sem ter animado as torcidas.

No atual momento, isso é muito melhor para Haddad. Até porque, eleição é campeonato e ele está com muitos pontos à frente.

A virada se tornou praticamente impossível.

Dois dos principais artistas da periferia de São Paulo, Criolo e Emicida, já confirmaram presença no evento que está sendo convocado pelo Facebook para o próximo domingo (21). Depois do Festival “Amor sim, Russomanno não”, que reuniu milhares na Praça Roosevelt, agora é a vez do “Existe Amor em SP”.

Além dos rappers, Gaby Amarantos e Karina Buhr prometeram participar. O evento é promovido por dezenas de coletivos e ativistas. Um dos grupos que está organizando é o Fora do Eixo.

A praça que ficou rosa-choque há 15 dias deve reunir milhares novamente. “São pedestres, ciclistas, trabalhadores, desempregados, artistas, ativistas, cidadãos de todos os bairros que estão se encontrando, articulando e descobrindo que, juntos, podem ocupar a rua em nome de uma cidade mais pública, humana, inclusiva e gentil”, diz a página do evento no Facebook.

O festival acontece a partir das 14h, qualquer pessoa pode participar, a única recomendação é ir vestido de rosa-choque.

Poucas vezes a cidade de São Paulo foi tão a cidade desejada quanto ontem no Teatro Jaraguá.

(Foto: Paulo Pinto)

Quando se fala da São Paulo cosmopolita, criativa, antenada, global, fala-se dessa São Paulo que na noite de ontem declarou apoio a Haddad.

Quando se fala da São Paulo solidária, coletiva, participativa e que recebe a todos de braços abertos, fala-se dessa São Paulo que na noite de ontem declarou apoio a Haddad.

Quando se fala da São Paulo inteligente, questionadora, inquieta e fascinante, fala-se dessa São Paulo que na noite de ontem declarou apoio a Haddad.

Quando se fala da São Paulo displicente, irreverente, antropófaga, fala-se dessa São Paulo que na noite de ontem declarou apoio a Haddad.

Quando se fala da São Paulo que estuda, que rala, que não se entrega, que defende suas ideias, fala-se da São Paulo que na noite de ontem declarou apoio a Haddad.

Quando se fala da São Paulo que inventa, que resiste, que recicla fala-se da São Paulo que na noite de ontem declarou apoio a Haddad.

Quando se fala da São Paulo que é poesia, filosofia, samba, arquitetura, psicologia e magia, fala-se da São Paulo que ontem declarou apoio a Haddad.

(Foto: Edgar Bueno)

Quando se fala da São Paulo dos direitos humanos, da dança, do direito,  do cinema, da economia e do digital , fala-se da São Paulo que ontem declarou apoio a Haddad.

Quando se fala da educação, da paixão, da comunicação e de muito tesão, fala-se da São Paulo que ontem declarou apoio a Haddad.

Quanto se fala da São Paulo que é de todos e de ninguém, que é Bossa Nova e Tropicália, que é de imagens e ritmos, fala-se da São Paulo que ontem declarou apoio a Haddad.

Toda a cultura de São Paulo está com Haddad e foi declarar seu amor a São Paulo no hotel Jaraguá na noite de ontem.

Este ato foi um marco da história da cidade.

São Paulo merece.

Fred Haddad ajuda Roberto Schwarz a ler carta de Antonio Candido em apoio ao candidato petista (Foto: Edgar Bueno)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A psicóloga Maria Rita Kehl (Foto:Edgar Bueno)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A educadora Anita Freire, viúva de Paulo Freire (Foto: Edgar Bueno)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O escritor Fernando Morais (Foto: Paulo Pinto)

As propostas de Russomanno são tão bizarras que, quando ele tenta explicá-las, só piora as coisas. A de cobrar a passagem por quilômetro rodado é talvez a mais absurda de todas. E transformaria não só o sistema público de transporte da cidade numa maluquice, como aprofundaria ainda mais a segregação entre zonas pobres e ricas.

Em São Paulo, quem mora mais longe do centro são as pessoas de menor renda. É diferente das metrópoles de países de primeiro mundo, onde os ricos vivem nos vales em belas casas distantes do centro.

Aqui a especulação imobiliária vai afastando as pessoas que ganham menos para as bordas da cidade. Enquanto isso, a maior parte dos equipamentos culturais, dos empregos, dos hospitais, das faculdades, dos prédios administrativos se encontra na zona Central. E os que moram em zonas distantes terão de pagar mais para acessar essa cidade que deveria ser de todos.

