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	<title>Idelber Avelar &#124; Revista Fórum</title>
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	<description>Idelber Avelar &#124; Revista Fórum</description>
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		<title>64 anos do Nakba: A limpeza étnica da Palestina e as responsabilidades ocidental e brasileira</title>
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		<pubDate>Tue, 15 May 2012 10:17:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Idelber</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#160; I- A Palestina Árabe A derrota que os árabes impuseram ao domínio bizantino na Palestina, confirmado entre os anos 633 e 638 da era cristã, foi bem recebida pela população local, tanto por cristãos como por judeus e samaritanos, que ainda eram grupos numericamente importantes na região. Estes últimos grupos tinham todos os motivos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_1305" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/Nakba1.jpg"><img class="size-medium wp-image-1305" title="Nakba1" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/Nakba1-300x259.jpg" alt="" width="300" height="259" /></a><p class="wp-caption-text">Imagens do êxodo palestino em 1948</p></div>
<p><strong>I- A Palestina Árabe</strong></p>
<p>A derrota que os árabes impuseram ao domínio bizantino na Palestina, confirmado entre os anos 633 e 638 da era cristã, foi bem recebida pela população local, tanto por cristãos como por judeus e samaritanos, que ainda eram grupos numericamente importantes na região. Estes últimos grupos tinham todos os motivos para preferir a organização árabe, vítimas que já eram da intensa perseguição cristã, que só pioraria com os séculos (aliás, no início do período árabe na Palestina—que se estenderia pelos próximos 1.300 anos&#8211;, uma pequena população judaica voltaria a se estabelecer em paz em Jerusalém, depois de 500 anos de ausência, que datavam da sangrenta expulsão que os romanos lhe haviam imposto no segundo século da era cristã). O período árabe também foi bem recebido pelos cristãos da região, que “eram arameus [e] não ficaram incomodados pela organização árabe, pois a etnia era semelhante, de origem semítica”, não tendo eles “motivos para gostar da administração bizantina, de origem romana, não semítica”<a href="#sdfootnote1sym"><sup>1</sup></a>. Na Palestina árabe, apesar de um imposto específico para judeus e cristãos, eles gozavam de proteção como “Povos do Livro”, e a atmosfera não tinha muito em comum com o regime de terrorífica perseguição que se instalaria nas regiões controladas pelo Cristianismo. A Sura 2 de Maomé explicitamente rejeita a conversão e o proselitismo violento: “Não obrigueis ninguém em assuntos de religião”. A violência sectária só voltaria a se disseminar na Terra Santa com as empresas cristãs de conquista conhecidas como Cruzadas, a primeira das quais foi proclamada pelo Papa Urbano II em 1095 e resultou no estabelecimento do “Reino de Jerusalém”, em 1099, uma fortaleza de reduzidas relações com seu entorno árabe, ironicamente semelhante, neste aspecto, ao enjaulamento que as construções israelenses ilegais hoje impõem a Jerusalém.</p>
<p><span id="more-1286"></span></p>
<p>As cruzadas à Palestina enfrentariam os muçulmanos locais aos invasores cristãos, com a pequena população judaica da região frequentemente lutando ao lado daqueles contra estes, como em 1099, em Jerusalém, e em 1100, em Haifa. No século XII, na época da Segunda Cruzada, os muçulmanos se reunificam politicamente sob o comando do General Saladino, curdo nascido em Cairo. Saladino recupera Damasco (1174), Acre, Jafa, Beirute, e a própria Jerusalém, em 1187. Na Terceira Cruzada, Ricardo Coração de Leão derrotaria Saladino, forçando-o a negociar e celebrar o tratado de paz que “abriu caminho a um período de calmaria militar e tolerância religiosa na Palestina”<a href="#sdfootnote2sym"><sup>2</sup></a>, permitindo aos cristãos visitar os lugares sagrados. A Quarta Cruzada (1199) planejava tomar o Egito por mar, mas fez um desvio para a região da atual Turquia, instalando o Império Latino de Constantinopla. A Palestina só voltaria a ser afetada pela Cruzada de Federico II que, conhecedor da língua árabe, foi capaz de “obter do sultão a entrega pacífica, embora condicionada, de várias terras e das cidades de Belém, Nazaré e Jerusalém, onde o imperador entrou e foi coroado em 1229”<a href="#sdfootnote3sym"><sup>3</sup></a>. Já em 1244, Jerusalém voltaria ao poder dos árabes, e o último reduto cristão na Palestina, São João de Acre, cairia em 1291. O controle de toda a área entre o Jordão e o Mar Mediterrâneo—os atuais territórios de Israel e da Palestina Ocupada—permaneceria em mãos árabes até a invasão turco-otomana, em 1517. Mesmo durante o período marcado pela sua incorporação ao Império Turco-Otomano (de 1517 até 1917, com uma interrupção egípcia durante a década de 1830), a Palestina manteria sua enorme maioria árabe, organizada segundo laços sociais bem arraigados na região, que o império turco não alteraria significativamente.</p>
<p>As sucessivas demonstrações de desmemória na política ocidental para o Oriente Médio contrastam com o forte arraigo que certos eventos históricos possuem na reminiscência das massas árabes. Em 1993, acusado de estar celebrando com os israelenses, em Oslo, um tratado que não concedia nada aos palestinos e o instalava na posição de cão de guarda de Israel, o líder Yasser Arafat insistia, um pouco pateticamente (dadas as condições em que negociava), que ele não celebraria qualquer paz, mas “a paz de Saladino”. O leitor dos EUA não tinha a menor noção do que se referenciava ali, mas o povo árabe não deixava de notar a ironia involuntária da impotente insistência de Arafat na menção a Saladino. Antes de entrar no período histórico que imediatamente influencia o curso dos acontecimentos que nos ocupam, portanto, é boa ideia lembrar alguns fatos que se desprendem desse esquemático sumário de alguns séculos de história palestina. Inicia-se no século VII uma intensa arabização da região, que já era visível em séculos anteriores a Maomé, mas que solidifica suas raízes com a chegada dos árabes a Jerusalém, em 638, e a construção da mesquita Al-Aqsa. Durante os próximos 1.300 anos os árabes serão a grande maioria em toda a região da Palestina. No período das Cruzadas, estima-se que havia em torno de 1.000 famílias judias na região.<a href="#sdfootnote4sym"><sup>4</sup></a> Em 1914, já depois das primeiras ondas migratórias estimuladas pelo sionismo, a Palestina (ainda, naquele momento, sob domínio otomano) tinha uma população de 657.000 árabes muçulmanos, 81.000 árabes cristãos e 59.000 judeus.<a href="#sdfootnote5sym"><sup>5</sup></a> De acordo com o censo da Palestina de 1922, feito pelos britânicos, a população era 78% muçulmana, 9,6% cristã (árabe, claro) e 11% judaica. No entanto, no jornalismo “ponderado” sobre a região, mesmo depois de 60 anos de limpeza étnica e 43 anos de ocupação ilegal, você verá desinformados funcionários da grande mídia dissertando, “mui ponderadamente”, sobre os “direitos” dos dois povos sobre a Palestina.</p>
<p>O domínio otomano sobre a Palestina dura de 1517 a 1917, com uma interrupção de 10 anos de administração egípcia na década de 1830. A submissão ao império turco não altera de forma significativa o regime de posse baseado na renda agrícola das terras, já visível no período do sultanato, anterior aos otomanos. Esse sistema relativamente descentralizado de vilas e aldeias, com arrecadação por senhores de terras e trabalho de cultivo por lavradores, arraiga-se na região e ajuda a explicar o terror dos palestinos com—e sua impotência para se defender contra—a violenta campanha de confisco de terras e separação de raças que se inicia com o armamento dos sionistas, nas décadas que antecedem a fundação do estado de Israel. Nas primeiras décadas do século XX, o sionismo armado traria à região um modelo eminentemente europeu de organização territorial e compreensão do espaço, caracterizado pela acumulação, posse e construção de barrreiras fronteiriças. Munidos desse olhar que historicamente relativiza os fatos, nos preparamos para explicar alguns “mistérios” que cercam a história recente: como foi possível que metade de uma população árabe palestina que já se media em bem mais de um milhão tenha sido expulsa tão rapidamente por algumas dezenas de milhares de colonos sionistas? Como foi possível que o nascente estado judeu tenha adquirido uma supremacia tão incontestável no conflito com seus vizinhos árabes e com os palestinos? Para repetir a pergunta que abre um artigo já clássico de Walid Khalidi: <a href="http://www.palestine-studies.com/enakba/exodus/Khalidi,%20Why%20Did%20the%20Palestinians%20Leave.pdf">Por que os palestinos foram embora?</a><a href="#sdfootnote6sym"><sup>6</sup></a>Observando a realidade relativamente fluida de comunicação entre as aldeias árabes, a intensa organização acumuladora de terras e de armas entre os colonos sionistas e o papel das grandes potências&#8211;particularmente da Grã-Bretanha—no processo, começamos a vislumbrar a explicação, que só se completará, claro, com um estudo do que aconteceu em 1948. A compreensão dessa diferença nos regimes de posse da terra, no entanto, é parte da explicação da vitória sionista. Essa explicação, aliás, não tem a menor necessidade de recorrer a estereótipos antissemitas do judeu mais esperto ou conspirador, nem a estereótipos antissemitas do árabe mais atrasado ou indolente, nem a falsificações da mitologia oficial israelense, que repetiram durante décadas que os palestinos saíram voluntariamente ou obedecendo a misteriosas ordens radiofônicas dos próprios árabes, mentiras já cabalmente corrigidas pela própria historiografia israelense.</p>
<div id="attachment_1308" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/nakba101.jpg"><img class="size-medium wp-image-1308" title="nakba10" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/nakba101-300x236.jpg" alt="" width="300" height="236" /></a><p class="wp-caption-text">531 aldeias palestinas foram destruídas no Nakba</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>II &#8211; Da Declaração de Balfour (1917) à Palestina do Mandato Britânico (1922-48)</strong></p>
<p>Quando se estuda o processo histórico pelo qual se chegou à atual, desastrada situação na Terra Santa, salta aos olhos a responsabilidade das potências ocidentais que, ao longo do século XX (para nos atermos à história mais recente), jogaram um jogo duplo, perigoso e marcado pela reversão do que se havia dito antes. Pensando em seu próprio interesse e em completa desconsideração pelo destino de milhões de civis inocentes, a Grã-Bretanha literalmente toca fogo na região, ao fazer promessas contraditórias aos povos árabes e ao movimento sionista. O reino de Sua Majestade não possui sequer a desculpa de que se tratava de uma causa nobre. Era 1916 e 1917, e tratava-se da consolidação de sua coalizão na Primeira Guerra Mundial. Ao contrário da Segunda Guerra, defensável como reação legítima à agressão nazi-fascista, a Primeira é um típico conflito napoleônico-clausewitziano moderno, um choque entre impérios. A Turquia, aliada dos alemães, mantinha a Palestina árabe sob o seu império otomano (como se viu acima, um jugo relativamente frouxo, onde a vida palestina seguia com considerável autonomia, situação que nem de longe tinha nada em comum com o horror das posteriores expulsão e ocupação israelenses). Interessada em atrair os árabes, a Grã-Bretanha promete para depois da guerra, em correspondência oficial entre Sir Henry Mac Mahon e o xeque Hussein, de Meca, a criação de um estado independente nas províncias do império turco em que se falava o árabe. A luta dos árabes contra a dominação otomana acabaria sendo decisiva para a vitória de seus aliados britânicos naquele front. Toda a evidência histórica demonstra que as lideranças árabes esperavam que os britânicos cumprissem sua palavra e confirmassem o estado árabe independente depois da guerra. Não foi o que aconteceu.</p>
<p>Ter prometido algo aos árabes não impediu que a Grã-Bretanha celebrasse com a sua aliada França um tratado contraditório com a promessa anterior. Os acordos de Sykes-Picot, de 1916, entre Grã-Bretanha e França, reservavam aos franceses a Síria e o Líbano. Em 1917, as forças otomanas se rendem ao general britânico Allenby em Jerusalém e em 1918 se confirma o fim do regime otomano na Palestina. O Tratado de Versalhes, de 1919, selaria o arranjo de Sykes-Picot entre França e Grã-Bretanha, deixando aos britânicos a área da Jordânia (então chamada de Transjordânia), do Iraque e da Palestina. A Liga das Nações, fundada depois da guerra, avalizaria esse arranjo, segundo o qual as duas potências ocidentais se responsabilizariam por um “mandato” temporário sobre essas regiões, até a sua independência formal. Em 22 de julho de 1922, a Liga das Nações aprova o mandato britânico na Palestina, que deixaria como legado o progressivo armamento dos colonizadores sionistas e a catástrofe palestina de 1948.</p>
<p>Ao mesmo tempo em que prometia independência aos árabes, o império britânico fazia sua famosa promessa ao movimento sionista internacional, a Declaração de Balfour (1917), patentemente contraditória com a promessa feita aos árabes e com o próprio arranjo subjacente a Sykes-Picot e a Versalhes. Enviada pelo secretário exterior britânico Arthur James Balfour ao Barão Rotschild, para transmissão à Federação Sionista da Grã-Bretanha e da Irlanda, a declaração mudaria a história do Oriente Médio: “O governo de Sua Majestade vê favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu, e usará seus melhores esforços para facilitar a realização desse objetivo, ficando claramente entendido que nada será feito que possa prejudicar os direitos civis e religiosos das comunidades não judias existentes na Palestina, ou os direitos e status político desfrutados por judeus em qualquer outro país”. Apesar de que a declaração mencionava a preservação de todos os direitos da população nativa, é evidente que “Balfour não tinha nenhum interesse em consultar os árabes da Palestina acerca de seu futuro”<a href="#sdfootnote7sym"><sup>7</sup></a>. Em suas memórias, Lloyd-George, primeiro-ministro em 1917, se refere à declaração como uma recompensa a Chaim Weizmann, um dos líderes sionistas mais importantes daquele momento (depois primeiro presidente de Israel) e químico que havia desenvolvido um método de sintetizar a acetona na produção de pólvora. A declaração também está inserida na tentativa de mobilizar as comunidades judaicas da Rússia e dos EUA no apoio aos esforços de guerra britânicos, e termina sendo um enorme estímulo ao movimento sionista. Depois da vitória aliada, o próprio Chaim Weizmann participaria da Conferência de Paz de Paris, em 1919, clamando por uma “Palestina tão judia como a Inglaterra é inglesa”<a href="#sdfootnote8sym"><sup>8</sup></a>, num momento em que os judeus representavam não mais que 10% da população da Palestina. No ano seguinte, fundava-se na Palestina a Hagana, organização paramilitar judaica depois responsável pelo extermínio ou limpeza étnica de centenas de aldeias palestinas.</p>
<p>Só depois de três décadas (1880-1910) de migração, compra de terras e armamento sionistas é que aparecem os primeiros registros de preocupação entre as lideranças palestinas. Em 06 de maio de 1911, o palestino e membro do parlamento otomano, Said al-Husayni, apontava que “os judeus planejam criar um estado na área que incluirá a Palestina, a Síria e o Iraque”<a href="#sdfootnote9sym"><sup>9</sup></a>. Segundo o historiador israelense Ilan Pappe, já entre 1905 e 1910 há alguma evidência de discussão, entre líderes palestinos, do fenômeno do sionismo como movimento político que acumulava poder e terra. Mas só a partir da queda do regime otomano na Palestina (1917) e o começo do período britânico (ocupação em 1918, mandato da Liga das Nações em 1922), o movimento sionista se lançaria paulatinamente a um plano de limpeza étnica dos árabes. Ali passa a ser visível a preocupação sistemática e, por vezes, o pânico das lideranças palestinas com as ondas migratórias, a acumulação de terras e a violência física que se iniciava. Mas ao longo das duas últimas décadas do século XIX e das duas primeiras do século XX, a imigração sionista não esteve entre as grandes preocupações dos palestinos.</p>
<div id="attachment_1310" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/nakba74.jpg"><img class="size-medium wp-image-1310" title="nakba74" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/nakba74-300x224.jpg" alt="" width="300" height="224" /></a><p class="wp-caption-text">Campo de refugiados Nahr al-Barid, Líbano, inverno de 1948</p></div>
<p>Na década de 1920, os palestinos representavam ainda uma maioria de 80% a 90% na região. A tentativa inglesa de construir estruturas paritárias que reconciliassem as promessas contraditórias feitas por eles ao povo árabe e ao movimento sionista encontrou compreensível resistência entre os palestinos, que “se recusaram, no começo, a aceitar a sugestão britânica de paridade, especialmente uma paridade que os colocava na prática em desvantagem—o que incentivou os líderes sionistas a endossarem-na”<a href="#sdfootnote10sym"><sup>10</sup></a>. Começa a se desenhar ali um paradigma que seria reconhecível até os dias de hoje: 1) instala-se uma mediação ocidental que recomenda uma solução patentemente favorável ao sionismo; 2) os árabes protestam, apontando, como no caso em questão, que a paridade entre um povo que representa 90% da população e outro que totaliza 10% contraria o mais elementar princípio da democracia; 3) a liderança sionista, com intenso trabalho de relações públicas, manifesta concordância tática com a solução apresentada, sabendo que a recusa árabe os coloca na posição de, ao mesmo tempo, aceitar um plano e não se comprometer com ele; 4) enfraquecidos politica e militarmente, os representantes árabes voltam atrás e aceitam a solução originalmente apresentada pela potência ocidental; 5) ante a concordância árabe com o plano, é a vez da liderança sionista dizer que a solução lhe é inaceitável, o que lhe permite arrastar o impasse e, a partir de sua posição de força, aboncanhar mais e mais, ao mesmo tempo em que adia outra vez uma solução definitiva; a vitória não impede que a liderança sionista prolongue o impasse, reinstalado por um aumento das suas exigências; 6) esse prolongamento faz com que todo o ciclo se reinicie, com mais concessões árabes e mais impasse, até o ponto a que chegamos hoje, em que a população palestina já não tem o que oferecer, exceto alguma forma mágica de desaparição. Esse filme se repete com macabra previsibilidade, ante o olhar conivente das potências cúmplices (Grã-Bretanha e, depois, os EUA), desde 1928, vinte anos antes da fundação do estado de Israel. É a data em que as lideranças palestinas, “apreensivas com a crescente imigração judia ao país e com a expansão de seus assentamentos colonizadores, concordam com a fórmula [paritária] como uma base para as negociações”<a href="#sdfootnote11sym"><sup>11</sup></a>. É a data em que os sionistas já não a aceitam e os britânicos permanecem de braços cruzados. Esses mesmos sete passos se repetirão em 1947-48, no episódio que os apologistas da ocupação israelense descrevem como o momento em que as Nações Unidas ofereceram um plano de partição “que os judeus aceitaram e os árabes recusaram”. Já veremos adiante todo o contexto que essa frase omite.</p>
<p>Entre 1924 e 1928 chegam mais 67.000 judeus (metade dos quais oriundos da Polônia), elevando a população judaica para 16% do total da Palestina do Mandato. Naquele momento, os judeus são donos de 4% da terra na Palestina. O censo de 1931 registra uma população de 1,03 milhão de almas, 16,9% judeus. A não implementação, por parte da Grã-Bretanha, da fórmula paritária que ela própria havia proposto, leva à rebelião árabe de 1929, o primeiro grande sinal de descontentamento com a política imposta no Mandato. Imagine um povo que representa quase 85% da população se rebelando, em sua própria terra, para ter a paridade que lhe havia sido proposta com os outros 15% que acabavam de chegar. Agora imagine que a autoridade administrativa responsável pela proposta se beneficiara da colaboração desse povo, como aliado seu, numa guerra mundial, e que a moeda de troca oferecida por essa colaboração não era paridade nenhuma, mas um estado seu, autônomo, em suas terras. Com isso você terá os elementos centrais para entender a primeira rebelião de desobediência civil árabe na Palestina moderna. Os confrontos em torno ao Muro das Lamentações em 1929 levam à morte de 133 judeus e 116 árabes, a maioria por mãos inglesas.<a href="#sdfootnote12sym"><sup>12</sup></a> Em 1931, funda-se o Irgun, outra organização paramilitar judia que se caracterizaria pelos ataques sangrentos aos árabes.</p>
<p>Ao se completar uma década e meia da queda do regime otomano e uma década da implantação do Mandato Britânico na Palestina, vão se configurando os elementos que produziriam a tragédia: 1) o fim da ameaça otomana ao sionismo, que depois de 15 anos já não tem que temer qualquer eventual expulsão sua da Palestina vinda do regime de Istambul; 2) o pesado armamento de grupos paramilitares sionistas como a Hagana e o Irgun, que vão acentuando a escolha por conquista e violência; 3) a perplexidade das lideranças palestinas, arraigadas em séculos de organização social descentralizada e não equipadas por sua experiência para se contrapor de forma efetiva à ofensiva territorial e armamentista do sionismo; 4) a incapacidade de setores das elites árabes de perceber a natureza do fenômeno sionista, vendo-o muito mais como uma “tentativa irresponsável por parte da Europa de transferir ao país o seu povo mais pobre e sem estado”<a href="#sdfootnote13sym"><sup>13</sup></a>; e evidentemente 5) a subida ao poder do Partido Nacional Socialista alemão, que em menos de uma década alçaria 19 séculos de antissemitismo a níveis jamais vistos, com a intensa campanha de perseguições, agressões bélicas e matanças que culmina, já numa Europa em guerra, com o genocídio de 6 milhões de judeus.</p>
<div id="attachment_1312" class="wp-caption alignright" style="width: 212px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/1937-Irgun-poster.jpg"><img class="size-medium wp-image-1312" title="1937 Irgun poster" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/1937-Irgun-poster-202x300.jpg" alt="" width="202" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Poster da organização paramilitar judaica Irgun, 1937</p></div>
<p>Qual é, então, a Palestina que assiste à invasão hitlerista da Polônia que dá início à Segunda Guerra Mundial em 1939? Robert Fisk acerta ao descrevê-la como presa a uma “atmosfera de suspeita, paranóia e intenso sofrimento”, tanto para árabes como para judeus, “os primeiros com medo de a Grã-Bretanha acabar autorizando a fundação do estado israelense em suas terras, e os segundos observando a aniquilação de sua raça na Europa”<a href="#sdfootnote14sym"><sup>14</sup></a>. Não há dúvidas de que, na medida em que vão ficando visíveis as dimensões do Holocausto judeu na Europa, reforça-se a percepção sionista de que a implantação de seu estado na Palestina é uma questão de sobrevivência. Mas antes mesmo do início da Segunda Guerra Mundial, em 1938, a voz de historiadores como George Antonius já se levantava contra a eventual “resolução” do problema às custas dos árabes palestinos:</p>
<blockquote><p>O tratamento dado aos judeus da Alemanha e outros países europeus é uma vergonha para seus autores e para a civilização moderna; mas a posteridade não exonerará nenhum país que não consiga enfrentar sua parte dos sacrifícios necessários para aliviar o sofrimento e a angústia dos judeus. Impor a maior parte da carga à Palestina árabe é uma miserável forma de esquivar-se das responsabilidades que deveriam recair sobre todo o mundo civilizado. Também é moralmente vergonhoso. Nenhum código moral pode justificar a perseguição de um povo em uma tentativa de pôr fim à perseguição de outro. O remédio para a expulsão dos judeus da Alemanha não deve ser buscado na expulsão dos árabes de sua pátria; e também não se conseguirá o alívio da angústia dos judeus às custas da angústia de um povo inocente e pacífico.<a href="#sdfootnote15sym"><sup>15</sup></a></p></blockquote>
