Durante as manifestações contra a PEC da Bandidagem e a anistia aos golpistas em Salvador no último domingo (21), o ator Wagner Moura foi filmado ao lado de um homem negro que segurava um sombreiro.
A imagem foi usada por vários perfis de extrema direita, como se o ator fosse um senhor de engenho sendo protegido do sol por um homem negro escravizado.
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A youtuber de extrema direita Juliana Fidelis fez um longo comentário em sua conta do Instagram reproduzindo a versão e fazendo escárnio de Wagner Moura.
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Juliana Fidelis/Reprodução de vídeo
Tudo não passava, no entanto, de mais uma fake news. O homem com o sombreiro, no entanto, é Veko Araújo, que faz parte do Cortejo Afro, um ator que faz parte do movimento Teatro de Rua na Bahia. Ele estava lá como mais uma das inúmeras representações artísticas que se manifestavam contra os desmandos da Câmara e não para proteger ninguém do sol.
Veko Araújo, o “homem do sombreiro”
Nascido na comunidade da Vila Brandão, entre a Igreja da Vitória e Santo Antônio Além do Carmo, em Salvador, o multiartista Veko Araújo se transformou em um dos personagens mais emblemáticos do Cortejo Afro, bloco criado pelo artista plástico Alberto Pitta. Conhecido como o “homem do sombreiro”, Veko é hoje referência na cultura popular baiana, com atuação que atravessa o teatro de rua, a música e a performance.
A história do personagem surgiu de forma inusitada, há cerca de 20 anos, durante um desfile de Carnaval. Veko tomou emprestado um sombreiro das mãos de uma trabalhadora da festa e passou a realizar movimentos coreografados. O gesto, interpretado pelos fundadores do Cortejo Afro como manifestação simbólica, transformou o objeto em ícone do bloco. Desde então, o artista incorporou a figura mítica do “sombreiro man”, que passou a habitar ruas e palcos.
Do teatro de rua ao reconhecimento popular
Formado em Belas Artes e com longa trajetória no movimento de Teatro de Rua da Bahia, Veko vê no Cortejo Afro uma extensão de sua militância artística.
“Como eu venho do Movimento de Teatro de Rua, o Cortejo Afro reafirma minha porção artista: um para-sol e chuva prenunciando a poesia pelas ruas. O bloco consolidou o meu lugar de Mestre da Cultura Popular no Estado da Bahia”, disse em entrevista recente ao Correio.
Arte sem fronteiras
Hoje, Veko Araújo viaja pelo mundo com o Cortejo Afro, levando sua estética única e sua poesia performática a diferentes públicos. Entre cantos, atuações e declamações, ele reafirma a força das tradições populares da Bahia em diálogo com a arte contemporânea.