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	<title>Marcio Pochmann &#124; Revista Fórum</title>
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	<description>Marcio Pochmann &#124; Revista Fórum</description>
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		<title>Desenvolvimento e subdesenvolvimento no mundo pós-neoliberal</title>
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		<pubDate>Wed, 09 May 2012 16:15:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pochmann</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na segunda metade do século XVIII, o aparecimento da primeira Revolução Industrial deu início à transição da sociedade agrária. As bases da nova sociedade urbano-industrial impuseram significativos ganhos de produtividade no trabalho, decorrentes da emergência do novo padrão de produção e do consumo associado ao uso intensivo de carbono. Com isso, a expansão da base [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>Na segunda metade do século XVIII, o aparecimento da primeira Revolução Industrial deu início à transição da sociedade agrária. As bases da nova sociedade urbano-industrial impuseram significativos ganhos de produtividade no trabalho, decorrentes da emergência do novo padrão de produção e do consumo associado ao uso intensivo de carbono. Com isso, a expansão da base material da economia foi tornando possível elevar o padrão de bem-estar social por meio de grandes lutas sociais e políticas, como no caso de modalidades emancipatórias na condição de trabalho pela sobrevivência. Diante da elevação da expectativa média de vida para mais de 50 anos de idade, houve importante redução da carga horária de trabalho dos segmentos sociais ativos e proteção aos riscos do trabalho penoso.</div>
<div>Por meio da captura de parte do excedente econômico gerado pela sociedade urbano-industrial, responsável pela expansão do fundo público, tornou-se possível viabilizar o financiamento da inatividade de crianças, adolescentes e idosos por meio de uma garantia generalizada de serviços (saúde, transporte e educação públicos), bens (alimentação, saneamento e moradia) e rendas (bolsas e subsídios). Uma vez concluída a formação para o trabalho (até os 15 anos de idade), tinha início o exercício do trabalho durante 30 a 35 anos, com contribuição ao fundo público capaz de permitir a imediata passagem para a inatividade (sistema de aposentadoria e pensão que legava viver sem mais depender do mercado de trabalho). Isso se tornou mais evidente desde o final do século XIX, com o avanço da Segunda Revolução Tecnológica, que, simultaneamente à ocorrência da Depressão entre 1873 e 1896, abriu lugar à nova disputa entre nações emergentes pela sucessão da liderança inglesa. Alemanha e Estados Unidos despontaram com o protagonismo da industrialização retardatária, com ganhos de produtividade superiores a todos os demais países. A solução final, todavia, ocorreu mais tarde, após a realização de duas grandes guerras mundiais, em que a Alemanha foi derrotada sucessivamente.</div>
<div>No contexto da Guerra Fria (1947–1991), mesmo com a presença da União Soviética, os Estados Unidos estabeleceram seu modo de vida (american way of life) como forma de dominação global. Mas a crise da produção em 1973 logo passou a apontar os limites do americanismo, concomitantemente ao impulso emergente das economias da Alemanha e do Japão. A contrareforma neoliberal do final da década de 1970 permitiu aos EUA retomar com mais força sua hegemonia por meio do reposicionamento do Japão à condição secundária (longa estagnação na década de 1990), da reacomodação da Alemanha no quadro das exigências de sua reunificação e consolidação da União Europeia e, ainda, do estrangulamento das experiências de socialismo real (desarticulação da União Soviética).</div>
<p><span id="more-150"></span></p>
<div>A condução da política neoliberal estadunidense pós-crise de regulação da década de 1970 se mostrou suficiente para se antepor ao fervor japonês e alemão, bem como levar à exaustão a experiência de socialismo soviético. Esse êxito, contudo, foi portador da corrosão das bases produtivas do capitalismo norte-americano, o que fez repetir, guardadas as proporções, a trajetória inglesa do final do século XIX, de contaminação pelo vírus da improdutividade da financeirização da riqueza. Paralelamente, parte da Ásia confirmou, por intermédio de experiências nacionais, a constituição de uma nova fronteira de expansão, as novas fontes de dinamismo do capitalismo global. Justamente China e Índia, que foram, em especial, os dois grandes territórios do planeta que perderam em função do avanço da hegemonia inglesa e estadunidense na primeira e segunda Revolução Industrial e Tecnológica, voltaram a se tornar emergentes diante da implantação de experiências associadas ao planejamento central e vigor do Estado. Reformas realizadas desde a década de 1980 foram tornando esses países referências à expansão capitalista, com crescente deslocamento da produção industrial ocidental para a Ásia, concomitantemente ao avanço da Terceira Revolução Industrial e Tecnológica.</div>
<div>Por outro lado, a América Latina, África e parcela dos países da Europa Oriental foram os maiores perdedores durante quase três décadas de hegemonia das políticas neoliberais. A despeito disso, o Brasil, só mais recentemente, ressurgiu como alternativa em disputa na recuperação econômica para além do centro capitalista mundial. No contexto da sucessão de crises econômicas e financeiras mundiais após 1973, alguns poucos países fora do eixo das economias desenvolvidas apresentaram-se em condições de liderar um novo ciclo de expansão produtiva. Essa possibilidade histórica encontra-se aberta ao mundo diante do curso da transição da sociedade urbano-industrial. Na sociedade pós-industrial em construção, o conhecimento pode se tornar um dos principais ativos da propulsão do desenvolvimento, cujo avanço da produtividade pertence ao comando do processo de desmaterialização das economias. Sob estas condições, depositam-se as possibilidades adicionais da maior libertação do homem do trabalho pela sobrevivência, por meio da postergação do ingresso no mercado de trabalho para depois do cumprimento do ensino superior e da oferta educacional ao longo da vida.</div>
