Toques Musicais – edição 109

Siba, cantor, compositor, multi-instrumentista e ex-líder dos grupos Mestre Ambrósio e Fuloresta, dá uma guinada na carreira e lança Avante, um disco em que o instrumento base é a guitarra elétrica. Até então, Siba, exímio rabequeiro, enfeitava seus cocos, emboladas, toadas e afins com violas nordestinas e que tais.

No final das contas, a sonoridade encontrada pelo autor, com a ajuda do produtor Catatau, da banda Cidadão Instigado, não se distancia tanto do que ele sempre fez, ou seja, a boa canção popular com grande influência da música nordestina. O seu jeito de compor e, principalmente, tocar guitarra caminham na mesma direção de sempre, e as boas alterações ficam restritas à escolha dos timbres.

As composições continuam baseadas nas estruturas em que o autor se dá tão bem. Seus martelos, cantigas e maracatus continuam intactos por trás da base típica do rock – guitarra, baixo e bateria. A medida talvez faça com que Siba aproxime a sua música da garotada, o que por si já é um grande mérito.

Toques Musicais – Caetano Veloso, Gal Costa e Duofel

A realização do sonho de dois meninos, que hoje já beiram os sessenta, é um dos lançamentos mais lindos e emocionantes dos últimos anos da nossa música. O Duofel, um dos duos de violões mais longevos do país, acaba de lançar o DVD Duofel plays Beatles ao vivo, pasmem, no Cavern Club. É isto mesmo, lá em Liverpool, na réplica do lendário clube onde os mesmos Beatles começaram.

O Duofel, formado pelos músicos Fernando Melo e Luiz Bueno – dois dos mais legais, bem humorados e talentosos violonistas do mundo – já havia lançado, no final de 2009, o excelenteDuofel plays Beatles. Com a ajuda do bitólogo Marco Antônio Mallagoli, eterno presidente do fã-clube Revolution e uma pequeníssima equipe que reuniu, entre outros, a produtora Ana Buono e o lendário fotógrafo Gal Oppido e um orçamento apertado, o grupo partiu para a cidade mágica com o objetivo de gravar o disco.

Tudo o que aconteceu desde a partida do grupo, em Guarulhos, até o final da apresentação, em Liverpool, é acompanhado de forma simples e genial, tanto no making of quanto no próprio show que acompanham o DVD pelas câmeras de Felipe Tomazelli e Gal Oppido. O espectador quase embarca junto, participa da expectativa, ansiedade e emoção dos músicos.

Toques Musicais – Elis Regina e Michel Teló

Michel Teló é um lixo. Um lixo com o qual nos habituamos há muitos e muitos anos. Antes dele havia outros e, depois, provavelmente, muitos mais virão. Um lixo inócuo, desprovido de qualquer senso de inteligência. Aí, é claro, sempre vai aparecer alguém a perguntar: por que um lixo vende tanto e faz tanto sucesso? E é exatamente aí, na complicada e intrincada resposta a esta simples pergunta, que mora todo o problema.

Desde os anos 1980, quando fomos devastados pelo Xou da Xuxa e congêneres, a coisa saiu do controle. Se, antes disso, nossos pais reclamavam da Jovem Guarda, em contraponto à música mais culta, o que dizer hoje? Roberto Carlos e seus parceiros eram um luxo. A música que produziam partia e voltava para um meio ingênuo e alienado; no entanto, era repleta de engenharia e criatividade, beleza e talento.

De uma hora para a outra nos deparamos com a total falta de parâmetros. Do tatibitate da Xuxa para o sexismo desembestado de Michel Teló, tudo apela para os sentidos primitivos sem nenhuma conexão com a história e herança do indivíduo e sua coletividade. Acompanhado de versos canhestros, melodias primárias, essas músicas trazem também as suas coreografias. Feito um autômato, o ouvinte imita peixinhos e posições sexuais e congrega com seus pares através de mera repetição mecânica que nunca questiona ou propõe nada.

Toques Musicais – Consuelo de Paula e Kátya Teixeira

Consuelo de Paula é uma guerrilheira da nossa cultura popular. Qualquer coisa a mais que se diga ao seu respeito contribui apenas para reduzir o seu universo e significado. Consuelo de Paula é imprescindível. Uma artista grandiosa, de modos e atitudes modestas que, com apenas três discos e agora o DVD Negra, tem garantido um lugar eterno entre os grandes artistas brasileiros.

Mineira, de Pratápolis, Consuelo de Paula se formou em Farmácia, mas abraçou mesmo a música. Desde menina brincava nas congadas, carnavais e folias de sua terra. Fundou um bloco feminino com apenas treze anos, cantou, dançou e compôs até não poder mais. Quando viu que não havia mais jeito, se profissionalizou.