<p>Seria difícil formular o protesto em termos mais claros e moralmente firmes que os de Antonius. Suas palavras datam de 1938 e são, portanto, anteriores à guerra e aos horrores dos fornos crematórios nazistas; precedem, em uma década inteira, a fundação do estado de Israel e a expulsão de 750.000 palestinos de suas terras. Mais de sete décadas depois de enunciadas, elas ainda ecoam em sua atualidade e retidão ética.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>III &#8211; A responsabilidade da diplomacia brasileira no Nakba: Oswaldo Aranha</strong></p>
<p>Antes de transferir a questão da Palestina às mãos das Nações Unidas, em fevereiro de 1947, os ingleses apresentaram a proposta de um estado binacional, rejeitada pelos sionistas. Na mitologia oficial israelense, é frequente a referência à rejeição árabe do plano de partição apresentado pela ONU em 1947, mas é muito menos comum qualquer menção à rejeição sionista do plano inglês de um estado binacional. Já antes da transferência da questão à ONU, a liderança sionista tinha bastante claro que a Grã-Bretanha saía da Segunda Guerra Mundial como uma potência de segunda ordem, muito mais interessada, portanto, em abandonar o imbróglio da Palestina que em ajudar a resolvê-lo. Também já estava claro para os sionistas que só restavam os britânicos entre eles e a execução do plano de limpeza étnica, e que a saída britânica da região era iminente. O imperialismo ocidental mais uma vez largava um desastre de sua criação nas mãos de uma população nativa não equipada para resolvê-lo. Qualquer semelhança com o Iraque atual não é mera coincidência.</p>
<p>O Brasil também tem sua responsabilidade histórica no arranjo que produz a catástrofe palestina. Foi Oswaldo Aranha, diplomata brasileiro, quem presidiu as discussões que levariam à fundação do estado de Israel. Até mesmo a hagiográfica biografia de Aranha escrita pelo norte-americano Stanley Hilton dá alguma ideia do que foram as manobras do diplomata brasileiro. Convocado pelo general Dutra em 1947, Aranha seria o representante brasileiro no Conselho de Segurança da recém fundada Organização das Nações Unidas. Depois, seria eleito presidente da sessão especial da Assembleia Geral encarregada de discutir o problema da Palestina. Aranha prometeria aos representantes árabes “plena liberdade de discussão” do tema, logo depois que a Assembleia rejeitara uma proposta árabe para que se incluísse na agenda a questão da independência da Palestina. Não foi o que aconteceu. Ante a observação do Grã Mufti de Jerusalém, de que “os judeus queriam se apoderar da Palestina para sua maior expansão na região”, Aranha retrucou que “a opinião do Mufti não me interessa”<a href="#sdfootnote16sym"><sup>16</sup></a>. A recomendação do comitê enviado à Palestina foi favorável ao ponto de vista sionista, ou seja, a partilha, por uma maioria de sete votos (num total de onze). Mas na Asssembleia Geral, vinte países se abstiveram e a recomendação não teve os dois terços necessários. Hilton relata que os últimos dias de novembro foram de crescente tensão, e que apesar das declarações públicas de Aranha, de que não exerceria nenhuma influência, sua atuação nos bastidores era fortemente alinhada com os sionistas, fato reconhecido por Abba Eban, membro da equipe negociadora da Agência Judaica na ONU<a href="#sdfootnote17sym"><sup>17</sup></a>.</p>
<p>Quando a liderança sionista percebe que ainda não detinha a maioria, inicia uma manobra pelo adiamento da votação. Aranha “inteirado da situação, usou de sua autoridade para ajudar: quando terminaram alguns discursos protelatórios encomendados, anunciou &#8216;com irreverência&#8217; que, sendo período de férias nos Estados Unidos, seria justo que a Assembleia o respeitasse e suspendeu a sessão”<a href="#sdfootnote18sym"><sup>18</sup></a>. Quando se reabriram os trabalhos, no dia 29 de novembro, eram os árabes que sentiam que haviam perdido terreno. Tentaram adiar o voto. Aranha ignorou uma moção do Irã, que pedia um reexame da questão palestina e um adiamento dos trabalhos para janeiro de 1948. Aranha, que tinha “a mão mais rápida no martelo que já vi”, segundo a expressão de Abba Eban, procedeu a conduzir a votação, que aprovou a partição da Palestina por 33 votos a favor, 13 contra e 10 abstenções. Note-se aí, claro, a limitada representatividade da ONU naquele momento anterior à descolonização na África e Ásia. Os árabes, num padrão que se repetiria ao longo do anos, deixaram o espaço livre para os sionistas ao se retirarem do recinto. Chaim Weizmann, que seria o primeiro presidente de Israel, testemunhou a Aranha que “a sessão da Assembleia não poderia ter terminado com esta decisão histórica [...] se não fosse vosso esforço persistente e vossa devoção como presidente”<a href="#sdfootnote19sym"><sup>19</sup></a>.</p>
<div id="attachment_1314" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/Nakba9.jpg"><img class="size-medium wp-image-1314 " title="Nakba9" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/Nakba9-300x263.jpg" alt="" width="300" height="263" /></a><p class="wp-caption-text">Musa Kazim al-Husseini, ex-prefeito de Jerusalém, espancado por tropas inglesas</p></div>
<p>Em 29 de novembro de 1947, quando a ONU adotou a resolução de partição da Palestina, os árabes representavam dois terços da população da região. Eles eram aproximadamente 90% no início do Mandato Britânico, em 1922. A partição proposta pelo Comitê Especial das Nações Unidas para a Palestina (UNSCOP, pela sigla em inglês) concedia ao terço judeu nada menos que 56% do território, deixando aos dois terços árabes somente 44% da terra. Por pressões do Vaticano e das nações católicas, a resolução da partição reservava à cidade de Jerusalém (de população de 200.000 pessoas, divididas mais ou menos igualmente entre árabes e judeus) a condição de área internacionalmente governada. A divisão demográfica dos dois putativos países era bizarra: no estado árabe, deveriam viver 818.000 palestinos, hospedando 10.000 judeus. No estado judeu, viveriam 438.000 palestinos entre 499.000 judeus. Esse estado detinha a esmagadora maioria das terra férteis e, das 1.200 aldeias palestinas, aproximadamente 400 estavam incluídas em seu interior, sob soberania sionista<a href="#sdfootnote20sym"><sup>20</sup></a>. Elaborada pelo UNSCOP, cujos membros não sabiam muito sobre a Palestina, a partição se transformaria na Resolução 181 da ONU. Não é de se estranhar que a liderança palestina do momento a rejeitasse. Com o boicote palestino ao UNSCOP, com certeza um erro político grave, a liderança sionista, de ampla superioridade bélica, se viu livre para dominar também o jogo diplomático.</p>
<p>A amarga ironia da história, quando a vemos do ponto de vista árabe, é que, como já argumentou a própria historiografia israelense (Simcha Flapan, por exemplo), se os palestinos tivessem aceitado a partição, a liderança sionista com certeza a teria rejeitado<a href="#sdfootnote21sym"><sup>21</sup></a>. Basta examinar as comunicações entre Ben-Gurion e a hierarquia sionista para ver como a rejeição árabe ao plano de partição permitiu ao sionismo aceitá-lo publicamente e ao mesmo tempo trabalhar contra ele. Logo depois da adoção da Resolução 181, Ben-Gurion afirmava ao círculo da liderança sionista que a rejeição árabe ao plano significava que “não há fronteiras territoriais para o futuro estado judeu” e que as fronteiras “serão determinadas pela força e não pela resolução de partição” (p.37). Respondendo a um líder sionista e ministro do exterior (Moshe Sharett) acerca das possibilidades de defender o seu território, Ben-Gurion afirmava: “seremos capazes não só de nos defendermos, mas de infligir golpes letais aos sírios em seu próprio país—e tomar a Palestina como um todo” (p.46). Essas comunicações, disponíveis para consulta nos próprios arquivos israelenses, demonstram claramente que a liderança sionista viu o plano de partição como uma conquista tática, que colocava em definitivo sobre a mesa a legitimidade de um estado judeu na Palestina e estabelecia um trampolim para conquistas posteriores. Essas conquistas, é certo, foram facilitadas pelo perplexo boicote palestino ao Comitê da ONU. Reitere-se, então, que as citações de Ben-Gurion acima são parte de uma ampla documentação que prova que a liderança sionista jogou um jogo duplo e não se comprometeu com a partição como fórmula definitiva. Isso jamais é mencionado pelos apologistas da ocupação de Israel que repetem a consigna de que “os judeus aceitaram a partição de 1947 e os árabes a rejeitaram” como justificativa dos crimes cometidos por Israel em 2010, e bem além dos limites dessa partição.</p>
<p>Antes de descrever a expulsão dos palestinos de suas terras, mais um elemento do xadrez político legado pelo Mandato Britânico deve ser explicado: o acordo sionista-jordaniano que deixa os palestinos sem o apoio do principal exército árabe na Guerra de 1948 e à mercê do superior poder bélico sionista. Aliada dos ingleses na Primeira Guerra Mundial, a família real Hashemita havia recebido os reinos da Jordânia e do Iraque como recompensa por seus serviços. O que passou a ser conhecido como Transjordânia “era um pouco mais que um principado desértico e árido ao leste do Rio Jordão, cheio de tribos beduínas e aldeias circassianas” (p.43). As férteis terras da Palestina situadas a oeste do Rio Jordão, no que hoje é conhecido como Cisjordânia (ou seja, o grosso do território do que é, legalmente, a Palestina atual), passaram a ser objeto da cobiça da família real Hashemita. Havia poucos judeus ali, e entre 1946 e 1947 a realeza jordaniana e a liderança sionista chegaram um acordo: os jordanianos não interfeririam na guerra árabe-israelense que se avizinhava—promessa que os jordanianos cumpriram—e a região da Cisjordânia seria anexada pelo reino dos Hashemitas, sem interferência sionista—promessa que os israelenses quebraram em 1967, ao ocupar o território e mantê-lo sob seu controle, picotagem policial e colonização armada até hoje. Também ali se instalaria um paradigma repetido incontáveis vezes desde 1948. Acuados pelo poder superior dos sionistas, as elites árabes vizinhas rifavam os palestinos, deixando-os entregues à própria sorte num jogo no qual não tinham nenhuma chance. É mais um elemento da tragédia do Oriente Médio.</p>
<p>Revisando os diários de Ben-Gurion e os arquivos israelenses posteriores à partição, o historiador Ilan Pappe encontra certa surpresa e júbilo entre a liderança sionista com o caráter limitado da reação palestina ao recorte de suas terras. Seguindo-se à Resolução 181, os palestinos se limitam a convocar uma greve geral de três dias, durante a qual a repressão inglesa foi duríssima. As revoltas árabes que aconteceram entre 1936 e 1939 deram também à organização paramilitar judia Hagana sua primeira experiência na execução das táticas militares aprendidas com a Grã-Bretanha. A destruição da liderança política palestina seria decisiva para o rumo posterior dos acontecimentos. O quadro que precede a guerra de 1948 é de intenso armamento sionista, coincidindo com um momento de particular fragilidade da liderança palestina, destroçada pela repressão britânica à revolta de 1936-39. No jogo diplomático, começa a pesar a consciência culpada da Europa, em choque com as dimensões gigantescas do Holocausto judeu, recém perpetrado. Quebrar as promessas feitas aos árabes era preço relativamente pequeno para expiar, às custas de outrem, a culpa européia pelo judeocídio. No xadrez político da região, o acordo sionista-jordaniano neutralizava o principal exército árabe. Em pânico com os constantes ataques dos grupos paramilitares judeus (Hagana, Irgun e Stern), a população autóctona, já em 1947, começa a perceber o poderio sionista como uma força imbatível. Estava aberto o caminho para a limpeza étnica da Palestina.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>IV &#8211; A preparação da expulsão</strong></p>
<p>Toda sorte de distorções e mitos já foram circulados sobre o que aconteceu na Palestina entre o final de 1947 e o começo de 1949. Na mitologia oficial israelense, no senso comum, no jornalismo mais venal ou preguiçoso, nas Wikipédias e até mesmo em livros embalados como se fossem de pesquisa historiográfica séria, essas distorções foram sedimentando uma coleção de narrativas que recorrem a falsificações não raro contraditórias entre si: 1) que o povo palestino como tal não existia; 2) que ele existia mas que saiu voluntariamente de suas terras em 1948; 3) que não saiu voluntariamente, mas que tampouco foi vítima do sionismo, pois abandonou suas aldeias atendendo a ordens radiofônicas dos próprios árabes; 4) no ramo da pseudo-historiografia sem-vergonha, paga para mentir, já apareceram até livros sobre como os palestinos não eram tão antigos assim na região, já que eles teriam chegado também em imigração recente. Essas diferentes versões da mitologia oficial vão se sucedendo ou se combinando, a gosto do freguês, formando uma geleia geral de enganação empacotada. Acompanham-na algumas frases que, até corretas em si mesmas, omitem um universo de contexto que lhes transforma o sentido, como é o caso de “os sionistas aceitaram a partição proposta pela ONU, os árabes, não”, analisado acima, e “a guerra de 1948 foi iniciada pelos palestinos”, mantra que é essencial em todo mascaramento do processo.</p>
<div id="attachment_1316" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/Nakba2.jpg"><img class="size-medium wp-image-1316" title="Nakba2" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/Nakba2-300x189.jpg" alt="" width="300" height="189" /></a><p class="wp-caption-text">Expulsão em aldeia palestina durante o Nakba</p></div>
<p>Como se sabe agora, a liderança militar sionista ficou surpresa com o caráter limitado dos protestos palestinos que se seguiram ao decreto da partição, em novembro de 1947. Afinal de contas, seu território havia sido rachado com uma comunidade minoritária de colonos, que receberam não só um naco de 56% do território, desproporcional à sua representação na população, mas um naco que continha pelo menos 400 aldeias palestinas, nas quais 800.000 palestinos deviam seguir vivendo sob soberania imposta e recém chegada. Ao longo dos dias que se seguem à partição, o comando sionista se reúne para encontrar formas de ataque possíveis, ante a ausência de pretextos. Os arquivos estudados por Ilan Pappe, das reuniões a liderança judaica na Palestina, dão amplo testemunho do planejamento da limpeza étnica. Os fazendeiros dos Kibbutzim transformavam suas cooperativas em postos militares, enquanto nas aldeias palestinas a vida seguia seu curso, no qual a “normalidade era a regra e a agitação a exceção”, segundo os informes do próprio Palti Sela, membro de uma unidade de inteligência sionista. Ao longo do mês de dezembro de 1947, anterior à guerra propriamente dita, as aldeias palestinas sofrem uma campanha de terror e intimidação das organizações paramilitares judias que representam o primeiro capítulo da limpeza étnica da Palestina.</p>
<p>A linguagem da ameaça foi prática comum naquele momento, como mostra o exemplo citado por Ilan Pappe, de panfletos lançados às aldeias sírias e libanesas na fronteira palestina: “Se a guerra for levada até você, ela causará expulsão massiva de aldeões, com suas mulheres e crianças … haverá matança sem piedade, sem compaixão” (p.56). Lembremos que nesse momento o sionismo já possui um mapa completo das aldeias palestinas, incluindo-se informação sobre água, possíveis defesas e indivíduos vinculados à resistência árabe durante os protestos de 1936-39. Esse mapeamento seria chave na destruição das centenas de aldeias palestinas e na expulsão de centenas de milhares de habitantes autóctonos da região No mês de dezembro se disseminam as ações que a Hagana chamava de “reconhecimento violento” (<em>hassiyur ha-alim</em>): invadir uma aldeia à noite, instaurar toque de queda, atirar em qualquer um que ouse sair de casa, permanecer durante algumas horas e ir embora. A aldeia de Deir Ayyub foi uma das vítimas de dezembro de 1947. Com aproximadamente 500 habitantes, ela acabava de comemorar a abertura de uma escola. Foi invadida por tropas judaicas que passaram a atirar indiscriminadamente nas casas. Deir Ayyub ainda seria atacada três vezes antes de ser destruída em sua totalidade em abril de 1948 (p.56). No nordeste da Galileia, na aldeia de Khisas, algumas centenas de muçulmanos coexistiam pacificamente há tempos com uma centena de cristãos. Até que no dia 18 de dezembro de 1947, tropas judaicas a invadiram e passaram a explodir casas durante a noite, provocando a morte de quinze aldeões, pelo menos cinco crianças. Ações como estas proliferaram ao longo de dezembro de 1947, e não costumam ser mencionadas pelos que justificam as atrocidades de Israel com o argumento de que “os palestinos iniciaram a guerra” em janeiro de 1948.</p>
<p>As ações de expulsão da população anteriores à declaração formal de guerra em janeiro de 1948 não se limitaram às aldeias pequenas. Na cidade de Haifa, principal porto da Palestina, 75.000 palestinos “foram submetidos a uma campanha de terror instigada conjuntamente pelo Irgun e pela Hagana. Como haviam chegado em décadas recentes, os colonos judaicos construíram suas casas no alto das montanhas. Viviam topograficamente acima dos bairros árabes e podiam disparar e lançar morteiros contra elas. Começaram a fazê-lo com frequência a partir do começo de dezembro. Usaram também outros métodos de intimidação: as tropas judaicas rolavam barris cheios de explosivos, e enormes bolas de aço, na direção das áreas residenciais árabes, lançavam óleo misturado com combustível nas estradas, que aí incendiavam. Os residentes palestinos, aterrorizados, corriam para fora de suas casas para tentar apagar o fogo, e aí passavam a ser alvo de rajadas de metralhadora” (p.58). A descrição documentada do que aconteceu em Haifa em dezembro de 1947 é importante porque a cidade é, com frequência, mencionada como exemplo de que as lideranças judaicas insistiram para que os palestinos ficassem e eles saíram “voluntariamente”.</p>
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<p><strong>V &#8211; Epílogo e promessa</strong></p>
<p>Não está contada aqui, evidentemente, nada da história do Nakba propriamente dito. Para se entender a monstruosidade a que foi submetida o povo palestino, há que se conhecer os quatro planos de limpeza étnica da Palestina elaborados pela liderança sionista desde antes da II Guerra Mundial. O Plano A, também conhecido como &#8220;Plano Elimelech&#8221;, toma seu nome do líder do comandante da Hagana que, em 1937,  já elaborara, a pedido de Ben-Gurion, um projeto de limpeza étnica a ser executado no momento em que os ingleses abandonassem a Palestina. O Plano B foi escrito em 1946 e ambos depois se fundiram no Plano C, que previa: a) assassinatos seletivos da liderança política palestina; b) destruição da infraestrutura de transporte palestina; c) sabotagem específica às fontes de sustento da população nativa, como os moinhos; d) ataques escalonados às aldeias; e) bombardeios de ônibus, cafés, locais de reunião. O fundamental desse plano é mantido no projeto que é efetivamente executado, o Plano D (<em>Dalet</em>), anterior à guerra de 1948, e que previa a sistemática expulsão do povo palestino de suas terras.</p>
<p>O Plano Dalet já é consenso entre a liderança sionista em Dezembro de 1947, antes da oficialização da guerra. Ao cabo do processo de limpeza étnica, espantosamente curto e brutal, mais da metade da população palestina nativa (pelo menos 750.000 pessoas) foi expulsa, 531 aldeias foram destruídas e onze bairros urbanos foram esvaziados de sua população, um crime contra a humanidade de enormes proporções, ainda hoje negado e envolvido em falsificação. Hoje, os refugiados e seus descendentes vivem esparramados por, em números aproximados, Jordânia (2 milhões), Líbano (430.000), Síria (480.000), além de 800.000  que são parte da população palestina que mora sob ocupação militar israelense na Cisjordânia (2,3 milhões) e outro 1,1 milhão que vive sob bloqueio (e frequente bombardeio) militar israelense em Gaza. Outros 1,2 milhão de palestinos vivem como cidadãos de segunda classe em Israel. O melhor guia do Nakba é o livro de Ilan Pappé, <em>The Ethnic Cleansing of Palestine</em>, infelizmente ainda inédito em português. Pretendo publicar num futuro próximo, aqui pela Editora Publisher, um breve livro que contará um pouco dessa história.  Se você lê inglês e se interessa pelo acompanhamento diário do horror, sugiro o site <a href="http://electronicintifada.net/">Electronic Intifada</a>.</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><span style="color: #ffffff;"><span style="color: #000000;">Referências fotográficas: <a href="http://elegance4life.blogspot.com/2011/07/albert-einstein-zionism-movement-to.html">aqui</a> e <a href="http://ziomania.com/nakba/nakba.htm">aqui</a>.  </span></span></p>
<p><span style="color: #ffffff;"><span style="color: #000000;">Referências bibliográficas: </span></span><span style="color: #ffffff;">otoRe.N</span></p>
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<p><a href="#sdfootnote1anc">1</a><span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;"> Aragão, Maria José.</span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;"> <em>Israel x Palestina: Origens, História e Atualidade do Conflito </em>(Rio de Janeiro: Revan, 2006), p. 23-4.</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote2anc">2</a><span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;"> Aragão, p. 32.</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote3anc">3</a><span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;"> Aragão, p. 33.</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote4anc">4 </a><span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Heynick, Frank. </span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;"><em>Jews and medicine, An Epic Saga,</em></span></span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;"> KTAV Publishing House, Inc., 2002 p.103. </span></span></span></p>
<p><a href="#sdfootnote5anc">5 </a><span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;"> McCarthy, Justin. </span></span><span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;"><em>The Population of Palestine</em></span></span><span><span style="font-size: small;">. (Nova York: Columbia UP, 1990), p. 37-8.</span></span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote6anc">6</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Khalidi, Walid. “Why did the Palestinians leave?&#8221; <em>Journal of Palestine Studies</em> 34.2 (2005): 42-54. Ver também Benny Morris, <em>The Birth of the Palestinian Refugee Problem Revisited</em> (Cambridge: Cambridge UP, 2004). </span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote7anc">7</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Fisk, Robert. <em>A grande guerra pelo Oriente Médio</em>. Trad. Sandra Dolinsky (São Paulo: Planeta, 2007), </span></span></span><span style="font-family: sans-serif, Arial; font-size: small;">p. 432.</span></p>
