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	<title>Julinho Bittencourt &#124; Revista Fórum</title>
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	<description>Julinho Bittencourt &#124; Revista Fórum</description>
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		<title>Toques Musicais &#8211; edição 109</title>
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		<pubDate>Wed, 09 May 2012 16:10:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bittencourt</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Siba, cantor, compositor, multi-instrumentista e ex-líder dos grupos Mestre Ambrósio e Fuloresta, dá uma guinada na carreira e lança Avante, um disco em que o instrumento base é a guitarra elétrica. Até então, Siba, exímio rabequeiro, enfeitava seus cocos, emboladas, toadas e afins com violas nordestinas e que tais. No final das contas, a sonoridade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Siba, cantor, compositor, multi-instrumentista e ex-líder dos grupos Mestre Ambrósio e Fuloresta, dá uma guinada na carreira e lança Avante, um disco em que o instrumento base é a guitarra elétrica. Até então, Siba, exímio rabequeiro, enfeitava seus cocos, emboladas, toadas e afins com violas nordestinas e que tais.</p>
<p>No final das contas, a sonoridade encontrada pelo autor, com a ajuda do produtor Catatau, da banda Cidadão Instigado, não se distancia tanto do que ele sempre fez, ou seja, a boa canção popular com grande influência da música nordestina. O seu jeito de compor e, principalmente, tocar guitarra caminham na mesma direção de sempre, e as boas alterações ficam restritas à escolha dos timbres.</p>
<p>As composições continuam baseadas nas estruturas em que o autor se dá tão bem. Seus martelos, cantigas e maracatus continuam intactos por trás da base típica do rock – guitarra, baixo e bateria. A medida talvez faça com que Siba aproxime a sua música da garotada, o que por si já é um grande mérito.</p>
<p><span id="more-134"></span></p>
<p>Mas, como sempre, tem mais, muito mais neste Avante. Siba é, acima de tudo, um excelente compositor. Um bom humor refinado, aliado às melodias rápidas, aparentemente simples, mas extremamente engenhosas, joga a sua música de forma rápida e rasante do ancestral ao moderno.</p>
<p>A melhor tradução do que pretendia – e de onde chegou – com Avante vem dele mesmo, através de um mapa imaginário que teria “pistas confusas embaralhando Hendrix, Lemmy, Ivanildo Vila Nova e Manoel Chudu, Zé Galdino, Barachinha, o Sundiata do Mali, Franco, o Congo, Poemas Suspensos, canções de repentistas na voz de Antônio Alves, ‘Voltando a Minha Terra’ de Severino Feitosa, Super Rail Band, Thelonious Monk, Robab Afegão, ‘Star Number One’ de Dakar, Biu Roque, Bembeya Jazz National, Jimmy Page, Os Solitários de Nazaré da Mata, Michele Melo cantando ‘essa noite eu vou ser toda sua…’, O Incandescente de Serres, a viagem de Ulisses, Cancão, rock Touareg, Jack White, Kasai All Stars, Ryad Al Sumbati, Cream, Menelik Wesnatcheu, meu pai assobiando de manhã cedo”, indica o autor.</p>
<p>Não bastasse a profusão de ideias e conceitos, o artista segue seu confessionário se curvando aos cenários onde buscou as influências definitivas: “Avante tem um pouco de Rio de Janeiro, Dakar, Recife, Nazaré, São Paulo, Curitiba, Praia dos Carneiros, Teresópolis, Campina Grande, além de sombras de lugares que nunca fui: Kinshasa, as montanhas do Hindu Kush…”, define.</p>
<p>Depois de tudo, e ainda com muitas coisas a buscar, o avanço do artista só deixa mais claro o que os que o acompanham já sabiam desde sempre. Siba é um dos jovens talentos mais importantes deste Brasil, que não para de ter prazer em se descobrir. Uma consequência e causa direta desses nossos bons novos ventos, em que os movimentos se dão de forma descentralizada e profusa.</p>
<p>**************</p>
<p>Por sua vez, quem espera algo minimamente próximo da banda Cordel do Fogo Encantado no disco de estreia de Lirinha vai quebrar a cara. O cantor e ex-líder do lendário grupo pernambucano, de Arcoverde e Recife, partiu pra outra mesmo. Ele acaba de lançar Lira, seu primeiro disco solo, que, assim como todos os do Cordel, é também totalmente independente e também completamente descompromissado com o mercado fonográfico, mas bem diferente de tudo o que já fez.</p>
<p>Curiosamente, assim como Siba, Lirinha também lança mão de ritmos e instrumentos mais afeitos à música pop. E, mais curiosamente ainda, apesar da guitarra elétrica e da parceria com músicos roqueiros, assim como o companheiro também pernambucano, a música não ficou nem um pouco mais fácil, muito pelo contrário. Lira explode em poesia, inovações sonoras, efeitos de estúdio, ótimas composições e nenhum truque ou facilidade estética.</p>
<p>Outro paradoxo (que também é comum a Siba) está na leveza sonora do disco. Apesar das guitarras, baterias e instrumentos eletrônicos, Lira é muito mais delicado e suave que tudo o que o artista fez até agora. O que não quer dizer que não seja repleto de energia.</p>
<p>Enfim, Lirinha surpreende de fio a pavio com este seu primeiro solo. Com produção de Pupillo, baterista da Nação Zumbi, Lira é um segundo momento do artista que traz flertes com o Mangue Beat, a Jovem Guarda e até a música popular brasileira. Além do próprio produtor na bateria, o grupo básico do disco conta ainda com Neilton José de Carvalho, guitarrista da banda punk hardcore Devotos e Bactéria, baixista, guitarrista e tecladista da primeira formação do grupo Mundo Livre S/A.</p>
<p>Além da banda básica, o disco conta ainda com as participações de Lula Côrtes, lendário cantor e compositor, parceiro de Zé Ramalho no disco Paêbiru. Lula faleceu pouco depois de deixar o seu registro neste disco. Além dele, estão no disco a cantora, compositora e pianista Angela Ro Ro, o cantor, compositor e percussionista Otto, também da primeira formação do Mundo Livre S/A, Fernando Catatau, guitarrista e produtor, líder da banda Cidadão Instigado e Francisco Amâncio da Silva, o Maestro Forró, fundador e regente da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério (OPBH).</p>
<p>Dentre todas as coragens de Lirinha, nesse seu primeiro lançamento solo, uma delas é fundamental. O cantor, compositor e poeta se arvora por outras formas e por outros meios, dentro de um conjunto inesperado. Suas novas canções são distintas, fotográficas, encantadas. Muitas vezes parecem pequenas cenas de um romance híbrido, com laivos de Ariano Suassuna e Lewis Carroll. São cheias de luz e cor, sentimentos entrecortados, ancestralidade e modernidade.</p>
<p>Enfim, parece que a maturidade artística chega a Lirinha dentro de um universo próprio, mas repleto de outros.</p>
<p><em><strong>Este artigo é parte integrante da <a href="http://www.revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php">edição 109 da revista Fórum</a>.</strong></em></p>
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		<title>Toques Musicais &#8211; Caetano Veloso, Gal Costa e Duofel</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Apr 2012 23:11:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bittencourt</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A realização do sonho de dois meninos, que hoje já beiram os sessenta, é um dos lançamentos mais lindos e emocionantes dos últimos anos da nossa música. O Duofel, um dos duos de violões mais longevos do país, acaba de lançar o DVD Duofel plays Beatles ao vivo, pasmem, no Cavern Club. É isto mesmo, lá [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A realização do sonho de dois meninos, que hoje já beiram os sessenta, é um dos lançamentos mais lindos e emocionantes dos últimos anos da nossa música. O Duofel, um dos duos de violões mais longevos do país, acaba de lançar o DVD <em>Duofel plays Beatles</em> ao vivo, pasmem, no Cavern Club. É isto mesmo, lá em Liverpool, na réplica do lendário clube onde os mesmos Beatles começaram.</p>
<p>O Duofel, formado pelos músicos Fernando Melo e Luiz Bueno – dois dos mais legais, bem humorados e talentosos violonistas do mundo – já havia lançado, no final de 2009, o excelente<em>Duofel plays Beatles</em>. Com a ajuda do bitólogo Marco Antônio Mallagoli, eterno presidente do fã-clube Revolution e uma pequeníssima equipe que reuniu, entre outros, a produtora Ana Buono e o lendário fotógrafo Gal Oppido e um orçamento apertado, o grupo partiu para a cidade mágica com o objetivo de gravar o disco.</p>
<p>Tudo o que aconteceu desde a partida do grupo, em Guarulhos, até o final da apresentação, em Liverpool, é acompanhado de forma simples e genial, tanto no making of quanto no próprio show que acompanham o DVD pelas câmeras de Felipe Tomazelli e Gal Oppido. O espectador quase embarca junto, participa da expectativa, ansiedade e emoção dos músicos.</p>
<p><span id="more-129"></span></p>
<p>Ainda no carro a caminho do aeroporto, enquanto um confessa que mal dormiu, o outro lembra quando, ainda menino, anunciou para o pai que ia ser músico, logo após ter descoberto os Beatles. A parada em Londres para a indefectível seção de fotos na famosa faixa em frente ao estúdio Abbey Road. A chegada na cidade, a Penny Lane, o portão do Strawberry Fields. Tudo no filme persegue a emoção e devoção dos músicos ao projeto.</p>