Seus três primeiros discos são lindos. Divididos entre canções populares brasileiras, em sua maioria do folclore, e também composições próprias, são do que ela chama de sua fase amarela. Todos eles são homenagens à nossa cultura mais íntima e ancestral.

Tenório Jr, homenageado em Buenos Aires, e Geraldo Vandré

No último 16 de novembro, por iniciativa do deputado socialista argentino Raúl Puy, foi descerrada uma placa na fachada do hotel Normandie, em Buenos Aires, em homenagem ao músico brasileiro Tenório Jr. O hotel, localizado na rua Rodriguez Peña, 320, quase no cruzamento entre as mitológicas avenidas Callao e Corrientes, fica na zona boêmia e cultural da cidade. A placa terá os dizeres: “Aqui se hospedou este brilhante músico brasileiro, vítima da ditadura militar argentina”.

Quem toma conhecimento do episódio assim, à meia distância de quase quarenta anos, pode imaginar que se trata de um passado muito remoto ou ficção, mas não é. Era a década de 1970 e Tenório Jr., conhecido e renomado pianista brasileiro, estava na capital portenha acompanhando a temporada de Toquinho e Vinícius no teatro Gran Rex. Certa noite, saiu do hotel Normandie para comprar remédios, e nunca mais apareceu.

Era 18 de março de 1976, seis dias antes do golpe militar que destituiu Isabelita Perón do poder. Daquela noite em diante foi empreendido um grande esforço dos seus companheiros e amigos ilustres como o poeta Ferreira Gullar, que estava exilado na Argentina. Foram percorridos delegacias e hospitais de Buenos Aires e arredores, solicitada ajuda da embaixada brasileira, e nada. O paradeiro de Tenorinho, como era conhecido, só foi descoberto dez anos depois.

O fim do Café da Rua 8, em Brasília

Em Brasília, em meados de setembro, fechou as suas portas de vez o Café da Rua 8. O nome é este por conta da sua localização. O dito ficava na quadra 408 norte, num daqueles endereços da capital que só quem passa uns tempos por lá entende como é.

Eva, a proprietária, é de São Vicente. Viveu, amou e morou na Baixada Santista, estudou no Ginásio Independência, que também já não existe mais e daí se mandou. Foi para o Planalto Central, se não falha a memória, na década de 1970. Virou local. Como milhares de outros brasileiros, ela se apaixonou por Brasília. Mais do que isso, ajudou a fazer da cidade o que ela é hoje. Tatuou na pele o traço do Plano Piloto de Lúcio Costa – o que lhe rendeu as costas mais fotografadas do Distrito Federal – e abriu por lá uma catedral da música e da cultura.

Destes cinquenta e tantos anos de existência da capital, quase trinta contaram com o Café da Rua 8. A cidade quase não sabe ser o que é sem ele. O local sempre foi o ponto preferido dos artistas, poetas, pintores e, sobretudo, músicos de Brasília. Foi o Quartel-General do lendário grupo Liga Tripa, uma trupe de rua que, com seus instrumentos e cantores, corriam (e correm ainda) as superquadras residenciais e comerciais a cantar canções inesquecíveis entre as mesas e cadeiras, sem equipamento nenhum.

Toques Musicais – Zé Geraldo e Chico Lobo

Fosse Chico Lobo nascido no hemisfério norte, muito provavelmente esta primeira parte seria dispensável. Todos saberiam que ele é um dos maiores artistas populares do país, violeiro, cantor e compositor mineiro, de São João Del Rey, apresentador de TV e divulgador das nossas festas e tradições. Todos conheceriam as suas canções, o seu cuidado com a renovação, gravação e resgate dos nossos ritmos. Acima de tudo isso, todos conheceriam e reconheceriam como imprescindíveis os seus pouco mais de dez discos e um DVD.

Chico Lobo é tão importante para a nossa música e cultura que acaba de lançar um disco, acertadamente chamado de Caipira do Mundo, no qual executa canções suas com uma constelação da nossa música, nenhum deles do seu universo. Estão lá, como parceiros e também participantes Zeca Baleiro, Zé Geraldo, Suzana Travassos, Chico César, Virgínia Rosa, a lendária Banda de Pau e Corda, Alice Ruiz, Arnaldo Antunes, Vitor Ramil, Vander Lee, Fausto Nilo, Sérgio Natureza, Siba, Ricardo Aleixo, Sérgio Natureza, Verônica Sabino e Maurício Pereira.
Ao contrário do que muitas vezes acontece, Chico Lobo colocou todos dentro do seu balaio. Um fã mais exaltado que imagine o cantor e compositor navegando por outros mares que não os da catira, congada, folias e afins pode ficar tranquilo. A sofisticada poesia de Alice Ruiz, por exemplo, se enquadra no universo amplo e festeiro de Chico tanto quanto a modernidade de Arnaldo Antunes, o lirismo de Vander Lee e por aí afora.