<div>O excesso da produção, não mais a escassez, parece expressar a sociedade ancorada no trabalho imaterial e no conhecimento, o que possibilita gestar um novo padrão de produção e consumo que não mais protagoniza a degradação ambiental. A sustentação do meio ambiente ganha importância com a necessidade de mudança do atual modelo de produção e consumo, estimulado pelo processo maior de desmaterialização das economias modernas. Nada, contudo, está definido. Há tendências que podem ser confirmadas à medida que os sujeitos históricos apresentam-se capazes de construir seus próprios caminhos, orientados pela consolidação da liderança econômica, social e ambiental no atual cenário mundial pós-neoliberal em disputa.</div>
<p><em><strong>Este artigo é parte integrante da <a href="http://www.revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php">edição 109 da revista Fórum</a>.</strong></em></p>
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		<title>Nova formação para o trabalho imaterial</title>
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		<pubDate>Thu, 05 Apr 2012 23:11:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pochmann</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[formação]]></category>
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		<category><![CDATA[trabalho imaterial]]></category>

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		<description><![CDATA[A passagem para o século XXI veio acompanhada de profundas e complexas transformações no modo de produção capitalista. Uma delas – talvez a principal – resulta da emergência da economia do conhecimento que passou a redefinir categorias básicas como o capital, valor e trabalho. Esta última categoria, aliás, termina por incorporar crescentemente o saber em [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A passagem para o século XXI veio acompanhada de profundas e  complexas transformações no modo de produção capitalista. Uma delas –  talvez a principal – resulta da emergência da economia do conhecimento  que passou a redefinir categorias básicas como o capital, valor e  trabalho. Esta última categoria, aliás, termina por incorporar  crescentemente o saber em novas bases, o que torna antiquado os atuais  sistemas de educação e formação laboral.</p>
<p>Com a elevação das competências laborais e a possível ampliação da  expectativa de vida para próximo de 100 anos, expande-se a demanda pela  formação por toda a vida e rompe-se a lógica educacional do século  passado comprometida somente com as fases mais precoces da vida humana  (crianças, adolescentes e alguns jovens). Adiciona-se a isso o avanço da  sociedade pós-industrial focado na geração de postos de trabalho no  setor terciário das economias (trabalho imaterial), cuja natureza  formativa diverge da inserção e trajetória laboral contínua no interior  das atividades primárias e secundárias da produção (trabalho material).</p>
<p>Novas formas de organização da produção de bens e serviços  extrapolam o exercício laboral para além do exclusivo local de trabalho.  Ou seja, a realização crescente do trabalho imaterial em qualquer local  proporcionado pelo uso recorrente das tecnologias de comunicação e  informação inovadoras, capaz de manter o ser humano plugado no trabalho  heterônomo por “24 horas ao dia”.</p>
<p><span id="more-145"></span></p>
<p>Não obstante o avanço tecnológico gerador de ganhos importantes de  produtividade material e imaterial na sociedade pós-industrial, aumenta a  pressão por maior tempo de uso do trabalho para a sobrevivência.  Trata-se do paradoxo contemporâneo concentrado na dissintonia entre a  possibilidade da menor dimensão do tempo de trabalho heterônomo e o  avanço das novas doenças do trabalho geradas pela intensificação do  trabalho nos tradicionais locais de emprego da mão de obra e extensão  das jornadas laborais em outras localidades (em casa ou em espaços  públicos) impostas pela combinação patronal das mudanças organizacionais  com inovações tecnológicas comunicacionais.</p>
<p>Com a transição para a sociedade pós-industrial abrem-se novas  perspectivas de valorização do trabalho humano para além da obrigação  estrita à sobrevivência. A crescente postergação do ingresso dos jovens  no mercado de trabalho e a maior redução no tempo do trabalho dos  adultos, em combinação com a ênfase no ciclo educacional ao longo da  vida, representam possibilidades inéditas para o mundo do trabalho,  especialmente com a expectativa de vida mais longa.</p>
<p>Para além da tradicional divisão laboral que demarcou o século XX,  por meio da setorização do trabalho urbano-industrial e agropecuário, há  avanços significativos nas atividades humanas centradas na concepção e  execução do processo de produção. Mas isso não se manifesta sem a plena  subsunção do trabalho não material, com a evolução da intelectualização  nos procedimentos de trabalho nos setores industriais e de serviços, bem  como pelo consumismo imposto pelo padrão de produção insustentável  ambientalmente.</p>