<p>O show em si é quase uma celebração, uma missa profana. Dentro do pequeno clube e diante de uma plateia reduzida, os dois se apresentam como se tocassem no maior palco do mundo. A concentração das execuções, a troca de instrumentos, os arranjos arrebatadores e criativos para canções que não cansam de serem gastas, tudo conspira para uma obra perfeita.</p>
<p>O som captado ao vivo pelo técnico Rodolfo Yadoya nos traduz com maestria os sons tão díspares como os do violão tenor, a viola caipira e os violões tradicionais de nylon e aço. Os instrumentos, extremamente bem executados, nos dão a dimensão exata da importância e do bom gosto do Duofel.</p>
<p>Os dois formam um daqueles grupos raros, com sonoridade única, construída ao longo de mais de trinta anos juntos. Não são afeitos a notas rápidas, efeitos e truques baratos. Tudo o que tocam corresponde a um sentido melódico e harmônico exemplar. As mesmas canções, tão conhecidas, se revelam outras, com novos segredos e detalhes.</p>
<p>O talento dos Beatles vem acompanhado de uma grande e histórica lição, que é a da ousadia. Fizeram música para milhões, sempre perseguindo obsessivamente o novo. O Duofel, ao realizar um sonho de menino, eleva este aprendizado ao cubo. E, com isto, faz uma das obras mais importantes da história da nossa música instrumental.<br />
____________________________________________________________________________</p>
<p>Gal Costa e Caetano Veloso são dois dos maiores artistas da nossa música e repetir isto é chover no molhado. Estiveram juntos em momentos e movimentos muito profícuos. Fizeram, juntos e separados, discos lindos, inovadores, repletos da velha e boa centelha que faz dos grandes artistas aquilo que são. Posto isto, resolveram, em pleno alvorecer da maturidade, inventar mais uma parceria.</p>
<p>O disco, como não poderia deixar de ser, esteve cercado de expectativas desde a sua concepção. Seria um disco eletrônico, com participação de vários jovens valores que têm se destacado e, o melhor de tudo, todo com canções inéditas de Caetano, feitas para a ocasião, com duas exceções já gravadas anteriormente.</p>
<p>Uma vez lançado, <em>Recanto</em>, na contramão das melhores expectativas, decepciona. Involuntariamente, nos leva de volta à mesma dupla que conseguia, sem o menor esforço, traduzir o novo mundo em canções como “Objeto Não Identificado”, as distensões da política e do tempo em “Tigresa” e o mundo novo de novo em “Vaca Profana”, entre inúmeros exemplos.</p>
<p>Falta a <em>Recanto</em> a velha centelha. A luminosidade que sempre deixou os dois artistas à vontade no que faziam. Versos controversos e encantadores, melodias simples e sinuosas, diretas. A voz brilhante e linda, o canto certo/errado capaz de berrar a confusão dos tempos e a delicadeza dos ventos. Falta Gal e, sobretudo, falta Caetano em <em>Recanto</em>.</p>
<p>É um disco honesto impregnado de desonestidade. É, assim como muitos outros desde Araçá Azul, conscientemente feito para encalhar nas prateleiras por conta da sua ousadia. Ao mesmo tempo, e é aí que mora o controverso, feito sem capricho, com canções mal acabadas, versos ruins e melodias simplórias. Ao tentar compor como jovem, Caetano parece que esquece o jovem que foi. Perde, por um lado, a luminosidade e por outro, abre mão da sabedoria.</p>
<p>Gal, por sua vez, deixa a impressão de que entrou na conversa do amigo. Meio sem direção das coisas, parece que canta as canções da maneira como elas merecem mesmo ser cantadas. Sem brilho. Sem nada. Sem medo de exagerar, não há um só momento que lembre, ainda que de longe, outros momentos dos dois artistas.</p>
<p>Com o talento que têm Gal e Caetano, nesta incursão pela música eletrônica, poderiam se colocar facilmente no mesmo patamar de Björk, Fisherspone, Stereolab, Ladytron, Laibach e congêneres. Poderiam se colocar no patamar de qualquer um. Fracassaram.</p>
<p>Por estranha ironia, o que salva <em>Recanto</em> do desastre total são as molduras sonoras propostas por Moreno, Kassin, Zeca e cia. Os meninos, sintonizados com o universo, conseguem conferir dignidade, juventude e alguma luz ao disco.</p>
<p>De resto, trata-se de um fracasso que, aparentemente, não serve nem à parada de sucesso.</p>
<p><strong><em>Este texto é parte integrante da <a href="http://revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php" target="_blank">edição 108 de Fórum</a></em></strong></p>
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		<title>Toques Musicais &#8211; Elis Regina e Michel Teló</title>
		<link>http://revistaforum.com.br/julinhobittencourt/2012/03/23/toques-musicais-elis-regina-e-michel-telo/</link>
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		<pubDate>Fri, 23 Mar 2012 17:19:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bittencourt</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Elis Regina]]></category>
		<category><![CDATA[Falso Brilhante]]></category>
		<category><![CDATA[Michel Teló]]></category>

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		<description><![CDATA[Michel Teló é um lixo. Um lixo com o qual nos habituamos há muitos e muitos anos. Antes dele havia outros e, depois, provavelmente, muitos mais virão. Um lixo inócuo, desprovido de qualquer senso de inteligência. Aí, é claro, sempre vai aparecer alguém a perguntar: por que um lixo vende tanto e faz tanto sucesso? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Michel Teló é um lixo. Um lixo com o qual nos habituamos há muitos e muitos anos. Antes dele havia outros e, depois, provavelmente, muitos mais virão. Um lixo inócuo, desprovido de qualquer senso de inteligência. Aí, é claro, sempre vai aparecer alguém a perguntar: por que um lixo vende tanto e faz tanto sucesso? E é exatamente aí, na complicada e intrincada resposta a esta simples pergunta, que mora todo o problema.</p>
<p>Desde os anos 1980, quando fomos devastados pelo Xou da Xuxa e congêneres, a coisa saiu do controle. Se, antes disso, nossos pais reclamavam da Jovem Guarda, em contraponto à música mais culta, o que dizer hoje? Roberto Carlos e seus parceiros eram um luxo. A música que produziam partia e voltava para um meio ingênuo e alienado; no entanto, era repleta de engenharia e criatividade, beleza e talento.</p>
<p>De uma hora para a outra nos deparamos com a total falta de parâmetros. Do tatibitate da Xuxa para o sexismo desembestado de Michel Teló, tudo apela para os sentidos primitivos sem nenhuma conexão com a história e herança do indivíduo e sua coletividade. Acompanhado de versos canhestros, melodias primárias, essas músicas trazem também as suas coreografias. Feito um autômato, o ouvinte imita peixinhos e posições sexuais e congrega com seus pares através de mera repetição mecânica que nunca questiona ou propõe nada.</p>
<p><span id="more-125"></span></p>
<p>Não se trata aqui de negar a cultura de massas. Desde Elvis, Beatles, Michael Jackson e, mais aqui para nós, o próprio Roberto Carlos, Daniela Mercury, Zezé de Camargo e Luciano e, ainda mais perto, a banda Charlie Brown Jr., temos inúmeros exemplos de artistas populares talentosos e conectados com o seu tempo, feitos por ele e para ele. Estruturaram a sua obra a partir da própria história e da formação cultural do meio de onde vieram e mudaram a música da sua era.</p>
<p>Michel Teló não muda nada. Tudo fica como sempre foi antes ou depois de sua música e dancinhas. Para não ser tão injusto, a bem da verdade, muda sim. Expõe nossos jovens a um comportamento ignóbil e medíocre que, feito curto circuito, deixa queimaduras e interrompe a sinapse, a corrente de energia que os faria pensar, propor e construir alternativas.</p>
<p>A indústria cultural, assim como todas as outras, trabalha pelo lucro. A diferença dela para as outras é que não há regulamentação de espécie alguma sobre os seus produtos. Num maço de cigarros, por exemplo, o usuário é obrigado a conviver com fotos horríveis das mais variadas mazelas que o produto causa, como câncer, impotência etc. Na capa do famigerado disco Ai se eu te pego, por sua vez, não há nenhuma indicação de que aquilo vai expor o ouvinte à desinteligência, falta de qualquer conexão plausível com a sua formação cultural e que isto é prejudicial à formação e educação, sobretudo dos jovens.</p>
<p>O comportamento passivo, que nos leva a ouvir e repetir coisas sem questionar nada, é cômodo. Esta talvez seja a chave para tanta receptividade: “Não penso, logo inexisto enquanto indivíduo, fator este que não me exige nenhum esforço, nem físico, nem moral e muito menos intelectual”.</p>
<p>Este processo, que não é nada novo, é tão devastador para o indivíduo quanto os males do tabaco, do álcool, das altas taxas de colesterol e glicose.</p>
<p>A pequena particularidade é que mata deixando vivo.</p>
<div>*****</div>
<p>No final de 1995, gravei pelo selo Caipirapira, do cantor e compositor Renato Teixeira, o disco Caiçara, produzido pelo multi-instrumentista e compositor Natan Marques. Sem me dar conta, estava dentro de um estúdio cercado de amigos da Elis Regina por todos os lados.</p>
