CHINA EM FOCO

A fala de Trump que mostra que ele não tem ideia de como a China funciona

“Nunca vi homens tão assustados; quero meu gabinete assim”, disse o presidente dos EUA sobre oficiais de Xi Jinping. Confira a análise exclusiva de Evandro Menezes de Carvalho

A fala de Trump que mostra que ele não tem ideia de como a China funciona.“Nunca vi homens tão assustados; quero meu gabinete assim”, disse o presidente dos EUA sobre oficiais de Xi Jinping. Confira a análise exclusiva de Evandro Menezes de CarvalhoCréditos: Casa Branca
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A visão que Donald Trump demonstra ter sobre a China certamente envergonharia Henry Kissinger, o homem que mais contribuiu para aproximar Washington e Pequim no século 20.

Nesta quarta-feira (5), durante um café da manhã com parlamentares republicanos na Casa Branca, Trump contou que gostaria que seu gabinete tivesse a mesma postura dos seis oficiais chineses que acompanharam o presidente Xi Jinping no encontro bilateral realizado na Coreia do Sul no dia 30 de outubro.

“Todos estavam de pé, assim”, disse ele, demonstrando com os braços para trás e o queixo erguido. “Eles estavam em posição de sentido. Nunca vi homens tão assustados na minha vida.”

Segundo Trump, ao tentar conversar com um deles, não obteve resposta.

“Perguntei: ‘Você vai me responder?’ e não obtive nenhuma reação. O presidente Xi não deixou.”

Brincando, o republicano afirmou que gostaria que seu gabinete se comportasse da mesma forma, arrancando risadas dos senadores e do vice-presidente JD Vance, que chegou a imitar a postura rígida dos chineses.

A fala ganhou repercussão internacional, especialmente por contrastar com o estilo das próprias reuniões de gabinete de Trump — frequentemente marcadas por elogios exagerados ao presidente. Ex-porta-vozes como Jen Psaki já classificaram esses encontros como “exercícios de bajulação dignos de regimes autoritários”.

Trump descreveu Xi como “um negociador muito duro” e afirmou que as conversas entre ambos se concentraram em disputas econômicas históricas entre Washington e Pequim.

A delegação chinesa que acompanhou Xi Jinping na reunião reunia algumas das figuras mais influentes do alto escalão de Pequim, responsáveis por áreas estratégicas como política externa, economia e planejamento nacional. Estiveram presentes Wang Yi, ministro das Relações Exteriores; Wang Wentao, ministro do Comércio; He Lifeng e Ma Zhaoxu, ambos vice-premiês; Zheng Shanjie, diretor da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma; e Cai Qi, membro do Comitê Permanente do Politburo e diretor do Gabinete Geral do Partido Comunista Chinês (PCCh).

O grupo simboliza o núcleo da governança chinesa — uma estrutura altamente hierarquizada, onde cada integrante representa não apenas sua função técnica, mas também a continuidade de uma tradição política baseada na disciplina e na coordenação coletiva das decisões de Estado.

Respeito não é bajulação

Em entrevista exclusiva à coluna China em Foco, o professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) Evandro Menezes de Carvalho, pesquisador especializado na política e na cultura chinesas e autor de obras como China: Tradição e Modernidade na Governança do País, analisou a declaração de Trump sobre os oficiais chineses que acompanharam Xi no encontro entre os dois líderes.

Segundo o professor, o episódio revela uma profunda falta de compreensão sobre o funcionamento da política e da cultura chinesas.

“A política chinesa é e sempre foi estruturada nos ritos. Trata-se de uma herança cultural que organiza a governança do país. Cada um cumpre o seu papel dentro de um sentido de hierarquia que estrutura as relações, o diálogo e a burocracia. O respeito a essas regras é, justamente, um sinal de respeito — e não o contrário.”

Evandro destaca que Trump confundiu formalidade com subserviência.

“Na China, o plano da forma está intrinsecamente ligado ao plano do conteúdo. No Ocidente, essas duas dimensões muitas vezes caminham em direções opostas. O que Trump vê como bajulação é, na verdade, respeito.”

Para o professor, a leitura equivocada do presidente dos EUA ignora que a política chinesa é profundamente ritualizada, e que os gestos e posturas dos funcionários públicos expressam uma tradição milenar de respeito e harmonia hierárquica.

Ele cita o conceito de Wuwei, inscrito em um dos salões do Palácio Imperial, como símbolo dessa filosofia.