<p>De certa forma, prevalece um conjunto de intensas disputas  empresariais associadas à apropriação do conhecimento e da tecnologia, o  que contribui para a constituição de um novo paradigma organizacional  do trabalho, muito distinto do que prevaleceu durante o auge da economia  industrial no século passado. Mesmo que o padrão fordista-taylorista de  organização do trabalho urbano-industrial venha sendo reprogramado, com  as modificações introduzidas por uma série de novidades processuais no  âmbito da produção flexível (toytismo, just in time), permanecem ainda  os sinais de sua incapacidade plena no atendimento das determinações  laborais impostas por diferenciados e inovadores espaços da acumulação  capitalista.</p>
<p>A predominância das atividades de serviços no interior da estrutura  produtiva faz do exercício do trabalho imaterial objeto distinto do  material vigente na produção urbano-industrial. Pelo lado da  produtividade, registra-se a sua ascensão, embora de difícil mensuração  pelos tradicionais cálculos que relacionam avanços na produção física  com hora efetivamente trabalhada ou quantidade de trabalhadores. Por ser  cada vez mais direto, relacional, e informacional, bem como pela  demarcação de relações de tipo produtor e consumidor, o trabalho de  natureza imaterial expande-se pelo autosserviço e terceirização.</p>
<p>Nesta perspectiva, a economia do conhecimento faz com que o  trabalho desmaterializado deixe de ser mensurável em unidades de tempo,  conforme identificado desde a época de Adam Smith como um valor comum a  todas as mercadorias. Cada vez mais, o trabalho imaterial gerador de  valor pressupõe a presença de componentes comportamentais. Não mais o  tempo de trabalho comprometido, mas a motivação incorporadora do saber  vivo a ser estabelecido por método distinto do ensino e formação laboral  tradicionais.</p>
<p>Em síntese, o saber que não se compõe de conhecimentos específicos e  fragmentados a serem ensinados por formação especializada e formalizada  por escolas técnicas, faculdades e cursos setoriais. Com a  informatização, o aprendizado setorializado e formalizado impede o  desenvolvimento do conhecimento totalizante, ou seja, o saber da  experiência, da coordenação, da comunicação, da auto-organização, do  discernimento e das iniciativas criativas. Esse saber a ser incorporado  no trabalho imaterial não torna possível a sua aprendizagem pelo modo  tradicional de educar e formar mão de obra.</p>
<p>Talvez por isso, as grandes corporações empresariais aprofundem as  chamadas universidades corporativas (UC) com formação dos seus  empregados ao longo do tempo. Nos EUA, por exemplo, as UCs ultrapassaram  em quantidade as universidades tradicionais, enquanto no Brasil, as 400  maiores empresas já comprometem com formação para o trabalho o  equivalente a um quarto de todos os recursos comprometidos na educação.</p>
<p>A repetição de políticas públicas adotadas no passado compromete a  formação adequada para o trabalho imaterial, tornando o patronato da  grande empresa protagonista na difusão de uma educação favorável  estritamente aos objetivos privatistas. É necessário outro sistema de  formação pública, que resgate a totalidade dos valores do trabalho dos  antiquados métodos fragmentados e especializados no ensino e  aprendizagem formalmente setorializados.</p>
<p><strong><em>Este texto é parte integrante da <a href="http://revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php" target="_blank">edição 108 de Fórum</a></em></strong></p>
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		<title>Educação para uma nova sociedade</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Mar 2012 19:02:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pochmann</dc:creator>
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		<category><![CDATA[economia]]></category>
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		<description><![CDATA[Da implantação da República, em 1889, até a Constituição Federal, em 1988, o avanço da escola pública no Brasil não foi contínuo, pois esteve marcado pelo fardo da escravidão e pelos traços de uma sociedade patrimonialista. Assim, em quase cem anos de República, a educação permaneceu prisioneira das condições de produção e reprodução do subdesenvolvimento [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Da implantação da República, em 1889, até a Constituição Federal, em 1988, o avanço da escola pública no Brasil não foi contínuo, pois esteve marcado pelo fardo da escravidão e pelos traços de uma sociedade patrimonialista. Assim, em quase cem anos de República, a educação permaneceu prisioneira das condições de produção e reprodução do subdesenvolvimento nacional.</p>
<p>Até a década de 1940, por exemplo, as possibilidades de inclusão dos filhos de negros na escola pública eram quase nulas, tanto assim que a parcela significativa dos analfabetos do país do início do século XXI possui mais de 55 anos de idade e não são brancos. Ao mesmo tempo, a apropriação patrimonialista do Estado por estritos segmentos sociais transformou a boa escola pública em quase exclusividade de reprodução de uma elite branca, sem conceder possibilidades para a universalização do acesso a toda população.</p>
<p>Com a aprovação da Constituição Federal após a transição da ditadura militar (1964 – 1985) para o atual regime democrático, a educação pública ganhou relevância. Mas isso se deu associado à necessária garantia de recursos orçamentários, o que permitiu rapidamente ao país alcançar a universalização do acesso ao ensino fundamental.</p>
<p><span id="more-137"></span></p>
<p>Neste novo contexto constitucional de estruturação do Estado de bem-estar social no Brasil, assistiu-se ao avanço da cobertura social para praticamente todos os segmentos vulneráveis da população, como crianças e adolescentes (Estatuto da Criança e Adolescente – ECA), idosos e portadores de necessidades especiais (reconfiguração do sistema de aposentarias e pensão), pobres (programas de transferências de renda, como o Bolsa Família), desempregados (seguro desemprego), entre outros. Com isso, os indicadores sociais passaram a apontar melhoras inegáveis, não obstante os enormes constrangimentos impostos pelo predomínio das políticas neoliberais desde o final da década de 1980.</p>