<p>Natan fez parte da banda da cantora durante dez anos e Renato, além de amigo, teve o seu maior sucesso e, consequentemente, a sua entrada no grupo dos grandes da nossa música, graças à antológica gravação dela para “Romaria”. Já fazia mais de dez anos que Elis havia partido, mas os dois falavam dela com a desenvoltura de ontem. Tanta personalidade e talento serviam aos meus dois colegas de então como um claro paradigma: “Elis diria isto, Elis faria aquilo, gostaria desta canção, não deixaria isto assim etc.”, quase como se a cantora fosse entrar a qualquer momento por ali.</p>
<p>Nunca entrou, é claro, mas a sensação nítida é que também não saiu. E esta é a mesma impressão que temos em todas as rodas nas quais pessoas obstinadas façam música. Muito além de ser uma das maiores cantoras brasileiras de seu tempo e, talvez, de qualquer outro, Elis tinha uma postura, um jeito de dizer e fazer que não deixava dúvidas. Estava sempre alerta e detestava mediocridades e mau caratismo.</p>
<p>A maneira como ela gravava seus discos formaram uma lenda à parte. Normalmente um cantor faz, no começo da gravação, uma voz guia para os músicos. A partir daquela voz todos os outros instrumentos são executados e gravados. No final de tudo, com a base instrumental pronta, o cantor volta, descansado, e num ambiente tranquilo coloca a voz definitiva. Elis, segundo contam, colocava a sua guia e não gravava mais nada. De cara ficava tudo perfeito. Entre várias outras lendas, diz-se que gravou o antológico Falso Brilhante em dois dias. Ela e toda a banda.</p>
<div>
<p>Hoje, trinta anos depois de sua tão precoce partida, é inevitável pensar no que virou o mercado fonográfico pós-Elis. A despeito de seus próprios filhos estarem por aí conferindo ainda alguma dignidade ao que nos restou, o comportamento irrequieto e inconformado da cantora talvez nos faça tanta falta quanto a sua voz maravilhosa.</p>
<p>Ela não era de comer enrolado e também não se furtava a dizer, denunciar e cobrar o que quer que visse ou, principalmente, ouvisse de errado. Era crítica ferrenha da malfadada Ordem dos Músicos do Brasil, esculhambava sem medo nem perdão a chamada música ruim. E é sempre bom lembrar que o que era considerado ruim há trinta anos hoje é pinto perto do lodaçal que virou o nosso mercado fonográfico.</p>
<p>E ela tinha moral pra dizer o que quer que fosse. Seus discos a avalizavam. Fazia em dois dias gravações históricas, ouvidas e discutidas até hoje, enquanto hoje, discos medíocres consomem meses e milhões na sua feitura e não duram dois dias.</p>
<p>Elis Regina sempre nos respeitou, entregando o seu melhor e mais visceral enquanto artista e ser humano. Por isso é lembrada até hoje com tanto carinho e respeito, trinta anos depois de sua partida, como se ainda estivesse por aqui, nos palcos e estúdios, a nos apontar caminhos.</p>
<p><em><strong>Esta coluna é parte integrante da <a href="http://www.revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php" target="_blank">Fórum 107</a></strong></em></p>
</div>
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		<title>Toques Musicais &#8211; Consuelo de Paula e Kátya Teixeira</title>
		<link>http://revistaforum.com.br/julinhobittencourt/2012/03/16/toques-musicais-consuelo-de-paula-e-katya-teixeira/</link>
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		<pubDate>Fri, 16 Mar 2012 17:32:13 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bittencourt</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Consuelo de Paula]]></category>
		<category><![CDATA[Kátya Teixeira]]></category>

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		<description><![CDATA[Consuelo de Paula é uma guerrilheira da nossa cultura popular. Qualquer coisa a mais que se diga ao seu respeito contribui apenas para reduzir o seu universo e significado. Consuelo de Paula é imprescindível. Uma artista grandiosa, de modos e atitudes modestas que, com apenas três discos e agora o DVD Negra, tem garantido um [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Consuelo de Paula é uma guerrilheira da nossa cultura popular. Qualquer coisa a mais que se diga ao seu respeito contribui apenas para reduzir o seu universo e significado. Consuelo de Paula é imprescindível. Uma artista grandiosa, de modos e atitudes modestas que, com apenas três discos e agora o DVD Negra, tem garantido um lugar eterno entre os grandes artistas brasileiros.</p>
<p>Mineira, de Pratápolis, Consuelo de Paula se formou em Farmácia, mas abraçou mesmo a música. Desde menina brincava nas congadas, carnavais e folias de sua terra. Fundou um bloco feminino com apenas treze anos, cantou, dançou e compôs até não poder mais. Quando viu que não havia mais jeito, se profissionalizou.</p>
<p>Seus três primeiros discos são lindos. Divididos entre canções populares brasileiras, em sua maioria do folclore, e também composições próprias, são do que ela chama de sua fase amarela. Todos eles são homenagens à nossa cultura mais íntima e ancestral.</p>
<p><span id="more-122"></span></p>
<p>Posto isto, formou um dream team, dirigido pelo violonista e compositor Dante Ozzetti, e gravou seu primeiro DVD. Desta vez, sem se afastar muito das manifestações populares, Consuelo aproveita seu talento e extensão vocal, seu arranjador e a banda, para fazer algo extremamente sofisticado e um pouco mais urbano.</p>
<p>Ao unir seus tambores de minas a instrumentos de concerto, como o piano de Heloísa Fernandes, a viola de arco de Fábio Tagliaferri, o contrabaixo acústico de Zeca Assumpção, a bateria de Sérgio Reze, a percussão de Ari Colares e o clarinete de Zé Pitoco, a cantora consegue imprimir um sotaque universal à sua brejeirice mineira.</p>
<p>Aliado a isto, a direção de cena impecável de Elias Andreato e a direção do DVD de Maurício Valim, fazem de Negra um dos grandes lançamentos do ano. Tudo funciona perfeitamente. A integração dos músicos com o universo da cantora, o prazer e alegria ao dividir cada canção e, consequentemente, cada momento instrumental dentro de cada uma delas, tudo enfim fica escancarado, tanto ao público do lindo teatro Polytheama, da cidade de Jundiaí quanto ao espectador do vídeo.</p>
<p>Praticamente todas as canções do DVD, com exceção de “Folia”, de Lourenço Baeta e Xico Chaves; “Piedra e Camino”, de Atahualpa Yupanqui e “Caicó”, do cancioneiro popular, são de autoria de Consuelo de Paula com seus diversos parceiros, entre eles Rubens Nogueira, Luiz Salgado, Dante Ozzetti, e Vicente Barreto. E são exatamente as canções originais a outra ponta do tripé, junto com a cantora e os músicos, da tamanha beleza de Negra.</p>
<p>O nome do espetáculo vem do belo quadro de Ana Freitas, que serve como painel e tema do espetáculo. Cercada de talentos por todos os lados, Consuelo foi fotografada por Alessandra Fratus, que se destaca já há alguns anos pelos espetáculos que registra lindamente.</p>
<p>Negra, bem como toda a obra de Consuelo de Paula, é um marco da nossa cultura popular.</p>
<div style="text-align: center;">*****</div>
<p>Outra cantora que atua na mesma seara de Consuelo de Paula é a paulistana Kátya Teixeira que, na contramão de tudo e todos, se dedica totalmente à nossa cultura popular. Com uma voz linda e límpida, grande musicalidade e bom gosto, poderia trilhar todo e qualquer caminho dentro da música. Por pura e simples determinação da paixão, optou pelos mais tortuosos e longínquos. Com isto, é capaz de cantar o fandango de Cananeia, congadas de Jequitibá, toadas, modas e folias de todas as partes, além de namorar vivamente com a cultura latino americana, ou seja, tudo o que não toca nas nossas rádios e TVs.</p>
<p>Acaba de lançar o seu terceiro disco, o lindo Feito de Corda e Cantiga, que aguardou um intervalo de 14 anos desde o primeiro. Trata-se de um álbum completamente diferente de tudo o que circula por aí, a começar pela capa e pelo encarte. De saída, o lindo invólucro em papel pardo e encarte com papel reciclado nos deixa claro outra das grandes preocupações da cantora, o meio ambiente.</p>
<p>Posto isso, a partir do momento em que a música e a voz encantadora de Kátya Teixeira dão seus primeiros sinais, tudo faz sentido. Fragmentos que pareciam (e talvez estivessem mesmo) esparsos se reúnem e nos remetem de volta a nós mesmos, à nossa história e ancestralidade enquanto nação. E, para tal encantamento, ao contrário de buscar no folclore o seu repertório, a cantora nos disponibiliza canções de Paulo e Jean Garfunkel, Luis Perequê, Mochel, Chico Branco, Amauri Falabella, e ela mesma na linda “Mãe das Raças”. Um disco feito, portanto, a partir da obra de talentosos compositores que militam na canção de resistência desde sempre.</p>
<p>Com uma beleza rara, descompromissado com mercados e vendagens, modismos e eventuais armações, o disco foi gravado de forma heroica, com a colaboração de músicos amigos de primeira linha, como Turcão, Jica, Thomas Rohrer, Marcelo Pretto, Gabriel levy, Ricardo Vignini, Cassia Maria, Manoel Pacífico, Aluá Nascimento, Ney Couteiro, Manassés Aragão, Rodrigo y Castro, Clara Bastos, Noel Andrade, José de Geus, Amauri Falabella, Daniel Figueiredo, André Venegas, os grupos Caiçaras do Acaraú, Jovens Fandangueiros de Itacuruça e Vida Feliz de Cananeia.</p>
<p>A sua abertura fica por conta da linda canção “Vem Comigo”, de Luis Perequê, uma bela evocação das gentes: “Vem comigo que eu vou lhe mostrar, quantos homens de bem têm os braços abertos pra nos abraçar”, onde ritmos latinos se misturam à rabeca nordestina, além de lindos vocais multiplicados por Marcelo Pretto e Sérgio Turcão.</p>