Em relação à questão do emprego, o drama vai ser ainda maior. Se esse sistema russomannistico vier a vigorar, o contratante vai passar a considerar de forma muito forte a distância que a pessoa a ser contratada mora em relação ao emprego.

Neste caso, a doméstica que hoje trabalha na Zona Oeste, em bairros como Pinheiros, Vila Mariana, Jardins etc., mas mora em Guaianases, Marsilac, Cidade Tiradentes, São Mateus, Jardim Pantanal, vai ser preterida por aquela que mora no Butantã, Pirituba etc. O empregador(a) vai preferir contratar sempre alguém que more mais perto. Isso vai valer para o operário da construção civil, de metalúrgicas, para a garota que trabalha nas centrais de telemarketing etc.

Quanto mais longe a pessoa vier a morar, mais excluída do mercado de trabalho ela será. Mas, ontem no debate da Gazeta na ânsia de mostrar que a proposta não era ruim, Russomanno afirmou que o sistema de aferição das distâncias iria funcionar por biometria. Ou seja, bastaria o usuário colocar a digital nas máquinas de controle que seriam instaladas em todos os ônibus na porta de entrada e de saída e as distâncias iriam sendo contabilizadas.

Quem usa sistema de biometria sabe o quão problemático é. Muitas academias que tinham adotado-o, por exemplo, passaram a substituí-lo por cartões, porque a digital de muitas pessoas não é facilmente registrável.

Um amigo que trabalha nesta área me disse que há problema para identificação de digitais pelo sistema de biometria em aproximadamente 10% das pessoas.

Imagine no horário de pico o que aconteceria se esse sistema fosse utilizado para registro de distâncias em ônibus? Imagine o custo de manutenção desses equipamentos? Imagine o custo de uma licitação para contratar a empresa que iria instalar o equipamento em todos os ônibus? Imagine o risco de todas as digitais das pessoas de São Paulo ficarem à disposição de uma empresa privada?

Afora tudo isso, a proposta de Russomanno ainda deixaria todos os cobradores de ônibus desempregados. Mas para alguém que defendeu no Congresso a mudança do termo estupro para assalto sexual nada é estranho, tudo é pintado como lindo e maravilhoso. E pode se resolver com a frase: “nós vamos fazer o melhor para São Paulo”.

O Datafolha divulgou novas pesquisas eleitorais em algumas capitais brasileiras. Afora as que listei no título, o instituto também traz o resultado de Curitiba. Confesso que é uma das que menos me interessa das grandes cidades. Não existe um único candidato da capital paranaense com história vinculada aos movimentos sociais. Por isso, deixei a capital de lado na análise que segue.

São Paulo apresenta um resultado aparentemente surpreendente, mas que tem lógica. Com a desistência de Netinho, que tinha 6% no último DataFolha, a tendência era que os candidatos mais conhecidos na periferia da cidade, onde se concentravam seus votos, crescessem. Dois deles tinham mais chances, Serra e Russomano. Haddad, Chalita e Soninha são pouco conhecidos nos bairros populares.

O que surpreende é que mesmo com a desistência de Netinho, Serra tenha variado negativamente um ponto. Ele tinha 31% em 25 de junho e agora tem 30%.

A análise que se pode fazer desse movimento é que a cidade não quer Serra prefeito. E que o tucano pode ter chegado ao seu teto. Ou seja, mesmo com a desistência de adversários, não cresce.

Outra questão importante é que na mesma pesquisa 40% dos eleitores dizem que tenderiam a votar num candidato indicado por Lula. Ou seja, Haddad tem ao menos este potencial de votos, porque Lula vai trabalhar intensamente pela sua candidatura. Por outro lado, 72% dos eleitores não votariam num candidato apoiado por Kassab. Isso pode levar Haddad a passar o tucano ainda no primeiro turno. É uma previsão arriscada, mas é algo que não surpreenderia. Basta que João Santana consiga colar Lula em Haddad e Serra em Kassab que isso pode se configurar. A ameaça de Haddad é alta rejeição do apoio de Maluf, 77%. Espera-se que o 1,5 minuto que o petista vai ter na TV seja suficiente para aliviar essa carga negativa chamada Maluf.

