Imagine depois da Copa…

Imagine depois da Copa…

Protestos contra o Mundial trazem a reflexão sobre qual será de fato o legado do evento para o Brasil

Por Anna Beatriz Anjos

Durante as manifestações de junho de 2013, a pauta de reivindicações se ampliou e incluiu a realização da Copa do Mundo de 2014 (Foto: Wikipedia)

Durante as manifestações de junho de 2013, a pauta de reivindicações se ampliou e incluiu a realização da Copa do Mundo de 2014 (Foto: Wikipedia)

Os protestos do último mês de junho, que mobilizaram milhares de pessoas em todo o país, tinham uma pauta inicial muito especifica: a revogação do aumento de 20 centavos no preço das passagens do transporte coletivo em São Paulo. Com a adesão popular em massa, no entanto, diversas outras reivindicações acabaram vindo à tona. Da legalização do aborto à negação da PEC 37, não eram poucos os clamores por melhorias em várias áreas. E, claro, a Copa do Mundo e a Fifa não foram poupadas pelos manifestantes, que se colocavam, muitas vezes, contra a realização do torneio. Prova disso são os cartazes com os dizeres “Fifa go home”(em português “Fifa vá para casa”), ou um dos gritos mais entoados nas ruas: “Copa do Mundo, eu abro mão. Quero dinheiro pra saúde e educação”.

Para este sábado, 25, estão marcados mais atos contra o Mundial. Um deles ocorrerá em São Paulo, e seu palco será, mais uma vez, a Avenida Paulista. Pelo menos outros 35 foram anunciados para o mesmo dia, em praticamente todas as regiões do Brasil. As manifestações previstas para acontecer até o início da competição variam do “não vai ter Copa”  àqueles que admitem a realização do evento, mas querem garantia de direitos e investimentos em áreas sensíveis à população.

Mais protestos são esperados conforme se aproxima a data em que a bola começará, de fato, a rolar. João Pedro Stédile, um dos líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), disse, em entrevista concedida à Fórum, que acredita na mobilização da juventude. “Estaremos juntos com todas as mobilizações que representem lutas por melhores condições de vida de nosso povo. O lugar privilegiado do povo é fazer política com mobilização nas ruas. Somente pela mobilização poderemos alcançar mudanças. Elas nunca virão do Congresso ou pela vontade iluminada de governantes”, afirmou.

Em vídeo postado na internet no último mês de junho, o ex-atacante Romário, agora deputado federal, também teceu críticas à Copa do Mundo de 2014. Ele declarou que ela é “uma sacanagem com o dinheiro do povo”. “A África do Sul teve um gasto de R$ 7,7 bilhões de reais, o Japão, de R$ 10,1 bilhões, a Alemanha, de R$ 10,7 bilhões, e o Brasil já está com gasto de R$ 28 ponto alguma coisa [bilhões]. Ou seja, desculpe a expressão: sacanagem, né. É sacanagem com o nosso dinheiro, com o dinheiro do povo. É falta de respeito, de escrúpulos”.

Para endossar seus argumentos, Romário elenca alguns dados: com o valor de R$7,1 bilhões, que considerou como sendo o total de verba destinada à construção e reforma dos estádios, o governo poderia entregar à população 8 mil novas escolas, 39 mil ônibus escolares e 28 mil quadras esportivas. Aparentemente, para ele, os gastos com o megaevento poderiam ser investidos em outros setores.

Essas indagações levantam uma questão que parece não estar clara para a maioria dos brasileiros. Como vem sendo organizado o mundial de 2014? De onde sai o dinheiro? Quem são os responsáveis por executar as obras? Haverá benefícios permanentes para a sociedade – o famoso legado?

À procura de respostas

Algumas dessas perguntas, relacionadas ao orçamento, são respondidas pela seção “Copa 2014” do Portal da Transparência, mantido pela Controladoria-Geral da União (CGU), órgão ligado ao governo federal. Segundo o portal, faltando 139 dias para o início da competição, o gasto total previsto é de cerca de R$ 25,9 bilhões. O dinheiro está sendo investido, principalmente, em obras de reforma e construção dos estádios (R$8 bilhões), mobilidade urbana (R$7,9 bilhões), ampliação de aeroportos (R$6,7 bilhões) e segurança pública (R$1,8 bilhões), em valores aproximados. O restante é destinado a obras em portos e às áreas de transporte e telecomunicações, entre outras.