<p>Daí em diante, uma sucessão de canções com temas que se entrecortam, como a escravidão, os mitos Iorubás e brasileiros, os sertões das Gerais entre vários outros, fazem de “Feito de Corda e Cantiga” quase um documento etnográfico, um estudo de caso de como é, vive, canta e dança o povo brasileiro.</p>
<p>Num desencadear de temas, o disco anuncia seu final com o canto a capella de “Mãe das Raças”, bonita canção de Chico Branco e da própria autora. Logo em seguida, novamente o compositor Luis Perequê, que havia evocado o caminho dos homens na abertura, chama agora o da porta de casa em “Convite”: “Cantando eu abro o meu peito, o convite está feito e estou lhe esperando, na porta da minha casa”. Imperdível.</p>
<p><strong><em>Esta coluna é parte integrante da <a href="http://www.revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php">edição 106 da revista Fórum</a></em></strong></p>
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		<title>Tenório Jr, homenageado em Buenos Aires, e Geraldo Vandré</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 20:19:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bittencourt</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Geraldo Vandré]]></category>
		<category><![CDATA[Tenório Jr.]]></category>

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		<description><![CDATA[No último 16 de novembro, por iniciativa do deputado socialista argentino Raúl Puy, foi descerrada uma placa na fachada do hotel Normandie, em Buenos Aires, em homenagem ao músico brasileiro Tenório Jr. O hotel, localizado na rua Rodriguez Peña, 320, quase no cruzamento entre as mitológicas avenidas Callao e Corrientes, fica na zona boêmia e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No último 16 de novembro, por iniciativa do deputado socialista argentino Raúl Puy, foi descerrada uma placa na fachada do hotel Normandie, em Buenos Aires, em homenagem ao músico brasileiro Tenório Jr. O hotel, localizado na rua Rodriguez Peña, 320, quase no cruzamento entre as mitológicas avenidas Callao e Corrientes, fica na zona boêmia e cultural da cidade. A placa terá os dizeres: “Aqui se hospedou este brilhante músico brasileiro, vítima da ditadura militar argentina”.</p>
<p>Quem toma conhecimento do episódio assim, à meia distância de quase quarenta anos, pode imaginar que se trata de um passado muito remoto ou ficção, mas não é. Era a década de 1970 e Tenório Jr., conhecido e renomado pianista brasileiro, estava na capital portenha acompanhando a temporada de Toquinho e Vinícius no teatro Gran Rex. Certa noite, saiu do hotel Normandie para comprar remédios, e nunca mais apareceu.</p>
<p>Era 18 de março de 1976, seis dias antes do golpe militar que destituiu Isabelita Perón do poder. Daquela noite em diante foi empreendido um grande esforço dos seus companheiros e amigos ilustres como o poeta Ferreira Gullar, que estava exilado na Argentina. Foram percorridos delegacias e hospitais de Buenos Aires e arredores, solicitada ajuda da embaixada brasileira, e nada. O paradeiro de Tenorinho, como era conhecido, só foi descoberto dez anos depois.</p>
<p><span id="more-118"></span></p>
<p>Em 1986, o agente da ditadura argentina e ex-torturador, Cláudio Vallejos, que integrava o Serviço de Informação Naval argentino, deu com a língua nos dentes e “vendeu” para a revista Senhor uma entrevista, na qual contava o paradeiro de vários brasileiros desaparecidos naquele país, entre eles, Tenorinho. O pianista, que nunca teve a menor atividade política – fato este que não justifica o descalabro, mas corrobora com a sandice da história – fora confundido com um ativista político. De acordo com Vallejos, o músico apanhou tanto que, quando foi detectado o engano, não havia mais retorno. Estava tão machucado que o jeito que encontraram foi matá-lo com um tiro para ocultar o erro.</p>
<p>Na mesma entrevista o agente apresenta ainda dois documentos com intervalos de cinco dias. No primeiro deles, de 20 de março de 1976, um certo capitão Acosta – hoje preso na Argentina por liderar o aparato repressivo –, por intermédio do contra-almirante Chamorro, solicita ao colega brasileiro do SNI informações sobre o pianista brasileiro. No outro, de 25 de março de 1976, comunica ao governo do Brasil o falecimento do cidadão brasileiro Francisco Tenório Júnior, passaporte n° 197803, de 35 anos, músico de profissão, residente na cidade do Rio de Janeiro, e disponibiliza o cadáver. Os colegas do governo brasileiro de então, irretocáveis na emenda ao soneto, além de não reclamarem o corpo, nunca avisaram à família do músico sobre o seu paradeiro. Seus familiares só souberam de tudo junto com todo o povo brasileiro, através da entrevista de Cláudio Vallejos à revista Senhor, dez anos depois.</p>
<p>Tenório Jr. era um brilhante compositor e pianista. Hoje, muito provavelmente teria o mesmo reconhecimento de Sérgio Mendes, Luiz Eça e congêneres. Havia gravado, em 1964, seu único disco, o lindo Embalo, reeditado recentemente pela Dubas Música.</p>
<p>Que a placa do deputado Puy sirva para, entre outras coisas, nos lembrar sempre de tudo o que foi criado por ele, da sua linda vida interrompida, dos sonhos que não foram vividos, dos discos que não foram gravados, enfim, do tempo que não foi possível.</p>
<p>E que sirva, principalmente, para que não nos esqueçamos jamais desta e de tantas outras histórias. A memória de Tenório Jr., entre tantos outros desaparecidos na América Latina, estará sempre de guarda, ali na rua Rodriguez Peña, para que um tempo assim nunca mais se repita.</p>
<p style="text-align: center;">***************</p>
<p>Há pouco mais de um ano, o cantor e compositor Geraldo Vandré deu ao jornalista Geneton Moraes Neto uma longa, completa e elucidativa entrevista. Fazia quase quarenta anos que ele se mantinha em um intrigante silêncio. Um silêncio que custou, tanto aos apaixonados por sua música quanto aos envolvidos na longa luta contra a última ditadura militar brasileira, um sem fim de lendas.</p>
<p>Logo depois que, em 1968, cantou em coro com o Maracanãzinho lotado a canção “Caminhando”, ele se exilou em Paris, onde gravou um último disco, o estranho e maravilhoso Das terras do Benvirá e desapareceu de vez da cena para virar lenda. Uns diziam que Vandré havia sido torturado e, por conta disso, estaria louco. Outros, que fora vencido pela amargura imposta pelos militares e por aí afora, num sem fim de histórias que a sua figura serena e impávida jamais poderia suspeitar.</p>
<p>Com respostas curtas e francas, Vandré não foge a nenhuma das perguntas. Age todo o tempo com uma desfaçatez sem fim. Diante da dúvida principal de qual seria a razão para toda a ausência responde, ainda que não explicitamente, com a pergunta: “Qual seria a razão para não estar ausente?”</p>
<p>Quem se dispuser a ouvir as suas premissas com o espírito desarmado poderá ter grandes surpresas. Não faz proselitismo, não fala contra nem a favor de quase nada. A única crítica que quase faz é contra os tropicalistas, através de duas ou três frases sem importância. Diz que ficou fora dos acontecimentos estudando leis (Vandré já era formado em Direito, na época dos festivais).</p>
<p>Fala que compôs uma obra sobre a FAB, a Força Aérea Brasileira. Dá a entrevista no Hotel de Trânsito da Aeronáutica, no Rio, com a insígnia da corporação no peito, diz que tem paixão por aviões desde a infância. Na canção da FAB, deverá usar helicópteros como percussão. Ao mesmo tempo, diz que quer terminar um poema sinfônico em língua espanhola e que vai lançá-lo fora do Brasil, pois ninguém mais vive no Brasil, apenas se amontoa.</p>
<p>Ao ser perguntado sobre o que viu ou ouviu no nosso país que tenha sido de fato interessante desde o seu regresso, na década de 1970, responde sem pestanejar que foi o Movimento Armorial, encabeçado por Ariano Suassuna, uma coisa de 30 anos atrás. De resto, só cultura de massa e que os poucos artistas que existem, como Edu Lobo e Chico Buarque, trabalham esporadicamente e têm uma carreira muito segmentada.</p>
<p>Não demonstra rancor por nada. Tudo o que aconteceu, aconteceu e pronto. Diante do imponderável, diz com uma lógica desconcertante que ter sido anistiado (Vandré foi exonerado pelo regime militar da carreira de servidor público e depois, com a anistia, reintegrado) por gravar canções subversivas é um atestado de que teria cometido um crime; do contrário, não teria porque ser anistiado. Ao mesmo tempo, confessa que nunca teve militância política, apenas compunha e cantava canções.</p>
<p>No final das contas, o repórter insinua o alheamento, dizendo que Vandré vive num país de um habitante só, ele mesmo. Talvez seja isso. Depois de quatro meses de insistência, o artista finalmente concordou em falar. E se limitou a dizer o óbvio, ou seja, o universo do show business se transformou, para ele, numa pobreza tão grande que a única coisa que resta é ignorá-lo solenemente. E assim tem sido. Ao ser perguntado se o público terá chance de ver Vandré cantando “Disparada” e “Caminhando” novamente, responde: “Isso é profecia, não sou profeta”.</p>
<p>Ao final, a única conclusão plausível: Vandré se manteve absolutamente sóbrio num mundo de tolos.</p>