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<p><a href="#sdfootnote8anc">8</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Pappé, Illan. <em>The Ethnic Cleansing of Palestine</em> (Oxford: OneWorld, 2006), p. 283.</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote9anc">9</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Pappe, p. 11.</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote10anc">10</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Pappe, p. 14.</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote11anc">11</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Pappe, p.14.</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote12anc">12</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Pappe, p. 283.</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote13anc">13</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Pappe, p.12.</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote14anc">14</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Fisk, p.511.</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote15anc">15</a> <span style="color: #000000;"><span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;">Antonius, George. </span><em><span style="font-family: sans-serif, Arial;">Arab Awakening: The Story of the Arab National Movement</span></em><span style="font-family: sans-serif, Arial;"> (Londres: International Book Center, 1938),</span><span style="font-family: sans-serif, Arial;"> </span><span style="font-family: sans-serif, Arial;">p. 387.</span></span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote16anc">16</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Hilton, Stanley: <em>Oswaldo Aranha: Uma biografia</em> (Rio de Janeiro: Objetiva, 1994), p. 439.</span></span></span></p>
<p><a href="#sdfootnote17anc">17</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Eban, Abba. <em>Personal Witness: Israel Through My Eyes</em> (Nova York: Putnam&#8217;s Sons, 1992).</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote18anc">18</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Hilton, p. 456.</span></span></span></p>
<p><a href="#sdfootnote19anc">19</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Hilton, p. 459.</span></span></span></p>
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<p><a href="#sdfootnote20anc">20</a> <span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;">Pappe, p. 34-5.</span></span></span></p>
<p><a href="#sdfootnote21anc">21</a><span style="color: #000000;"><span style="font-family: sans-serif, Arial;"><span style="font-size: small;"> Flapan, Simcha. <em>The Birth of Israel: Myths and Realities</em> (Nova York: Pantheon, 1987).</span></span></span></p>
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		<title>A emergência das forças teocratas nos EUA</title>
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		<pubDate>Wed, 09 May 2012 20:42:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Idelber</dc:creator>
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		<category><![CDATA[teocracia]]></category>

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		<description><![CDATA[Num momento em que o Brasil atravessa uma assustadora onda teocrata, com níveis inéditos de violência homofóbica, uma enxurrada de projetos de lei inconstitucionais, em clara violação do Artigo 19 da Carta Magna, e sucessivas concessões do governo ao neopentecostalismo mais reacionário, vale a pena revisitar a ascensão recente da direita religiosa nos Estados Unidos. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Num momento em que o Brasil atravessa uma assustadora onda teocrata, com níveis inéditos de violência homofóbica, uma enxurrada de projetos de lei inconstitucionais, em clara violação do Artigo 19 da Carta Magna, e sucessivas concessões do governo ao neopentecostalismo mais reacionário, vale a pena revisitar a ascensão recente da direita religiosa nos Estados Unidos. Trata-se de uma história bem diferente da brasileira, sem dúvida, mas talvez ela contenha alguma lição.</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
Das sete eleições presidenciais realizadas nos EUA entre 1980 e 2004, os Republicanos venceram cinco. A direita religiosa foi chave em cada uma dessas cinco vitórias. Mais importante ainda, a atuação do neoevangelismo e a recusa do Partido Democrata em combatê-lo de frente foram decisivas no movimento do centro político dos EUA na direção da direita. Posições acerca de temas econômicos e culturais que, até os anos 70, teriam sido consideradas de um conservadorismo extremista passaram a transitar pelo discurso político como se fossem centristas e razoáveis. A emergência de um discurso que, em termos latino-americanos ou europeus, chamaríamos de <em>esquerda</em>, era uma possibilidade nos EUA até aquele momento (à raiz da grande mobilização dos anos 60), mas ela foi soterrada com a eleição de Ronald Reagan em 1980 e só voltaria a dar sinais de vida trinta anos depois, com o Ocupar Wall Street. De certa forma, a hegemonia Republicana não foi interrompida por Clinton ou Obama, na medida em que seus governos foram adaptações Democratas do programa Republicano (lembre-se, por exemplo, que foi Clinton quem desmantelou o sistema de bem-estar social e foi Obama quem legalizou o assassinato extra-judicial de cidadãos acusados de “terrorismo”). Muitos fatores contribuíram para essa longa hegemonia conservadora, mas a atuação da direita neopentecostal foi decisiva.</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
Somente a partir da eleição de Reagan se unifica o tripé reacionário que constituiria a nova face do Partido Republicano. Esses três segmentos do conservadorismo eram, até então, relativamente independentes entre si e nem todos possuíam vida partidária ativa. A partir da década de 1980, eles se unem e formam um bloco temível: falo daquilo que, nos EUA, chamamos de conservadores econômicos (defensores do “livre mercado” e do Estado mínimo, que passam por uma trajetória de aproximação crescente a um fundamentalismo à la Ayn Rand), os falcões da política externa (representantes da indústria bélica e proponentes de um destino manifesto dos EUA de controle sobre o resto do planeta) e os conservadores sociais, que se mobilizam em torno de bandeiras como a proibição do aborto e do casamento gay, o ensino de criacionismo nas escolas e a promoção de abstinência sexual. A direita neopentecostal é o grande motor deste último grupo, até o ponto em que o rótulo “conservadores sociais” se tornou, nos EUA, uma espécie de outro nome para os teocratas.</p>
<p><span id="more-1273"></span></p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
O apoio incondicional a Israel tem sido um dos eixos da aliança entre os três setores. Pode parecer paradoxal à primeira vista, mas o sionismo mais extremista nos EUA não tem sua base na comunidade judaica, e sim no cristianismo neopentecostal. Os que mais se mobilizam na promoção e financiamento da colonização ilegal na Palestina são os chamados cristãos renascidos, que creem que aqueles que não se reconciliarem com Cristo na sua segunda vinda à Terra estão condenados ao inferno. Note-se que se trata de um ensinamento <em>fundamentalmente antissemita</em>. Mas a acusação de antissemitismo, claro, nunca é feita a esses grupos, já que seu apoio a Israel é incondicional. A “resolução” desse bizarro paradoxo se dá através da doutrina do chamado “dispensacionalismo”, que preconiza que o controle completo de toda a Palestina pelo estado de Israel é um prerrequisito para a segunda vinda do Messias.</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
Um dos equívocos mais comuns na compreensão dos teocratas ocidentais de hoje em dia é acreditar que eles são um mero resquício, uma sobrevivência medieval ou pré-moderna, fadada a desaparecer quando as sociedades se secularizarem por completo. Nada é mais falso. Trata-se de uma operação especificamente moderna, com raízes no colonialismo inglês do século XIX e muito ancorada nas novas tecnologias. Pat Robertson, por exemplo, um dos principais líderes da direita religiosa dos EUA, construiu seu império como evangelista televisivo, começando com o estabelecimento do <em>Christian Broadcasting Network</em> (CBN), em 1960, uma intensa campanha para a compra de receptores de TV a cabo entre neopentecostais nos anos 60, a fundação do Canal da Família nos anos 70 e a explosão de programas de TV evangélicos nos anos 80. Nessa mesma década, Robertson se consolidaria como arrecadador para os contras da Nicarágua e parceiro de Ronald Reagan na confecção da aliança que selou o pacto entre falcões da política externa, conservadores sociais e conservadores econômicos. Seria em 1983, justamente na convenção da Associação Nacional de Evangélicos, que Ronald Reagan faria o pronunciamento que ficou conhecido como “o discurso do império do mal”, em que a União Soviética era definida nesses termos, já puramente morais e não políticos.</p>
<p>Desde a campanha presidencial de Richard Nixon em 1968, fortemente ancorada nos medos dos brancos sulistas ante os avanços da legislação dos direitos civis (e decisiva na perda da longa hegemonia que o Partido Democrata, o partido da escravidão, sempre possuíra no sul), a direita cristã acumulou uma série de vitórias organizativas. Entre os grupos de direita religiosa formados nos anos 70 e 80 se contam: o Fórum Águia (1972), a Causa Cristã Americana (1974), o Foco na Família (1977), a Voz Cristã (1978), especificamente treinada para arregimentar evangélicos em eleições, a Maioria Moral (1979), do ultra-reacionário Jerry Falwell, a Washington para Jesus (1980), instrumento de congregação dos cristãos de direita na campanha de Ronald Reagan, o Conselho de Pesquisa da Família (1983) e, finalmente, a Coalizão Cristã (1987), de Pat Robertson, talvez a mais poderosa voz da direita evangélica nos EUA.</p>
<p>Se tivermos que definir qual o recurso retórico mais utilizado por esse segmento ao longo dos anos, diríamos que foi a <em>metonímia</em>, a toma (ou, aqui no caso, a confusão deliberada) da parte pelo todo. A expressão “Maioria Moral”, por exemplo, não poderia ser mais enganosa. As visões representadas por esse grupo estão quilômetros à direita do que poderia ser considerado o centro e a maioria do espectro político dos EUA. A maioria dos cidadãos dos EUA defende, por exemplo, o direito ao aborto. 67% concordam que a Constituição “exige uma clara separação entre Igreja e Estado”. A Coalizão Cristã não representa, portanto, nem mesmo as visões dominantes entre os cristãos dos Estados Unidos. Mas quando se fala em “cristãos” na política dos EUA, pensa-se neles. A atividade dos grupos da direita evangélica, combinada com a superexposição midiática e <em>a recusa do Partido Democrata a enfrentá-los politicamente</em>, acaba colocando-os na posição permanente de fazer chantagens e ameaças, e vai criando essa imagem distorcida do corpo político. O resultado é que o centro do espectro nunca está à direita o suficiente, pois os grupos teocratas, incentivados pela falta de uma resposta contundente dos liberais seculares, vão acumulando conquistas e abocanhando mais território. Nesse aspecto, o processo guarda uma semelhança assustadora com o que se vive hoje no Brasil.</p>
<p>O excelente site <a href="http://www.theocracywatch.org/">Theocracy Watch</a> mapeia a lista de matérias sobre as quais os teocratas intervêm com regularidade nos EUA . É uma iniciativa que, aliás, deveria ser replicada no Brasil, combinando-se o ótimo trabalho que já fazem os blogs <a href="http://comerdematula.blogspot.com/">Comer de Matula</a>, <a href="http://fiscaisdefiofo.ligahumanista.org/">Fiscais de Fiofó</a>  e <a href="http://www.eleicoeshoje.com.br/">Eleições Hoje</a>. No caso do ensino fundamental e médio, a estratégia da direita cristã tem sido promover candidatos aos conselhos das escolas ao mesmo tempo em que <em>retira seus filhos das escolas públicas</em>. Robert Thoburn, um dos reconstrucionistas mais influentes em política educacional, afirmou claramente: “O seu objetivo, uma vez eleito para o conselho, deve ser afundar o navio”. Dois dos projetos documentados em vários textos da direita cristã (e abraçados por um pré-candidato Republicano à Presidência este ano, Rick Perry) são a abolição do Ministério da Educação e a derrubada da decisão de 1962 da Suprema Corte, que declarou inconstitucional que o Estado patrocine orações nas escolas públicas como parte do currículo. Na batalha para conferir legitimidade ao criacionismo nas escolas, como se ele fosse ciência legítima, o Instituto Discovery tem sido até mais influente que os grupos fanáticos como a Coalizão Cristã. Ele aposta na estratégia de “lecionar a controvérsia” – como se houvesse uma controvérsia real entre cientistas acerca da evolução ou o criacionismo. Esse marco, que confere ao fanatismo religioso uma cara moderada e razoável, se encarna na chamada teoria do design inteligente, que é simplesmente criacionismo com pretensões e retórica pseudo-científica, que faz uso de um procedimento básico de qualquer ciência – a dúvida – para desqualificar pesquisa já comprovada e sugerir que o fenômeno estudado não é explicável sem a hipótese de uma “inteligência” (outro nome para a divindade) por trás dele.</p>
<p>Nenhuma análise da direita religiosa dos EUA está completa sem menção ao fato de que se trata, em vários sentidos, de uma guerra contra as mulheres. De certa forma, a própria emergência da direita cristã é, em sua totalidade, uma tentativa de reverter a decisão da Suprema Corte conhecida como <em>Roe v. Wade</em>, de 1973, que cancelou várias restrições estaduais e federais ao aborto. De lá pra cá, e especialmente durante o governo Bush, uma série de limitações voltaram a ser impostas ao aborto, que continua (não se sabe até quando) legal nos EUA. Em novembro de 2003, rodeado por legisladores homens – não havia uma única mulher –, George W. Bush assinou a proibição do “aborto por nascimento parcial”, que é uma técnica para interromper a gravidez avançada, de 20 a 26 semanas. Em 2004, o “Ato sobre as vítimas não-nascidas de violência” conferia o estatuto de pessoa humana ao feto – exatamente o que se tenta agora no Brasil com o chamado estatuto do nascituro. A medida, na prática, conferia fundamento jurídico para uma futura revogação de Roe v. Wade. O grupo de defesa dos direitos das mulheres, NARAL, contabilizou, desde 1995, 335 medidas anti-escolha, promulgadas num contexto em que é cada vez mais difícil para um médico realizar abortos e cada vez mais arriscado para uma mulher visitar as clínicas, dada a intensa pressão, com frequência acompanhada de agressões, com que os grupos anti-escolha têm se manifestado.</p>
<p>Mas a grande vitória dos teocratas dos EUA não foi assinada por nenhum dos George Bush nem por Ronald Reagan. Isso é o mais incrível. A maior conquista teocrata nos EUA dos últimos 30 anos foi assinada por Bill Clinton, e é conhecida como “Ato de Defesa do Casamento”, a inacreditável lei de 21 de setembro de 1996 que define o casamento como a união de um homem e uma mulher. Concebida, evidentemente, como um ataque direto a gays e lésbicas, o ato estipula que nenhum estado dos EUA será obrigado a reconhecer um casamento entre pessoas do mesmo sexo realizado em outro estado. A seção 3, depois declarada inconstitucional por duas cortes de Massachusetts (mas ainda sob recurso), determinava o não-reconhecimento federal de qualquer casamento entre pessoas do mesmo sexo para efeitos de herança, seguridade social, planos de saúde ou declarações de imposto de renda. O voto na Câmara dos Deputados foi um massacre: 342 a 67. No Senado, outra goleada: 85 a 14. Bill Clinton assinou essa monstruosidade como parte de uma estratégia de “conciliação” com os teocratas.</p>
<p>Pesquisa atrás de pesquisa demonstrava que a população dos EUA não se importava com isso e, quando perguntada, declarava-se majoritariamente contra essa explícita restrição aos direitos de gays e lésbicas. Qualquer análise sociológica e estatística minimamente competente mostrava que o ato era uma estratégia de Republicanos desesperados com a popularidade de Clinton e dispostos a mobilizar uma franja fanática do eleitorado. A estratégia Democrata de recusar o debate aberto, de não encarar a polêmica, só rendeu, no final das contas, mais dividendos para a teocracia cristã, sempre pronta a empurrar os limites do possível para a direita. A experiência norte-americana dos últimos 30 anos mostra claramente: a maioria da população não é composta de homofóbicos e misóginos convictos, mas a homofobia e a misoginia prosperam quando a dinâmica das seguidas concessões impede o debate aberto. Que o governo federal entenda isso, antes que o PT perca definitivamente a autoridade moral para falar em direitos humanos.</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><em>Este artigo é parte integrante da <a href="http://www.revistaforum.com.br/conteudo/edicao_materia.php?codEdicao=109">Edição 109 da Revista Fórum</a>.</em></p>

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		<title>Yvonne Maggie: falsificação de citações, adulteração de arquivos e desonestidade intelectual</title>
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		<pubDate>Wed, 09 May 2012 11:48:35 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Idelber</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Cotas]]></category>
		<category><![CDATA[racismo]]></category>
		<category><![CDATA[STF]]></category>
		<category><![CDATA[Yvonne Maggie]]></category>

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		<description><![CDATA[Este não será um texto sobre racismo nem sobre cotas. Escrevo sobre o tema há alguns anos mas, nos últimos tempos, tenho me limitado a divulgar, admirar e comentar os textos em que, com prosa cintilante, pesquisa histórica exaustiva e sensibilidade incomum, Ana Maria Gonçalves se dedica a esmiuçar os caminhos do racismo brasileiro. Não [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: left;" align="CENTER">Este não será um texto sobre racismo nem sobre cotas. Escrevo sobre o tema <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2005/04/o_brasil_posgra.php">há alguns anos</a> mas, nos últimos tempos, tenho me limitado a divulgar, admirar e comentar os textos em que, com <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2011/02/carta_aberta_ao_ziraldo_por_ana_maria_goncalves.php">prosa cintilante</a>, <a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2011/09/18/a-caixa-economica-federal-a-politica-do-branqueamento-e-a-poupanca-dos-escravos-por-ana-maria-goncalves/">pesquisa histórica exaustiva</a> e <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2010/11/nao_e_sobre_voce_que_devemos_falar_por_ana_maria_goncalves.php">sensibilidade incomum</a>, Ana Maria Gonçalves se dedica a esmiuçar os caminhos do racismo brasileiro. Não se tratará, aqui, portanto, do já conhecido rosário do negacionismo brasileiro. Distorções e omissões várias são sua matéria cotidiana, mas o tema aqui será algo bem mais grave, a falsificação de citações e a posterior adulteração de um arquivo para tentar encobrir dita falsificação, depois que a mentira foi denunciada, aqui mesmo na Revista Fórum. O caso é sério, especialmente porque sua autora é professora numa das instituições universitárias mais respeitadas do país, a UFRJ. Não se trata de um erro ou de um engano, como se verá adiante.</p>
<p align="JUSTIFY">Em seu texto “<a href="http://g1.globo.com/platb/yvonnemaggie/2012/04/23/a-constitucionalidade-das-cotas-raciais-no-brasil/">A constitucionalidade das cotas raciais no Brasil</a>”, publicado no portal d&#8217;O Globo no dia 23/04, Yvonne Maggie escreveu:</p>
<blockquote><p><span id="more-1260"></span></p>
<p align="JUSTIFY">Em <strong><em>Thirteen ways of looking at a black man</em></strong>, de Henry Louis Gates Junior, professor de Harvard, há uma história reveladora do que se passou depois da lei dos direitos. Neste livro, Harry Belafonte conta que alguns anos depois de 1964 fora convidado para fazer um filme. O produtor, muito animado, lhe dissera: “Harry, será maravilhoso, vamos fazer um filme dirigido e estrelado por negros, produzido por negros, com música feita por negros e vai ser belíssimo”. Ao que o ator, nervoso, respondeu: “Não quero fazer parte disso, passei tantos anos lutando para sair do gueto, não serei eu a me enfiar de novo nele”. Gates conta que durante a entrevista, após esta declaração de Harry, seguiu-se um silêncio constrangedor, só quebrado com uma sonora gargalhada do entrevistado e a seguinte frase: “Eu não aceitei a armadilha, mas é claro que Sidney Poitier aceitou e ficou rico estrelando todos aqueles filmes”.</p>
</blockquote>
<div id="attachment_1262" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/800px-Henry_Louis_Gates_Jr.jpg"><img class="size-medium wp-image-1262" title="800px-Henry_Louis_Gates_Jr" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/800px-Henry_Louis_Gates_Jr-300x201.jpg" alt="" width="300" height="201" /></a><p class="wp-caption-text">&quot;Esse negócio de cota não é legal!&quot;, diz o Henry Louis Gates inventado por Maggie</p></div>
<p align="JUSTIFY">Pois bem, tudo o que está nesse parágrafo é falso. Nada disso se encontra no livro <a href="http://www.amazon.com/Thirteen-Ways-Looking-Black-Man/dp/0679776664">Thirteen ways of looking at a black man</a>, de Henry Louis Gates. Como está longamente explicado no texto de Ana, Yvonne Maggie simplesmente atribuiu a Henry Louis Gates Jr. algo que ele jamais escreveu. Colocou entre aspas, atribuída a “um produtor”, uma frase que jamais foi dita ao ator Harry Belafonte. Atribuiu ao próprio Belafonte, ativista dos direitos civis, uma frase que ele não pronunciou, e por cuja atribuição ele com certeza poderia processar criminalmente Yvonne Maggie. A suposta paráfrase que começa com “Gates conta que &#8230;” também é falsa, e tem como predicado algo que Gates nunca contou. A frase seguinte, entre aspas e atribuída a Harry Belafonte, também é uma fabricação de Yvonne Maggie.</p>
<p align="JUSTIFY">As falsificações têm como objetivo manipular a voz de dois negros respeitados – ambos ativistas da luta pelos direitos civis e pela cidadania afro-americana – de forma a fazer parecer que eles tivessem corroborado a fantasia de Yvonne Maggie, de que a luta pelas políticas de ação afirmativa é uma forma de “se enfiar de novo no gueto” (expressão jamais atribuída a Harry Belafonte no livro de Henry Louis Gates). Daí a falsificação das datas: as duas histórias a partir das quais Yvonne Maggie constrói sua mentira (e que tem com esta pouquíssima relação) aconteceram por volta de 1959-60. Ela adultera a data para “depois de 1964” de forma que as declarações possam parecer uma recusa da “volta ao gueto” posterior à publicação da legislação dos direitos civis nos EUA. Caso você queira saber o que realmente está escrito no livro de Henry Louis Gates, <a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/05/05/a-midia-as-cotas-e-o-sempre-bom-e-necessario-exercicio-da-duvida-por-ana-maria-goncalves/">basta ler o artigo de Ana</a>. Como se verá lá, trata-se de dois episódios, nenhum dos quais tem o conteúdo sugerido por Yvonne Maggie ou contém as frases colocadas por ela entre aspas.</p>
<p align="JUSTIFY">O parágrafo com as falsificações, que se encontra <a href="http://g1.globo.com/platb/yvonnemaggie/2012/04/23/a-constitucionalidade-das-cotas-raciais-no-brasil/">no texto de Yvonne Maggi</a><a href="http://g1.globo.com/platb/yvonnemaggie/2012/04/23/a-constitucionalidade-das-cotas-raciais-no-brasil/">e</a> … Opa! Peraí. O parágrafo já não está lá! Citado por Ana no texto publicado aqui na Fórum, o trecho foi posteriormente retirado, sem qualquer aviso, justificativa ou crédito a quem havia apontado o seu “engano”. A professora da UFRJ se esqueceu de que havia escrito na Internet, onde blogueiro véio não é bobo. Já acostumados com a desonestidade intelectual do negacionismo brasileiro, fotografamos a página antes da adulteração. Eis aqui o printscreen do texto de Yvonne Maggie com a falsificação agora ocultada. É só clicar e ampliar:</p>
<p align="JUSTIFY"> <a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/Yvonne2.png"><img class="aligncenter size-medium wp-image-1261" title="Yvonne2" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/Yvonne2-300x168.png" alt="" width="300" height="168" /></a></p>