Os custos dos 313 empreendimentos e ações em andamento serão divididos entre vários agentes. De acordo com o 5º balanço das ações do governo brasileiro para a Copa 2014, último divulgado no site do Ministério do Esporte em setembro de 2013 (quando a estimativa de gastos totais era de R$ 25,6 bilhões, inferior em aproximadamente 400 milhões à de hoje), os governos locais (estaduais e municipais) arcarão, ao todo, com R$ 7,6 bilhões; o governo federal, por meio de investimentos diretos, com R$ 5,8 bilhões, e por meio de empréstimos concedidos por bancos federais (como BNDES e Caixa Econômica Federal), com R$ 8,4 bilhões. Já a iniciativa privada assumirá um montante de R$ 3,8 bilhões.Todas essas atribuições, tanto financeiras quanto de execução de projetos, estão definidas na Matriz de Responsabilidade da Copa, documento que estabelece as atribuições de cada setor envolvido na organização do megaevento.

(Foto: Canindé Soares)

A Arena das Dunas (Natal), sétimo estádio a ficar pronto para a Copa, foi inaugurada na última terça-feira (22). Ela será gerida por uma parceria público-privada (PPP) entre a empresa OAS Engenharia e o Governo Estadual do Rio Grande do Norte (Foto: Canindé Soares / Governo do RN)

Cerca de metade (R$ 4 bilhões) dos recursos aplicados nos estádios, destino de quase um terço dos custos, provém de financiamento federal, ainda conforme o balanço. Dados da CGU apontam que o banco que mais investe é o BNDES. Os estados e municípios lançarão mão de R$ 3,8 milhões e o setor privado contribuirá com apenas com R$ 200 milhões, apesar de administrar três das arenas: em São Paulo, Curitiba e Porto Alegre; Corinthians, Atlético Paranaense e Internacional, respectivamente, têm os direitos de exploração. Matéria publicada pela BBC Brasil, em junho de 2013, traz entrevista com o secretário federal de Controle Interno da CGU, Valdir Agapito. Ele explica que, além desses três estádios pertencentes à iniciativa privada, de um total de doze, quatro são públicos e foram/estão sendo construídos ou reformados pelos governos estaduais (Brasília, Manaus, Rio de Janeiro e Cuiabá) e cinco estão a encargo de esquemas de Parcerias Publico Privadas, as PPPs, (Salvador, Natal, Fortaleza, Recife e Belo Horizonte).

Projeções do governo: superestimadas?

Em 2010, o governo federal divulgou dois estudos que estabelecem previsões acerca dos impactos econômicos do Mundial de 2014 sobre o Brasil. Um deles, encomendado junto à empresa de consultoria Value Partners pelo Ministério do Esporte, prevê que os impactos econômicos com a Copa do Mundo podem chegar a R$ 183 bilhões. O texto também avalia que, de 2009 a 2014, 332 mil empregos permanentes seriam gerados e, só em 2014, haveria a criação de outros 381 mil temporários. Os incrementos no consumo chegariam a R$ 5 bilhões também no período de 2009-2014, a arrecadação total de impostos aumentaria em R$ 16,8 bilhões, os investimentos em infraestrutura – tanto no campo da construção civil, que engloba obras relacionadas a estádios, mobilidade urbana e aeroportos, como no campo de serviços, que inclui hotelaria, telecomunicações, energia, segurança e saúde – atingiriam a casa dos R$ 33 bilhões e ao PIB médio se acrescentariam R$ 47 bilhões, valor que representa 0,26% de crescimento (2010-2014). O setor do turismo também seria bastante beneficiado: 600 mil turistas estrangeiros e 3,1 mil brasileiros gastariam um total de R$9,4 bilhões durante o torneio.

O outro estudo, realizado pela consultoria Ernst & Young em parceria com a FGV Projetos, traz números um pouco diferentes, mas igualmente otimistas. Ele avalia que a economia “deslanchará com uma bola de neve” e produzirá, entre 2010 e 2014, cerca de R$ 142,3 bilhões adicionais. No mesmo período, seriam criados 3,6 milhões de empregos com duração de um ano e os tributos arrecadados sofreriam um aumento da ordem de aproximadamente R$18,1 bilhões. Para finalizar as previsões, o trabalho conclui que o PIB (2010-2014) seria elevado em R$ 64,5 bilhões, o que corresponde a 1,8% do valor da época, segundo o IBGE.

Os dados extremamente positivos sustentados pelo governo não são unanimidade e há especialistas que os consideram exagerados. Um deles é o economista Marcelo Weishaupt Proni, professor do Instituto de Economia da Unicamp, que, junto ao colega Leonardo Oliveira da Silva, escreveu, em 2012, o estudo Impactos econômicos da Copa do Mundo de 2014: projeções superestimadas. O texto se propõe a analisar os prováveis efeitos do campeonato no país, mostrando porque eles foram superestimados nas pesquisas divulgadas pelas autoridades.

