Muito se fala sobre a situação em Xinjiang, no noroeste da China, frequentemente associada às acusações de “genocídio uigur”. Mas, por trás das disputas políticas, surgem histórias de vida que mostram uma realidade diferente — especialmente no caso das mulheres uigures, pertencentes a uma minoria étnica muçulmana.
A jornalista chinesa Isabela Shi, da CGTN em Português, esteve na região durante as celebrações dos 70 anos da Região Autônoma Uigur de Xinjiang e ouviu mulheres que contestam a ideia de “genocídio uigur”. Em seus relatos, elas destacam avanços conquistados por meio da educação, da autonomia e da liberdade de escolha.
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Em meio às controvérsias internacionais, essas vozes femininas revelam uma Xinjiang em transformação, marcada pela busca por oportunidades e pelo fortalecimento da independência pessoal.
“As mulheres não nascem para se limitar”
Durante sua visita a Xinjiang, a jornalista Isabela Shi conversou com a jovem uigur Pazilat, que trouxe à tona lembranças duras do passado.
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“No momento em que ela engasgou, percebi quantas algemas as garotas de outras gerações tiveram que suportar”, recorda Shi.
Mesmo em pleno século 21, conta a repórter, o atraso e o isolamento levaram meninas de apenas 14 anos a serem forçadas a se casar com homens de 60, tornando-se apenas mais uma de suas esposas.
A história de Pazilat segue outro rumo. Depois de concluir a faculdade, ela voltou para sua aldeia próxima a Kashgar com um propósito: ajudar outras mulheres a terem acesso à educação e libertarem suas mentes.
“As mulheres não nascem para se entregarem às coisas pequenas e complicadas da vida em família”, afirma com convicção.
Segundo Shi, cada vez mais mulheres em Xinjiang acreditam em sua própria força e fazem suas escolhas com autonomia.
Pazilat também se lembra dos incidentes violentos de 2009 em Urumqi, que deixaram 197 mortos e mais de 1.700 feridos. Apesar da dor, suas experiências em Pequim e Xangai mostraram outro lado da convivência entre etnias.
“Quando ela foi estudar em Pequim e Xangai, os colegas a receberam como família”, destaca.
Para Shi, esse testemunho reforça que, apesar da campanha de desinformação que alimenta a farsa do “genocídio uigur”, Xinjiang não sucumbiu à divisão.
“Nós, chineses, sempre acreditamos na união e na harmonia de todas as etnias. Com os mecanismos de desenvolvimento, hoje temos um Xinjiang seguro, estável e próspero”, conclui a jornalista.
Confira o post de Shi:
Avanços femininos em Xinjiang
A percepção de Shi e de sua entrevistada encontra respaldo em dados oficiais. No marco do 70º aniversário da criação da Região Autônoma Uigur de Xinjiang, o Conselho de Estado da China divulgou um white paper apresentando os avanços alcançados na região. Leia o documento completo aqui.
O relatório dedica atenção especial às transformações vividas pelas mulheres nas últimas décadas. Segundo o texto, a combinação de estabilidade social, desenvolvimento econômico e políticas públicas voltadas para educação e saúde abriu novas possibilidades para a população feminina.
Na área da educação, meninas e jovens uigures passaram a ter maior acesso a escolas e universidades, impulsionadas pela expansão da rede de ensino e pelos programas bilíngues. O avanço na alfabetização reduziu desigualdades históricas e ampliou as perspectivas de futuro para milhares de mulheres.
Quanto à autonomia econômica, a modernização da agricultura e a criação de oportunidades no setor industrial e de serviços levaram mais mulheres ao mercado de trabalho. Esse movimento favoreceu a conquista de independência financeira e uma presença mais ativa na economia regional.
No campo da saúde e longevidade, as políticas públicas ampliaram o acesso a serviços médicos, refletindo-se no aumento expressivo da expectativa de vida: de 30 anos em 1949 para 77 em 2024. Esse resultado impacta diretamente a qualidade de vida feminina, sobretudo em áreas rurais, historicamente mais vulneráveis.
O white paper também enfatiza os avanços em direitos e participação social. Mulheres ocupam cada vez mais cargos de liderança local, participam de organizações comunitárias e estão presentes em iniciativas de empreendedorismo, ampliando sua influência na vida pública da região.
De acordo com o governo chinês, esses indicadores mostram que o processo de modernização em Xinjiang não apenas elevou os índices sociais e econômicos, mas também criou condições para que as mulheres façam suas próprias escolhas e exerçam maior autonomia sobre suas vidas.
Por que Xinjiang importa?
Localizada no noroeste da China, Xinjiang é peça-chave nas disputas políticas e diplomáticas em torno do país. Para governos e organizações do Ocidente, a região é palco de graves violações de direitos humanos. Já Pequim sustenta uma visão oposta: afirma que Xinjiang vive hoje seu período mais estável e próspero, fruto de políticas de segurança e desenvolvimento econômico implementadas nas últimas décadas.