Um dos exemplos mais surpreendentes fica por conta da faixa “Dois Rios”, sucesso da banda Skank, que encerra o disco. Chico Lobo, e apenas ele com as suas violas em versão instrumental, encontra na composição de Samuel Rosa, Lô Borges e Nando Reis a toada mineira escondida. O resultado, de uma simplicidade comovente, demonstra sem palavras a força da nossa ancestralidade.

Toques Musicais – a revolução anunciada

A imensa maioria dos equipamentos eletrônicos que temos à disposição hoje já está por aí há tempos. Não há como negar, no entanto, que eles se tornaram muito mais acessíveis e funcionais nos últimos dez anos. Baixar música, assistir vídeo, trocar grandes arquivos era, nos idos de 2001, um trabalho hercúleo. Hoje, basta um clique e um disco inteiro começa a tocar em segundos. Mesmo com toda a evolução, no entanto, a circulação de dados ainda imita, apesar de todos os esforços, a concentração da renda.

De acordo com o Ibope, no Brasil, pulamos de algo em torno de seis milhões de usuários da internet em 2001 para pouco menos de 75 milhões agora, em 2011. Destes, cerca de 1,9 milhão usam uma conexão acima de 8 Mb, praticamente concentrados nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Há lugares do Amazonas, por exemplo, que ainda dispõem de conexões de 128 Kb.

Mesmo assim, não há como ignorar que demos um longo e irreversível salto, com impacto incomensurável em todas as áreas, inclusive na produção cultural e musical. O desenvolvimento desenfreado da informática se deu tanto on line quanto off-line, ou seja, a evolução e acessibilidade a equipamentos e meios de produção cresceram tanto quanto a possibilidade de transmissão de dados, leia-se aí ideias, textos, canções, filmes etc.

Fórum 101 – Toques Musicais

A herança de Anelis Assumpção é totalmente partilhável e, de fato, compartilhada. Filha do Beleléu Itamar Assumpção, a moça recebeu com a precoce partida do pai alguns dos mais ousados, instigantes e inventivos fonogramas de que a nossa música tem notícia desde há muito tempo. Negociou com o SESC, participou da feitura e curadoria da obra e entregou ao público a já célebre Caixa Preta – Itamar Assumpção, com toda a obra de Itamar e ainda os discos Pretobrás I e II, só com faixas inéditas.

Itamar, é bom que fique claro aos mais novos, sempre foi problema, no melhor sentido da palavra. Nunca rezou na cartilha de ninguém, nunca deu um passo na direção do seu pote de ouro, nunca fez canção para novelas ou, muito menos, ajustou o seu som a este ou aquele gosto. Desde o seu primeiro, o inesquecível e antológico Beleléu leléu eu, até o último e preciso Pretobrás, tudo o que se ouve é um som inconfundível e corajosamente novo.

Ao contrário da imensa maioria dos discos de mercado, dos quais qualquer ouvinte mais atento identifica o período da gravação, os seus parecem vindos de um futuro distante. Apesar de muito diferentes entre si (Itamar era irrequieto e não se repetia nem de uma canção para outra) todos trazem o seu carimbo, a sua antena aberta a todas as frequências.

Toques Musicais – Fórum nº 100

Existem três fortes razões para ouvir e se apaixonar pelo disco Junte tudo o que é seu…, de Carlos Navas. A primeira delas é a linda voz e interpretação certeira e encantadora do autor do disco. A outra, é que Navas é acompanhado ao longo de toda a gravação apenas pelo lindo piano de Gustavo Sarzi. A terceira e definitiva razão habita o olimpo da nossa canção popular. O disco inteiro é formado por canções de Custódio Mesquita.

Posto isso, seria óbvio e temerário que algo aí pudesse não funcionar. Não basta, assim como quem prepara uma receita qualquer, juntar três grandes ingredientes para que tudo dê certo. As coisas precisam se harmonizar, tudo precisa estar, enfim, em perfeita sintonia.
Navas, em seu nono disco, nos dá a impressão de que nasceu para cantar essas canções. Suas pausas curtas, o ritmo contido, a intensidade com que pronuncia os versos, parece que nasceram colados às obras de Custódio desde sempre.

Por sua vez, a economia e o bom gosto de Sarzi nos lembra, de forma irônica, o piano de Tom Jobim. A ironia reside no fato de Custódio Mesquita ser um dos compositores preferidos do maestro soberano. No entanto, ainda que a sonoridade aqui e acolá nos deixe impresso algo de Tom, o jeitão geral da gravação está muito mais para as saborosas invenções dos anos 1930 e 1940, do próprio Custódio. O acertado seria dizer que tanto Tom quanto Navas, com Sarzi, beberam da mesma fonte.

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