“Em português coloquial, poderíamos dizer que significa ‘cada um no seu quadrado’. É a ideia de que cada pessoa deve agir dentro de suas funções e limites — uma noção que atravessa a história política chinesa e se mantém presente na República Popular da China.”

Evandro resume o contraste:

“O que Trump vê como submissão é, na verdade, respeito e harmonia institucional. Na China, a disciplina é uma forma de civilidade, não de servidão.”

Para o pesquisador, essa diferença expõe o choque entre a diplomacia performática ocidental e a ritualização do poder na China. Enquanto o Ocidente valoriza a espontaneidade e a expressão individual, a cultura política chinesa entende que a forma é o próprio conteúdo — e que, sem disciplina, não há respeito nem estabilidade.

Trump poderia aprender com Kissinger

A leitura do professor brasileiro segue a mesma linha de pensamento de Henry Kissinger (1923–2023) — diplomata, acadêmico e um dos principais arquitetos da política externa dos Estados Unidos no século 20. Kissinger foi conselheiro de Segurança Nacional (1969–1975) e secretário de Estado (1973–1977) durante os governos de Richard Nixon e Gerald Ford.

Foi ele quem reabriu o diálogo entre Washington e Pequim, pavimentando o caminho para a histórica visita de Nixon à China, em 1972, e para a normalização das relações entre os dois países.

Para Kissinger, que via a diplomacia chinesa como uma arte baseada em disciplina, autocontrole e respeito ao ritual, a fala de Trump sobre os oficiais de Xi seria um erro constrangedor. O que o republicano interpretou como medo ou subserviência, Kissinger veria como a expressão de uma tradição política milenar, em que a contenção é virtude e o poder se manifesta pela serenidade, não pela ostentação.

Com décadas de diálogo com líderes chineses — de Mao Zedong a Xi Jinping —, Kissinger compreenderia o episódio como um choque entre duas culturas políticas: de um lado, a ritualização e o respeito à hierarquia que sustentam a estabilidade do Estado chinês; de outro, o populismo performático do Ocidente, que confunde autoridade com espetáculo.

Em livros como On China (2011) e Leadership: Six Studies in World Strategy (2022), Kissinger advertia que a diplomacia chinesa se move em horizontes de séculos, onde cada gesto e palavra são calculados com precisão, enquanto a política de Washington opera em ciclos eleitorais curtos e impulsivos.

“Os chineses pensam em termos de séculos; os americanos, em termos de ciclos eleitorais”, dizia Kissinger.

Nesse contraste, Trump não apenas perdeu a leitura da cena — perdeu o significado.

O que Trump não entende sobre a China

A leitura de Trump sobre a política chinesa vai além de uma anedota diplomática: revela uma incompreensão profunda da cultura política chinesa pela Casa Branca.

Como observou o analista franco-chinês Arnaud Bertrand, o episódio mostra que Trump realmente não entende a China — e isso deveria preocupar os estadunidenses. O que o republicano interpretou como medo era, na verdade, disciplina e seriedade, valores centrais da tradição confuciana e da burocracia de Estado chinesa.

Em níveis tão altos de governo, nenhuma palavra é improvisada. Cada fala é cuidadosamente preparada porque, na lógica chinesa, quem fala não expressa uma opinião pessoal — fala em nome do Estado, o que traz implicações políticas e diplomáticas de grande peso.

Essa formalidade, frequentemente percebida como rigidez pelos ocidentais, é entendida em Pequim como um sinal de responsabilidade.

No Ocidente, observou Bertrand, esse valor se perdeu: tornou-se comum ver líderes fazendo piadas, improvisando ou tratando o discurso público como entretenimento. O resultado é a erosão da confiança na palavra política.

A China, ao contrário, preserva uma ética da fala baseada na confiança, princípio formulado já por Confúcio: sem confiança, o Estado não se sustenta. Por isso, os funcionários chineses raramente falam de forma espontânea; cada frase é fruto de análise e consenso interno.

Essa tradição, que antecede Xi Jinping e remonta a mais de dois mil anos, não é sinal de medo nem de autoritarismo, mas de uma cultura de Estado que trata a comunicação como instrumento de governo — não como performance pessoal.

Trump, que governa por redes sociais e aposta na teatralidade, parece não compreender essa diferença. E, como lembram estudiosos da China, quem confunde disciplina com medo jamais entenderá a lógica do poder chinês.

 

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