<p><span style="color: #000000;"><span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif;"><span style="font-size: x-small;"><em><strong>Esta crônica é parte integrante da <a href="http://www.revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php">edição 105</a> da revista Fórum</strong></em></span></span></span></p>
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		<title>O fim do Café da Rua 8, em Brasília</title>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 20:46:00 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bittencourt</dc:creator>
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		<category><![CDATA[Café da Rua 8]]></category>
		<category><![CDATA[Krishna Das]]></category>

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		<description><![CDATA[Em Brasília, em meados de setembro, fechou as suas portas de vez o Café da Rua 8. O nome é este por conta da sua localização. O dito ficava na quadra 408 norte, num daqueles endereços da capital que só quem passa uns tempos por lá entende como é. Eva, a proprietária, é de São [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em Brasília, em meados de setembro, fechou as suas portas de vez o Café da Rua 8. O nome é este por conta da sua localização. O dito ficava na quadra 408 norte, num daqueles endereços da capital que só quem passa uns tempos por lá entende como é.</p>
<p>Eva, a proprietária, é de São Vicente. Viveu, amou e morou na Baixada Santista, estudou no Ginásio Independência, que também já não existe mais e daí se mandou. Foi para o Planalto Central, se não falha a memória, na década de 1970. Virou local. Como milhares de outros brasileiros, ela se apaixonou por Brasília. Mais do que isso, ajudou a fazer da cidade o que ela é hoje. Tatuou na pele o traço do Plano Piloto de Lúcio Costa – o que lhe rendeu as costas mais fotografadas do Distrito Federal – e abriu por lá uma catedral da música e da cultura.</p>
<p>Destes cinquenta e tantos anos de existência da capital, quase trinta contaram com o Café da Rua 8. A cidade quase não sabe ser o que é sem ele. O local sempre foi o ponto preferido dos artistas, poetas, pintores e, sobretudo, músicos de Brasília. Foi o Quartel-General do lendário grupo Liga Tripa, uma trupe de rua que, com seus instrumentos e cantores, corriam (e correm ainda) as superquadras residenciais e comerciais a cantar canções inesquecíveis entre as mesas e cadeiras, sem equipamento nenhum.</p>
<p><span id="more-113"></span></p>
<p>Uma dessas canções, a “Travessia do Eixão”, de Nonato Veras e Nicolas Behr, foi gravada pelo também saudoso Legião Urbana. Outra, a “Juriti” (Meu coração tem um desejo imenso de ver o dia nascer pelo avesso), de Aldo Justo e Paulo Tovar, é uma espécie de hino daquela Brasília que nunca aparece nos postais. No triste dia da morte de Tovar, o Café parou para homenageá-lo. Amigos vários, naquela noite, choraram versos em uníssono, quase prevendo uma época de bambas que se esvaía.</p>
<p>E sempre foi assim, de dias comuns e datas extraordinárias que foi feito o dia a dia do Café. Em algumas noites com poucos amigos, uma mesa aqui e outra ali, a conversa ao pé do ouvido e em outras memoráveis, explodindo de gente. Como nos vários lançamentos do samba do bloco pacotão; na apresentação do enredo da Escola de Samba Unidos da Asa Norte; na semana do 7 de setembro, quando era fechada a rua com a memorável festa Salve a Pátria; na comemoração dos 50 anos da revolução cubana – quando Eva vestiu a sua casa com as cores de Ogum e São Jorge – enfim, como tantas e tantas outras.</p>
<p>Muitas das pessoas que conhecem a capital de passagem cometem a injustiça da estranheza, a repulsa ao concreto e à frieza. Brasília, de fato, não é dessas que se entregam num primeiro encontro. É preciso cortejá-la, explorá-la com cuidado e carinho. Só assim, depois de muitas flores e jantares nos é permitida a paixão, a sem razão de suas esquinas, os seus segredos.</p>
<p>E um desses segredos mais encantadores sempre foi o Café da Rua 8. Ele próprio, para surpresa dos incautos, situado numa das inúmeras quase esquinas do Plano Piloto. Ele próprio, um desses lugares que humanizam e nos predispõem à cidade. Lá nos foi dado conhecer um tanto da história e da glória que se transformou no sonho mais inusitado de Dom Bosco. Nele, onde os deputados viram gente e onde, certa noite, vimos um ministro cantar um samba, aprendemos que grande cidade é esta outra Brasília.</p>
<p>E é um pouco desta outra cidade, alegre e efusiva, comovida, criativa e um tanto barulhenta que hoje fecha as suas portas. Deixa de existir por causa da outra, aquela que gosta do silêncio e age em silêncio.</p>
<p>***</p>
<p>A aproximação cultural Oriente-Ocidente não é exatamente nova. Vários artistas de diversas partes do mundo ocidental foram buscar respostas do outro lado do mundo, para longe da espiritualidade judaico-cristã. Dentre as inúmeras manifestações difundidas através da antena da indústria cultural americana a mais cultuada, sem sombra de dúvidas, é o Hinduísmo.</p>
<p>O Hinduísmo é a terceira maior religião do planeta em número de praticantes. O Sañata Dharma, como é conhecido por seus adeptos, sofreu uma explosão mundial no Ocidente a partir da conturbada e controversa década de 1960. O exotismo e o bem-estar espiritual, sem sombra de dúvidas, foram fatores determinantes para o encanto dos ocidentais anglo-saxões com a divindade brâmane. Nada, no entanto, foi tão chamativo para estes jovens quanto a música que acompanha e dá suporte às suas práticas.</p>
<p>Inúmeros cantores e compositores se aproximaram, reverenciaram e reproduziram, à sua maneira, a música da Índia e adjacências. O mais célebre de todos foi o ex-Beatle George Harrison. Mas tanto ele quanto muitos outros, como o guitarrista americano John McLaughlin, conhecido também como Mahavishnu, fizeram um caminho de aproximação e, de certa forma, renovação espiritual, e seguiram seu modo de vida ocidental.</p>
<p>Um deles, no entanto, foi para ficar. O mais celebrado artista ocidental que se entregou de corpo e alma à música devocional, a ponto de dedicar a sua vida à ela é Krishna Das. Nascido Jeffrey Cagel, Das foi roqueiro de sucesso nas décadas de1960 e 1970 com a banda de heavy metal Blue Öyster Cult e, a partir de uma viagem à Índia, mudou completamente o rumo da sua vida. Depois de um sem-número de voltas e desarranjos pessoais, o artista finalmente encontrou o seu caminho através da Yoga e do Kirtan, espécie de música devocional constituída por pequenas células que se repetem com o objetivo da meditação.</p>
<p>O Kirtan, até a chegada de Das à cena, era uma música praticada apenas em pequenas reuniões religiosas por grupos amadores. A pitada da canção folk americana era o ingrediente que faltava para a música ser difundida mundo afora. Krishna Das se tornou, desde então, uma celebridade das academias de Yoga de todo o mundo.</p>
<p>Atualmente, com vários discos gravados, Das vive a divulgar pelo planeta o Kirtan. Com uma voz grave e calma, e canções com melodias curtas e agradáveis, o cantor atinge de cheio o consumidor da prática oriental. É adorado Ocidente afora por hordas de fãs da Yoga e dos cultos a Brâmane.</p>
<p>Toda a história de sua busca e reencontro através da Bhakti Yoga – a Yoga da Devoção – está contada e cantada no livro Cantar para viver – Minha busca por um coração de ouro, best-seller mundial lançado finalmente no Brasil pela editora Realejo. O livro, em edição límpida, agradável e simples – em consonância com o assunto –, traz também um CD com um apanhado de canções devocionais do autor.</p>
<p>Uma ótima oportunidade para conhecer Krishna Das, o homem, sua vida e sua música. Um artista mundial de dimensões únicas.</p>
<p><em><strong>Este texto é parte integrante da edição 104 da revista Fórum.</strong></em></p>
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		<title>Toques Musicais &#8211; Zé Geraldo e Chico Lobo</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Nov 2011 21:59:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bittencourt</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Fosse Chico Lobo nascido no hemisfério norte, muito provavelmente esta primeira parte seria dispensável. Todos saberiam que ele é um dos maiores artistas populares do país, violeiro, cantor e compositor mineiro, de São João Del Rey, apresentador de TV e divulgador das nossas festas e tradições. Todos conheceriam as suas canções, o seu cuidado com [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Fosse Chico Lobo nascido no hemisfério norte, muito provavelmente  esta primeira parte seria dispensável. Todos saberiam que ele é um dos  maiores artistas populares do país, violeiro, cantor e compositor  mineiro, de São João Del Rey, apresentador de TV e divulgador das nossas  festas e tradições. Todos conheceriam as suas canções, o seu cuidado  com a renovação, gravação e resgate dos nossos ritmos. Acima de tudo  isso, todos conheceriam e reconheceriam como imprescindíveis os seus  pouco mais de dez discos e um DVD.</p>