Para tecer a argumentação, o trabalho cita o artigo “Copa do Mundo 2014: impactos econômicos do Brasil, em Minas Gerais e em Belo Horizonte”, produzido em 2010 por três economistas do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional de Minas Gerais (Cedeplar), vinculado à Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os pesquisadores se basearam no orçamento inicial de R$ 15,4 bilhões divulgado pelo Ministério do Esporte, mas já apontavam previsões bem menores de retorno do que as estipuladas pelos dois estudos. Entre elas, as de que os aumentos no PIB e no nível de emprego seriam de apenas 0,7% e 0,5%, respectivamente, em relação a um cenário em que a Copa não acontecesse.

Segundo Proni, as projeções do governo escaparam à realidade por conta de uma somatória de fatores. Entre eles, o de que foram calculadas em um momento de muito otimismo em relação ao desempenho da economia brasileira. “Por volta de 2009, 2010, havia uma confiança muito grande de que nossa economia se recuperaria rapidamente da crise econômica (de 2008). Em 2011, aconteceu uma desaceleração do crescimento e uma mudança nas perspectivas”, explica. Outro fator é que o governo esperava maior participação da iniciativa privada no processo, o que, na prática, não ocorreu. Para o economista, quanto menor a presença desse setor na composição dos gastos, menor é o impacto positivo que esses eles têm na economia. “O governo assume a responsabilidade dos encargos e encontra limitações para aplicar recursos em outras áreas”, explica.

O estudo do Cedeplar também considera que, por conta do baixo investimento privado, os impactos positivos da Copa tendem a diminuir, pois a dívida pública aumenta e os gastos do governo são realocados. O consultor em gestão esportiva Amir Somoggi é mais um que concorda com a hipótese. “É um dos grandes problemas na questão das verbas destinados aos estádios”, afirma.

Mas a maior crítica de Proni às pesquisas que, de acordo com ele, inflam as projeções, é a de que estão sendo usadas pelo poder público com uma única finalidade: legitimar o investimento de dinheiro público na organização da Copa. “Esses estudos feitos pelo governo criam uma expectativa que vai ser frustrada. Não acho, por exemplo, que a gente precisasse legitimar o gasto público com a Copa em razão de benefícios econômicos. O que legitima é que a sociedade brasileira gosta de futebol, que as pessoas estão muito contentes em receber a Copa do Mundo no Brasil depois de mais de 60 anos”.

Existirá legado?

Altas somas de recursos investidos em diversas projetos, atribuições de responsabilidades entre várias esferas da sociedade, discussões acerca do impacto na economia brasileira. Além de envolver todos esses aspectos, a discussão sobre realização da Copa de Mundo de 2014 provoca outro questionamento importante, desta vez, sobre o legado que deixará para a sociedade, depois que se encerrar oficialmente.

O Aeroporto Internacional de Brasília é um dos que passa por reformas para a Copa do Mundo (Foto: Wikipedia)

O Aeroporto Internacional de Brasília é um dos que passa por reformas para a Copa do Mundo (Foto: Wikipedia)

Há, entre os especialistas, quem acredite em um saldo positivo. Um deles é Pedro Trengrouse, advogado e professor de Direito Desportivo da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. Para ele, o Brasil será beneficiado majoritariamente em dois setores: primeiro, no que diz respeito à melhoria na infraestrutura. “A aceleração de obras de infraestrutura que o país já precisava é sem dúvida um legado da Copa, principalmente em áreas de mobilidade urbana”. Segundo, no quesito futebol. “Os novos estádios também podem ser considerados como legado, pois serão muito mais utilizados pelo futebol brasileiro do que pela Fifa. O futebol hoje movimenta R$ 11 bilhões por ano e gera 370 mil empregos no Brasil, mas poderia movimentar R$ 62 bilhões por ano e gerar 2 milhões de postos de trabalho. Ou seja, com ou sem Copa, já valeria a pena investir nos estádios brasileiros”, afirma.

Assim como Trengrouse, Somoggi também espera intensificação dos investimentos em infraestrutura nas cidades-sede. “Acho que vai haver algum legado, principalmente nessa área de aeroportos, hotelaria e dos próprios estádios, mas poderia ser muito melhor, os investimentos que foram feitos poderiam ser bem mais trabalhados pra melhorar a vida das pessoas”, contrapõe.

Proni concorda com Somoggi: os benefícios não serão tão expressivos quanto poderiam. “Acredito que, do ponto de vista econômico, a gente pode atingir um saldo positivo, mas menor do que o previsto”. Como principal consequência positiva do Mundial, aposta em fatores não tão palpáveis. “A gente aprendeu a cobrar, não só dos governantes, mas de todas as pessoas envolvidas na realização de algo que tem uma dimensão pública, em que a gente coloca o dinheiro público. Acho que a Copa está sendo um grande aprendizado. Temos várias instâncias de fiscalização, de auditoria, a opinião pública tem se mobilizado bastante, a imprensa tem feito seu papel de questionar, de dar transparência”, finaliza.

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