<p align="JUSTIFY"><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p align="JUSTIFY">A professora Yvonne Maggie, portanto, não apenas adulterou citações, falsamente atribuindo a líderes negros norte-americanos frases que eles jamais disseram. Quando pega na mentira, adulterou o arquivo que ela mesma havia escrito, sem qualquer reconhecimento da falsificação. Não deixa de ser uma estratégia comum do negacionismo brasileiro: apagar, “branquear” as marcas da barbárie.</p>

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		<title>(Des)organizando minha biblioteca</title>
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		<pubDate>Tue, 08 May 2012 12:34:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Idelber</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Biblioteca]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Depois de reunificar minha biblioteca, ando reorganizando-a. Os princípios de classificação sempre foram um drama para minha coleção de livros, porque na medida em que ela ia crescendo, eles se tornavam cada vez menos úteis. Os livros são, para nós, com frequência, algo distinto do que diz sua ficha catalográfica. Assim, Sade, Fourier, Loyola, de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Depois de <a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/04/19/desempacotando-minha-biblioteca/">reunificar minha biblioteca</a>, ando reorganizando-a. Os princípios de classificação sempre foram um drama para minha coleção de livros, porque na medida em que ela ia crescendo, eles se tornavam cada vez menos úteis. Os livros são, para nós, com frequência, algo distinto do que diz sua ficha catalográfica. Assim, <em>Sade, Fourier, Loyola</em>, de Roland Barthes, é para mim um livro sobre o amor, jamais catalogável na seção de biografias. Sempre li em <em>Finnegans Wake</em>, de James Joyce – não se trata, evidentemente, de um livro que se leia, mas de um livro <em>no qual</em> se lê –, um tratado de teoria literária, que não cabe na mesma prateleira dos romances de língua inglesa. A <em>Carta de Jamaica</em>, de Simón Bolívar, não é para mim um ensaio ou um texto historiográfico, mas uma utopia, a ser catalogada junto com a de Thomas Morus ou com a <em>República</em> de Platão. O sistema catalográfico da <a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Library_of_Congress_Classification">Biblioteca do Congresso</a>, o mais usado por aqui, passava a me servir cada vez menos quanto mais a biblioteca crescia.</p>
<p>Durante um bom tempo, resolvi a coisa de forma relativamente simples, dividindo meus livros em duas grandes categorias: literatura (poesia, ficção, teatro) e não-literatura, esta última incluindo tudo, desde filosofia até livros sobre futebol. Dentro dessas duas grandes categorias, os livros vinham listados por ordem alfabética por autor. Assim eles foram relativamente felizes durante certo tempo, com uma sequência de estantes que ia de Theodor Adorno a Slavoj Žižek e outra que ia de Caio Fernando Abreu a Émile Zola. Fácil e rápido, com tudo por ordem alfabética – que tem a vantagem de ser uma ordem sem ser uma hierarquia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span id="more-1250"></span></p>
<div id="attachment_1252" class="wp-caption aligncenter" style="width: 310px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/DSC043941.jpg"><img class="size-medium wp-image-1252" title="DSC04394" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/DSC043941-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Alguns de meus livros sobre/de Walter Benjamin</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p>A coisa começou a se complicar no momento em que passei a pesquisar, publicar e juntar livros sobre música. Acumulavam-se volumes que eu havia lido e sobre os quais eu sabia tudo,<em> menos o nome do autor</em>. Até hoje, refiro-me àquele <em>ótimo livro sobre Jackson do Pandeiro da Editora 34</em>, do qual posso citar episódios inteiros (a descrição que há ali da estréia de Jackson na televisão é inesquecível), mas não o nome de quem o escreveu. Em meio a milhares de livros de não-ficção, passou a ser impossível encontrar meus livros sobre música, a não ser que eles tivessem sido escritos por Mário de Andrade, Christopher Dunn, Ana María Ochoa, Hermano Vianna, Santuza Cambraia Naves ou qualquer outra figura que fosse, para mim, por qualquer razão, autoralmente marcante. Passou a ser impossível encontrar<em> aquele bom livro sobre o Brock dos anos 80</em> ou <em>aquela ótima biografia de Luiz Gonzaga</em>.</p>
<p>A divisão ficção / não-ficção, com as duas categorias organizadas em ordem alfabética por autor, ruiu de vez quando passei a acumular livros sobre aquele esporte que praticávamos, chamado futebol. Também nessa seara os volumes são muito mais marcantes, para mim, por tema, imagens ou editora que por autor – de novo, a não ser que eles tenham sido escritos por Tostão, José Miguel Wisnik ou outra figura tão autoralmente marcante como estas –, e o resultado foi que passei a separar os livros sobre música e sobre futebol para fora das prateleiras de não-ficção.</p>
<p>Isso bagunçou completamente o princípio da classificação, pois temas sobre os quais eu também acumulo muitos livros – a Palestina, por exemplo – passaram a merecer, a meus olhos, a nobreza da prateleira separada. Assim, os livros de Ilan Pappé, Noam Chomsky, Norman Finkelstein, Saree Makdisi, Edward Said, Benny Morris e outros foram arrancados dos seus lugares na sequência das prateleiras por ordem alfabética e formaram uma categoria separada, o que confundiu a própria divisão entre ficção e não-ficção, já que há vários romances – por exemplo, <em>Mornings in Jenin</em>, de Susan Abulhawa, traduzido no Brasil como <em>A cicatriz de David</em> – que leio muito mais como documentos sobre a Palestina que propriamente como obras literárias.</p>
<p>Daí em diante, foi morro abaixo. A sequência de livros de ficção, antes tão impecavelmente organizada por ordem alfabética, foi inicialmente separada por coleções. Três delas, fundamentais na minha formação &#8212; a &#8220;Imortais da Literatura Universal&#8221;, publicada em fascículos pela Abril durante a ditadura, a <a href="http://www.bibliotecayacucho.gob.ve/fba/index.php?id=103">Biblioteca Ayacucho</a>, de clássicos latino-americanos, e a <a href="http://www.leabooks.com/LEA-Spanish%20Pages/Literatura/Paginas%20de%20Autor/Archivos-Obras-Completas-Index.htm">Colección Archivos</a>, de romances, poemários e ensaios latino-americanos modernos – passaram a ser agrupadas juntas. Os meus poetas de leitura mais constante – Oswald, Baudelaire, Rilke, Celan, Ana Cristina César, Byron, Mallarmé, Drummond, Blake, Pessoa, Cabral, Pizarnik, Sylvia Plath – ganharam uma estante só para eles, atrás de minha mesa, ao alcance da mão, gerando, claro, a perene dúvida sobre quais são os poetas merecedores da honraria. A coleção de literatura argentina, meu instrumento mais frequente de trabalho, ganhou um espaço próprio, produzindo outra infinidade de dúvidas, como por exemplo se Horacio Quiroga deve ser catalogado como escritor argentino ou uruguaio, se Gombrowicz é um escritor polonês ou argentino, e se a tradução borgeana das <em>Palmeiras Selvagens</em>, de Faulkner, não é, afinal de contas, uma obra da literatura argentina.</p>
<p>Com a chegada de uma infinidade de caixas de livros vindas de Belo Horizonte, a falta de lugares nas estantes e a coexistência de vários princípios de classificação que se sobrepõem uns aos outros, estou de volta onde estava há alguns anos: sem qualquer certeza de onde está cada livro.</p>

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		<title>A mídia, as cotas e o sempre bom e necessário exercício da dúvida, por Ana Maria Gonçalves</title>
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		<pubDate>Sat, 05 May 2012 13:34:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Idelber</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Cotas]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Tenho escrito alguns artigos sobre racismo e, em todos, invariavelmente, apareceu quem tentava fugir do assunto para falar sobre cotas. São assuntos relacionados, eu sei, mas também complexos por si só. Cotas não seriam necessárias se não houvesse racismo. Mas estão aí, os dois, e talvez agora, depois da histórica decisão do Supremo Tribunal Federal, nos dias <a href="http://www.youtube.com/playlist?list=PL4CEC80CB3345EB22&amp;feature=plcp">25/04/2012</a> e <a href="http://www.youtube.com/playlist?list=PLE4E9AC47D6D82AED&amp;feature=plcp">26/04/2012</a>, reafirmando a constitucionalidade das cotas, possamos começar a conversar de verdade sobre eles. Porque talvez a velha mídia pare de fazer a campanha suja que vem fazendo e nos deixe, finalmente, tratar desses assuntos e das vidas das pessoas por eles modificadas (brancos, negros, cotistas, não-cotistas etc&#8230;) com a honestidade e o respeito que todos merecem. É agora que começa o trabalho, e é bom que a gente tente separar, principalmente, o que é fato do que foi campanha, o que é verdade histórica do que foi mero exercício de futurologia. Será um longo caminho que vamos ter que aprender a trilhar juntos, independente de sermos contra ou a favor. Somos sujeitos históricos: o que fizemos ontem, como povo e como indivíduos, reflete na realidade que temos hoje, assim como o que fazemos hoje vai determinar com o que teremos que conviver amanhã. A História não nos deixa viver impunes.</p>
<p>Quando mudei de opinião sobre as cotas, em 2006, aprendi a duvidar. Durante um bom tempo ainda me vi balançada entre argumentos, mas todos eles perderam a força quando vi esse <a href="http://www.bbc.co.uk/portuguese/avconsole/bb_wm_fs.shtml?redirect=fs.shtml&amp;lang=pt-br&amp;nbram=1&amp;nbwm=1&amp;bbwm=1&amp;bbram=1&amp;ms3=22&amp;ms_javascript=true&amp;ws_pathtostory=http://www.bbc.co.uk/go/wsstory/int/rhn/portuguese/-/portuguese/news/avfile/2007/05/&amp;ws_storyid=070516_dnaseujorge_console&amp;bbcws=2" target="_blank">video</a>, de 2007. Nele, Seu Jorge conta que sua filhinha mestiça, de 6 anos, era segregada pelas coleguinhas na escola de balé. Isso não tem nada a ver com preconceito de classe, é racismo puro. Racismo entre crianças de 6 anos. As coleguinhas a segregaram porque ela era diferente, e a única diferença visível estava na cor. &#8220;<em>Essa menina/ tão pequenina/ quer ser bailarina&#8221;,</em> diz o poema de Cecília Meireles, <em>&#8220;Mas depois esquece todas as danças/ e também quer dormir como as outras crianças&#8221;</em>. Alguém tem alguma ilusão de que a filha de Seu Jorge, depois de uma brutalidade dessa, conseguirá dormir como as outras crianças de sua escola de balé? Se a gente continuar querendo acreditar que não é problema nosso, que todos nós que vivemos nos tempos de hoje não temos nada a ver com os resquícios perenes e dolorosos da escravidão, isso vai continuar acontecendo. Crianças de seis anos continuarão sendo vítimas de racismo. Brancas, mestiças ou negras. Porque o racismo que marca sem dó a criança estigmatizada, tem na outra ponta aquela que vai crescer presa a esse sentimento nefasto, mesmo que no futuro aprenda que ele é reprimível e condenável. <a href="http://www.inclusive.org.br/?p=17958" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Esse livro</span></span></a> de Eliane Cavalleiro nos mostra que racismo introjetado na infância não desaparece sozinho. Para combatê-lo, e todos nós estamos sujeitos a ele, é necessário um exercício contínuo e nem sempre agradável de observação e conhecimento de nossas palavras e reações e, sobretudo, do ambiente à nossa volta. Alguém tem alguma dúvida de que, se os pais dessas crianças que se recusaram a dar a mão para a filhinha de Seu Jorge tivessem amigos, vizinhos e colegas de trabalho negros, com quem convivessem em situação de igualdade, essa situação poderia ser diferente? Provavelmente ninguém as instruiu a não dar a mão. Elas observaram e concluíram: aqui há uma diferença, e ela envolve cor. Para ajudar a combater o racismo e o preconceito de cor, as ações devem ser pontuais e específicas, como as cotas raciais. Que não são, de maneira alguma, incompatíveis com as cotas sociais, específicas para ajudar a combater a desigualdade econômica. Preconceito de classe e preconceito de cor, embora muitas vezes se sobreponham, não são a mesma coisa, e exigem soluções diferentes. São assuntos sérios que exigem, sobretudo, que sejam deixados à margem de disputas políticas e de poder. Há racismo e luta anti-racismo na direita e na esquerda. Não é bandeira de ninguém, embora ainda sejam tão poucos os dispostos a carregá-la. Há racismo e luta antirracista na direita e na esquerda (recomendo a leitura do livro <a href="http://www.travessa.com.br/O_MARXISMO_E_A_QUESTAO_RACIAL_KARL_MARX_E_FRIEDRICH_ENGELS_FRENTE_AO_RACISMO_E_A_ESCRAVIDAO/artigo/6774f202-509d-4265-ac41-08c1bc448d7d" target="_blank">O Marxismo e a questão racial &#8211; Karl Marx e Friedrich Engels frente ao racismo e à escravidão</a>). Não é bandeira de ninguém e é de todo mundo, e tenho esperança de que um dia seremos muitos a carregá-la.</p>
<p>Eu sou otimista; e ficarei ainda mais quando mais pessoas começarem a duvidar do que ouviram ou leram até aqui (inclusive nesse artigo), procurar informações confiáveis e comprováveis, se dispor a ouvir quem está há mais tempo na luta e tirar suas próprias conclusões. Esse vai ser um longo artigo porque, desde que comecei a fazer tudo que listei aí acima, e esse também é um processo contínuo, tenho me horrorizado com o tipo de &#8220;informação&#8221; e de ações sobre as quais boa parte da mídia brasileira tenta levar seus leitores a tomar posição. Não vou mentir dizendo que não quero fazer as pessoas mudarem de opinião, porque no fundo, é o que queria que acontecesse. Mas acima de tudo queria que tomassem os exemplos abaixo como ponto de partida para esse tão bom e necessário exercício da dúvida. Seria bom que cada pessoa que é contra as cotas raciais, disposta ou não a mudar de ideia, não aceitasse como verdade absoluta a opinião de nossos &#8220;formadores de opinião&#8221;, checasse o que eles dizem e escrevem, e observasse se o que resta de concreto nisso tudo ainda oferece base suficiente para sustentar uma posição entravadora do diálogo e das lutas anti-raciais no país. Não é nos dividindo entre bons e maus, petralhas e esquerdistas, cegos e aqueles que veem a luz, racistas e não-racistas etc&#8230; que vamos resolver o problema do racismo. É nos unindo na análise de situações concretas, na resolução de problemas concretos e, sobretudo, na tentativa de reestabelecimento e recuperação de um mínimo possível de verdade histórica.</p>
<p><span id="more-1205"></span></p>
<p>Esse não será um artigo desapaixonado, pois me é caro. É a minha contribuição, que junto à de vários ativistas e simpatizantes dos movimentos negros, passados, presentes e futuros, para começarmos a estabelecer as bases sobre as quais as conversas sobre racismo e correlatos devem se firmar. E escrevo porque acredito que essa base está muito mais próxima do que, na média, a sociedade brasileira realmente almeja, do que o baixíssimo nível no qual parte da grande mídia quer fixá-la. Ali Kamel, Yvonne Maggie, Demétrio Magnoli, e Demóstenes Torres, para citar os que ocupam mais espaço, mais os editorialistas de O Globo, Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, ao nos falar do ódio que as cotas vão despertar no povo brasileiro, sabem do que falam. Se eu também me informasse apenas através de seus textos, estaria odiando negros, esquerdistas, lulo-petistas, ongs patrocinadas por fundações norte-americanas, jornalistas delinquentes e todo tipo de gente irresponsável que macaqueia a América do Norte num momento em que os americanos percebem a grande burrada que fizeram, e não se tocam que vão deflagar uma sangrenta guerra civil que vai primeiro segregar e depois dizimar boa parte da população, como aconteceu com a Índia, Ruanda e África do Sul, já tendo começado pelo genocídio de todos os mestiços, não poupando também os índios que forjaram suas identidades nos últimos anos, e está preparando um enorme exército de filhos de Pelé e Joaquim Barbosa para tomar todas as vagas dos 19 milhões de brancos pobres. Esse bando de inconsequentes, unidos em torno do Ministério da Segregação Racial, defende cotas para negros que vão se humilhar na condição de cotistas porque não estudam o suficiente para passar no mais meritocrático de todos os sistemas de avaliação, o vestibular, que foi substituído por um tribunal racial que promove o <em>apartheid</em> que separa os brancos dos negros que, uma vez na universidade, vão fazer a qualidade do ensino despencar, e apelam para mentiras que conseguem convencer ministros que não conhecem nada da nossa história e se deixam enganar por ideologias infundadas que pregam que, no Brasil, &#8211; que nunca discriminou negros, que nunca teve leis segregacionistas, que sempre tratou seus escravos com a maior dignidade e doçura, que foi usado pela África, que resolveu exportar pra cá seu sistema de escravidão, onde todas as índias e escravas tiveram relações consensuais e amorosas com seus senhores, provando que somos um exemplo de democracia racial e ser seguido, que nunca teve cotas para brancos e que é só um pouquinho racista, de vez em quando, numa instituição ou outra &#8211; o racismo prejudica os negros. Esse é o cenário quase completo no qual a mídia quer nos fazer acreditar &#8211; e temer, claro, porque sabe do poder intimidador do medo &#8211; no intuito de defender os interesses do &#8220;povo&#8221;.</p>
<p>Só a hipocrisia pode justificar essa cruzada, impendido-os de dizer que, na verdade, defendem ideologias e interesses próprios pois, segundo <a href="http://www.senado.gov.br/comissoes/CE/documentos/PesquisaEducacaoPublicaBrasil.pdf." target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">pesquisa do Data Senado</span></span></a> divulgada em julho/2011, assim pensa o &#8220;povo&#8221; brasileiro: 66% manifestaram-se a favor das cotas para negros; 73% favoráveis às cotas para indígenas; 78% apoiaram cotas para estudantes que cursaram a rede pública; 83% defenderam cotas para estudantes de baixa renda e 85% aprovaram cotas reservadas para pessoas com deficiência. É interessante analisar que, quanto mais &#8220;povo&#8221;, maior a aprovação às cotas; e que, em relação à cota para negros, por exemplo, a rejeição mais significativa vem de homens com 20 a 29 anos, curso superior e renda acima de 10 salários mínimos. É esse o perfil de quem mais rejeita cotas. É rico, pelo padrões nacionais; deve ser branco, pelo nível educacional; e são os interesses dele, longe de serem representativos dos interesses do povo brasileiro, que os nossos jornalistas e editorialistas defendem, querendo nos fazer acreditar que falam pelo povo e com o povo. Não falam. E foi isso também que, no histórico dia 25/04/2012, o Supremo Tribunal Federal teve a sensibilidade de perceber.</p>
<p><strong>Eu tenho um sonho</strong> &#8211; Há anos venho prestando atenção nos absurdos que os formadores de opinião são capazes de dizer contra as cotas. Apenas para que vocês tenham uma ideia, vou pegar o texto publicado por Yvonne Maggie em sua coluna semanal no portal de notícias da Globo, G1, no dia 23/04/2012, <a href="http://g1.globo.com/platb/yvonnemaggie/2012/04/23/a-constitucionalidade-das-cotas-raciais-no-brasil/" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">&#8220;A constitucionalidade das cotas raciais no Brasil&#8221;</span></span></a>. Um dia antes da votação no STF, Yvonne Maggie escreveu:</p>
<p><em>&#8220;Em </em><em><a href="http://www.amazon.com/Thirteen-Ways-Looking-Black-Man/dp/0679776664/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;qid=1336187103&amp;sr=8-1" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Thirteen ways of looking at a black man</span></span></a></em><em>, de Henry Louis Gates Junior, professor de Harvard, há uma história reveladora do que se passou depois da lei dos direitos. Neste livro, Harry Belafonte conta que alguns anos depois de 1964 fora convidado para fazer um filme. O produtor, muito animado, lhe dissera: “Harry, será maravilhoso, vamos fazer um filme dirigido e estrelado por negros, produzido por negros, com música feita por negros e vai ser belíssimo”. Ao que o ator, nervoso, respondeu: “Não quero fazer parte disso, passei tantos anos lutando para sair do gueto, não serei eu a me enfiar de novo nele”. Gates conta que durante a entrevista, após esta declaração de Harry, seguiu-se um silêncio constrangedor, só quebrado com uma sonora gargalhada do entrevistado e a seguinte frase: “Eu não aceitei a armadilha, mas é claro que Sidney Poitier aceitou e ficou rico estrelando todos aqueles filmes”.</em></p>
<p>Por acaso temos o livro em casa e eu resolvi conferir. Já escaldada nesse tipo de manipulação, poucas vezes estive errada em duvidar, principalmente quando algum negro (no caso, dois) é pego para servir de boneco de marionete. Pois bem, a estória contada por Yvonne Maggie não existe. Há dois fragmentos que ela parece ter juntado, enfeitado com silêncio constrangedor, gargalhada sonora, uma data hipotética, umas frases de efeito inventadas e legitimadas por aspas, além de distorcidas para ilustrar o próprio ponto de vista. Essa estratégia de eleger um &#8220;negro boneco de marionete&#8221;, selecionar parte ou sentido de seu discurso ou ato, e reinterpretá-lo de modo a que ele sirva de exemplo a ser seguido pelos &#8220;menos esclarecidos&#8221;, como se ele já tivesse passado por isso e soubesse mais e melhor, é bastante comum, como já apontei <a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/02/27/paulo-henrique-amorim-o-negro-de-alma-branca-e-os-demonios-de-cada-um-de-nos-por-ana-maria-goncalves/" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">aqui</span></span></a>. Antes de mostrar o que realmente escreveu o professor Henry Louis Gates Jr. que, junto com Harry Belafonte, é figura importante na luta dos direitos dos negros norte-americanos, acho importante contextualizar algumas coisas.</p>
<p>Em 1953, Belafonte se mudou para a vizinhança branca de Elmhurts, no Queens. Magurite, que era sua esposa na época, nos conta: <em>&#8220;Logo que nos mudamos, de repente vimos uma quantidade de placas de &#8220;Vende-se&#8221; aparecendo&#8221;.</em> Um dia depois, Adrienne, quatro anos, negra, filha de Magurite com Belafonte, dizia para a mãe: <em>&#8220;Mãe, temos que nos mudar! Há negros se mudando para a vizinhança!&#8221;.</em> (págs. 161 e 162). Na época Belafonte já era bastante conhecido como ator e cantor, e muita gente analisa que isso se dava, não só mas também, porque ele não era preto-preto. Apesar da pele mais clara, a ele também não era permitido usar as dependências dos hotéis nos quais se apresentava, tendo sempre que dormir em pensões para negros nos arredores das cidades. Em 1957, Belafonte atuou em <a href="http://www.imdb.com/title/tt0050549/plotsummary" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;"><em>Island in the sun</em></span></span></a><em>, </em>formando par romântico com uma atriz branca, Joan Fontaine. O filme, e principalmente o beijo entre os dois, casou escândalo nos EUA, fazendo com que fosse introduzida legislação no estado da Carolina do Sul, multando as salas de cinema que exibissem o filme. Nessa mesma época foi escândalo também, entre as comunidades negras e brancas, o fato de Belafonte, então, ter se separado de sua primeira esposa Margurite, negra, e ter se casado com uma mulher branca, Julie Robinson. É aqui que acontece a primeira história que inspirou a adaptação de Yvonne Maggie, contada nas páginas 169 e 170:</p>