<p>Chico Lobo é tão importante para a nossa música e cultura que acaba  de lançar um disco, acertadamente chamado de Caipira do Mundo, no qual  executa canções suas com uma constelação da nossa música, nenhum deles  do seu universo. Estão lá, como parceiros e também participantes Zeca  Baleiro, Zé Geraldo, Suzana Travassos, Chico César, Virgínia Rosa, a  lendária Banda de Pau e Corda, Alice Ruiz, Arnaldo Antunes, Vitor Ramil,  Vander Lee, Fausto Nilo, Sérgio Natureza, Siba, Ricardo Aleixo, Sérgio  Natureza, Verônica Sabino e Maurício Pereira.<br />
Ao contrário do que muitas vezes acontece, Chico Lobo colocou todos  dentro do seu balaio. Um fã mais exaltado que imagine o cantor e  compositor navegando por outros mares que não os da catira, congada,  folias e afins pode ficar tranquilo. A sofisticada poesia de Alice Ruiz,  por exemplo, se enquadra no universo amplo e festeiro de Chico tanto  quanto a modernidade de Arnaldo Antunes, o lirismo de Vander Lee e por  aí afora.</p>
<p>Um dos exemplos mais surpreendentes fica por conta da faixa “Dois  Rios”, sucesso da banda Skank, que encerra o disco. Chico Lobo, e apenas  ele com as suas violas em versão instrumental, encontra na composição  de Samuel Rosa, Lô Borges e Nando Reis a toada mineira escondida. O  resultado, de uma simplicidade comovente, demonstra sem palavras a força  da nossa ancestralidade.</p>
<p><span id="more-109"></span></p>
<p>E essa talvez seja a chave deste disco e de toda a obra de Chico  Lobo. Sua canção é sobretudo moderna. Sabe melhor do que ninguém colocar  a tradição na ordem do nosso dia. Ouvi-lo não é ouvir algum ponto  parado no tempo, mas sim perceber a ventania de todos os tempos a soprar  hoje.</p>
<p>A ideia da produtora Rossana Decelso de realizar este disco de  parcerias coloca Chico no centro da sua modesta grandeza. Uma grandeza  que só atinge tal dimensão por ser compartilhada. Uma obra que vem de  uma canção forjada por muitos em festa, que Chico nos devolve, agora e  como sempre, em formato de celebração.</p>
<p>A melhor tradução fica mesmo por conta dos versos de Alice Ruiz para a  linda canção “A mais difícil opção”: “Tem que saber que esse tempo é  tudo o que a gente tem, é transformar em evento a festa que nunca vem.  Das coisas que a vida tira tudo fica pra talvez, não existe sim nem não,  de tudo o que a gente faz metade é imaginação”.</p>
<p>*****</p>
<p>Um belo dia, em meados da década de 70, o  cidadão José Geraldo Juste largou o bom emprego em um banco na cidade de  São Paulo e foi ser músico. Hoje, pouco mais de trinta anos depois de  ter desconsiderado o conselho da maioria para ficar, o consagrado cantor  e compositor Zé Geraldo pode comemorar uma vitoriosa carreira, longe  dos bancos e, o que é melhor ainda, longe também do esquemão das grandes  gravadoras.</p>
<p>A festa para comemorar a data não redonda  chega finalmente ao público em forma de DVD e CD, com o nome de Cidadão –  trinta e poucos anos. Curiosamente, a canção-título da empreitada é,  além de um dos seus maiores sucessos, uma das poucas que gravou que não é  sua, mas sim do amigo Lúcio Barbosa.</p>
<p>A saga do pedreiro que não pode entrar nas  edificações que constrói virou um hino que, assim como diversas canções  de Zé Geraldo, correm o país de boca em boca, quase sem tocar nas rádios  de sucesso, novelas e televisão. O artista é um fenômeno que lota  estádios, praças e locais de eventos nos mais recônditos rincões. Na sua  frente há sempre uma multidão com seus sucessos na ponta da língua.</p>
<p>Zé Geraldo viaja com uma banda excelente.  De forma compacta e eficiente, os músicos conseguem traduzir com  perfeição tanto os elementos do rock quanto da canção rural e caipira  presentes em suas composições. Seu som parece fazer parte de um elo  perdido entre a modernidade pretendida e a virtualmente encontrada. Um  formato que tem alguns poucos pares que o artista convida a participar  da sua festa.</p>
<p>Entre os novos, ele chama o cantor mineiro  Landau; Chico Teixeira, excelente compositor e violonista, filho do  amigo Renato Teixeira e sua filha, a ótima cantora Nô Stopa. Da velha  guarda, Zé Geraldo trouxe Xangai .</p>
<p>A festa, no entanto, fica mesmo por conta  da apresentação básica do artista principal e toda a emoção que se  derrama pela plateia. Zé Geraldo carrega em suas composições, além de  uma beleza leve, agreste, uma sinceridade desconcertante que, num  momento festivo e de recordações, tende a crescer e explodir. O público  retribui feliz e agradecido, cantando todo o tempo as velhas canções  junto da rouca e certeira voz do compositor.</p>
<p>Cidadão – trinta e poucos anos resume de  forma emocionada o que se passou com o cantor e compositor desde o dia  em que deixou o emprego de chefe do departamento de pessoal de um banco  em São Paulo até hoje. Uma trajetória de coragem e, sobretudo,  honestidade consigo mesmo e com o seu público. Esta e várias histórias  podem ser vistas e ouvidas também nos extras do DVD, com vários  depoimentos e uma linda roda de viola na sua casa, na Serra da  Cantareira.</p>
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		<title>Toques Musicais – a revolução anunciada</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Oct 2011 18:18:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bittencourt</dc:creator>
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		<category><![CDATA[internet]]></category>
		<category><![CDATA[novas tecnologias]]></category>
		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>

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		<description><![CDATA[A imensa maioria dos equipamentos eletrônicos que temos à disposição hoje já está por aí há tempos. Não há como negar, no entanto, que eles se tornaram muito mais acessíveis e funcionais nos últimos dez anos. Baixar música, assistir vídeo, trocar grandes arquivos era, nos idos de 2001, um trabalho hercúleo. Hoje, basta um clique [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A imensa maioria dos equipamentos eletrônicos que temos à disposição hoje já está por aí há tempos. Não há como negar, no entanto, que eles se tornaram muito mais acessíveis e funcionais nos últimos dez anos. Baixar música, assistir vídeo, trocar grandes arquivos era, nos idos de 2001, um trabalho hercúleo. Hoje, basta um clique e um disco inteiro começa a tocar em segundos. Mesmo com toda a evolução, no entanto, a circulação de dados ainda imita, apesar de todos os esforços, a concentração da renda.</p>
<p>De acordo com o Ibope, no Brasil, pulamos de algo em torno de seis milhões de usuários da internet em 2001 para pouco menos de 75 milhões agora, em 2011. Destes, cerca de 1,9 milhão usam uma conexão acima de 8 Mb, praticamente concentrados nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Há lugares do Amazonas, por exemplo, que ainda dispõem de conexões de 128 Kb.</p>
<p>Mesmo assim, não há como ignorar que demos um longo e irreversível salto, com impacto incomensurável em todas as áreas, inclusive na produção cultural e musical. O desenvolvimento desenfreado da informática se deu tanto on line quanto off-line, ou seja, a evolução e acessibilidade a equipamentos e meios de produção cresceram tanto quanto a possibilidade de transmissão de dados, leia-se aí ideias, textos, canções, filmes etc.</p>
<p><span id="more-104"></span></p>
<p>Na música, por exemplo, a frase que virou clichê foi: “Hoje qualquer um faz um disco”. O compositor e professor Luiz Tatit declarou recentemente que antigamente, durante as suas apresentações, costumava receber um ou dois discos de artistas novos que iam assisti-lo, e hoje recebe dezenas. Uma quantidade que quase não dá conta de ouvir. É fato, e qualquer um que acompanhe o mercado fonográfico percebe isso. Temos bandas, cantores, artistas de toda a sorte aparecendo em vários centros urbanos, de vários gêneros. Qualquer um grava e também divulga o que gravou com um clique.</p>
<p>Está, portanto, criado ai um binômio interessante, uma cultura fértil para uma ampla revolução estética. De um lado, os recursos para a realização e, de outro, os meios de divulgação. Por conta disso, já não é de hoje que críticos e especialistas anunciam e anseiam por uma nova estética, uma nova geração de artistas completamente independentes em tudo, donos absolutos de sua obra e, portanto, prenhes de novidades.</p>
<p>Contraditoriamente, o que surgiu de novo na última década em termos estéticos é tão ínfimo que quase não dá pra levar em conta. Não se trata da velha cantilena passadista. A cantora Malu Magalhães e o grupo A Banda mais Bonita da Cidade, por exemplo, são fenômenos da rede que, a despeito da qualidade, são quase tão meteóricos quanto qualquer vídeo viral. São dois artistas que, somados a talvez poucos outros, não chegam a causar nem coceira nas expectativas estéticas menos ousadas.</p>
<p>Um sobrevoo nos bons discos lançados nesses últimos tempos nos dá uma dimensão mais exata ainda. Apesar da internet, ainda somos os mesmos e ouvimos quase os mesmos artistas, ou, pelo menos, os mesmos gêneros e formatos de antes. A rede talvez nos ajude – e principalmente os artistas – no processo de aproximação. Roberta Sá, Teresa Cristina, Déa Trancoso, Bena Lobo, Dércio Marques, Daniel Taubkin entre tantos outros estão aí pelo Facebook e Twitter, trocando ideias, divulgando as suas músicas e apresentações. Nenhum deles, no entanto, parece ter sido obra e graça da rede, resultado dessa excelente e imprescindível ferramenta. A origem de cada um está exatamente onde sempre esteve o nascedouro de todo e qualquer artista, ou seja, nos bares, casas de shows, estúdios etc. Muito menos a sua música é resultado das novas possibilidades tecnológicas.</p>