A candidatura de Russomano não deve ser desprezada, mas é preciso verificar em que patamar estará depois de duas semanas de horário eleitoral. A tendência é que Haddad cresça no eleitorado dele, que é o eleitorado de Lula.

Outro ponto negativo para o tucano é seu índice de rejeição de Serra, 37%. Não chega a inviabilizá-lo para a disputa num segundo turno, mas é muito alto. Seu marqueteiro deve estar bastante preocupado.


Rio de Janeiro

Os 10% de Marcelo Freixo  (PSoL) contra os 54% de Eduardo Paes (PMDB) parecem uma enorme distância. E são. Mas levando em consideração que um tem o apoio de quase todos os partidos e é prefeito e o outro tem apenas um movimento de parte da sociedade civil a ampará-lo, é preciso ficar atento.

Freixo tem potencial de crescimento se utilizar seu pequeno tempo no horário eleitoral para enviar mensagens diretas e agudas, com soluções para problemas crônicos do Rio. E pode ganhar musculatura se nos debates conseguir encurralar o atual prefeito.

Em isso acontecendo, como o Rio que é uma cidade que permite ondas. Não surpreenderia que vivesse mais uma. E aí, Paes terá vida dura. Por ahora, é favoritíssimo.

 

Belo Horizonte

O atual prefeito Marcio Lacerda (PSB), apoiado por Aécio, tem 44%. O ex-ministro Patrus (PT), 27%. Para quem tinha uma eleição tranqüila, Lacerda abriu a guarda e passa a ter a renovação de seu mandato em risco.

Quem conhece Patrus sabe que ele é o mineiro típico. Daqueles que come pelas bordas e espera o centro do prato esfriar. O lançamento de sua candidatura saiu meio que atabalhoadamente, mas empolgou boa parte da cidade e dos movimentos sociais que estavam decepcionados com o PT.

Desde a gestão de Fernando Pimentel que parte da esquerda está em crise com os rumos da administração da cidade.

Se Patrus souber canalizar este sentimento de insatisfação para a sua candidatura, sua campanha crescerá nas ruas. Some-se a isso o fato de que a presidente Dilma agora está tratando da campanha de BH como uma de suas prioridades, a eleição por lá promete.


Porto Alegre

O favoritismo já imaginado por este blogueiro da candidatura do atual prefeito, José Fortunati (PDT) está se confirmando. Ele abriu 8% em relação à deputada Manuela (PCdoB). Já o candidato petista Adão Villaverde corre o risco de ter o pior desempenho da história do partido. No momento tem apenas 3%.

O eleitorado brasileiro é conservador e um detentor de cargo executivo tem que se esforçar muito para não se reeleger. Fortunati não tem uma avaliação ruim e isso o coloca em boa situação para disputar novo mandato.

Manuela terá de ser muito criativa para superar essa dificuldade. Para Villaverde, essas dificuldades parecem quase intransponíveis.

 

Recife

Com 35%, Humberto Costa (PT) está em primeiro, seguido pelo ex-governador Mendonça Filho, 22%. Mas quem parece ser o grande adversário do petista é Geraldo Júlio (PSB) que tem 7%, mas que com o apoio do governador Eduardo Campos deve crescer.

Se Geraldo Júlio passar para o segundo turno a eleição de Costa fica ameaçada. Se a disputa for com Mendonça Filho, suas chances são boas.

Muita gente está tratando a disputa de Recife como uma prévia da articulação para a disputa presidencial, mas quem conhece Eduardo Campos diz que sua primeira preocupação é com sua própria sucessão. Sua tese é de que se o PT viesse a reeleger o prefeito da capital iria tentar indicar um nome para disputar o governo.

Se isso era uma possibilidade com a disputa que se avizinha pela capital, agora é uma realidade. Vai ter pau na eleição de Pernambuco entre PSB e PT também em 2014.

A eleição de São Paulo é a mais importante de 2012 não só por conta de ser travada na maior cidade do país, mas porque o maior líder da oposição, José Serra, está na disputa. Se vencer, ele se habilita para novas disputas, podendo se recandidatar a presidência da República em 2014 ou ainda incentivar uma candidatura presidencial de Geraldo Alckmin para poder disputar o governo do estado.

A derrota de Serra praticamente encerra sua participação na vida pública, o que não é pouca coisa. Afinal, desde 2002 é o principal protagonista do PSDB.