<p>Os avanços sociais não foram, contudo, plenos. O segmento juvenil, por exemplo, permaneceu à margem, sendo somente mais tardiamente objeto de maior intervenção de políticas públicas. Mesmo assim, de forma parcial e incompleta, a começar pelo programa Agente Jovem do final dos anos 1990, passando pelo fracasso do programa Primeiro Emprego do início da década de 2000, até chegar ao mais estruturado programa governamental Pró-Jovem.</p>
<p>Tendo em vista o enorme desafio atual de conceder maior atenção à problemática da inclusão juvenil no Brasil, torna-se fundamental a temática educacional, especialmente aquela atinente às condicionalidades que afetam a trajetória das condições de vida do segmento social de 16 aos 24 anos de idade. Inicialmente, percebe-se que, dos 29,3 milhões de jovens na faixa de 16 a 24 anos de idade, somente 32,4% mantinham-se afastados do mercado de trabalho no ano de 2008. Deste universo de 9,5 milhões de jovens inativos, 59% somente estudavam, enquanto 41% não estudavam, não trabalhavam e nem procuravam trabalho (3,9 milhões).</p>
<p>A maior parte dos jovens de 16 a 24 anos encontrava-se ativa no interior do mercado de trabalho (19,7 milhões), sendo 16,7 milhões ocupados e 3 milhões na condição desempregados (15,2%). Dos que trabalhavam, somente 31,7% estudavam (5,3 milhões), indicando que a maior parte que se encontra ocupado não consegue estudar (11,4 milhões). No caso dos desempregados, 40% frequentavam escola (1,2 milhão) e 60% não estudavam (1,8 milhão).</p>
<p>Resumidamente, constata-se que, da população de 16 a 24 anos de idade, somente 11,8 milhões (40,2%) estudavam em 2008. Deste universo, 47,5% (5,6 milhões) não trabalhavam nem procuravam trabalho (inativos), 44,9% (5,3 milhões) estavam ocupados e 10,2% (1,2 milhão), desempregados. Em relação aos jovens que não frequentavam escola (17,5 milhões), 65,1% trabalhavam (11,4 milhões), 22,2% não trabalhavam e nem procuravam trabalho (3,9 milhões) e 10,3% estavam desempregados (1,8 milhão). Para os 29,3 milhões de jovens na faixa de 16 a 24 anos de idade, a renda média familiar per capita era de R$ 512,70 ao mês em 2008.</p>
<p>Mas para os jovens inativos que só estudavam, a renda média familiar per capita era de R$ 633,20 ao mês (23,5% superior à renda média). Já para os jovens inativos que não estudavam, a renda média familiar per capita era de somente R$ 309,60 ao mês em 2008 (39,6% inferior à renda média). No caso dos jovens ocupados que estudavam a renda média familiar per capita era de R$ 648,70 ao mês em 2008 (26,5% superior à renda média). Os jovens ocupados que não estudavam registraram renda média familiar per capita era de R$ 492,20 ao mês em 2008 (4% inferior à renda média).</p>
<p>Por fim, entre os jovens desempregados que estudavam a renda média familiar per capita era de R$ 486,80 ao mês em 2008 (5,1% inferior à renda média), enquanto para os jovens desempregados que não estudavam a renda média familiar per capita era de R$ 320,20 ao mês em 2008 (37,6% inferior à renda média). Neste quadro, parece não haver dúvidas que a trajetória educacional do segmento de 16 a 24 anos de idade encontra-se diretamente vinculada ao nível de renda.</p>
<p>Quanto menor a renda per capita familiar, maior a dificuldade de continuar ativo na educação. Não obstante os avanços necessários em termos de universalização do acesso educacional relativo ao ensino médio e superior, bem como a elevação da qualidade do ensino, há o tema estruturante da desigualdade de renda. Sem resolver isso, os discursos em favor da educação podem continuar sendo apenas retórica, sem efetividade para a totalidade dos jovens brasileiros.</p>
<p><em><strong>Este artigo é parte integrante da <a href="http://www.revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php" target="_blank">edição 107 de Fórum</a></strong></em></p>
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		<title>China e o novo centro dinâmico</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Feb 2012 20:25:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pochmann</dc:creator>
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		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[economia]]></category>
		<category><![CDATA[EUA]]></category>

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		<description><![CDATA[O sucesso do milagre econômico chinês apresentou ao mundo uma novidade quase não imaginada frente à inconteste hegemonia estadunidense. Seja na evolução do comércio externo ou na presença crescente dos investimentos externos, a China se posiciona de forma cada vez mais sólida como eixo integrador da dinâmica mundial. Antes da crise do capitalismo global, a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>O sucesso do milagre econômico chinês apresentou ao mundo uma novidade quase não imaginada frente à inconteste hegemonia estadunidense. Seja na evolução do comércio externo ou na presença crescente dos investimentos externos, a China se posiciona de forma cada vez mais sólida como eixo integrador da dinâmica mundial.</div>
<div>Antes da crise do capitalismo global, a economia estadunidense apresentava sinais de certa decadência frente ao seu esvaziamento produtivo e da relativa perda de importância do dólar. Mas, a partir de 2008, a perda de influência norte-americana tornou-se cada vez mais evidente, sobretudo quando se considera o sucesso transformista chinês.</div>
