Toques Musicais – João Gilberto, o Mito/Putamayo chega ao Brasil

João Gilberto faz 80 anos agora em junho. Seria uma ótima oportunidade para a gravadora EMI relançar os seus três primeiros discos, imprescindíveis a qualquer mortal que deseje conhecer a música popular contemporânea do mundo. Seria, mas não será. Uma pendenga judicial envolvendo artista e o selo, que se arrasta por anos e anos, vai continuar privando o Brasil e o mundo de três das obras mais importantes do século XX.

O fato é que, há alguns anos, a gravadora lançou os três discos (ou pelo menos parte deles) em um só, com as faixas emboladas em outra ordem e, o que foi pior, com a adição de um efeito de eco insuportável que, segundo João e suas testemunhas, adulteraram a obra. É bom lembrar que as testemunhas do artista são dois do primeiro time da nossa música, Paulo Jobim, filho de Tom e que participou das obras, e Caetano Veloso.

Não é preciso, no entanto, ser grande expert em nada para perceber o desastre que é a tal compilação chamada ironicamente de João Gilberto, o Mito. As canções foram todas misturadas aleatoriamente, sem nenhuma referência às obras originais, o tal do eco irritante realmente existe, a capa é outro desastre e, como se não bastasse, foi lançada em 1992, mais de trinta anos depois dos lançamentos originais que nunca haviam sido colocados no mercado em CD.

Toques Musicais – Sonhos que não envelhecem

E os sonhos de Milton Nascimento, família Borges, Beto Guedes e companhia limitada realmente não envelheceram. Tanto é que o livro Os sonhos não envelhecem, com as saborosas e, muitas vezes, inacreditáveis histórias do Clube da Esquina, um dos mais importantes movimentos musicais brasileiros, acaba de ser relançado em grande estilo.

O que Márcio Borges, autor do livro, e quase ninguém mais poderia imaginar naqueles idos dos anos sessenta e setenta, enquanto estudava, fazia suas primeiras canções e sonhava com um outro mundo, é que Dilma Rousseff, uma das suas colegas de escola e também amiga viraria, muitos anos depois, a primeira presidenta da República do Brasil.

Posto isto, e com o enfoque histórico completamente avesso daquele, o livro, lançado originalmente em 1996, acaba de ser relançado com o respaldo da lei de incentivo à cultura. Isto fez com que a sua edição tivesse uma primeira tiragem de cinco mil exemplares com preço reduzido para R$ 29,90 (o preço original seria R$ 49,90). Além disso, a edição foi ampliada, com novas fotos, novo formato e, o que é mais interessante, acompanhada de um disco com algumas das grandes canções do autor, entre outras.

Toques Musicais – abril

No último mês de março tivemos outro Carnaval, a maior e mais conhecida festa popular deste país repleto de festas. Naquela semana, em todos os cantos e regiões, cada uma à sua maneira, se passou, mais uma vez, aquela que talvez seja a maior festa negra do mundo fora do continente africano.

A despeito de exageros midiáticos aqui e acolá, a extrema criatividade do povo brasileiro é celebrada neste período numa explosão infinda de sensualidade e beleza. Uma cultura profusa e rica que, sem a menor sombra de dúvidas, tem como ponto de partida o tráfico de escravos africanos para o Brasil iniciado há quase quinhentos anos.

E este momento terrível e fundamental para a formação da nossa etnia e herança cultural nos remete, entre outros lugares, à emblemática Ilha de Gorée, no Senegal. Do local, conhecido como “Porta da viagem sem retorno”, calcula-se que tenham partido para o novo mundo, especialmente para a costa brasileira, mais de um milhão de escravos. Entre eles, diversas crianças, que aguardavam dentro de uma pequena cela a hora de ganhar o Atlântico e perder, ainda na primeira idade, seus parentes, seu país e sua cultura, de forma definitiva e irreversível.

Toques Musicais – Hamilton de Holanda e Ortinho

O compositor e bandolinista Hamilton de Holanda, em poucos anos de carreira, se tornou um dos músicos brasileiros mais respeitados e conhecidos do mundo. Tem o que quase todos os artistas almejam e muito poucos conseguem, que é aliar técnica com emoção, formação musical com destreza e intuição. Além disso, Hamilton tem se tornado, ao longo dos anos, um compositor cada vez melhor, mais ousado e, assim como na sua forma de interpretar, cada vez mais aprimorado.

Seu último e definitivo salto para a integridade artística, assim como tudo o que faz, veio também através de muito estudo e de uma paixão desmedida. O compositor, criado em Brasília, escreveu, orquestrou e interpretou, ao lado de músicos conterrâneos, a “Sinfonia Monumental”. Trata-se de uma bela e extensa obra em cinco movimentos que pretende mostrar, de forma pessoal e épica, a sua visão dos 50 anos da capital brasileira, completados no ano passado.

Tendo como ponto de partida a “Sinfonia da Alvorada”, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, Hamilton percebeu que os dois, ao compor a obra, só puderam observar e imaginar a cidade do futuro. Ele, ao contrário disto, viveu e vive com intensidade o seu outro extremo, de metrópole consolidada, cidade pronta, com seus múltiplos sotaques e sons.

Toques Musicais – Fórum 95

Ao completar 70 anos, com um talento incomensurável e o coração amolecido pela idade, o pianista americano Herbie Hancock juntou alguns amigos e fez um disco/projeto pela paz mundial. Herbie é uma das últimas lendas vivas do jazz e da música popular norte-americana. Começou sua carreira naquela que talvez seja a última grande banda do trompetista Miles Davis. De lá pra cá, encheu a humanidade com sons e arranjos inovadores e, é claro, seu piano majestoso e inconfundível.