Há outras cidades grandes do país que terão disputas interessantes. No Rio de Janeiro, por exemplo, tudo indica que Eduardo Paes (PMDB) vai renovar seu mandato, mas a candidatura de Marcelo Freixo tem conseguido apoio de uma sociedade civil que não está satisfeita com a hegemonia peemedebista no estado. E há gente de todos os partidos que está embarcando na canoa do candidato do PSoL.

Esse movimento é capaz de alterar a lógica da disputa. Até porque, é bom lembrar, na cidade do Rio de Janeiro, Marina Silva ganhou a eleição no primeiro turno presidencial. Há uma grande fatia do eleitorado que pode ser conquistada por Freixo.

Claro que se vier a ganhar a eleição do Rio, o PSoL terá de reinventar e isso será o grande fato novo desta eleição.

Mas há uma disputa que não precisa do “fator surpresa” para ser importantíssima para o que vai acontecer em 2014. É a de Recife. Depois da decisão do governador Eduardo Campos em lançar um candidato do PSB à prefeitura, ficou claro que o PSB pretende ampliar sua hegemonia no Nordeste e que o movimento do partido em Fortaleza, onde também vai ter candidato contra o PT, não foi uma atitude isolada da família Ferreira Gomes.

O PSB quer testar sua força para ou conseguir a vaga de vice na chapa da presidenta Dilma ou para lançar Eduardo Gomes como candidato a presidente buscando criar um novo campo político.

Há também uma possibilidade que não pode ser desprezada. A de o partido preferir ir de Aécio Neves em 2014. Até porque, em Belo Horizonte isso acaba de acontecer. Como o PSDB exigiu que o PT estivesse fora da chapa de vereadores do PSB para apoiar Márcio Lacerda, o partido de Campos preferiu romper com o PT. E ficar com Aécio.

No PT, membros da direção nacional já registraram a movimentação de Campos e por isso ganhar em Recife passou a ser considerado estratégico. Como também passou a ser muito importante vencer em Fortaleza e Salvador. Se vier a perder nessas três cidades, o PT enfraquece demais suas bases nordestinas e pode vir a ter dificuldades na reeleição de Dilma.

Não é só a prefeitura de Recife que vai estar em disputa nas eleições municipais da capital pernambucana deste ano. Há outras coisas em jogo. E tanto PSB e PT sabem disso.

A ex-prefeita Luiza Erundina desistiu de ser candidata a vice-prefeita na chapa de Fernando Haddad (PT) no fim da tarde de hoje.

Ela tomou a decisão após Lula e o candidato terem ido à casa do ex-prefeito Paulo Maluf para selar a aliança com o PP.

Desde sexta-feira que o acordo com o PP estava fechado. Erundina sabia disso.

Na coletiva de imprensa onde se anunciou o nome da ex-prefeita para vice, mais se falou do apoio de Maluf do que qualquer outra coisa.

O que irritou profundamente Erundina foi que o ex-presidente Lula prestigiou o evento de Maluf, mas não foi ao ato de sua indicação a vice.

Lula havia tido alta do hospital no dia anterior, alegam pessoas próximas a ele.

As mesmas fontes dizem que o ex-presidente titubeou muito em ir ao encontro com Maluf. Decidiu na última hora.

O ex-presidente estaria chateado com os rumos que o processo tomou e a avaliação tanto no PT como no seu entorno é de que o apoio de Maluf saiu muito caro para a campanha petista.

Para tentar reverter o episódio, Lula vai se dedicar a convencer o PCdoB a apoiar Haddad já nos próximos dias. E o nome da sambista Leci Brandão, deputada estadual do partido, é um dos que agrada ao candidato e a boa parte dos petistas para compor chapa. Mas a prioridade de indicar o parceiro de chapa de Haddad continua sendo do PSB.

Os socialistas já teriam indicado, entre outros, o nome da deputada federal Keiko Ota, que teve 213 mil votos em 2010, como uma possibilidade. Entre os projetos que Keiko defende talvez o principal seja o de ampliação da pena de crimes hediondos para 100 anos. Ela teve seu filho Ives Ota barbaramente assassinado em 1997.

Mas a definição do vice passa a não ser mais a prioridade da campanha de Haddad. Antes mesmo do anuncio da candidatura da ex-prefeita na chapa, o ex-ministro já tinha chegado a 8%. O objetivo da coordenação da campanha é garantir a consistência desse crescimento.