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Foi caçado pela ditadura. Viveu no exílio. E fez da própria vida uma revolução pela liberdade e amor

De guerrilheiro a ativista, Hebert Daniel desafiou tanto a ditadura quanto o preconceito dentro da própria esquerda

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Professor, jornalista e pesquisador em teorias da democracia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Escreve para Revista Fórum, com foco em temas de sustentabilidade, política e cultura.
Foi caçado pela ditadura. Viveu no exílio. E fez da própria vida uma revolução pela liberdade e amor
Geny Brunelli de Carvalho/Divulgação

Herbert Eustáquio de Carvalho, conhecido como Herbert Daniel, nasceu em Belo Horizonte em 1946 e morreu no Rio de Janeiro em 1992. Médico por formação interrompida, escritor e militante político, ele foi uma das figuras mais singulares da geração que enfrentou a ditadura militar brasileira. A trajetória de Daniel atravessa a luta armada, o exílio e a redemocratização, refletindo as tensões e contradições de um período em que o engajamento político era também uma forma de sobrevivência.

Estudante de medicina na Universidade Federal de Minas Gerais, Daniel aderiu à luta armada no final dos anos 1960. Passou por organizações como POLOP, COLINA, VAR-Palmares e VPR, e chegou a participar dos sequestros dos embaixadores alemão Ehrenfried von Holleben e suíço Giovanni Bucher. As ações, que buscavam pressionar o regime pela libertação de presos políticos, colocaram-no entre os militantes mais procurados pelos órgãos de repressão.

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Em 1974, escapando da prisão e da tortura, exilou-se em Portugal e, depois, na França. No exterior, retomou os estudos e passou a atuar como jornalista. Foi também nesse período que assumiu publicamente sua homossexualidade e iniciou um relacionamento duradouro com o artista gráfico Cláudio Mesquita. A relação, vivida longe do país e dos antigos companheiros de militância, marcou o início de uma nova etapa pessoal e política. Daniel tornou-se uma voz pioneira na articulação entre direitos humanos, sexualidade e ecologia — temas que mais tarde integrariam o debate democrático no Brasil.

De volta ao país em 1981, como o último exilado a ser anistiado, Daniel aproximou-se do Partido dos Trabalhadores e, mais tarde, ajudou a fundar o Partido Verde. A partir daí, passou a defender pautas até então pouco presentes na agenda política, como a proteção ambiental, a diversidade sexual e os direitos das pessoas vivendo com HIV e AIDS — doença que o vitimaria no início da década de 1990.

Autor de livros como Passagem para o Próximo Sonho, Meu Corpo Daria um Romance e Vida Antes da Morte, Herbert Daniel registrou em sua obra a passagem da utopia revolucionária dos anos 1970 para a reconstrução política e existencial do pós-ditadura. Sua escrita combina memória, reflexão e um olhar crítico sobre os limites da militância e da própria esquerda diante das diferenças. Hoje, seu nome batiza a Fundação Verde Herbert Daniel, ligada ao Partido Verde, e inspira releituras sobre o papel dos dissidentes na história recente do país.

Revolucionário e gay: A vida extraordinário de Herbert Daniel
James N. Green
Trad.: Marília Sette Câmara
Civilização Brasileira
378 págs. – R$69,90

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