<p><em>&#8220;Belafonte se lembra que mais ou menos naquela época Otto Preminger queria escalá-lo para uma versão filmada de </em><a href="http://www.imdb.com/title/tt0053182/" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;"><em>Porgy and Bess</em></span></span></a><em>. Ele achou o script racialmente ofensivo &#8211; um romance entre um drogado e uma puta, não era? </em>&#8220;Um monte de gente da comunidade negra disse não. Quem quebrou a corrente foi Sidney, que aceitou fazê-lo.&#8221; <em>Na sequência, o filme não fez muito sucesso quando saiu, em 1960, e foi severamente criticado pela imprensa negra. Mas um padrão estava estabelecido. O desencantamento de Belafonte com Hollywood cresceu. Na década seguinte, seu amigo Poitier fez dezessete grandes filmes; Belafonte não fez nem um.</em></p>
<p><em>Pra começar, os roteiros que lhe era oferecidos o horrorizavam. Ele menciona uma série de filmes que recusou. </em>&#8220;Um deles era o filme chamado <a href="http://www.imdb.com/title/tt0062376/" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">To Sir with Love</span></span></a>.&#8221;</p>
<p>&#8220;Você o recusou?&#8221; <em>Eu estou chocado.</em></p>
<p>&#8220;Ah, merda, sim. E também<a href="http://www.imdb.com/title/tt0057251/" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;"> Lilies of the Field</span></span></a>&#8220;.</p>
<p><em>Esse, claro, foi o filme de 1963 que firmou Poitier coma uma presença significante no cinema pós-guerra: nobre, abnegado, bondoso. Quando o vi, aos treze anos, caí no choro. Era o perfeito veículo dos movimentos dos direitos civis no momento. Sua mensagem para a América branca era praticamente telegrafada: Nós somos um povo amigável e generoso, nós somos bons cidadãos.</em></p>
<p><em>Belafonte tinha outra opinião sobre isso. </em>&#8220;Quando li <em>Lilies of the Field</em>, fiquei furioso. Você tem essas freiras fugindo do comunismo, e do nada há esse negro que se coloca por inteiro ao serviço delas, sem dizer nada, e sem fazer nada exceto ser comandado por essas feiras nazistas? Ele não beijou ninguém, ele não tocou ninguém, ele não tinha cultura, ele não tinha história, ele não tinha família, ele não tinha nada. Eu disse, <em>&#8220;Não, eu não quero encenar filmes assim&#8221;.</em> O que aconteceu foi que Sidney Poitier aceitou &#8211; e ganhou o Oscar&#8221;.</p>
<p>Sobre Poitier, que sempre foi e continua sendo seu amigo, Belafonte diz<em>: &#8220;Sidney foi sempre mais maleável, mais acomodado. Ele escolheu cada um daqueles filmes para continuar exercitando sua beleza e se assegurar de que, nunca, mas nunca mesmo, perturbaria a psiquê branca com algo que fizesse. Nem em público, nem em particular&#8221;</em>.</p>
<p>A segunda história apropriada por Yvonne Maggie está nas páginas 171 e 172:</p>
<p><em>&#8220;Em 1960, por exemplo, ele recebeu um Emmy por um especial que ele fez na televisão para a </em>Revlon Hour, <em>chamado &#8220;</em>Tonight with Belafonte&#8221; <em>[1959]. Como o show foi um sucesso de audiência, Revlon decidiu que poderia ser um bom caminho. De acordo com Belafonte, um acordo foi assinado no qual ele receberia um milhão de dólares para produzir e apresentar mais cinco shows. O segundo show, estrelado por astros brancos e negros do jazz, pop e folk, fez um sucesso estrondoso. Então, ele foi trazido de volta à realidade.</em></p>
<p>&#8220;Fui convidado para uma reunião com Charlie Revson&#8221;, <em>ele me contou.</em> &#8221;Eu deveria ir sozinho? Eu mal posso esperar &#8211; estou pensando que ele quer me dar metade de sua empresa, ou algo assim. Então, estamos almoçando em sua sala de jantar particular, e ele está dizendo, <em>&#8220;Como um judeu em Jersey City, eu entendo de opressão&#8221; - </em>da, da, da, da <em>- &#8220;mas temos que conversar sobre o show. Ótimas avaliações. Ótimas críticas. Muito bem. Mas estamos recebendo alguns retornos que dizem que você deveria fazê-lo só com negros. Se você pudesse só descartar as pessoas brancas&#8230;&#8221; </em>Eu não podia acreditar. E eu disse, <em>&#8220;Sr. Revson, deixe-me te falar uma coisa. Se você me pedisse para colocar uma saia florida e cantar mais calipso, e dançar mais, porque é isso que as pessoas brancas gostariam, eu poderia pensar. Mas o que você me pediu para fazer &#8211; não há como eu concordar. Eu não posso me ressegregar.&#8221; </em>Ele me disse, <em>&#8220;O. K.&#8221;. </em>Às quatro horas daquela mesma tarde, eu recebi um cheque de oitocentos mil dólares. Charlie Revson disse<em>, &#8220;Adeus. Você está fora do ar.&#8221;</em></p>
<p>Se Yvonne Maggie leu o livro e se lembrava vagamente da história, o mínimo que se esperava de alguém que quer se levado à sério, é voltar ao livro e ver realmente como aconteceu. Se o fez e, mesmo assim, inventou isso tudo, é mais grave ainda. Yvonne Maggie é professora titular do Departamento de Antropologia Cultural do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, de acordo com o Perfil de seu <a href="http://g1.globo.com/platb/yvonnemaggie/" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">blog</span></span></a>. Não deveria se sujeitar a esse tipo de situação. Ela também datou a fábula inventada de &#8220;<em>alguns anos depois de 1964&#8243;, (</em>prestem atenção que as duas histórias acima acontecem por volta de 1960, ou antes) para nos &#8220;ensinar&#8221; que os negros norte-americanos inteligentes, depois dos Direitos Civis, não estão mais nem aí para essas lutas de negros. Não é verdade, e principalmente não é verdade em relação a <a href="http://www.pbs.org/newshour/bb/entertainment/july-dec11/belafonte_11-14.html" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Harry Belafonte</span></span></a> (um dos mais destacados na campanha dos Direitos Civis, amigo pessoal de Luther King, Mandela, idealizador do &#8220;<a href="http://www.imdb.com/title/tt0268756/" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">We are the World</span></span></a>&#8221; e ainda na ativa, aos 84 anos de idade) e <a href="http://www.encyclopedia.com/topic/Henry_Louis_Gates_Jr.aspx" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Henry Louis Gates Jr.</span></span></a>, ativista pelas ações afirmativas nas universidades estadunidenses. Se Yvonne Maggie tivesse se dado ao trabalho de descer do alto de sua cátedra, poderia ter facilmente se informado da opinião do professor Gates, antes de usá-lo. <a href="http://www.youtube.com/watch?v=pRlIdFcWd5k" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Nesse vídeo</span></span></a>, por exemplo, onde ele diz que a única razão de ter tanta gente (refere-se aos negros, em uma igreja negra) conseguindo se virar bem, é por causa do movimento dos Direitos Civis &#8220;E&#8221; das ações afirmativas. E continua:<em> &#8220;Sem ações afirmativas nós nunca teríamos sido capazes de integrar as historicamente racistas e brancas instituições da sociedade americana&#8230; A primeira pergunta fundamental à qual temos que nos dedicar é como proteger, preservar e expandir as ações afirmativas. (&#8230;) Eu consegui ir para Yale University porque eles estavam tentando se diversificar. Eles estavam querendo que as classes se parecessem mais com a América. (fala de como era na faculdade e de sua vida profissional depois de se formar) Cada uma dessas coisas dessas coisas foi propiciada, foi tornada possível, pela existência de ações afirmativas. Isso não significa que eu não era qualificado, isso quis dizer que, por causa do racismo, a mim nunca teria sido permitido competir num terreno mais ou menos nivelado com garotos e garotas brancos. E para mim, para alguém que se beneficiou tanto das oportunidades das ações afirmativas, plantar-me no portão e tentar manter outros negros do lado de fora seria ser tão hipócrita quanto Clarence Thomas&#8221;</em>. Talvez Harvard, que Yvonne Maggie faz questão de citar para conferir mais autoridade ao boneco de marionete que inventou, não teria Henry Louis Gates se ele não tivesse sido beneficiado por algo que ela o coloca para combater, fazendo-o passar pelo hipócrita que ele não é e não quer ser. É ofensivo o que Yvonne Maggie fez ao trabalho e à vida dos dois, principalmente tendo o professor Gates, relativamente rico e conhecido, também presidente do <a href="http://dubois.fas.harvard.edu/about-us" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Instituto W.E.B. Du Bois</span></span></a>, passado recentemente por <a href="http://www.nytimes.com/2009/07/21/us/21gates.html" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">essa traumática e vexatória situação de racismo.</span></span></a> É intelectualmente desonesto e deveria ser vergonhoso.</p>
<p>Esse não é o único problema com o texto de Yvonne Maggie. Tente encontrar os outros na rasa análise que ela faz sobre as resoluções da Suprema Corte Norte-Americana (para facilitar, deixo <span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">esse vídeo</span></span>), com o contexto em que ela fala de Rosa Parks, com a data sobre as leis segregacionistas nos Estados Unidos, com a afirmação de que o Brasil não teve leis segregacionistas, com a frase <em>&#8220;Neste julgamento que se avizinha apenas duas vozes estarão </em><a href="http://g1.globo.com/platb/yvonnemaggie/2012/04/23/a-constitucionalidade-das-cotas-raciais-no-brasil/" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;"><em>defendendo a posição de Rosa Parks</em></span></span></a><em>&#8220;</em>. Rosa Parks é patrona de um prêmio da <a href="http://www.affirmativeaction.org/about.html" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Associação Americana para a Ação Afirmativa</span></span></a>, fundada em 1974 e que, &#8220;se opõe veementemente às ações estaduais e federais que poderiam eliminar programas de ações afirmativas que proporcionam acesso igualitário e justiça para as minorias e mulheres em emprego, educação e oportunidade econômica.&#8221; Yvonne Maggie decidiu que Rosa Parks, ícone e precursora das ações afirmativas norte-americanas, era contra as cotas, e que só duas vozes estariam lá para defendê-la. Parece-me que foi apenas falta de interesse em se inscrever, <a href="http://www.stf.jus.br/portal/processo/verProcessoAndamento.asp?numero=186&amp;classe=ADPF&amp;origem=AP&amp;recurso=0&amp;tipoJulgamento=M" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">como mostra o processo</span></span></a>. Interessante também é o fato de ela usar como mote a foto de Barack Obama, deixando de informar que tanto ele quanto Michelle Obama foram beneficiários de ações afirmativas nas universidades. No texto seguinte, <a href="http://g1.globo.com/platb/yvonnemaggie/2012/05/01/separados-legalmente-publicado-no-jornal-o-globo-de-1º-de-maio-de-2012-caderno-opiniao-p-7/" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Separados legalmente (Publicado no jornal O Globo de 1º de maio de 2012, caderno Opinião, p.7)</span></span></a>, também dá para brincar de &#8220;jogo dos sete erros&#8221;. Tente você também. Sugiro começar lá no final, quando ela diz que o Brasil rasgou a Carta da ONU, depois de ler <a href="http://www.onu.org.br/politicas-publicas-afirmativas-sao-fundamentais-para-a-reducao-da-desigualdade-racial-diz-sistema-onu/" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">esse comunicado oficial da ONU</span></span></a>, emitido seis dias antes de Yvonne publicar seu artigo. Ela também estava presente no julgamento do STF, e seria interessante comparar o que ela viu e ouviu, com os que aconteceu nos dias <a href="http://www.youtube.com/playlist?list=PL4CEC80CB3345EB22&amp;feature=plcp" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">25/04</span></span></a> e <a href="http://www.youtube.com/playlist?list=PLE4E9AC47D6D82AED&amp;feature=plpp" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">26/04/2012</span></span></a>. Com os textos do geógrafo e sociólogo Demétrio Magnoli também dá para fazer o mesmo exercício (principalmente nos que ele fala de Martin Luther King e Frederick Douglas), <a href="http://www.afropress.com/colunistasLer.asp?id=633" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">como já nos mostrou o doutor em Antropologia Kabenguele Munanga</span></span></a>, mas hoje quero tratar de outra coisa sobre ele.</p>
<p><strong>A solidão do negro &#8211;</strong> Infelizmente tenho que concordar que associar seu nome ao do senador Demóstenes Torres é golpe baixo. Então, por favor, considere apenas a relação com esse assunto, que eu faria mesmo se o senador não tivesse caído em desgraça pública. Mas foi com Demóstenes Torres que essa história começou, quando o partido dele resolveu entrar com a ação questionando a constitucionalidade das cotas. Demétrio Magnoli parece admirá-lo por isso, e <a href="http://3.bp.blogspot.com/-1Vh_bU8sa48/T34vhAdJIqI/AAAAAAAAC4Q/s46L8x2DRfQ/s1600/demo.bmp" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">declarou à revista Istoé</span></span></a>, que elegeu Demóstenes como uma das personalidades brasileiras mais influentes: <em>&#8220;Demóstenes não é mais um comerciante num mercado em que se trafica influência em troca de cargos e privilégios. Ele tem princípios e convicções. Foi o primeiro parlamentar graduado a erguer a voz contra as cotas nas universidades&#8221;</em>. Para Demétrio Magnoli, erguer a voz contra as contas é prova de princípios.</p>
<p>Em março de 2010 foram realizadas audiências públicas no STF (Supremo Tribunal Federal), onde foram ouvidos vários depoimentos contra e a favor das cotas, com a finalidade subsidiar os ministros na decisão que foi tomada apenas agora, em 26/04. Os vídeos estão todos <a href="http://www.youtube.com/results?search_query=Audiência+Pública+cotas" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">aqui</span></span></a>, mas o que me interessa é a fala do senador Demóstenes, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=ceddVRxZMAE&amp;feature=results_main&amp;playnext=1&amp;list=PLF784F8AB4FC99F1E" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">nesse video </span></span></a>à partir de 32&#8217;55&#8243;. No dia seguinte, a fala de Demóstenes teve grande repercussão na imprensa, <a href="http://www.geledes.org.br/em-debate/colunistas/4784-a-teoria-negreira-do-dem-saiu-do-armario" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">como esse artigo</span></span></a>, e Demétrio Magnoli logo <a href="http://www.robertafragosokaufmann.com/2010/03/o-jornalismo-delinquente.html" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">saiu em sua defesa</span></span></a>, provando. Assim como Demóstenes, Demétrio entende muito pouco de escravidão africana, o que dá para perceber pela bibliografia de seu livro, Uma gota de Sangue, que a Veja chegou a chamar de<em>&#8220;um esforço de pesquisa histórica monumental&#8221;</em>. Faltou esforço, claro, porque a pesquisa de Demétrio passou longe das particularidades dos diversos modelos de &#8220;escravidão&#8221; africana, que nada tinham a ver com o nosso modelo de escravidão colonial. A leitura de um livro como <a href="http://www.amazon.com/Slavery-Africa-Historical-Anthropological-Perspectives/dp/0299073343/ref=sr_1_1?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1336007884&amp;sr=1-1" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;"><em>Slavery in Africa &#8211; Historical and anthropological perspectives</em></span></span></a> poderia ter evitado essa falha bastante grave. Demétrio também se acha habilitado para falar de movimento sanitarista ignorando <a href="http://editoracontexto.com.br/produtos.asp?cod=339." target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">a eugenia nada inocente do médico Renato Khel</span></span></a>, patrono da cadeira número um da <a href="http://www.filosofia.org.br/patrono.html" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Academia Brasileira de Filosofia</span></span></a>. Demétrio Magnoli tem a cara de pau de dizer que &#8220;<a href="http://sergyovitro.blogspot.com/2012/02/cota-de-cardozo-demetrio-magnoli" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">O Brasil não tem tradição de estabelecer distinções entre os imigrantes</span></span></a>&#8220;, mostrando que passou longe de livros fundamentais como &#8220;<a href="http://www.amazon.com/Negotiating-National-Identity-Immigrants-Minorities/dp/0822322927/ref=sr_1_1?ie=UTF8&amp;qid=1336009272&amp;sr=8-1" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;"><em>Negotiating National Identity &#8211; Immigrants, Minorities, and the Struggle for ethnicity in Brazil&#8221;</em></span></span></a>, ou &#8220;<a href="http://www.amazon.com/Another-Arabesque-Syrian-Lebanese-Ethnicity-Neoliberal/dp/1592135404/ref=sr_1_1?s=books&amp;ie=UTF8&amp;qid=1336009434&amp;sr=1-1" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Another Arabesque &#8211; Syrian-Lebanese Ethnicity in neoliberal Brazil</span></span></a>&#8220;, entre vários outros que tratam do assunto.</p>
<p>É bastante falha a formação de Demétrio Magnoli sobre um assunto em que ele se considera especialista, recebendo grande espaço em jornais, rádio e TVs. Mas, mais falha ainda, parece ser sua memória. Parei de levá-lo depois de uma entrevista no programa Roda Viva. Destaco aqui o <a href="http://www.youtube.com/watch?v=iG-UImXK4RI&amp;feature=relmfu" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Bloco 4</span></span></a>, à partir de 1&#8217;55&#8243;, quando o jornalista Delmo Moreira diz: <em>&#8220;Eu li um artigo do Demétrio em que ele dizia que a escravidão no Brasil tinha sido, entre aspas, você colocava, um sistema democrático, porque mulatos também tinham sido donos de negros, como se a questão fosse essa. A questão é que não havia brancos escravos, e não que negro também não pudesse escravizar&#8221;</em>. Aos 4&#8217;9&#8243; Demétrio o interpela: <em>&#8220;O Delmo leu mas não viu o contexto. Eu não falei que a escravidão no Brasil era democrática. Que frase horrível para se atribuir pra alguém, né?&#8221;, </em>e continua &#8220;explicando&#8221; o que tinha dito/não dito, elevando a grosseria e a arrogância a esportes olímpicos. Procurei a entrevista e não encontrei; mas caí <a href="http://www.youtube.com/watch?v=amupSeeqU4k" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">nesse vídeo</span></span></a>, e acredito que Delmo pode ter se confundido de mídia. Mesmo que não, está lá, em 1&#8217;50&#8243;, a frase de Demétrio, com toda sua horrorosidade e sem contexto algum: <em>&#8220;A escravidão não foi um fato racial. Foi um fato econômico, do capitalismo mercantil, e foi bastante democrática, no seguinte sentido, num sentido bem específico: se você tiver dinheiro, você pode comprar um escravo, mesmo se você foi escravo. Ex-escravos compraram escravos&#8221;.</em></p>
<p>Mas é sobre o <a href="http://www.youtube.com/watch?v=iG-UImXK4RI&amp;feature=relmfu" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Bloco 3</span></span></a> que podemos fazer as observações mais interessantes e significativas, principalmente à partir de 10&#8217;10&#8243;, quando Paulo Lins introduz as questões raciais. Por volta de 17&#8217;56&#8243;, Demétrio o ignora ostensivamente e lhe vira a cara, para escutar Marília Gabriela, aproveitando para lhe chamar a atenção aos 18&#8217;14&#8243;. Marília Gabriela então diz:<em>&#8220;Eu não sei mais como me portar em relação a essa causa porque chamar alguém de negro&#8230; Ah, Fulano é negro&#8230; Já fui corrigida uma vez: </em>&#8220;Olha, não diga desse jeito que nós não gostamos&#8221;<em>. Então&#8230; chamar de preto não é&#8230; eu não sei&#8230; quer dizer&#8230; tudo&#8230; esse assunto&#8230; eu só tô fazendo&#8230; tô sendo superficial, tô sendo quase irresponsável de falar dessa maneira, mas é só pra dizer que a&#8230; o assunto é tão delicado, é tão delicado, e é tão problemático, é tão ainda&#8230;. que o politicamente correto ainda num, num, num&#8230; concluiu isso tudo&#8221;</em>. O importante aqui é o visível desconforto de Marília Gabriela ao tratar do assunto, bastante comum na maioria das pessoas brancos, principalmente quando na presença de um negro. Outra coisa que não podemos deixar de notar é que, apesar de já ter ouvido de algum negro a maneira como ele/ela gostaria de ser tratado, ela diz que continua sem saber como se portar. No vídeo, percebemos que a tensão continua crescendo entre Paulo Lins e Demétrio Magnoli, que o provoca através de olhares e risos irônicos. Demétrio apresenta suas ideias como se fossem dos movimentos negros e, por volta de 21&#8217;10&#8243; Paulo Lins tenta interferir, sendo inicialmente ignorado. Aos 21&#8217;24&#8243; Demétrio vira para ele e diz, no jogo no qual é mestre, que é imputar suas ideias a alguém: &#8220;Isso não é uma concepção minha, isso é uma concepção dos [inteligível - sucessores? assessores?] disso. Paulo Lins parece nem saber por onde começar, depois de ouvir tanta teoria infundada apresentada como projeto vindo &#8220;do lado de lá&#8221;. Rio aqui do fato de não ter conseguido entender a quem Demétrio atribui sua teoria da conspiração, porque isso não poderia ser mais significativo de seu modo de agir. Notem que ele sempre atribui suas ideias a um inominado &#8220;vocês&#8221;, a uma entidade despersonificada, a um coletivo inexistente, a um &#8220;os adeptos de tal ou tal coisa&#8221;, afastando qualquer possibilidade de constatação ou diálogo. Nesse momento, Marília Gabriela os interrompe e diz que tem que acabar o programa, mas, antes, puxa assunto com Demétrio. Paulo Lins também a aproveita a oportunidade e os dois trocam algumas palavras, sem que Demétrio se digne a olhá-lo. Marília então sai em favor de Paulo Lins, dizendo que temos que considerar a opinião dele, contrária à de Demétrio, de que é necessária uma política de cotas deve ser considerada. A resposta de Demétrio é <em>&#8220;Tem que considerar errado isso&#8221;,</em> e tenta explicar seus motivos. Os dois continuam numa tentativa de se fazerem ouvidos, até que Paulo Lins consegue a atenção de Marília Gabriela ao comentar o racismo presente a olhos vistos na sociedade brasileira e dizer que, ali mesmo, naquela mesa, poderia se ver isso. Marília se assusta e pergunta <em>&#8220;De que forma?&#8221;</em>. Todos se calam quando Paulo Lins responde com outra pergunta: <em>&#8220;Só eu de negro estou aqui. Por quê?&#8221;</em> O silêncio é constrangedor, principalmente porque logo em seguida percebemos que, além de não terem entendido a pergunta, eles não têm a menor ideia do que Paulo Lins está falando. Ele insiste: <em>&#8220;Me responde isso&#8221;</em>. Demétrio começa a responder, Marília se ofende (&#8220;<em>Não, você desculpe, Paulo, me desculpe&#8230;&#8221;</em>) e cria-se uma enorme confusão até que Paulo Lins percebe que terá que desenhar. Não passou nem pela cabeça daquelas pessoas que ele estava comentando que só ele de negro estava ali, naquela bancada, enquanto que outros negros e pardos, que não tinham conseguido passar pelo filtro do racismo, não ocupavam posições de destaque no Brasil. O mais interessante ainda é que ele desenha, mostra o racismo estrutural que Demétrio tentou negar o tempo todo, e mesmo assim ninguém entende, ninguém ouve. A pergunta de Paulo Lins era: <em>&#8220;SÓ eu de negro estou aqui; por quê?&#8221;</em></p>