Um projeto desses é sempre um risco para qualquer reputação. Como se não bastasse, Herbie escolheu como mote para a empreitada a canção mais arroz de festa do planeta quando se fala em pacifismo, ou seja, Imagine, de John Lennon. Além desta, o projeto conta com várias outras canções do pop moderno de várias épocas, que, por alguma razão, quase sempre bem óbvia, tocaram o autor.

Além da própria Imagine estão lá Space Captain, pérola do repertório de Barbra Streisand; Don’t Give Up, linda canção da nova fase de Peter Gabriel; a emblemática The Times, They are A’changin, de Bob Dylan; Tomorrow Never Knows, outra de Lennon, esta da fase dos Beatles, porém muito mais obscura e, como surpresa e homenagem aos primos pobres do Sul, a linda e pouco conhecida Tempo de Amor, da dupla Baden e Vinícius, entre outras.

O Essencial de Tim Maia em disco

Capa do primeiro disco da coleção

A Coleção “Tim Maia”, recém lançada pela Editora Abril em fascículos nas bancas, tem vários trunfos. O maior de todos talvez seja, a despeito do desrespeito com a vontade do morto, o lançamento do álbum inédito “Tim Maia Racional Vol. 3”.

A fase racional de Tim é um dos seus momentos mais produtivos e limpos. Depois de muitos e incontroláveis excessos, o cantor e compositor encontrou algum conforto numa obscura seita para a qual realizou três discos, dois já lançados e este agora, até então inédito.

Marcelo D2 se aproxima do samba

D2 Suavizou a Capa Original de Bezerra da Silva

Na medida em que passam os anos, a música de Marcelo D2 se aproxima do samba. O rapper carioca tem flertado com o ritmo de forma inovadora, misturando seu som repleto de samplers e inovações ao que há de melhor no bom samba tradicional. Conseguiu com isso resultados surpreendentes e, ao que parece, dos artistas da sua geração, é um dos que está mais próximo de encontrar a batida perfeita.

No seu último disco, no entanto, D2 surpreende mais uma vez e, desta vez, às avessas. Ele acaba de lançar o delicioso Marcelo D2 canta Bezerra da Silva no qual, segundo conta, faz uma homenagem emocionada, “de filho para pai”, interpretando clássicos de Bezerra.

Água, de João Donato e Paula Morelenbaum

Duas gerações da Bossa Nova

 João Donato, apesar de quase nunca ser reconhecido como tal, é um dos maiores compositores brasileiros. Paula Morelenbaum, da mesma forma, apesar de ser uma das nossas maiores intérpretes, quase nunca figura como tal. João, um veterano conhecido, veio do Acre para se consagrar como um dos grandes músicos brasileiros desde o período da bossa nova. Paula, bem mais nova, surgiu para o grande público como uma das cantoras da banda de Tom Jobim.

Apesar de trajetórias distintas e épocas diferentes, os dois acabaram de lançar o lindo Água, sem qualquer exagero um grande candidato a melhor disco do ano. Juntar dois grandes talentos muitas vezes não faz um grande disco. Neste caso, a impressão que dá é que nasceram um para o outro. A solução final é tão única, tão amalgamada que ficamos todo o tempo nos perguntando como o encontro não havia acontecido antes.

Concerto, de Zeca Baleiro, e Bom Tempo, de Sérgio Mendes

Baleiro com inéditas ao vivo

Acaba de ser lançado Concerto, disco do compositor e cantor Zeca Baleiro que reúne um binômio imponderável. Ao mesmo tempo em que é uma gravação ao vivo, é também um CD de inéditas. O fato contribuiu para certa estranheza que, com a audição, vai logo se dissipando.
O disco foi gravado em março deste ano em três shows no teatro Fecap, em São Paulo. Nele, Zeca está acompanhado somente de Swami Jr. no violão de sete cordas e vocal, e Tuco Marcondes no violão, guitarra, bandolim, gaita e vocal. O resultado tem uma sonoridade meio folk muito próxima do seu disco Líricas, de 2000.

Na ocasião, a plateia recebeu cédulas em que poderia votar, dentre as 20 canções apresentadas, nas 14 que fariam parte do disco. A ideia, apesar de original em propor interatividade com o público, deixa a sensação que nem sempre o que funciona no calor de um espetáculo é necessariamente a canção que vai tornar um disco melhor. Enfim, assim foi feito e assim é Concerto.

Toques musicais

O primeiro disco da cantora Céu, de 2005, intitulado candidamente Céu, causou um furor desmedido e, nesses tempos bicudos da indústria fonográfica, vendeu cerca de 200 mil cópias. Além disso, chegou ao topo da parada de world music da revista Billboard. Com sons eletrônicos misturados a ritmos brasileiros, a cantora entusiasmou a todos e, particularmente, ao público estrangeiro.

Quase quatro anos depois, a moça já mais crescidinha, acaba de lançar Vagarosa, fazendo justiça ao título, tanto pela demora entre um e outro quanto pelo swing slow motion bossa nova. Além disso, com a qualidade deste, faz finalmente justiça também ao pandemônio que causou o anterior. Neste intervalo – breve para a sua formação, mas longo para o mercado –, o que ouvimos é uma outra cantora, produtora e compositora, muito melhor, muito mais madura.

O disco foi realizado pelo mesmo Beto Villares do anterior, só que desta vez em parceria com ela e também Gustavo Lenza e Gui Amabis. A trilha perseguida é a mesma, só que bem mais iluminada e pavimentada. Ainda estão lá os sons eletrônicos, com grooves delicados, economia de sons, letras simples e inventivas e melodias curtas.

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