A importância de Xinjiang, no entanto, vai além das polêmicas atuais. Historicamente, a região foi um ponto central da antiga Rota da Seda, conectando a China à Ásia Central, ao Oriente Médio e à Europa. Hoje, mantém essa relevância estratégica ao integrar a Nova Rota da Seda (ou Iniciativa Cinturão e Rota), projeto que busca transformar Xinjiang em um corredor fundamental para o comércio internacional e a expansão global da China.
Documento mostra avanços em Xinjiang
O relatório afirma que Xinjiang atravessa o melhor período de desenvolvimento de sua história. Segundo o texto, foram dados passos sólidos para governar a região de acordo com a lei, garantir estabilidade por meio da unidade étnica, fortalecer laços culturais, ampliar a prosperidade e planejar o desenvolvimento em uma perspectiva de longo prazo.
“Isso contribuiu para um desenvolvimento econômico e social sem precedentes, para melhorias significativas no bem-estar da população e trouxe maior senso de conquista, felicidade e segurança para o povo”, registra o documento intitulado “Diretrizes do PCCh para Governar Xinjiang na Nova Era: Prática e Conquistas”.
Transformação histórica
O relatório ressalta que Xinjiang passou por uma transformação histórica: de um cenário de instabilidade para estabilidade e, desta, para uma governança considerada eficaz. Desde 2012, o governo central da China destinou mais de 4 trilhões de yuans (cerca de US$ 562,3 bilhões, aproximadamente R$ 3,15 trilhões) em transferências para a região, sendo 543,48 bilhões de yuans apenas em 2024 (cerca de US$ 76 bilhões, aproximadamente R$ 426 bilhões).
No campo econômico, Xinjiang integrou sua estratégia de desenvolvimento ao plano nacional de abertura para o oeste, buscando consolidar-se como “canal dourado” através do continente eurasiático. A infraestrutura também foi ampliada: até 2024, a região contava com 9.202 km de ferrovias, 230 mil km de rodovias e 595 rotas aéreas civis, das quais 25 internacionais.
O documento ressalta ainda que Xinjiang é, há 32 anos consecutivos, a maior produtora de algodão da China, com 97% de mecanização em todas as etapas agrícolas.
Avanços nas áreas social, cultura e ambiental
Na área social, o white paper afirma que as políticas públicas de saúde foram fortalecidas, e a expectativa de vida média subiu de 30 anos em 1949 para 77 anos em 2024.
Em relação à diversidade cultural, o texto diz que a região respeita o direito das minorias étnicas de aprender e usar seus próprios idiomas, além de administrar os assuntos religiosos conforme a lei. Grupos religiosos podem gerir suas atividades de forma independente, mas são orientados a manter compatibilidade com a sociedade socialista.
O documento também aponta a criação de planos específicos e regulamentos locais para a preservação do patrimônio cultural.
No campo ambiental, o destaque vai para os esforços contra a desertificação nas bordas do Deserto de Taklimakan, que hoje está totalmente cercado por um cinturão verde de contenção de areia de 3.046 km de extensão — o mais longo do mundo.
Em qual genocídio a população perseguida cresce?
Para além dos dados do novo white paper do governo chinês, um dos principais argumentos que desmonta a narrativa de “genocídio uigur” é a própria evolução demográfica da etnia em Xinjiang. Em 1949, quando a região foi estabelecida como Região Autônoma Uigur, a população uigur era estimada em cerca de 3 a 4 milhões de pessoas.
Hoje, segundo dados oficiais do último censo chinês (2020), esse número ultrapassa 11 milhões, representando quase metade da população total da região. O crescimento populacional contínuo ao longo de sete décadas é incompatível com qualquer alegação de extermínio.
Outro ponto central é a vitalidade das práticas religiosas. Xinjiang abriga a maior concentração de mesquitas de toda a China. Um white paper de 2016 registrava mais de 24 mil templos islâmicos em funcionamento — um dos índices mais altos do mundo em termos proporcionais.
Em média, há uma mesquita para cada 530 muçulmanos locais, o que evidencia não só a preservação, mas também o fortalecimento da vida religiosa uigur.
Diante desses dados, torna-se evidente que não há base factual para sustentar a acusação de genocídio contra uma minoria cuja população cresce de forma expressiva e que mantém, em larga escala, seus espaços de culto. Mais do que constatar violações, o debate sobre Xinjiang expõe a disputa de narrativas no tabuleiro geopolítico. Nesse contexto, cabe perguntar: trata-se realmente de uma questão humanitária ou de uma batalha política travestida de defesa dos direitos humanos?