<div>Para piorar, os Estados Unidos passam a apresentar sinais crescentes de subdesenvolvimento, como no caso da concentração de renda. Nas últimas três décadas, por exemplo, o segmento constituído pela faixa do 1% mais rico da população teve a sua renda aumentada em 256%, enquanto o rendimento dos pobres subiu somente 11%. Como resultado disso, os EUA voltaram a deter um padrão de desigualdade de renda somente verificado antes da Depressão de 1929.</div>
<p><span id="more-132"></span></p>
<div>Diante do descenso estadunidense e do auge chinês, os governos têm a oportunidade de rever estrategicamente o posicionamento de suas economias. Do contrário, a trajetória das relações comerciais e de investimento com a China tende cada vez mais a aprofundar as características históricas já notabilizadas, especialmente durante a antiga ordem internacional estabelecida a partir da Inglaterra. Como a China atual, o Reino Unido dependia fortemente de produtos primários, enquanto se mantinha como forte produtor e exportador de produtos manufaturados. Ou seja, dava-se o estabelecimento de uma convergência internacional para a produção e exportação de produtos primários e simultânea dependência da dinâmica local à internacionalização dos seus parques produtivos segundo a lógica inglesa.</div>
<div>Em geral, a China passa a deter não somente relações comerciais como presença de investimento superiores às dos EUA. Por meio da globalização financeira, não obstante os sinais de certo esvaziamento do seu papel monetário (fim do padrão ouro-dólar nos anos 1970) e de enfraquecimento relativo de sua produção e difusão tecnológica, os Estados Unidos se transformavam praticamente num império unipolar. Tanto assim que prevaleceu a concepção de pensamento único e visão de fim da História, com predomínio da democracia liberal e do livre mercado.</div>
<div>Nos dias de hoje, com o esgotamento do movimento de globalização financeira, registrado por várias crises de dimensão internacional, o milagre chinês ascendeu rapidamente. Assim, a expansão da economia do país possibilitou que em apenas dez anos a sua produção fosse triplicada, contrastando com a realidade estadunidense. Somente entre 1999 e 2010, por exemplo, a variação acumulada do Produto Interno Bruto dos Estados Unidos foi equivalente a apenas 1/8 da verificada na China.</div>
<div>No mesmo sentido, o país asiático responde cada vez mais por uma maior parcela da produção de manufaturados do mundo; em 2009, representou 18% do valor agregado industrial mundial. A participação chinesa no valor adicionado mundial na indústria de transformação de alta tecnologia também saltou de 4%, em 2000, para 18%, em 2009. Atualmente, a China assume a condição de segunda nação mais importante na produção de material de escritório e informática do mundo, na produção de material de rádio, TV e comunicação, e a primeira na produção de veículos automotores e nos investimentos na indústria aeroespacial, de supercomputadores e de núcleos eletrônicos, entre outras posições estratégicas mundiais.</div>
<div>Por conta disso, a China deve ultrapassar a posição dos EUA durante a segunda década do século XXI, embora isso não signifique necessariamente o desaparecimento das centralidades dinâmicas das economias pertencentes à União Europeia e aos Estados Unidos, mas o que se destaca é o aparecimento de um mundo multipolar. Além da Ásia – especialmente a China e Índia – há um espaço regional capaz de gerar uma nova centralidade dinâmica no sul do continente americano, com forte importância para a economia brasileira.</div>
<div>Em síntese, o Brasil passa a ter maior relevância num novo contexto mundial multipolarizado, bem distinto daquele verificado durante o momento de sua constituição, em que os Estados Unidos exerciam uma centralidade unipolar. Mas o seu reposicionamento deve partir de um olhar de mais longo prazo, uma vez que as alternativas estão postas. O deslocamento do centro dinâmico estabelece oportunidades inequívocas de reforço da pujança econômica brasileira. Mas isso pode ocorrer tanto pelo lado da Fazenda, Mineração e Maquiladora dos Produtos Manufaturados (FAMA), como pela via do encadeamento dos sistemas produtivos a partir de maior agregação do Valor Agregado e Conhecimento (VACO).</div>
<div>As alternativas estão postas, com a China presente no novo centro dinâmico mundial. Ao Brasil, cabe uma decisão clara e objetiva em torno do papel que deseja desempenhar neste novo contexto internacional.</div>
<div><em><strong>Esta crônica é parte integrante da <a href="http://www.revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php">edição 105</a> da revista Fórum</strong></em></div>
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		<title>Terceirização do trabalho</title>
		<link>http://revistaforum.com.br/marciopochmann/2012/01/11/terceirizacao-do-trabalho/</link>
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		<pubDate>Wed, 11 Jan 2012 20:52:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pochmann</dc:creator>
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		<description><![CDATA[A terceirização do trabalho expressa uma das maiores alterações no modo de produção e distribuição de bens e serviços verificados durante a passagem para o século XXI nas economias capitalistas. Mesmo assim, preponderam diferenças importantes e inegáveis no movimento geral de terceirização do trabalho entre países. Nas economias desenvolvidas, por exemplo, a terceirização do trabalho [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div>
<p><span style="font-family: Georgia, serif;">A terceirização do trabalho expressa uma das maiores alterações no modo de produção e distribuição de bens e serviços verificados durante a passagem para o século XXI nas economias capitalistas. Mesmo assim, preponderam diferenças importantes e inegáveis no movimento geral de terceirização do trabalho entre países.</span></p>