<p>O <em>&#8220;SÓ&#8221;</em> é a chave da pergunta, e todos a ignoraram. Demétrio tenta lhe &#8220;dar uma lição de moral&#8221; contando uma historinha para ensiná-lo a deixar de ser negro e ser &#8220;brasileiro&#8221;, assim como Marília Gabriela, que encerra nervosa: &#8220;<em>Então ficou claro para você</em> (como se fosse Paulo Lins quem não estivesse entendendo) <em>que, pela sua experiência de vida, HOJE, você era necessário aqui? E, com licença, o que não elimina que eu convide outras pessoas&#8230; é.. ahm&#8230; o que eu vou ter que qualificar, ou classificar de alguma maneira e vou incorrer no&#8230; no.. no politicamente incorreto&#8230; Uma loucura!</em>&#8221; Com uma paciência infinita, Paulo Lins ainda tenta mais uma vez. Marília não deixa: <em>&#8220;Peraí, um minutinho, deixa eu acabar.&#8221; </em>E acaba. Quando volta o quarto bloco, Demétrio Magnoli comenta as intervenções de todos os outros entrevistados. Ignora a de Paulo Lins. Assim como o Brasil tem ignorado o que dizem e pensam seus intelectuais negros. Destaquei o <em>HOJE</em> ali em cima, na frase da Marília, porque seria interessante saber: quantos negros já foram lembrados pela produção do Roda Viva quando os assuntos eram outros, que não assuntos de negros? Paulo Lins estava ali, naquele dia &#8211; HOJE &#8211; porque tocariam em assuntos de negros e ficaria chato não ter algum negro compondo a mesa? Se não foram muitos os entrevistados ou entrevistadores negros que já passaram pelo programa, será que um pouquinho de inclusão e diversidade não traria perguntas e interesses diferentes ao programa, baseados em experiência de vida? Por exemplo: vocês acham que algum daqueles entrevistadores brancos faria a pergunta: &#8220;Por que SÓ temos o Paulo Lins de negro aqui?&#8221; Ou, ele não estando lá, e sendo todos brancos para tratar daquele ou de outro assunto qualquer, alguém perguntaria ou já se perguntou: &#8220;Por que só nós, os brancos, estamos aqui?&#8221; Essa é uma pergunta que, aliás, acho que nunca deve ter nem passado pela cabeça de muitos que são contra as cotas, em ambientes mais elitizados como restaurantes, cinemas, teatros, shoppings e universidades. Questão de costume. Naturalização provocada pelo racismo estrutural. Questão de falta de experiência de vida: pouquíssima chance de conviver com um negro que esse não estivesse em condições subalternas.</p>
<p><strong>A tal da liberdade de expressar opinião</strong> &#8212; A questão de não entender ou não levar em consideração o que fala um negro (ou fazê-lo de boneco de marionete,quando lhes convêm) é emblemática no posicionamento dos que estão na mídia contra as cotas. Ali Kamel, por exemplo, no seu livro &#8220;Não somos racistas&#8221;, dá voz à importante intelectual e ativista negra, doutora em filosofia da educação, Sueli Carneiro, para que ela o ajude a atacar Fernando Henrique Cardoso quando este se diz mulato. Tenho vontade, mas não tenho coragem, de voltar ao livro para saber se isso acontece mais vezes. Para saber se há, e quantos há, intelectuais negros com voz e posicionamento próprios, mas não consigo passar do primeiro parágrafo: &#8221;<em>Foi um movimento lento. Surgiu na academia, entre alguns sociólogos na década de 1950 e, aos poucos, foi ganhando corpo até se tornar política oficial de governo. Mergulhado no trabalho jornalístico diário, quando me dei conta do fenômeno levei um susto. Mais uma vez tive a prova de que os grandes estragos começam assim: no início, não se dá atenção, acreditando-se que as convicções em contrário são tão grandes e arraigadas que o mal não progredirá. Quando acordamos, leva-se o susto. Eu levei. E, imagino, muitos brasileiros devem ter se assutado: quer dizer então que somos um povo racista?&#8221;</em> (pág. 17)</p>
<p>Ali Kamel nos desinforma que o movimento de combate ao racismo e suas consequências (ou será que se refere ao movimento negro? ou ao movimento do mal?), no Brasil,<em>&#8220;surgiu na academia, entre alguns sociólogos na década de 1950&#8243;</em>. Se algum dia ele conseguir deixar o lugar privilegiado de onde exerce e tenta universalizar suas convicções tão grandes e arraigadas, e puder entender o quanto essa frase é moldada pelo racismo que tanto o assustou, também entenderia que o &#8220;movimento&#8221;, na verdade, foi imensamente mais lento do que imagina. Os sociólogos que cita, na década de 1950, apenas conseguiram captar os ecos da longuíssima luta que já vinha sendo travada pelos negros &#8211; e alguns brancos &#8211; brasileiros desde muito antes da escravidão. Se Kamel tivesse pesquisado o que seus colegas jornalistas negros já diziam no início do século XIX, pouparia-se da vergonha de apresentar agora, quase dois séculos depois, como a sacada do século, que a população negra e pobre deve é reivindicar educação de qualidade, pois assim todo o resto se resolve sozinho. Se estivesse se interessado em procurar a origem do &#8220;movimento&#8221;, Kamel poderia encontrá-lo, talvez até antes mas, com certeza, nos jornais O Homem de Cor, O Brasileiro Pardo, O Cabrito, O Lafuente, Crioulinho, todos surgidos na primeira metade do século XIX. Interessante sobre esses jornais é que alguns deles tiveram suas autorias questionadas e atribuídas a homens brancos, <em>&#8220;num esforço de ignorar a participação dos &#8220;homens de cor&#8221; no cotidiano político da cidade&#8221;,</em> como nos conta Ana Flávia Magalhães Pinto no livro <a href="http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/3097176" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">&#8220;Imprensa negra no Brasil do século XIX&#8221;</span></span></a>. Segundo a apresentação, <em>&#8220;experiências cotidianas e variadas de enfrentamento do racismo, a criação de redes de sociabilidade e o uso de instrumentos legais para promover a cidadania foram registradas nas páginas de jornais assinados por </em>“homens de cor” <em>e dirigidos a eles&#8221;</em>. Kamel se assustaria, com certeza, ao ler o que, em 1833, o jornal O Homem de Cor lutava contra uma ação do governo que queria instituir a obrigatoriedade da declaração de cor nas listas dos cidadãos (pág. 44), e clamava para que a Constituição fosse <em>&#8220;uma realidade para todos os brasileiros, sem distinção de classes&#8221;</em>. Irônico e interessante que, naquela época, &#8220;classe&#8221; era sinônimo de &#8220;raça&#8221;, e os homens negros diziam pertencer à classe dos homens de cor. Se conhecesse esses jornais, Kamel se assustaria também com a riqueza do cotidiano e das ideias, às vezes bastante contraditórias, de homens negros e pardos livres em uma sociedade escravagista. Isso é história, isso é movimento, muito anterior a 1950. Se o reconhecesse, Kamel saberia que esses homens já lutavam por educação e acreditavam que nela estava o caminho para a socialização. Esses homens que Kamel e tantos outros ignoram discutiram escravidão, liberdade, nação, identidade, mestiçagem, família, educação, ética, cultura, política, trabalho, mundo, guerra etc, e sempre com a boa vontade de esperar as coisas se ajeitarem, sempre acreditando em promessas que, de um meio ou de outro, haveria de lhes tornar cidadãos.</p>
<p>Tudo isso que está sendo defendido hoje pelos que são contra as cotas, esses homens da classe de cor dos séculos XIX e XX também já defenderam, em vários momentos, coagidos ou de livre vontade. Quando livres, porque os escravos eram proibidos de frequentar a escola pública, brigaram por educação de qualidade e, quando tinham a oportunidade de estudar, agarravam-se a ela como a única esperança de um futuro mais digno. Esperança que morreu frente ao descaso, a promessas nunca cumpridas, à constatação de que seus sonhos de serem cidadãos plenos e de direito, iguais a todos os outros como sempre pregou a constituição, nunca esteve nos planos de quem os governava. Uma boa ideia dessa longa luta dos negros por uma educação pública de qualidade está no livro &#8220;<a href="http://www.rbhe.sbhe.org.br/index.php/rbhe/article/view/203/211" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">A educação dos negros: uma nova face do processo de abolição da escravidão no Brasil&#8221;</span></span></a>. Na página 48 há um argumento que, para mim, tem a mesma raiz dos argumentos dos que dizem que, antes de brigar por universidade o negro deveria brigar por educação básica, ou a de que os estudantes cotistas não dariam conta de acompanhar os cursos ou não se tornariam bons profissionais. A frase é do deputado e escritor José de Alencar, em 1870, pregando contra a lei do ventre livre: <em>&#8220;E como libertar o cativo sem antes educá-lo? Não senhores: é preciso esclarecer a inteligência embotada, elevar a consciência humilhada para que um dia, no momento de conceder-lhes a liberdade, possamos dizer: &#8211; vós sois homens, sois cidadãos. Nós vos remimos não só do cativeiro, como da ignorância, do vício, da miséria, da animalidade, em que jazeis!&#8221;</em></p>
<p>Quem quiser avançar mais um pouco mais e entender como se deu a expansão do sistema público de ensino no Brasil durante os anos 1917 e 1945, deve ler <a href="http://www.editoraunesp.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=917" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">&#8220;Diploma de </span></span></a><strong><a href="http://www.editoraunesp.com.br/catalogo-detalhe.asp?ctl_id=917" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">brancura &#8211; Política social e racial no Brasil, 1917-1945</span></span></a></strong> . Nele entendemos que, não apenas os alunos, mas também professores negros, foram discriminados na implantação de um sistema do ensino voltado para a criação de um modelo de &#8220;homem brasileiro&#8221;, que era branco. Basta lembrar que a reforma do ensino público brasileiro foi coordenada não por educadores, mas por médicos, que estavam envolvidos no movimento eugenista. Deste livro, destaco a parte citada nesse<a href="http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/04/brasil-e-as-velhas-cotas-para-brancos.html" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;"> importante artigo artigo</span></span></a> de Pádua Fernandes: <em>&#8220;No Rio, durante a era Vargas, a eugenia não estava relegada a conferências profissionais e remotos laboratórios, mas era um esforço coletivo, participativo. [...] No sistema escolar, os eugenistas colocaram suas ideias em prática pela primeira vez, aprendendo e executando os programas para aperfeiçoar a raça. Suas pesquisas mostravam aquilo em que queriam acreditar: que alunos brancos, ricos, eram mais qualificados e isso podia ser mensurado. Nos casos em que um teste revelava o oposto, o pesquisador se esforçava para explicar por que os testes ou os pesquisados haviam-se desviado dos verdadeiros resultados, obtidos nas condições que se sabia serem verdadeiras.</em> [p. 92]</p>
<p>Ao ignorar a luta secular dos movimentos negros (que também são compostos por brancos, é bom que se esclareça) por uma educação pública de qualidade, Ali Kamel quer fazer com que eles também esqueçam de quase dois séculos de promessas não cumpridas e, principalmente, da invisibilidade demonstrada no primeiro parágrafo de seu livro. Ao só reconhecer a história a partir do envolvimento, ou reconhecimento, dos sociólogos brancos, na década de 1950, Ali Kamel repete o comportamento que alguns desses sociólogos tiveram com importantes lideranças e intelectuais negros: trata-os apenas como como informantes ou estatísticas. A história é longa e pode ser lida com mais detalhes nos livros &#8220;<span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Terms of inclusion &#8211; Black intellectuals in Twentieth-Century Brazil</span></span>&#8220;(páginas 217 a 219 ) e <a href="http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/129510" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">O sortilégio da cor </span></span></a>(págs. 262 a 274). Resumindo: <a href="http://www.geledes.org.br/patrimonio-cultural/literario-cientifico/ciencias/sociologia/1770-alberto-guerreiro-ramos" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Alberto Guerreiro Ramos </span></span></a>e <a href="http://www.abdias.com.br/biografia/biografia.htm" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Abdias Nascimento</span></span></a> realizaram, pelo <a href="http://www.ipeafro.org.br/home/br/acoes/32/43/ten/%29" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">TEN </span></span></a>, o 1º Congresso do Negro Brasileiro, reunindo intelectuais e ativistas dos movimentos negros, lideranças, pessoas da comunidade e acadêmicos brancos, para discutir problemas reais e soluções práticas para a inserção do negro na sociedade. Uma das reivindicações era que a academia parasse de usar os negros apenas como informantes, como &#8220;negro-espetáculo&#8221;, e no final do congresso uma ata foi escrita decidindo que pediriam ajuda à UNESCO para que fossem inseridos, como produtores de conhecimento, no projeto que já contemplava a academia (todos brancos) e que tentava mostrar o Brasil do pós-guerra como um grande exemplo de democracia racial a ser seguido, ignorando as pesquisas que demonstravam a persistência do racismo. Os organizadores do Congresso se assustaram e repudiaram o ato de &#8220;paternalismo&#8221; quando os acadêmicos convidados apresentaram uma segunda ata, com a visão apenas deles e não de todos os participantes, e que nada tinha a ver com a oficial. A segunda ata não foi aceita e, fingindo que concordavam com a primeira e liderados pelo sociólogo Luiz Aguiar Costa Pinto, os acadêmicos procuraram a UNESCO e conseguiram fazer com que eles, e não os intelectuais negros, realizassem o trabalho no Rio de Janeiro, que resultou no livro &#8220;O negro no Rio de Janeiro&#8221;, de Costa Pinto. Quando o livro saiu, em 1953, Abdias e Guerreiro Ramos, em jornais e em correpondência à UNESCO, acusaram Costa Pinto de plágio e de ter distorcido informações. Ele tinha se apropriado, sem dar crédito, de estudos apresentados durante o Congresso, tratando-os como mero material de pesquisa e não como produção de intelectuais negros. Costa Pinto teve acesso às atas do Congresso, tendo sumido com parte delas, depois te terem sido emprestadas em boa fé por Abdias Nascimento. A resposta de Costa Pinto às acusações, publicada em um artigo n&#8217;O Jornal, importante diário carioca da época, foi que era uma ameaça às ciências sociais que um pesquisador pudesse <em>&#8220;ver como o seu material, ou parte dele, reage às conclusões de um estudo conduzido sobre ele. Duvido que haja biologista que depois de estudar, digamos, um micróbio, tenha visto esse micróbio tomar da penae vir a público escrever sandices a respeito do estudo do qual ele participou como material de laboratório&#8221;</em>.</p>
<p>Pois é exatamente assim que boa parte dos anticotistas com amplo espaço na grande mídia trata os intelectuais negros e/ou suas opiniões: como material de laboratório. Há certo desinteresse pelo material nacional (exceto quando vem em forma de números), com clara preferência por material importado (Nelson Mandela, Henry Louis Gates, Harry Belafonte, Barack Obama), sendo melhor ainda se já estiver morto (Martin Luther King, Frederick Douglas, Rosa Parks), pois o perigo de eles &#8220;se rebelarem&#8221; é inexistente. Paulo Lins, como vimos no vídeo acima, se rebelou contra Demétrio, e a opinião de Demétrio é que a opinião de Paulo Lins deve ser considerada errada. Essa atitude revela bastante da sua porção biologista, sendo a Biologia ciência à qual ele é um dos que mais recorre, como se precisasse recordar constantemente que raça biológica não existe. Todos já sabemos disso; os negros, inclusive, quando muitos brancos afirmavam o contrário. Racismo é um problema social, não biológico; e é no campo das ciências sociais, e não biológicas, que ele deve ser combatido. Ninguém solicita exame de DNA para discriminar ninguém. Então, como é mesmo que essa série de pesquisas mostrando quem tem tais e tais porcentagens de ascendência africana, indígena ou européia podem provar a ausência de racismo na população brasileira? É sério que querem discutir/definir quem somos nós, brasileiros, através da genética?</p>
<p>Antes de contar uma última história que, pra mim, é o perfeito exemplo da cruzada de um dos principais grupos de comunicação contra as cotas, saliento a participação e a importância de vozes dissonantes dentro dessa velha mídia. São jornalistas que, contrariando as posições das revistas, das TVs e dos jornais nos quais trabalham, dão-se à liberdade e à dignidade de expressarem o que pensam e defenderem as cotas. Correndo o risco de me esquecer de alguém, saúdo <a href="http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/2012/04/27/o-pior-e-que-ninguem-vai-fazer-autocritica/" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Paulo Moreira Leite</span></span></a> (que bom que ele mudou de ideia!), <a href="http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2012/04/27/um-dia-no-futuro-442290.asp" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Miriam Leitão</span></span></a>, <a href="http://www.youtube.com/watch?v=l_IvFZVfZgk&amp;feature=youtube_gdata_player" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Heraldo Pereira</span></span></a> e <a href="http://sergyovitro.blogspot.com/2012/04/elio-gaspari-hoje-o-stf-julgara-as.html" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Élio Gaspari</span></span></a>. Eles fazem a maior diferença, como dá para perceber logo a seguir.</p>
<p>Em 2006, a situação já estava tão escancarada que o ombudsman da Folha escreveu em sua coluna que o jornal não estava tratando tratando de maneira imparcial a discussão sobre cotas e políticas afirmativas. O manifesto anticotas tinha sido publicado na íntegra pelo jornal, ao contrário do manifesto pró-cotas. Entre os vários estudos que já trataram do assunto, recomendo a tese &#8220;A<a href="http://fenix2.ufrj.br:8991/F/VSTX3E8JHEP72XED66AHM4PHH138V9YVKLS1YPGBMAQGTCKTIB-03185?func=find-b&amp;request=Zilda+Martins+Barbosa&amp;find_code=WAU&amp;local_base=UFR01&amp;x=24&amp;y=6&amp;filter_code_4=WMA&amp;filter_request_4=&amp;filter_code_2=WYR&amp;filter_request_2=&amp;filter_code_3=WYR&amp;filter_request_3=" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">ções afirmativas e cotas na mídia: a construção de fronteiras simbólicas</span></span></a>&#8220;, na qual Zilda Martins Barbosa analisa os textos publicados nos cadernos de opinião dos jornais Folha de São Paulo, O Globo e O Dia, segundo ela para &#8220;compreender a relação da mídia impressa com a população negra como um exercício de resistência à mudança, de caráter passional e maniqueísta. A despeito da retórica do dissenso midiático contra as cotas, estas já são uma realidade, vislumbradas como um contradiscurso&#8221;. É interessante essa ideia, de as cotas serem o contradiscurso. Outro material que também traz dados importantes é essa pesquisa do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades &#8211; CEERT e do Observatório Brasileiro de Mídia: <a href="http://www.smabc.org.br/Interag/temp_img/%7BF7226839-7ED8-4524-ACD3-27A84853504A%7D_relatorio%20observatorio%20de%20midia.pdf" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">A Mídia Impressa no Brasil e a Agenda da Promoção da Igualdade Racial </span></span></a>. Os assuntos pesquisados foram ações afirmativas, cotas, Estatuto da Igualdade Racial e demarcação de terras quilombolas, (mas aqui ficarei apenas com as cotas), reunindo 1.093 matérias publicadas durantes os anos de 2001 e 2008 nos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e o Globo, e nas revistas Veja, Época, e Istoé. É muita informação, e vale a pena tanto analisar os números quanto os argumentos, e perceber como estes vão se modificando, ou não, conforme vão surgindo as informações que os derrubam. Notem também que 100% das matérias &#8211; artigos, colunas, entrevistas e reportagens &#8211; das matérias da Veja e 100% dos textos opinativos &#8211; artigos e editoriais &#8211; do O Estado de São Paulo são contra as cotas. Vou me ater aqui ao jornal O Globo, um dos mais ativos nessa cruzada, e destaco uma informação de cada um dos links acima:</p>
<p>- os três jornais publicaram 32 editoriais sobre as cotas, tendo O Globo publicado 25, com argumentos que disseminavam as seguintes ideias: ações afirmativas/cota geram polêmica ou promovem racismo e segregação (32%), o mais correto é educar e não criar cota (24%), cotas baixarão o nível dos cursos (16%), critérios para cotas deveriam ser socioeconômicos e não raciais (12%), cotas subvertem a meritocracia (8%), cotas são equívoco, mas estimulam debate (4%) e critério da autodeclaração é questionável (4%). (página 14 da pesquisa)</p>
<p>- No caderno Opinião, de O Globo, 20 artigos foram sobre cotas, sendo que Ali Kamel (com sete artigos) e Demétrio Magnoli (com seis) dominam o espaço, com firme posicionamento contra. <em>&#8220;Os outros sete artigos estão divididos entre os que são favoráveis às políticas públicas de ações afirmativas e posições neutras ou críticas com relação à medida.&#8221;</em> (págs. 86 a 100 da tese)</p>
<div id="attachment_1208" class="wp-caption alignleft" style="width: 310px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/nao-somos-racistas.jpg"><img class="size-medium wp-image-1208" title="nao-somos-racistas" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/05/nao-somos-racistas-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte http://www.interney.net/blogs/lll</p></div>
<p>Sabendo da discussão &#8220;viciada&#8221; que tem ocupado a velha mídia brasileira, e o quão desastroso seria um retrocesso na política de cotas para jovens com perfis, esperanças e dificuldades que eles conhecem tão bem, a <a href="http://culturaafroba.blogspot.com/2009/08/omi-dudu-uma-ong-modelo-da-cultura-afro.html" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">ONG Omi-Dudú</span></span></a> lançou a campanha <a href="http://www.youtube.com/watch?v=a6aQTbSxAW8" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Afirme-se</span></span></a>. Procurada, a agência Propeg desenvolveu <a href="http://www.irdeb.ba.gov.br/evolucaohiphop/?p=936#more-936" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">spots para rádio </span></span></a>e uma <a href="http://3.bp.blogspot.com/_mv6HMnK1gi4/S5CAkLu8K7I/AAAAAAAAAFg/b_j_LjU_geg/s1600-h/Manifesto-Anuncio.png" target="_blank"><span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">peça publicitária</span></span></a> que seria veiculada nos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, A Tarde e O Globo. A agência negociou os espaços com os veículos, que cobraram, respectivamente, R$ 38.160,00, R$ 37.607,23, R$ 36.048,48 e R$ 54.163,20, valores arrecadados através de doações. A peça seria veiculada no dia 3 de março de 2010, para coincidir com o julgamento da constitucionalidade no Supremo Tribunal Federal, que estava marcado para os dias 3, 4 e 5. Dois dias antes de o material ser publicado no O Globo, a Propeg avisou à ONG que o anúncio teve que ser submetido à direção editorial do jornal (provavelmente aquela ali acima, dos editoriais contra as cotas), e que ele tinha sido classificado como &#8220;expressão de opinião&#8221;, elevando o valor cobrado para R$ 712.608,00. Segundo matéria do <span style="color: #1155cc;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;">Observatório da Imprensa</span></span>, no site do Jornal O Globo, o acréscimo para publicação de &#8220;expressão de opinião&#8221; é de 30% a 70%. No caso, O Globo estava cobrando 1.300% acima do preço negociado para veicular uma opinião diferente da sua. No dia 08/03/2010, a campanha Afirme-se! entrou com representação contra o jornal no Ministério Público do Rio de Janeiro. Estou em contato com ONG para saber se há novidades e se podemos ajudar, e assim que tiver notícias, se necessário, atualizo esse texto. Seria importante acompanharmos esse processo e e ajudarmos a denunciar mais esse abuso.</p>
<p>Aparecer em rede nacional, na novela Duas Caras, fazendo propaganda de um livro que estampa na capa os dizeres &#8220;Não somos racistas&#8221;, também não poderia ser classificado de divulgação de &#8220;expressão de opinião&#8221;? Será que, seguindo a política da direção editorial do grupo, a atriz Juliana Alves recebeu 1.300% a mais pela ação publicitária?</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>P.S. &#8211; em 8/05,  sem nenhum comentário, como se ele não tivesse existido, Yvonne Maggie<a href="http://g1.globo.com/platb/yvonnemaggie/2012/04/23/a-constitucionalidade-das-cotas-raciais-no-brasil/"> apagou o parágrafo</a> no qual atribui falsas citações a Henry Louis Gates e Harry Belafonte. O print screen do texto original<a href="https://docs.google.com/file/d/0B6zLTwyWgY9Lak5mb2U2Uy1YeVU/edit"> está aqui</a>. Leia o artigo de Idelber Avelar sobre o assunto: <a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/05/09/yvonne-maggie-falsificacao-de-citacao-adulteracao-de-arquivos-e-desonestidade-intelectual/">Yvonne Maggie: falsificação de citações, adulteração de arquivos e desonestidade intelectual</a>.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ana Maria Gonçalves, escritora, negra, autora de <em>Um defeito de cor</em>.</p>