<p>A evolução eletrônica e a tecnológica, ao contrário do que ocorre agora, parecem ter sido determinantes em vários momentos para a formulação das obras. É impossível imaginar a grande expansão e evolução da cultura pop nos EUA e Europa nos anos cinquenta e sessenta sem a participação decisiva dos grandes meios de comunicação e o desenvolvimento de equipamentos eletroeletrônicos. O mesmo pode ser dito dos grupos de rock progressivo e, degraus acima, a experiência de músicos de vanguarda e do Jazz Fusion e tantos outros artistas que surgiram do mercado americano, hoje saturado de novas ideias.<br />
Não há, no entanto, pelo menos até agora, em nenhuma parte do mundo, uma nova estética com a evolução da rede e da informática. O tráfego de dados é um elemento a mais, que não influiu ainda em nada ou em quase nada na estrutura da criação musical. Tudo o que nos chega parece vir das mesmas informações de sempre.</p>
<p>Na contramão disso, nos últimos dez anos, a grande rede nos trouxe questões fundamentais à coexistência. Colocou artistas e ativistas de todas as partes em sintonia. Graças a ela, sabemos com muito mais clareza hoje quem somos e onde queremos chegar. Discussões fundamentais sobre direitos autorais, propriedade intelectual e democratização do conhecimento nasceram eminentemente por conta dela. A internet, ao que tudo indica, nos possibilitará uma grande intervenção, participação e consequente transformação política.</p>
<p>Muito provavelmente, com a ampliação da banda larga aos rincões, a grande e esperada revolução estética se descortine de vez. Assim que os garotos dos locais mais recônditos do Brasil e de tantas outras partes da América Latina, da África e da Ásia tiverem acesso amplo ao seu quinhão de megabytes, com certeza encontraremos a nossa grande obra escondida. Uma obra tão grande quanto a que a hegemonia do Hemisfério Norte nos deu em meados do século passado.</p>
<p>Por enquanto, é só promessa.</p>
<p><strong><em>Este artigo é parte integrante da edição 102 de Fórum.</em></strong></p>
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		<title>Fórum 101 &#8211; Toques Musicais</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 21:30:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bittencourt</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Anelis Assumpção]]></category>
		<category><![CDATA[Caixa Preta]]></category>
		<category><![CDATA[Itamar Assumpção]]></category>
		<category><![CDATA[SESC]]></category>
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		<description><![CDATA[A herança de Anelis Assumpção é totalmente partilhável e, de fato, compartilhada. Filha do Beleléu Itamar Assumpção, a moça recebeu com a precoce partida do pai alguns dos mais ousados, instigantes e inventivos fonogramas de que a nossa música tem notícia desde há muito tempo. Negociou com o SESC, participou da feitura e curadoria da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A herança de Anelis Assumpção é totalmente partilhável e, de fato, compartilhada. Filha do Beleléu Itamar Assumpção, a moça recebeu com a precoce partida do pai alguns dos mais ousados, instigantes e inventivos fonogramas de que a nossa música tem notícia desde há muito tempo. Negociou com o SESC, participou da feitura e curadoria da obra e entregou ao público a já célebre Caixa Preta – Itamar Assumpção, com toda a obra de Itamar e ainda os discos Pretobrás I e II, só com faixas inéditas.</p>
<p>Itamar, é bom que fique claro aos mais novos, sempre foi problema, no melhor sentido da palavra. Nunca rezou na cartilha de ninguém, nunca deu um passo na direção do seu pote de ouro, nunca fez canção para novelas ou, muito menos, ajustou o seu som a este ou aquele gosto. Desde o seu primeiro, o inesquecível e antológico Beleléu leléu eu, até o último e preciso Pretobrás, tudo o que se ouve é um som inconfundível e corajosamente novo.</p>
<p>Ao contrário da imensa maioria dos discos de mercado, dos quais qualquer ouvinte mais atento identifica o período da gravação, os seus parecem vindos de um futuro distante. Apesar de muito diferentes entre si (Itamar era irrequieto e não se repetia nem de uma canção para outra) todos trazem o seu carimbo, a sua antena aberta a todas as frequências.</p>
<p><span id="more-101"></span></p>
<p>Sua voz e interpretações, a forma como dividia o tempo, suas canções com melodias curtas e letras extensas, poesia pura e prosa, seus arranjos entrecortados, fraseado que vem de cabeça de baixista, seu perfeccionismo, enfim, tudo é evidente a cada compasso. Quase sempre gravou com dificuldades financeiras, poucas horas em estúdios baratos, o que resultou muitas vezes em um padrão sonoro aquém do seu talento. No entanto, o trabalho de remasterização dos fonogramas originais feito por Carlos Freitas e João Zilio, muitas vezes a partir dos vinis, nos devolve os discos com ótimo som e traz, finalmente, para a dignidade uma obra impecável.</p>
<p>O próprio Beleléu leléu eu, uma espécie de divisor de águas da nossa música ao lado de Clara Crocodilo, do parceiro e amigo Arrigo Barnabé, chega a causar espanto, tamanha a qualidade de timbres. Assim como este, todos os outros nos causam a mesma perplexidade. Os discos estão todos ali, da forma como sempre ouvimos. Mas, ao mesmo tempo, é como se Itamar pudesse ter, finalmente, o que sonhou ouvir em vida.</p>
<p>A dificuldade em encaixar a música de Itamar em algum contexto e tempo é uma das grandes peças que o autor sempre gostou de pregar. Ao imaginarmos a década de 1980 e também a de 1990, não encontramos a menor relação do seu som com os artistas de então. Este universo particular, no entanto, não pressupõe alienação, muito ao contrário. A sua música, bem como a sua postura artística, são reflexos claros do tempo em que viveu. Itamar apenas rejeitou padrões. Ao ser único, de forma paradoxal, apostou de forma quase isolada e obsessiva na diversidade. Sabia que era de um tempo e espaço em que tudo era possível. E exerceu todas as possibilidades.</p>
<p>A Caixa Preta traz doze CDs, sendo dois inéditos, realizados a partir de gravações que o artista deixou, tanto em fitas cassete quanto em estúdios. O músico e produtor Beto Villares colocou a banda pra tocar novamente com Itamar e conseguiu resultados comoventes e surpreendentes. Trata-se de um tesouro sem fim que está à disposição nas lojas do SESC, virtuais e físicas, pela módica quantia de R$ 150,00, ou seja, R$ 12,50 cada disco. Quase o preço que pagávamos pelos velhos LPs que ele fazia às próprias custas e vendia de mão em mão nos seus shows inesquecíveis.</p>
<p style="text-align: left;">*********<br />
Anelis Assumpção, herdeira de fato e de direito do Beleléu, transformou a obra do pai, Itamar Assumpção, negociada com o SESC e transformada na excelente Caixa Preta, neste seu primeiro disco solo Sou suspeita estou sujeita não sou santa. Em suma, a cantora e compositora usou a obra do pai para construir a sua, ou seja, para andar com as próprias pernas.</p>
<p style="text-align: left;">E, nesta nossa nova música, invadida por filhos de todas as qualidades e talentos, Anelis parece ter herdado do pai, apenas e a princípio, a sua maior característica e uma das melhores qualidades, ou seja, a ousadia. A partir disto, seu som vai de Itamar pra frente. Tem o DNA no suíngue, no jeito do pai, mas traz o seu próprio e, com ele, tudo o que ouve.</p>
<p style="text-align: left;">E o universo sonoro de Anelis é antenado com a música das ruas de São Paulo. Tem um pé no rap, na cultura hip hop, com seus DJs, samplers, falar claro, simples, direto e também no formato orgânico das rodas de samba, das canções de rádio filtradas ao sabor de outra compreensão. A tão propalada vanguarda ficou ali, em alguma prateleira do futuro, feito uma lição a ser digerida em outro momento. Ou não.</p>
<p style="text-align: left;">Anelis parece ter um compromisso claro com o descompromisso. Se despe com tranquilidade do fardo de estar entre os malditos. Ao contrário disso, constrói ao redor do seu som uma elegância ímpar, hedonista e moderna. Em outras palavras, manifesta prazer, bem-estar com a vida e com o som que produz. Seu disco, para surpresa e alegria geral, é um sopro de felicidade cercado de talento por todos os lados.</p>
<p style="text-align: left;">A partir da canção do pai “Mulher segundo meu Pai”, na qual Itamar cita o avô de Anelis que, por sua vez, dedica o disco à filha Ruby (e também a Itamar), a cantora derrama o tal ser feminino de maneira muito serena e segura. Não levanta bandeiras nem deita regras. Parte de um ambiente afetivo saudável e constrói canções de beleza clara, exposta, cheias de bom humor e sedução.</p>
<p style="text-align: left;">O disco foi produzido pela própria Anelis, em parceria com Zé Nigro, no entanto se percebe bem o fazer coletivo, os sons e ideias vindas de lá e de cá a cada pitaco de cada um dos excelentes músicos participantes. Uma impressão de banda que já vinha junta e ensaiada bem antes de ligarem os gravadores. E de lá, do fazer da canção, até a versão final, aos poucos ficaram apenas os sons absolutamente necessários. Tudo é mínimo e relaxado em Sou suspeita estou sujeita não sou santa.</p>