<p><span style="font-family: Georgia, serif;">Nas economias desenvolvidas, por exemplo, a terceirização do trabalho resulta, muitas vezes, da opção patronal pela ampliação dos ganhos de produtividades. A partir da adoção de novos meios de gestão da mão de obra e incorporação tecnológica, o processo produtivo passou a ser crescentemente compartilhado por um conjunto de diversas empresas que subcontratam seus empregados. Nos países não desenvolvidos, a terceirização do trabalho expandiu-se mais recentemente. A principal motivação do processo de terceirização tem sido geralmente a busca da redução do custo do trabalho como mecanismo de maior competitividade e ampliação da margem de lucro diante da exposição do setor produtivo à concorrência internacional. Em função disso, a terceirização apresenta predominantemente a modalidade de contratações de trabalhadores com remuneração e condições de trabalho inferiores aos postos de trabalho anteriormente existentes e aos equivalentes não submetidos à subcontratação da mão de obra. </span></p>
<p><span style="font-family: Georgia, serif;">Para o Brasil, a terceirização do trabalho ganhou importância a partir dos anos 1990, coincidindo com o movimento de abertura comercial e de desregulamentação dos contratos de trabalho. Ao mesmo tempo, a estabilidade monetária alcançada a partir de 1994 vigorou associada à presença de ambiente competitivo desfavorável ao mercado interno. Ou seja, baixo dinamismo econômico, com contida geração de empregos em meio a taxa de câmbio valorizada e altas taxas de juros. Frente ao desemprego crescente e de ofertas de postos de trabalho precários, as possibilidades de atuação sindical exitosas foram diminutas, ao mesmo tempo em que ocorria a expansão de políticas de desregulação do mercado de trabalho. </span></p>
<p><span id="more-124"></span></p>
<p><span style="font-family: Georgia, serif;">Hoje, o trabalho terceirizado perdeu importância relativa no total do emprego formal gerado no Brasil, embora seja crescente a expansão absoluta dos postos de empregos formais. Por ocupações de menor remuneração e maior descontinuidade contratual, os empregos terceirizados atendem fundamentalmente a mão de obra de salário de base. Desta forma, as ocupações geradas em torno do processo de terceirização do trabalho tendem a se concentrar na base da pirâmide social brasileira. O uso da terceirização da mão de obra tem se expandido fundamentalmente pelo setor de serviços, embora esteja presente em todos os ramos do setor produtivo.</span></p>
<p><span style="font-family: Georgia, serif;">Em síntese, a terceirização do trabalho transformou-se num dos principais elementos de modificação do mundo do trabalho, capaz de equivaler quase a uma reforma trabalhista, visto que o país não passou por uma reforma trabalhista de corte neoliberal, conforme verificado em outros países. Mesmo assim, várias ações em direção à desregulamentação do mercado de trabalho foram adotadas, especialmente nos anos 1990, quando as políticas neoliberais estiveram em maior evidência no país. Por conta disso, o país registrou quatro trajetórias distintas durante os últimos 25 anos na dinâmica da terceirização do trabalho. A primeira, observada durante a década de 1980, expressou o movimento de focalização de atividades especializadas. Em geral, a terceirização da mão de obra correspondeu à externalização de partes das atividades que anteriormente eram realizadas, sobretudo nas grandes empresas privadas estrangeiras. A internalização de novos métodos de organização da produção e gestão da força de trabalho adotada originalmente nas economias desenvolvidas permitiu que a taxa de terceirização fosse crescente. Entre 1985 e 1990, a taxa de terceirização do emprego formal no estado de São Paulo passou de 11,7% para 58,2% do saldo líquido das ocupações geradas a cada ano.</span></p>
<p><span style="font-family: Georgia, serif;">Com a recessão econômica no início dos anos 1990, concomitante com os fracassos dos planos de estabilização monetária e abertura comercial, a dinâmica da terceirização da mão de obra como mecanismo de modernização das grandes empresas perdeu sentido. O corte generalizado do emprego em um contexto de altas taxas de inflação permitiu ao setor patronal encontrar ajustes de custos alternativos à terceirização de mão de obra. Entre 1990 e 1995, por exemplo, a taxa de terceirização no estado de São Paulo decresceu, de 58,2% para 8,9% do saldo total líquido de postos de trabalho formais abertos. </span></p>
<p><span style="font-family: Georgia, serif;">Além da estabilização monetária a partir do Plano Real, com impacto inegável na redefinição da estrutura de preços e competição no interior do setor produtivo, teve importância o Enunciado 331 do Tribunal Superior do Trabalho, que definiu os setores cabíveis da terceirização da mão de obra, e concedeu segurança jurídica às empresas. Em virtude disso, a trajetória da contratação de empregados formais entrou na sua terceira dinâmica. Por consequência, a taxa de terceirização registrou elevação inédita, passando de 8,9% a 97,6% do saldo líquido dos empregos gerados no estado de São Paulo entre 1995 e 2002. Desta forma, o movimento de terceirização da mão de obra que até então se encontrava relacionado ao interesse das grandes corporações transnacionais passou a ser difundido no conjunto das empresas em operação no Brasil. </span></p>
<p><span style="font-family: Georgia, serif;">Pelas condições da estabilidade monetária, alcançada com altas taxas de juros reais e valorização do real, as condições de competição interempresarial tornaram-se mais acirradas. A redução do custo do emprego da força de trabalho estimulou o crescimento da terceirização, inclusive no aparecimento de empresas sem empregados. A quarta dinâmica na trajetória da contratação de empregos formais ganhou importância desde o início da década de 2000, com a queda na taxa de terceirização. Entre 2000 e 2010, a taxa de terceirização passou de 97,6% para 13,6% do saldo líquido de empregos formais constituído no estado de São Paulo.</span></p>