<p>&nbsp;</p>

]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/05/05/a-midia-as-cotas-e-o-sempre-bom-e-necessario-exercicio-da-duvida-por-ana-maria-goncalves/feed/</wfw:commentRss>
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		<title>O julgamento das cotas no STF: Balanço de uma vitória histórica</title>
		<link>http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/04/30/o-julgamento-das-cotas-no-stf-balanco-de-uma-vitoria-historica/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Apr 2012 21:14:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Idelber</dc:creator>
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		<category><![CDATA[STF]]></category>

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		<description><![CDATA[O Supremo Tribunal Federal, na semana passada, julgou improcedente a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 186, ajuizada pelo DEM, que pedia à Suprema Corte que declarasse a inconstitucionalidade das cotas para negros nas universidades públicas. A decisão foi unânime: 10 x 0, com o Ministro Dias Toffoli tendo se declarado impedido por já haver [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p align="JUSTIFY">O Supremo Tribunal Federal, na semana passada, julgou improcedente a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 186, ajuizada pelo DEM, que pedia à Suprema Corte que declarasse a inconstitucionalidade das cotas para negros nas universidades públicas. A decisão foi unânime: 10 x 0, com o Ministro Dias Toffoli tendo se declarado impedido por já haver emitido, como Advogado Geral da União, um parecer favorável às cotas. Para todos os efeitos, trata-se, então, de um sonoro 11 x 0. Segundo o testemunho de Carmen Feijó, do Tribunal Superior do Trabalho, foi a primeira vez que ela viu uma decisão do STF ser aplaudida no plenário depois do encerramento da sessão.</p>
<p align="JUSTIFY">Tendo escrito vários textos em defesa das cotas <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2005/04/o_brasil_posgra.php">desde o ano de 2005</a>, o que mais me chamou a atenção desta vez foi a enormidade do massacre argumentativo. Os <em>amici curiae</em> arrolados pelo DEM, da advogada Roberta Fragoso Kauffman às inacreditáveis representantes do “Movimento Pardo-Mestiço Brasileiro” e do “Movimento contra o Desvirtuamento do Espírito da Política de Ações Afirmativas nas Universidades Federais&#8221; recorriam, na melhor das hipóteses (quando não protagonizavam embaraçosos vexames) à sofismática conhecida: a doce e gingada malemolência mestiça brasileira, a impossibilidade de se definir quem é negro, a tradição supostamente não segregada das nossas relações raciais, a existência de brancos pobres (os quais só parecem ser lembrados quando se trata de garantir direitos para a população negra), a estranhíssima referência ao princípio da igualdade para negar reparação àqueles que nunca foram tratados como iguais até, por fim, a falácia que subjaz, explícita ou implicitamente, a todas as anteriores: no Brasil não existe racismo. A Procuradora Deborah Duprat, em aproximadamente cinco minutos, dizimou todos os argumentos usualmente evocados para negar aos negros o benefício dessas medidas de reparação, com uma clareza que não deixava margens a dúvidas.</p>
<p align="JUSTIFY">Higienópolis povoada de brancos, Capão Redondo povoado de negros e pardos. A USP povoada de brancos (exceto na faxina, nas cozinhas, na vigilância) e os presídios povoados de negros e pardos. As reuniões de banqueiros e executivos compostas de brancos, garis e flanelinhas majoritariamente negros. Mas, segundo o argumento daqueles que se opõem às cotas universitárias para negros, seriam estas que instalariam as “<a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Divis%C3%B5es_Perigosas:_Pol%C3%ADticas_Raciais_no_Brasil_Contempor%C3%A2neo">divisões perigosas</a>”, de acordo com o título do livro que reúne os apóstolos da guerra santa contra as medidas de reparação. O país atravessou quase 400 anos de escravidão, os negros ganham, em média, metade dos brancos, continuam sendo as vítimas preferenciais da violência policial e totalizam 70% dos miseráveis, mas estranhamente, segundo a advogada Roberta Fragoso Kauffman, só na semana passada, com a decisão do STF, <a href="http://www.robertafragosokaufmann.com/2012/04/legalizaram-o-racismo-no-brasil.html">passou a existir racismo no Brasil!</a> O poeta e jurista Pádua Fernandes não deixou de notar a ironia: não se falou de “divisões perigosas” enquanto <a href="http://opalcoeomundo.blogspot.com.br/2012/04/brasil-e-as-velhas-cotas-para-brancos.html">vigoravam as cotas exclusivas para brancos</a>.</p>
<p><span id="more-1192"></span></p>
<p align="JUSTIFY">Há que se dizer aqui que se trata de uma grande derrota da mídia brasileira. Durante toda a década, mesmo depois de ela própria noticiar que a experiência das cotas não produziu o tão propalado “ódio racial”, que os alunos cotistas tiravam <a href="http://noticias.universia.com.br/destaque/noticia/2003/12/15/526216/aprovado-cota-sai-melhor-na-uerj-PRINTABLE.html">notas iguais ou melhores</a> que os não-cotistas, que a evasão entre aqueles <a href="http://www.scielo.br/pdf/cp/v39n137/v39n137a14.pdf">era menor</a>, em nenhum momento a mídia brasileira revisou a sua dogmática constantemente contradita pelos fatos (há duas exceções que devo mencionar aqui: Elio Gaspari e Miriam Leitão sempre defenderam as cotas). Como <a href="http://br.noticias.yahoo.com/blogs/on-the-rocks/velado-021033899.html">afirmou muito bem</a> o Walter Hupsel, isso nem precisava ter chegado à Suprema Corte. Mas, já que chegou, que se releia quantas vezes for necessário <a href="http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF186RL.pdf">esse maravilhoso voto</a> e que se reitere: o placar foi 10 x 0.</p>
<p align="JUSTIFY">Imediatamente depois da sessão do STF, Globo, Estadão e Folha publicaram editoriais lamentando a decisão. O curioso é que nenhum desses editoriais polemizava com a argumentação presente no voto de Lewandowski, mas repetia falácias já desmontadas por ele. Referindo-se à cor da pele como “obsessão importada” (puxa, avisem isso para o nosso sistema carcerário!), a Folha, por exemplo, <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/39477-cotas-raciais-um-erro.shtml">afirmou</a>: <em>A Constituição estipula que todos são iguais perante a lei. É um princípio abstrato; inúmeras exceções são admitidas se forem válidos os critérios para abri-las.A ninguém ocorreria impugnar, em nome daquele preceito constitucional, a dispensa de pagar Imposto de Renda para os que detêm poucos recursos</em>. <em>O cerne da questão, portanto, consiste em definir se há justiça em tratar desigualmente as pessoas por causa do tom da pele ou se seria mais justo, no empenho de corrigir a mesma injustiça, tratá-las desigualmente em decorrência do conjunto de condições sociais que limitaram suas possibilidades de vida</em>. A Folha não parece atinar para o fato de que “exceções” como a isenção de imposto de renda para os mais pobres visam justamente <a href="http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:http://jus.uol.com.br/revista/texto/4143">efetivar o princípio da igualdade</a>, tratando de forma desigual aqueles que são desiguais no mundo fático exatamente para fazer valer o princípio constitucional. Não se trata, portanto, de uma “exceção”, mas da aplicação do princípio.</p>
<p align="JUSTIFY">O “conjunto de condições sociais” que “limitaram suas possibilidades de vida”, no caso dos negros, inclui a herança de quase 400 anos de escravidão; um cotidiano de discriminação e ataques à sua autoestima; constante violência policial; sobrerrepresentação entre os pobres, miseráveis e presos, e subrrepresentação entre os diplomados e ricos, realidades que têm impacto devastador sobre as crianças negras – todos eles fatos amplamente demonstrados por uma montanha de números, estudos, estatísticas. Mas, curiosamente, o Estadão <a href="http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,justica-com-lentes-coloridas-,866441,0.htm?reload=y">acredita que</a> <em>o fator não econômico e estritamente racial nunca foi esclarecido na exposição da ministra nem nos votos de seus colegas</em>, como se não tivesse ficado amplamente demonstrado, mais uma vez, que a pobreza no Brasil tem cor.</p>
<p align="JUSTIFY">A coleção de falácias derrotadas no STF tenta agora se reciclar. Tendo ignorado durante uma década os estudos que mostram que os cotistas se saem igual ou melhor que os não cotistas nas universidades, os proponentes da guerra santa agora se utilizam desse dado sociologicamente comprovado para argumentar que, bem, já que eles se saem melhor, então não precisa de cota! É a falácia reciclada por <a href="http://www.schwartzman.org.br/sitesimon/?p=2943&amp;lang=pt-br">este texto de Simon Schwartzsman</a>, já devidamente <a href="http://andreegg.org/sobre-as-cotas-para-negros-nas-universidades-a-respeito-da-decisao-do-stf/">desmontada por André Egg</a>. Schwartzsman consegue descobrir a pólvora ao afirmar: <em>Se eles têm pior desempenho nos vestibulares ou no ENEM mas têm melhor desempenho nos cursos, isto indica que existem sérios problemas no ENEM e nos exames vestibulares, que precisariam ser corrigidos.</em></p>
<p align="JUSTIFY">Parabéns, anti-cotistas! Precisamos de uma surra de 10 x 0 na Suprema Corte para que vocês descobrissem que há “sérios problemas” com as instituições supostamente meritocráticas que tanto defendiam. Quem sabe, com mais um pouquinho de esforço, vocês consigam ouvir a experiência da população negra, colocar-se, por um minuto que seja, no lugar do outro, questionar seus dogmas e começar a enxergar a realidade efetivamente existente numa das sociedades mais racistas do planeta.</p>

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		<title>Desarquivando o Brasil: entrevista sobre literatura e luto nas pós-ditaduras</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Apr 2012 11:34:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Idelber</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A jornalista Izabel Fortes, do Suplemento Pernambuco, me enviou algumas perguntas sobre o processo do luto nas sociedades pós-ditatoriais e o tratamento dele na literatura. Gostei demais das perguntas. As respostas seguem abaixo. &#160; 1. Que diferenças você enxerga no trabalho de luto relativo aos anos de ditadura no Chile e Argentina quando comparados com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>A jornalista Izabel Fortes, do Suplemento Pernambuco, me enviou algumas perguntas sobre o processo do luto nas sociedades pós-ditatoriais e o tratamento dele na literatura. Gostei demais das perguntas. As respostas seguem abaixo.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_1187" class="wp-caption alignleft" style="width: 201px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/04/zambra1.jpg"><img class="size-medium wp-image-1187" title="Maquetacin 1" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/04/zambra1-191x300.jpg" alt="" width="191" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">O último romance do chileno Alejandro Zambra</p></div>
<p><span id="more-1185"></span></p>
<p><strong>1. Que diferenças você enxerga no trabalho de luto relativo aos anos de ditadura no Chile e Argentina quando comparados com o Brasil? Como essas diferenças podem ser evidenciadas na produção literária pós-ditatorial desses países?</strong></p>
<p>A diferença mais notável, sem dúvida, é que no Brasil o processo de denegação e ocultamento do passado não tem paralelo entre os vizinhos. A transição brasileira se parece mais com a chilena, na medida em que, em ambos os países, os militares mantiveram um controle sobre o processo que não se verifica na queda abrupta dos generais argentinos. Na Argentina, claro, inicia-se já com o governo Alfonsín, em 1983, um amplo acerto de contas com o passado, temporariamente suspenso em nível judicial com as leis de obediência devida e de ponto final e restabelecido depois, com Néstor Kirchner. Esse acerto de contas político e jurídico cria condições para uma abordagem clara do problema na própria sociedade, literatura incluída. Nenhum país da região possui um acervo de reflexão e representação da barbárie do passado recente comparável ao que possuem os argentinos, especialmente no cinema e na literatura. Mesmo no Chile, onde a lei de anistia de 1978 funcionou mais ou menos como a lei de anistia brasileira de 1979, o acerto de contas com o regime militar avançou incomparavelmente mais que no Brasil. Desde 2004, 700 agentes do Estado chileno foram investigados e acusados de crimes em tribunais. Por volta de 30% deles cumpriram penas. Parte da razão para isso, segundo a hipótese de meu amigo <a href="http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-gambito-chileno,850054,0.htm">Anthony Pereira</a>, pesquisador do tema, é que a repressão ditatorial brasileira foi judicializada num grau muito maior que em nossos vizinhos. Ou seja, no Brasil o próprio Judiciário – STF incluído – condenou prisioneiros políticos com base em “provas” arrancadas sob tortura. Nossa tradição amnésica e apaziguadora não tem paralelo entre os vizinhos, que tematizaram os horrores das suas ditaduras muito mais frequente e intensamente, mesmo na literatura.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>2. O tempo visto como regime histórico, como elemento que caminha sempre em uma direção civilizatória, acabaria gerando uma tendência política ao esquecimento à medida que só através dele o projeto de civilização pode prosseguir. Como o esquecimento passivo dos traumas de ditadura visto como proposta política conciliatória pode ser sentido nessa produção literária?</strong></p>
<p>Concordo completamente com a sua primeira frase. Walter Benjamin dizia que a crença no progresso, a crença na melhora progressiva das coisas e no avanço da civilização era o grande narcótico do nosso tempo. Ele via aí a raiz primeira e fundamental da ascensão do nazismo. Arrisco-me a dizer que hoje esse entorpecimento é ainda mais intenso do que no princípio do século XX, quando a social-democracia europeia começa a traficar o conformismo da melhora gradual das coisas através do avanço das forças progressistas no parlamento. Esse esquecimento passivo é trabalhado de várias formas na literatura: ele pode ser reproduzido e replicado simplesmente, como em algumas memórias do período militar. Penso aqui nos textos de Fernando Gabeira, em que a própria autocrítica do passado militante passa a funcionar como um índice da melhora das coisas, ao melhor estilo “agora já não estamos presos às ilusões do passado”. Ele pode ser trabalhado de forma crítica e alegórica, como no conto de João Gilberto Noll, “Alguma coisa urgentemente”, em que o olhar oblíquo de um garoto, filho de um perseguido político, adquiere o caráter de cifra da própria impossibilidade de se falar do assunto na pólis. A literatura brasileira também buscou na história passada do país a inspiração para tratar do esquecimento recente, como no extraordinário romance de Silviano Santiago, <em>Em Liberdade</em>, que revisita a morte de Cláudio Manuel da Costa durante a Inconfidência Mineira para refletir sobre o assassinato de Vladimir Herzog nos porões da ditadura, em 1975.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>3. Beatriz Sarlo, ao analisar a tendência testemunhal da escrita em primeira pessoa na América Latina nos anos pós-ditatoriais, aponta o surgimento de uma guinada subjetiva, mudando o estatuto da memória e da visão de tempo nos países latino-americanos. Como você acha que a ficção se relaciona com essa virada subjetiva, que transformações sofre o testemunho e sobre que forma ele aparece? Que estatuto recebem esses romances e contos dentro desse contexto?</strong></p>
<p>Não sei a que texto você se refere, provavelmente é “La novela después de la historia”, mas não creio que Beatriz reclame pertinência latino-americana para o que ela escreve a partir da experiência argentina. Nesse texto, ela nota, sim, uma tendência etnográfica na ficção mais recente, que ela contrasta com o mergulho na história que caracterizou a década que vai de meados dos anos 80 a meados dos anos 90. Segundo essa hipótese, mesmo a literatura que se dedica a desenredar os fios da trama histórica estaria hoje muito mais preocupada com o impacto dessa trama sobre o presente, e com um olhar mais subjetivo e pessoal, o lugar de um sujeito único, digamos. Pode-se argumentar contra ou a favor dessa hipótese, mas não creio que ela tenha pertinência no contexto brasileiro. Na Argentina, essa hipótese se ancora em deslocamentos bem visíveis na literatura como, por exemplo, o crescente recurso a personagens que já não são vítimas nem cúmplices do regime militar, mas figuras cinzentas e volúveis, como o protagonista de <em>El director</em>, de Gustavo Ferreyra. Mesmo quando a ficção argentina recente retratou cúmplices da ditadura, ela optou preferencialmente por personagens que têm sua visão do processo completamente bloqueada e cuja ignorância é a fonte dos efeitos do relato, como no caso de <em><a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2006/06/sobre_duas_vezes_junho_de_martin_kohan.php">Duas vezes junho</a></em>, o notável romance de <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2006/06/entrevista_com_martin_kohan.php">Martín Kohan</a> sobre as relações entre a Copa de 1978 e a ditadura. Nesses casos, o olhar testemunhal vale exatamente na medida em que é um índice daquilo que a testemunha não é capaz de ver. Nada disso se aplica ao Brasil, porque nós ainda não começamos sequer a pensar direito sobre o problema. Não tem paralelo entre nós a saturação temática que se viveu na Argentina (Ricardo Piglia uma vez notou, irônico, que na Argentina se diz que não há memória mas o país está, o tempo todo, debatendo o passado). Isso não quer dizer que não haja alguma boa produção literária e cinematográfica sobre o tema, mas que sua instalação na pólis ainda não está consolidada. Isso faz com que no Brasil você ouça, com frequência, e até em comarcas consideradas respeitáveis, coisas absolutamente impensáveis na Argentina como, por exemplo, “que bobagem, deixa isso pra lá, já aconteceu”.</p>
<div id="attachment_1188" class="wp-caption alignright" style="width: 203px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/04/neuman.jpg"><img class="size-medium wp-image-1188 " title="neuman" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/04/neuman-193x300.jpg" alt="" width="193" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">O romance-memória do argentino Andrés Neuman</p></div>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>4. Sobretudo na produção dos anos 2000, temos uma série de exemplos de relatos em primeira pessoa de gente que viveu os anos de ditadura através de seus familiares ou de lembranças dos anos de infância. O resgate da experiência dos anos de trauma, nesse sentido, aconteceria junto com o resgate da própria história familiar. Nesses casos, evidenciados em nomes como Andrés Neuman e Alejandro Zambra, as memórias sofrem um forte processo de ficcionalização e cada vivência passa a ser reconstruída e redimensionada. Como você analisa a vivência do luto nesses relatos? Qual o papel da ficcionalização nesse processo?</strong></p>
<p><strong></strong>Pois é, esse é um momento prenhe de significados e potencialidades. No Brasil, já temos algum rastro desse tipo de produção também, como no conto “Alguma coisa urgentemente”, de Noll, citado acima, e em filmes como <em>O ano em que meus pais saíram de férias</em>. Os dois casos que você menciona (imagino que esteja pensando em <em>Formas de volver a casa</em>, de Alejandro Zambra, e <em>Una vez Argentina</em>, de Andrés Neuman) são bastante diferentes, me parece, no que se refere à ficcionalização. O texto de Neuman é muito mais explícito como alegoria nacional, como tentativa de armação de uma <em>collage</em> que seja cifra do país mesmo. Aparece ali uma voz narrativa cujo estatuto é muito mais ambíguo, entre a autobiografia e a ficção. No texto de Zambra, um romance no sentido clássico, parece-me mais clara a ênfase no caráter indireto do que se aprende, na distância do protagonista em relação ao fato histórico. De toda essa produção que trata do tema dos filhos, outra vez, o mais notável me parece um exemplo argentino: o extraordinário filme <em>Los rubios</em>, de Albertina Carri, que transita entre a ficção e o documentário, narrando a busca da diretora / protagonista (há uma atriz que representa o papel de Carri, mas a própria diretora “real” aparece no filme,enfatizando a ambiguidade) pela reconstrução da vida de seus pais, desaparecidos pela ditadura argentina quando ela tinha três anos de idade. Uma série de recursos, como o uso de bonecos de playmobile para representar o sequestro de seus pais, o trabalho de câmera apontando para seu caráter de documentário artesanal que perenemente corre o risco de resvalar na ficção, o fax que a equipe de filmagem recebe do Instituto Nacional de Cinema e Artes Visuais, instando-os a manter mais “rigor documental”, tudo ali funciona para instalar de forma poderosa a especificidade do fardo que vivem os filhos e netos: fazer o luto por pessoas de quem você não possui absolutamente nenhuma reminiscência. Ou seja, um luto que começa com uma espécie de paradoxo retrospectivo, no qual se deve em primeiro lugar construir – não reconstruir, mas construir – o próprio objeto do luto.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>5. Em <a href="http://books.google.com/books?id=zdXfld-PEzgC&amp;pg=PA13&amp;source=gbs_toc_r&amp;cad=4#v=onepage&amp;q&amp;f=false">Alegorias da derrota</a>, você coloca que os elementos da ditadura seriam marcados por um devir-alegoria, ou uma tendência das imagens produzidas a se deixarem ler como alegoria. Como esse devir-alegoria se relacionaria com essa tendência testemunhal dentro da proposta autoficcional desses jovens autores?</strong></p>
<p>A hipótese do devir-alegoria vem da leitura de Walter Benjamin e da revalorização que começa a ocorrer no começo do século XX. Até então, mesmo nos dicionários, predominava uma concepção clássico-romântica da alegoria, de acordo com a qual ela seria uma forma menos madura, abrupta, direta demais, por oposição ao encaixe harmônico entre o universal e o particular que seria próprio ao símbolo. Essa é a versão dominante em autores tão distintos como Goethe, Hegel e Coleridge. A revalorização do barroco, estilo com o qual a alegoria praticamente se confunde, torna visível outras dimensões, das quais a que mais me interessa é a condição da alegoria como tropo que caiu no tempo. O exemplo que uso no livro é o da União Soviética, onde a foice e o martelo eram dotados de forte carga simbólica. Eram como o sol. Parecia que estariam sempre lá. Vem a queda do muro de Berlim e aquela imagem da foice e do martelo começa a ser vendida em brochinhos de 50 centavos, como souvenir, em qualquer mercado de pulgas de Moscou. Ela passa a ser representação de algo que não existe mais, que está morto. Passa a representar, não algo que se pretende duradouro e eterno, mas algo pretérito, datado. Ou seja, cai na imundície da transitoriedade histórica. Vira alegoria. No caso da literatura pós-ditatorial escrita pelos filhos, temos um imperativo duplamente alegórico, por assim dizer, na medida em que se representa alegoricamente uma ausência, ou seja, aponta-se para algo que inicialmente já não estava lá. Trata-se, então, de uma espécie de epitáfio sem corpos, de canto fúnebre sem sepultura: toda essa literatura dos filhos escrita nos países vizinhos, portanto, pode ser a que mais perfeitamente descreve, de forma indireta e involuntária, o Brasil, a terra dos cadáveres insepultos por excelência.</p>

