SEGURANÇA PÚBLICA

EUA ignoram alertas e vendem fuzis ao RJ em meio a lobby por “Lei do Terror” no Brasil

Diversos diplomatas alertaram sobre o risco de execuções e uso político da pauta da segurança

Créditos: Tomaz Silva /Agência Brasil
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O governo dos Estados Unidos aprovou a venda de fuzis de alta precisão ao Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da Polícia Militar do Rio de Janeiro, mesmo após diplomatas e a então embaixadora norte-americana no Brasil alertarem que o armamento poderia ser usado em execuções extrajudiciais.

A transação, de cerca de R$ 800 mil, foi concluída em maio de 2023, segundo documentos obtidos pela agência Reuters, e expõe a contradição entre o discurso oficial de defesa dos direitos humanos e o apoio operacional a forças acusadas de abusos.

A aprovação da venda ocorre num momento em que cresce o lobby de parlamentares e figuras alinhadas ao presidente Donald Trump para que facções criminosas como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) sejam classificadas como organizações terroristas. A medida, já defendida publicamente por políticos da oposição brasileira, abriria brecha para cooperação militar direta dos EUA em território nacional, sob a justificativa de combate ao “narcoterrorismo”.

Entre os principais defensores da liberação dos fuzis estava Ricardo Pita, ex-assessor republicano e atual integrante do Departamento de Estado de Trump. Pita se reuniu em 2024 com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em setembro, para tratar de “cooperação em segurança”. 

Fontes disseram à Reuters que Pita pressionou internamente diplomatas a aprovar não só os fuzis da empresa Daniel Defense LLC, mas também silenciadores fabricados pela Griffin Armament, inicialmente barrados por risco de mau uso.

O caso ocorreu em meio às denúncias internacionais contra o Bope, cuja atuação na operação que deixou 121 mortos no Rio de Janeiro foi condenada por peritos da Organização Nações Unidas (ONU) e organizações de direitos humanos. Os documentos do Departamento de Estado descrevem a tropa como “uma das mais notórias do país em relação a assassinatos de civis”.

A popularidade do Bope entre parte da população carioca, segundo pesquisa do instituto AtlasIntel, chega a 62% no estado do Rio. Para o governo dos EUA, essa aceitação serve de justificativa para o envio de armas “a parceiros confiáveis”. Mas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a polícia fluminense foi responsável por 703 mortes em 2024, número que evidencia o impacto direto da política de militarização apoiada pelos EUA.

A embaixada norte-americana no Brasil e o governo do Rio não se manifestaram. A venda, entretanto, é vista por observadores internacionais como mais um capítulo da pressão diplomática norte-americana para consolidar no país uma agenda de endurecimento penal e de expansão do poder militar sob o pretexto do combate ao crime organizado.

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