<p><span style="font-family: Georgia, serif;"><em><strong>Este artigo é parte integrante da edição 104 da revista Fórum.</strong></em></span></p>
</div>
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		<title>Três anos de crise global</title>
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		<pubDate>Tue, 08 Nov 2011 22:05:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pochmann</dc:creator>
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		<category><![CDATA[crise global]]></category>
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		<description><![CDATA[Os excessos de desregulamentação nas economias motivados pelo modo como a globalização se generalizou na passagem para o século XXI levaram à crise internacional de 2008. E a enxurrada crescente de capital especulativo, cada vez mais desconectada do sistema produtivo, não contaminou somente o centro dinâmico do capitalismo mundial. O sofrimento humano gerado pela contenção [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Os excessos de desregulamentação nas economias motivados pelo modo como a globalização se generalizou na passagem para o século XXI levaram à crise internacional de 2008. E a enxurrada crescente de capital especulativo, cada vez mais desconectada do sistema produtivo, não contaminou somente o centro dinâmico do capitalismo mundial.</p>
<p>O sofrimento humano gerado pela contenção do dinamismo econômico desde então tem se expressado não apenas pela destruição de postos de trabalho que faz aumentar o desemprego e por consequência a pobreza e a desigualdade social. Pior, provoca crescente perda da esperança de que seja possível construir um mundo melhor, capaz de manter aceso o horizonte de maiores oportunidades para grande parcela da juventude.</p>
<p>O foco difusor dos distúrbios que se pronunciam também nesta segunda manifestação da crise global, iniciada há quase três anos, segue intocável. O mercado financeiro, que se tornou o segmento mais globalizado e detentor das mais altas taxas de lucratividade, permanece o menos comprometido com a sustentação do desenvolvimento. Por conta disso, registra-se atualmente que, diferentemente da primeira onda de manifestação da crise global em 2008, quando houve a convergência de intervenções governamentais antidepressivas, as medidas adotadas são de caráter pró-cíclicas, evidenciadas pelo corte no gasto público e elevação da carga fiscal voltada à reorganização das abaladas finanças públicas.</p>
<p><span id="more-121"></span></p>
<p>O resultado direto disso deverá ser o aprofundamento da desaceleração da economia mundial, muito provavelmente a recessão. Nesse sentido, o prazo da melhora possível das finanças públicas será ampliado, especialmente nos países desenvolvidos que já convivem com o agravamento dos problemas sociais (desemprego em alta e aumento da desigualdade de renda e pobreza).</p>
<p>Neste contexto de restrição interna, resta ao setor externo o papel principal de animação dessas economias, por meio dos estímulos à exportação derivada da desvalorização cambial e desoneração fiscal. Assim, o acirramento da competição global deverá ser o resultado final. Se a produção do conjunto da economia mundial se desacelera ou decresce, o quadro de maior competitividade externa repercute direta ou indiretamente no comportamento do mercado interno de indistintos países. Com importados mais baratos competindo com bens e serviços gerados internamente, a inflação tende a desabar, bem como pode ser alterada profundamente a composição da produção, sobretudo nos países não desenvolvidos.</p>
<p>A reversão dessa marcha mundial é imprescindível. Enfrentar os dilemas da falta de solidariedade global é tarefa inadiável, especialmente no que diz respeito ao restabelecimento da cooperação necessária à redefinição do padrão de desenvolvimento sustentado e sustentável ambientalmente.<br />
Para isso, a retomada de ações voltadas à regulação do mercado financeiro e implementação da taxação sobre transações financeiras por alguns governos de países como França e Alemanha apresenta-se contemporânea às exigências de superação da crise global três anos depois de seu início. Não pode mais continuar sendo a vítima disso tudo (setor produtivo e trabalhadores) a principal desaguadora de todo o ônus da crise global gerada por posturas descomprometidas com o desenvolvimento global como encontrado no mercado financeiro atualmente.</p>
<p>Ao mesmo tempo em que se registra o avanço de uma segunda onda de manifestação da crise global, percebe-se a oportunidade para o Brasil experimentar novas e mais ousadas medidas de defesa da produção e do emprego nacional, conforme verificado em alguns países (China, Inglaterra, França, Índia e Noruega). Três modalidades de políticas governamentais poderiam ser consideradas. Inicialmente, aquelas atinentes ao reforço da articulação e coordenação de ações defensivas da produção e do emprego em âmbito regional. Para o Brasil, a possibilidade de combinar políticas econômicas e sociais de valorização do mercado interno concomitante com decisões equivalentes nos países sul-americanos, especialmente do Mercosul.</p>
<p>A segunda modalidade de políticas governamentais envolveria a utilização alternativa de recursos alocados pelo fundo soberano para o fortalecimento do setor produtivo. No Brasil, cuja estrutura produtiva encontra-se fortemente internacionalizada, a possibilidade da aquisição de ativos de empresas estratégicas, especialmente aquelas com valor de suas ações desvalorizadas.</p>