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		<title>Não pise na grama!, por Joviano Mayer</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Apr 2012 18:29:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Idelber</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Joviano Mayer é advogado em Belo Horizonte. O relato abaixo demonstra mais uma vez como tem operado a truculência das autoridades  municipais e estaduais em BH e MG. . Domingo, dia 22 de abril de 2012. Estávamos na praça Floriano Peixoto, citadinos de Belo Horizonte, prestigiando o Festival Palavra Som. À exceção das cercas que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Joviano Mayer é advogado em Belo Horizonte. O relato abaixo demonstra mais uma vez como tem operado a truculência das autoridades  municipais e estaduais em BH e MG.</em></p>
<p><em></em><span style="color: #ffffff;">.</span><br />
Domingo, dia 22 de abril de 2012. Estávamos na praça Floriano Peixoto, citadinos de Belo Horizonte, prestigiando o Festival Palavra Som. À exceção das cercas que privavam as pessoas de desfrutar o lindo verde da grama, tudo conspirava para o bem: boa música, bons amigos, ambiente amistoso e feliz.</p>
<p>Minutos antes da última apresentação do Festival, uma amiga e também produtora do evento, comunicou-me a prisão de outro amigo, o jovem estudante de arquitetura e urbanismo Fernando Soares. O motivo: ele, frequentador cotidiano da dita praça, havia pisado na grama, rompido a cerca da vergonha e contestado o cerceamento irracional do espaço público. Os agentes municipais, guardas e fiscais, não habituados ao diálogo, logo o algemaram, sob a mira das temíveis armas de choque amarelas. Veio a polícia que o conduziu algemado até a viatura. Foi quando cheguei.</p>
<p>Desde o princípio, apresentei-me como advogado do amigo Fernando para interceder por sua soltura, no exercício legal da profissão. Sem dificuldade, identifiquei dentre os policiais o comandante da desastrosa operação militar: Sargento Nogueira, lotado no 1º Batalhão da Polícia Militar de Minas Gerais. Exigi – e não solicitei, por que direito fundamental não se transige – que as algemas fossem imediatamente retiradas, afinal “meu cliente” não oferecia qualquer resistência à prisão. Iludido com a possibilidade de convencer com argumentos a autoridade policial, cheguei a fazer menção à súmula vinculante número 11 do STF que prevê ser lícito o uso de algemas somente “em casos de resistência e de fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia”.</p>
<p><span id="more-1180"></span></p>
<p>Sargento Nogueira bravejou descontrolado: “eu sou a autoridade”; “você está atrapalhando o meu serviço”; “saia do meu caminho”. Ao lado do amigo algemado, mantive a firmeza e, sem prever a reação violenta e desproporcional que o Sargento Nogueira teria, apelei para outros argumentos jurídicos. Em vão.</p>
<p>Fui abruptamente imobilizado pelo enorme sargento que torceu com violência meu braço esquerdo, jogou-me de quatro sobre o capo de um carro, colocou-me as algemas o mais apertado possível e me atirou dentro da viatura policial, batendo propositalmente minha cabeça na porta do carro. Nenhum ser humano merece tratamento tão indigno. Tudo isso diante de dezenas de pessoas atônitas, revoltadas, desacreditadas do que viam.</p>
<p>O amigo Rafael Barros, antropólogo e produtor cultural, ao arriscar intermediar a situação para contornar tamanha arbitrariedade e violência, acabou preso como eu e Fernando, e foi conduzido a uma delegacia na “carrocinha” de um camburão da polícia militar.</p>
<p>Na delegacia, na sala reservada à polícia militar, mais violações de direitos humanos: ameaças, apreensão de telefone, vedação ao uso de banheiro, beber água, etc. A advogada e amiga Maria do Rosário foi impedida de entrar na sala em que estávamos detidos, apesar da garantia prevista no Estatuto da OAB. O amigo e membro eleito do Conselho Estadual de Direitos Humanos (CONEDH), Frei Gilvander Luis Moreira, também foi privado de nos acompanhar. Havíamos chegado à delegacia às 21:20h. Nossas algemas (tão apertadas!) foram retiradas somente às 23:45h, após à chegada do membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB, o advogado Fernando Nogueira. Neste momento foi, finalmente, autorizada a entrada da advogada Rosário e Frei Gilvander.</p>
<p>Ao perceber a manifestação de inúmeras pessoas na entrada da delegacia e a repercussão imediata que a infeliz ação havia suscitado, guardas municipais e policiais militares fizeram uma longa reunião fechada para combinar os termos do boletim de ocorrência que não trouxe nossa versão dos fatos. Nós três, vitimas de lesão corporal, abuso de autoridade e inúmeras outras ilegalidades, fomos acusados pelos crimes de desobediência e desacato. O manipulado boletim de ocorrência chegou a ser corrigido por um oficial-tenente mais instruído do que o Sargento Nogueira e seus homens. A demora na transcrição dos “fatos” no referido boletim era assim justificada: “o sistema está fora do ar”. Enquanto isso, outras ocorrências eram normalmente geradas, como nos informou posteriormente o delegado de plantão.</p>
<p>No dia 23 de abril, dia de Ogum, senhor dos metais, orixá da justiça, amanhecemos detidos ilegalmente numa delegacia de polícia. Saímos da delegacia mais de oito horas depois, às 05:40h da manhã. Cansados, com fome e os punhos machucados pelas algemas. Essa noite não pude dormir. O Sargento Nogueira ainda perturba meus sonhos.</p>
<p>Rogo para que as pessoas que presenciaram os fatos aqui narrados façam contato conosco. Precisamos de fotos, vídeos e testemunhas. Não descansaremos até que os agentes públicos diretamente envolvidos, o Município de Belo Horizonte e o Estado de Minas Gerais sejam responsabilizados civil e penalmente. Mais do que isso, não descansaremos enquanto houver cercas nesta cidade, pois preferimos lutar a perder nossa dignidade.</p>
<p>Em tempo, agradecemos aos amigos que nos acompanharam durante a noite na delegacia de policia: Maria do Rosário, Frei Gilvander, Fernando Nogueira, Flávia Mafra, Flora Lopes, Guilherme Basto Lima, Yuri Vellasco, Rafael Bittencourt, Luísa Rabello, Silvia Andrade, Larissa Batista, Alexandre de Sena, Gustavo Bones, Milagros Vazquez, Luiz Gabriel Lopes, Luana Stancioli, Thiakov Davidovich, Clarice Panadés, Débora Santos, André Xina, Bernard Machado, Juliana Perdigão, Makely Ka e a todos os outros que lá estiveram, mas não pudemos ver das salas da repressão.</p>
<p>Por uma cidade em que caibam todos e todas&#8230;</p>
<p>Joviano Mayer</p>
<p align="LEFT"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"><br />
</span></p>

]]></content:encoded>
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		<title>115 anos de Pixinguinha (23/04/1897-07/02/1973)</title>
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		<pubDate>Mon, 23 Apr 2012 10:59:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Idelber</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Seria insultante dizer que Pixinguinha foi um dos maiores músicos do Brasil. É mais ou menos como dizer que Drummond foi um dos melhores poetas de Itabira ou que Pelé foi um dos grandes pontas-de-lança do Santos. Pixinguinha é a nossa grande contribuição ao eterno, o maior brasileiro de todos os tempos, e um dos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1164" class="wp-caption alignleft" style="width: 230px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/04/pixinginha_louisarmstrong.jpg"><img class="size-full wp-image-1164" title="pixinginha_louisarmstrong" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/04/pixinginha_louisarmstrong.jpg" alt="" width="220" height="172" /></a><p class="wp-caption-text">Pixinga e Louis Armstrong</p></div>
<p style="text-align: left;" align="CENTER"><span style="text-align: left;">Seria insultante dizer que Pixinguinha foi um dos maiores músicos do Brasil. É mais ou menos como dizer que Drummond foi um dos melhores poetas de Itabira ou que Pelé foi um dos grandes pontas-de-lança do Santos. Pixinguinha é a nossa grande contribuição ao eterno, o maior brasileiro de todos os tempos, e um dos artistas mais refinados da história da humanidade. Se você não ouve regularmente pelo menos 50 composições de Pixinguinha, me desculpe, você está desperdiçando sua existência neste planeta com coisas triviais, irrelevantes, desimportantes. Pixinga sintetiza todas as tradições musicais imagináveis, europeias e americanas, brasileiras e africanas, numa obra singular que diz mais sobre o que foi o século XX no Brasil do que a coleção completa de todos os jornais e revistas publicados no período. Associado à maestria no choro, gênero com cuja história ele chega a se confundir, Pixinguinha, além de incontáveis choros, compôs de tudo: marcha, polca, tango brasileiro, maxixe, frevo, xote, valsa, coco, embolada, mazurca, rumba, lundu, quadrilha e sambas de todos os tipos. Era igualmente genial como compositor, arranjador, flautista, saxofonista e até cantor.</span></p>
<p align="JUSTIFY">Alfredo da Rocha Viana Filho uma vez explicou a origem do apelido: <em>Meu apelido não era Pixinguinha, era Pinzindim. Pin-zin-dim. Minha avó, que era africana e morreu com 95 anos de idade, é que me chamava assim. Depois, Almirante descobriu que Pinzindim é uma palavra de um dialeto africano, que quer dizer menino bom. Almirante é que me disse. Já o apelido de Pixinguinha surgiu depois que eu tive bexiga, numa epidemia. Então, uns me chamavam de Bexinguinha, Bixinguinha, foi uma complicação de apelidos. Até hoje, não sei por que fiquei como Pixinguinha </em>(Sérgio Cabral, <em>Pixinguinha: Vida e Obra</em>, Rio, Lumiar, 1997, p.38). Depois, Mestre Nei Lopes descobriria que em xironga, língua de Moçambique, <em>psi-di </em>quer dizer comilão ou glutão, o que Sérgio Cabral considera origem plausível, já que na infância Pixinga também havia sido conhecido como Carne Assada.</p>
<p><span id="more-1163"></span></p>
<p align="JUSTIFY">O primeiro grupo musical de que participa Pixinguinha é filho do grande sucesso da música nordestina no carnaval de 1914, à raiz da embolada “Caboca de Caxangá”, de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense. João Pernambuco dividia casa com Donga e outros músicos. Expulsos de lá pelo barulho que faziam, se instalaram num barracão na Rua do Riachuelo, de onde sairia o Grupo do Caxangá, do qual já faria parte Pixinga, com o apelido de Chico Dunga. Em 1915 já é possível encontrar referências, no <em>Jornal do Brasil</em>, ao “afamado Peixiquinha”. Em 1917, Pixinga já lançava dois de seus clássicos mais conhecidos, “Rosa”, valsa gravada inicialmente sem letra, e “Sofres porque queres”, choro de extrema complexidade, que você confere aqui em gravação de 1946:</p>
<p><object width="420" height="315" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/pW9226TA-OI?version=3&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="420" height="315" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/pW9226TA-OI?version=3&amp;hl=pt_BR" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<p align="JUSTIFY">Aqueles eram os anos em que Pixinga tocava na orquestra da sala de projeção do Cinema Palais, na Avenida Rio Branco, fazendo mais sucesso que os filmes. Em 1919, com formação ligeiramente modificada, o grupo receberia o nome que faria história: Os Oito Batutas.</p>
<p align="JUSTIFY">O jornalismo, como sempre, não entendeu nada. Protestos veementes encheram as páginas dos jornais, já que além de se vestirem em trajes sertanejos, os Oito Batutas incluíam quatro negros: Pixinguinha (flauta), Donga (violão), China (violão e voz) e Nélson Alves (cavaquinho), além dos brancos Zezé (bandolim e ganzá), Jacob Palmieri (bandola e reco-reco) e Raul Palmieri (violão). Parte dessa galera é capturada em vídeo e som na celebração do quarto centenário da cidade de São Paulo, em 1954, num curta de Ricardo Dias e Thomas Farkas. Vale a pena saltar os primeiros minutos e ver a festa que fazem no palco:</p>
<p><object width="420" height="315" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/PktXlToWDEA?version=3&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="420" height="315" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/PktXlToWDEA?version=3&amp;hl=pt_BR" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<p align="JUSTIFY">Seria ainda em 1919 que Pixinga comporia aquela que talvez ainda seja a canção mais ilustre feita sobre um jogo de futebol, o “1 x 0” que comemora a vitória do Brasil sobre o Uruguai na final do Sul-Americano, nas Laranjeiras, atravessando toda a escala em andamento alucinante, como uma equipe trocando passes em alta velocidade. Aqui vai, também em gravação de 1946:</p>
<p><object width="420" height="315" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/3KnqP4rqe58?version=3&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="420" height="315" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/3KnqP4rqe58?version=3&amp;hl=pt_BR" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<p align="LEFT">Na virada da década de vinte, os Oito Batutas excursionariam pelo Brasil e pelo exterior, com antológicas passagens por Paris e Buenos Aires. No embarque, mais uma saraivada de insultos racistas do jornalismo, que não aceitava que um grupo de negros fosse “representar o Brasil” na França. Depois do êxito, Pixinga lhes responderia com classe: <em>Modéstia à parte, fique sabendo que triunfamos. É bom que se saiba que, quando daqui saímos, animados por uns, ridicularizados por outros, não tínhamos a estulta pretensão de representar no estrangeiro a arte musical brasileira. O que iríamos apresentar em Paris, e o fizemos com decência, graças a Deus, era apenas uma das feições da nossa música, mas daquela essencialmente popular, característica. Para os que animavam, ficaram em nossos corações o reconhecimento e a saudade. Dos outros, preferimos amargar os apodos a discutir. Tocamos para a frente</em> (Cabral, op. cit, p. 80).</p>
<p align="LEFT">Na virada da década de 30, Pixinga se consolidaria como um dos maiores arranjadores da história da música popular, organizando orquestras e dividindo trabalhos com o maestro Radamés Gnattali. Paulo Silva, professor de harmonia da Escola Nacional de Música, reagia estatelado: <em>Eu não sei até agora como é que Pixinguinha faz essas instrumentações, porque a regra proíbe tecnicamente certos recursos inadmissíveis nos compassos. Eu jamais conseguirei colocar essas formas dentro do compasso como coloca Pixinguinha</em>. Na década de 40, Pixinguinha trocaria a flauta pelo saxofone, e também nesse instrumento criaria um estilo próprio. Até a morte, em 1973, ele alternaria vitórias enormes e momentos muito difíceis, parte deles narrados neste documentário do SESC:</p>
<p><object width="560" height="315" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/tALwA7rPPVM?version=3&amp;hl=pt_BR" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed width="560" height="315" type="application/x-shockwave-flash" src="http://www.youtube.com/v/tALwA7rPPVM?version=3&amp;hl=pt_BR" allowFullScreen="true" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" /></object></p>
<p align="LEFT">Para a garotada que está se iniciando na infinita arte de Pixinguinha, este blog sugere a coletânea <em>Raízes do Samba</em> (baixável <a href="https://rapidshare.com/#!download|749p3|124063926|RA_ZES_DO_SAMBA_-_Pixinguinha.rar|58177|R~4B1C86E2F67D418D8E0F37CA49F50C00|0|0">aqui</a>), que contém gravações de todas as fases do gênio, e o LP original <em>Som Pixinguinha</em> (baixe <a href="http://www.filestube.com/s/som+pixinguinha">aqui</a>), produzido por Hermínio Bello de Carvalho em 1971, e que eu, pessoalmente, considero o melhor disco da história da música. Ignoro se a monumental caixa de 13 Cds lançada pela Biscoito Fino sob o título <em>Memórias Musicais</em> ainda está disponível para compra mas, se estiver, ela vale o dinheiro que for. Dois Cds inteiros são dedicados a Pixinga.</p>
<p align="LEFT">Evoé, Pixinguinha!</p>

]]></content:encoded>
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		<title>Desempacotando minha biblioteca</title>
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		<pubDate>Fri, 20 Apr 2012 06:52:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Idelber</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Biblioteca]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Como sabe quem gosta de livros e é ou já foi expatriado – ou simplesmente manteve duas residências –, é dilacerante ter a biblioteca esparramada por mais de um lugar. Os livros sempre se rebelam contra essa situação, de tal forma que, para o sujeito que se encontra separado de uma parte de sua coleção, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_1149" class="wp-caption alignleft" style="width: 219px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/04/joyce-ulisses-1966.jpg"><img class="size-medium wp-image-1149" title="joyce ulisses 1966" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/04/joyce-ulisses-1966-209x300.jpg" alt="" width="209" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://naogostodeplagio.blogspot.com/</p></div>
<p>Como sabe quem gosta de livros e é ou já foi expatriado – ou simplesmente manteve duas residências –, é dilacerante ter a biblioteca esparramada por mais de um lugar. Os livros sempre se rebelam contra essa situação, de tal forma que, para o sujeito que se encontra separado de uma parte de sua coleção, a experiência da leitura passa a ser, com frequência, a evocação do livro ausente.</p>
<p>Pois bem, é um momento de festa por aqui porque, finalmente, eu me reuni de novo com duas enormes estantes de livros que ainda estavam em Belo Horizonte. A decisão sobre quais livros deixar onde sempre foi meio arbitrária, mas eu mantinha, por exemplo, uma coleção de poesia em BH, pela lógica de que meus períodos por lá sempre são cheios de obrigações e menos propensos a leituras que exigem continuidade. Mas a coisa nunca foi organizada o suficiente para que eu tivesse certeza de onde estavam todos os livros, e a inevitabilidade que eu descrevia no primeiro parágrafo foi uma constante companheira nestes anos: lembrar que está em New Orleans o livro de que eu preciso em Belo Horizonte, lembrar que está em Minas o livro que desejo agora e aqui, na foz do Mississippi.</p>
<p><span id="more-1148"></span></p>
<p>Minha biblioteca nem é tão grande assim – deve andar pelos 4.500 volumes –, mas ela é bem construída, creio. A neura escorpiana, com seu gosto pela totalidade, sempre me fez privilegiar edições de Obras Completas em um ou poucos volumes. Só possuo um volume de Shakespeare, mas ali está tudo o que é atribuído a ele. Sou colecionador voraz das edições da Aguilar, com a poesia ou prosa completa ou quase completa de vários clássicos brasileiros e estrangeiros: sempre li Drummond, Bandeira, Fernando Pessoa, Vinicius nessas edições. Esta semana, ao chegarem as caixas, me dei conta de que passei quase uma década exilado de Murilo Mendes, agora devidamente devolvido à prateleira que fica ao lado da minha mesa, onde reúno a poesia de leitura cotidiana (não me considero bom analista de poesia e jamais publiquei um estudo acadêmico sobre o gênero, mas ele é o único que leio diariamente).</p>
<p>Reunir uma biblioteca esparramada, sabe-o quem já viveu isso, implica sempre descobrir que se possui um livro do qual não se tinha notícia. Na medida em que eu ia abrindo as caixas, apareciam insólitos volumes desconhecidos: por exemplo, uma coisa intitulada <em>Um mineiro entre os ianques</em>, publicado por Carlos X. D&#8217;Alcântara, em edição de autor, no ano de 1959. Folheio o livro. Misturam-se genuínas sacadas etnográficas, repetições de clichês do senso comum, saborosos relatos de viagens e malentendidos típicos desse já centenário gênero do culturalismo comparado que opõe o Brasil aos EUA, no qual, invariavelmente, o autor malentende muito mais o seu próprio país do que aquele que visita.</p>
<p>Despencam de uma das caixas alguns livros em francês, e me pego pensando em como é hoje longínqua a minha relação com essa língua, a primeira que estudei. Retenho nas mãos o enorme volume das <em>Illusions perdues</em>, de Balzac, entre a memória do prazer tido com ele há mais de vinte anos e a absoluta certeza de que jamais o voltarei a ler. Tropeço num parágrafo que me causa problemas de compreensão por alguns segundos, e que outrora eu teria lido com a facilidade com que acompanho uma frase de Graciliano. Penso em como é traiçoeiro e ingrato o estudo das línguas.</p>
<div id="attachment_1150" class="wp-caption alignright" style="width: 201px"><a href="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/04/ulisses.jpg"><img class="size-medium wp-image-1150" title="ulisses" src="http://revistaforum.com.br/idelberavelar/wp-content/uploads/2012/04/ulisses-191x300.jpg" alt="" width="191" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Fonte: http://www.ayrtonmarcondes.com.br</p></div>
<p>Retiro de outra caixa algumas das joias mais amadas: minha coleção de traduções do <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2007/06/bloomsday_2007.php">livro</a> dos <a href="http://www.idelberavelar.com/archives/2006/06/ulisses_de_james_joyce_celebrao_do_bloomsday.php">livros</a>, o <em>Ulisses</em> de Joyce. Separo as duas versões brasileiras, a de Antonio Houaiss e a de Bernardina da Silveira Pinheiro. Sinto profunda gratidão por essas duas pessoas, que dedicaram anos de suas vidas para que os brasileiros pudessem ler o livro dos livros. Abro ambas no capítulo 13, a hilária paródia joyceana do romance sentimental, e leio na de Houaiss:</p>
<p><span style="color: #ffffff;">. </span></p>
<p><em>Bem longe no oeste o sol se punha e o último fulgor de um mui fugaz dia apegava-se amorosamente ao mar e areal, no garboso promontório velho e querido de Howth a guardar como sempre as águas da baía, às rochas planticobertas ao longo da costa de Sandymount e, enfim mas não menos, à tranquila igreja de onde fluía por vezes na quietude a voz de prece àquela que é na sua pura irradiância sempre um fanal para o coração tempestivolto do homem, Maria, estrela do mar.</em></p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p>Leio na de Bernardina:</p>
<p><span style="color: #ffffff;">.</span></p>
<p><em>Bem longe no poente o sol se punha e no último fulgor de todos também o dia evanescente se detinha amorosamente sobre o mar e a praia, sobre o promontório altivo do antigo e querido vilarejo Howth resguardando como sempre as águas da baía, sobre as rochas cobertas de ervas daninhas ao longo da praia de Sandymount e, por último mas não menos importante, sobre a pacata igreja de onde emanava vez por outra no silêncio reinante a voz da oração àquela que em sua pura irradiação é um farol eterno para o homem sacudido por tempestades, Maria, a estrela-do-mar.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Penso nessas palavras-valise que inventa Houaiss (<em>tempestivolto</em>, <em>planticobertas</em>) para compostos que, em inglês, soam muito mais naturais. Ao mesmo tempo, penso na vantagem que teve Bernardina, tradutora que pôde trabalhar já com uma versão anteriormente existente. Penso em como faltou a Houaiss, nas cenas de sexo, a ousadia que lhe sobrou com o léxico. Lembro-me de Borges e da alegria da tradução: os brasileiros, ao contrário dos anglófonos, possuem dois <em>Ulisses</em>.</p>
<p>Uma derradeira caixa contém algumas relíquias, velharias, curiosidades. Há uma espantosa coleção de romances russos do realismo socialista traduzidos ao espanhol e editadas em Moscou mesmo. Sholokhov, o mais famoso desses romancistas, foi o único que li. Fico imaginando que não faz muita diferença, pois tendem a ser todos iguais. Dessa caixa ainda sai uma pilha de livros sobre um esporte que se praticou um dia no Brasil, e no qual o país foi muito bom. Esse jogo, do qual já não temos muita memória, era conhecido como futebol.</p>
<p>Os livros se amontoam pelo chão e não sei como vou fazê-los caber no espaço que tenho. Mas seu exílio acabou.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>

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