<p style="text-align: left;">No final das contas, Sou suspeita estou sujeita não sou santa não parece nem de longe um disco de principiante, e se formos levar em consideração o ótimo disco da banda Dona Zica, do qual Anelis fazia parte, e de fato não é. Mesmo assim, chama a atenção a maturidade artística, a personalidade forte e, sobretudo, o excelente resultado final.</p>
<p style="text-align: left;">Enfim, um tiro de largada e tanto da bem-vinda menina Anelis Assumpção.</p>
<p style="text-align: left;"><em>Esta coluna é parte integrante da <a href="http://www.revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php" target="_blank"><strong>Fórum 101</strong></a>.</em></p>
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		<title>Toques Musicais &#8211; Fórum nº 100</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Aug 2011 17:14:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Bittencourt</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[Carlos Navas]]></category>
		<category><![CDATA[Chico César]]></category>
		<category><![CDATA[Junte tudo o que é seu]]></category>
		<category><![CDATA[Paraíba]]></category>
		<category><![CDATA[Toques musicais]]></category>

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		<description><![CDATA[Existem três fortes razões para ouvir e se apaixonar pelo disco Junte tudo o que é seu&#8230;, de Carlos Navas. A primeira delas é a linda voz e interpretação certeira e encantadora do autor do disco. A outra, é que Navas é acompanhado ao longo de toda a gravação apenas pelo lindo piano de Gustavo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Existem três fortes razões para ouvir e se apaixonar pelo disco <strong>Junte tudo o que é seu&#8230;</strong>, de <strong>Carlos Navas</strong>.  A primeira delas é a linda voz e interpretação certeira e encantadora  do autor do disco. A outra, é que Navas é acompanhado ao longo de toda a  gravação apenas pelo lindo piano de Gustavo Sarzi. A terceira e  definitiva razão habita o olimpo da nossa canção popular. O disco  inteiro é formado por canções de Custódio Mesquita.</p>
<p>Posto isso, seria óbvio e temerário que algo aí pudesse não funcionar.  Não basta, assim como quem prepara uma receita qualquer, juntar três  grandes ingredientes para que tudo dê certo. As coisas precisam se  harmonizar, tudo precisa estar, enfim, em perfeita sintonia.<br />
Navas, em seu nono disco, nos dá a impressão de que nasceu para cantar  essas canções. Suas pausas curtas, o ritmo contido, a intensidade com  que pronuncia os versos, parece que nasceram colados às obras de  Custódio desde sempre.</p>
<p>Por sua vez, a economia e o bom gosto de Sarzi nos lembra, de forma  irônica, o piano de Tom Jobim. A ironia reside no fato de Custódio  Mesquita ser um dos compositores preferidos do maestro soberano. No  entanto, ainda que a sonoridade aqui e acolá nos deixe impresso algo de  Tom, o jeitão geral da gravação está muito mais para as saborosas  invenções dos anos 1930 e 1940, do próprio Custódio. O acertado seria  dizer que tanto Tom quanto Navas, com Sarzi, beberam da mesma fonte.</p>
<p><span id="more-97"></span></p>
<p>A música de Custódio Mesquita tem algo de trágico e, ao mesmo tempo,  irônico, irreverente. Um humor sutil, quase imperceptível, que serve de  alento ao drama que, invariavelmente, se desenrola nas canções. Um  contraste difícil, que acaba por conferir ainda mais genialidade  à  obra. Navas percebe isso com muita riqueza e consegue, ao mesmo tempo,  ser intenso e relaxado, resultado de inteligência e intuição funcionando  juntas.</p>
<p>O disco traz ainda a participação das cantoras Rosa Marya Colin, na  clássica “Nada Além”, feita em parceira com Mário Lago, e Alzira E., em  “Nossa Comédia”. Navas teve o cuidado de, no encarte, fazer um breve  comentário em cada faixa, sempre homenageando o seu intérprete original  e, consequentemente, as suas grandes influências vocais. Vale lembrar  que o lindo repertório de Custódio Mesquita é de um tempo em que o  público não identificava o compositor. São, portanto, no consciente  coletivo, canções de Nelson Gonçalves, Orlando Silva, Aracy de Almeida,  Mário Reis entre muitos outros.</p>
<p>Carlos Navas, ao mesmo tempo em que, de certa forma, corrige esse  pequeno engano, o reafirma. Com as suas interpretações e um álbum muito  bem cuidado, ele transforma esses clássicos do passado em canções um  pouco suas também.</p>
<p style="text-align: left;">**********</p>
<p>Já o cantor, compositor e agora secretário de cultura do Estado da Paraíba, <strong>Chico César</strong>,  tocou no ponto, desta vez como administrador público. Pela proximidade  das festas juninas, o mercado de shows do Nordeste fica alvoroçado atrás  das verbas estatais. Chico declarou, causando um pandemônio danado, que  os grupos de forró de plástico não seriam pagos com o dinheiro do  Estado.</p>
<p>Antes que nos aprofundemos na celeuma, é bom definir o que vem a ser, na  acertada concepção do secretário, o tal forró de plástico. A expressão,  muito bem cunhada, designa os inúmeros grupos que proliferaram do  Nordeste para o Brasil afora que tocam o ritmo de maneira  industrializada, com apelos sexistas, bailarinas seminuas, instrumentos  eletrônicos e uma música que tem pouco ou quase nada a ver com a cultura  da região.</p>
<p>Não é, enfim, nenhuma novidade. O mesmo já foi feito com a moda de viola  do Centro-Oeste brasileiro, com o boi-bumbá do Norte, com o trio  elétrico baiano e por onde mais a indústria do disco achar necessário. É  uma mina de ouro devastadora, que toma de assalto manifestações que são  legítimas e as transforma em um produto de larga escala. Não se trata  aqui de preconceito contra o sucesso, mas sim de uma ampla discussão  sobre o fomento da cultura e o papel do Estado.</p>
<p>Vivemos, enfim, em um país livre. Não constitui crime, portanto, moldar a  música à explosão de consumo. São fórmulas conhecidas dos produtores,  que invariavelmente dão certo, vendem. O que não se pode admitir é que  esse tipo de manifestação, que já tira o espaço de qualquer outra dentro  do mercado, seja feito também com as verbas públicas. Ao Estado cabe,  sim, preservar a identidade de sua gente, de suas riquezas materiais e  imateriais, ou seja, patrimônio histórico e cultural, que são as festas,  ritmos, folguedos, prédios históricos etc. O Estado, por definição, é  sua gente, sua representação. E sua gente é representada pelas suas  manifestações ancestrais, suas obras e gestos.</p>
<p>Quando Chico César, numa carta de esclarecimento enviada à imprensa,  diz: “O Estado (da Paraíba) não vai contratar nem pagar grupos musicais e  artistas cujos estilos nada têm a ver com a herança da tradição musical  nordestina, cujo ápice se dá no período junino”, como artista e homem  público, ele compra uma briga tão antiga quanto a República. E prossegue  com uma indisfarçável e brilhante desfaçatez: “Mas nunca nos passou  pela cabeça proibir ou sugerir a proibição de quaisquer tendências. Quem  quiser tê-los que os pague, apenas isso.”</p>
<p>No final das contas, Chico prossegue com seus golpes nos detratores que o  acusaram de intolerante: “Intolerância é excluir da programação do  rádio paraibano [concessão pública] durante o ano inteiro, artistas como  Parrá, Baixinho do Pandeiro, Cátia de França, Zabé da Loca, Escurinho,  Beto Brito, Dejinha de Monteiro, Livardo Alves, Pinto do Acordeon,  Mestre Fuba, Vital Farias, Biliu de Campina, Fuba de Taperoá, Sandra  Belê e excluí-los de novo na hora em que se deve celebrar a música  regional e a cultura popular.”</p>
<p>Parece simples e óbvia a atitude do secretário Chico César. Parece, mas  não é. E tampouco é o que se tem como prática Brasil afora. A verdade  deslavada é que em muitos dos nossos municípios o que se vê é um  extermínio da nossa tradição oral e dos valores básicos da nossa cultura  com o aval dos seus governantes. Estados covardes, que servem de  extensão ao mercado, que se amparam nele, e vice-versa. Atitudes que  justificam e referendam o desmando da grana sobre o patrimônio público e  a sua devastação.</p>
<p>Além de simples e óbvio, pode parecer fácil também o enfrentamento que  Chico César acabou de comprar. Num rápido sobrevoo sobre jornais e sites  da Paraíba, no entanto, se percebe o oposto. Ao contrariar interesses  de grandes produtores, Chico apanha de setores da imprensa, que o acusam  de ditador e conservador, entre outras pérolas.</p>
<p>Apesar disso, neste momento, artistas e agentes culturais independentes,  de todos os cantos do País, acompanham, entre orgulhosos e ansiosos, o  desfecho da história. Os festejos juninos da Paraíba, assim como seu  secretário, passaram a ser um paradigma para o Brasil. A pequenina pedra  de Davi na testa de Golias, ao contrário do episódio bíblico, não vai  derrubá-lo. Mas talvez faça despertar outros gigantes.</p>
<p style="text-align: left;"><strong><em>Esta coluna faz parte da <a href="http://www.revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php" target="_blank">edição nº 100 de Fórum</a>.</em></strong></p>
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