<p>Por fim, a modalidade de políticas governamentais associada à progressividade do sistema tributário. Para o Brasil, que possui uma tributação extremamente regressiva, ou seja, assentada nos segmentos de menor poder aquisitivo, a possibilidade de corrigir distorções na tributação direta como o Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (ITR), Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana (IPTU), Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) e o Imposto de Renda (IR). Ao mesmo tempo, a oportunidade de introduzir definitivamente o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), cujo resultado geral, além da elevação da contribuição ao fundo público ou compensação para desonerações fiscais aos segmentos de menor renda, fortaleceria o grau de coesão social.</p>
<p>Essas distintas modalidades de políticas públicas a serem consideradas não devem excluir outras iniciativas. A crise global é uma grande doença que precisa ser enfrentada com coragem e determinação, sem abandonar o sentido geral de constituição de um país soberano e cada vez mais menos injusto.</p>
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		<title>Padrão de trabalho pós-neoliberal</title>
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		<pubDate>Fri, 07 Oct 2011 20:01:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pochmann</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Na passagem para o século XXI, o Brasil alterou profundamente o padrão de trabalho da totalidade de sua mão de obra. Por padrão de trabalho entende-se a dinâmica de geração dos empregos segundo faixa de remuneração, isto é, o sentido geral de evolução do nível ocupacional e do rendimento recebido pelo conjunto dos trabalhadores. No [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Na passagem para o século XXI, o Brasil alterou profundamente o  padrão de trabalho da totalidade de sua mão de obra. Por padrão de  trabalho entende-se a dinâmica de geração dos empregos segundo faixa de  remuneração, isto é, o sentido geral de evolução do nível ocupacional e  do rendimento recebido pelo conjunto dos trabalhadores.</p>
<p>No capitalismo, o nível geral de emprego da mão de obra termina sendo  determinado por diversas variáveis, especialmente pela dinâmica  macroeconômica, que estabelece as condições gerais de uso e remuneração  do trabalho. Em síntese, o perfil dos rendimentos e a dinâmica da  ocupação definem o padrão de trabalho da mão de obra.</p>
<p>No caso brasileiro, percebe-se , entre as décadas de 1990 e 2000, o  padrão de trabalho pelo diferencial de geração quantitativa e  qualitativa do emprego da mão de obra. Na década de 1990, não somente  prevaleceu o menor ritmo na geração de postos de trabalhos como o  diferencial perfil de remuneração paga aos ocupados. Isso porque foram  abertos 11 milhões de novos postos de trabalho nos anos 1990, sendo  53,6% do total sem remuneração. Na faixa de renda de até 1,5 salário  mínimo, houve a redução líquida de 300 mil postos de trabalho. Esse  padrão de emprego da mão de obra diferenciou-se significativamente do  verificado na década de 2010.</p>
<p><span id="more-118"></span></p>
<p>No primeiro decênio do século XXI houve forte dinamismo nas ocupações  geradas e no perfil remuneratório. Do total líquido de 21 milhões de  postos de trabalho criados, 94,8% foram com rendimento de até 1,5  salário mínimo mensal. Nas ocupações sem remuneração (por conta própria,  autônomo, trabalho independente, de cooperativa, aprendiz, estagiário,  entre outras) houve a redução líquida de 1,1 milhão de postos de  trabalho, enquanto na faixa de cinco salários mínimos mensais a queda  total atingiu 4,3 milhões de ocupações. Em síntese, houve avanço das  ocupações na base da pirâmide social.</p>
<p>O registro de dois diferentes padrões de trabalho verificados na virada do século XX implicou conformar diferenciadamente o perfil remuneratório da mão de obra ocupada no Brasil. Nos anos de 1990, por exemplo, 34,3% do ocupados possuíam remuneração de até 1,5 salário mínimo mensal, enquanto na década de 2000 eram 47,8% na mesma faixa de remuneração. Os trabalhadores sem remuneração mantiveram-se estabilizados na faixa abaixo de 12% nos dois anos selecionados, embora os postos de trabalho com rendimento acima de cinco salários mínimos mensais tenham passado de 16,7% para 7,5% do total das ocupações.</p>
<p>Na década de 2000, o sentido das ocupações segundo remuneração alterou-se profundamente. De um lado, a forte expansão dos postos de trabalho com rendimento de até 1,5 salário mínimo mensal, acompanhado da redução das vagas tanto sem remuneração como de maior rendimento. Assim, os ocupados de até 1,5 salário mínimo mensal aproximaram-se da metade do total das ocupações existentes em 2009, o que contribuiu para a redução da desigualdade entre as diferentes faixas de rendimento do trabalho.</p>
<p>Em virtude desse movimento mais recente de modificação na dinâmica remuneratória das ocupações, percebe-se a concentração dos postos de trabalho abertas na base da pirâmide social. A força do conjunto dos rendimentos dos trabalhadores de salário de base impulsionou a modificação significativa na estrutura da massa de remuneração do conjunto dos ocupados brasileiros. Em 2009, por exemplo, os ocupados com até 1,5 salário mínimo absorviam 24,5% do total da remuneração do trabalho no país, enquanto em 1989 recebiam 22,3% do conjunto dos rendimentos.</p>
<p>Para os ocupados que recebem mais de cinco salários mínimos, a participação no total das remunerações do País era de 35,3% em 2009 ante 45,2% em 1989. Em 1999, a composição dos rendimentos do trabalho registrou menor peso para os ocupados com até 1,5 salário mínimo mensal e mais participação daqueles com cinco salários mínimos e mais, quando comparada à do ano de 2009.</p>
<p>Tendo em vista a importância do emprego de baixa remuneração, que constitui a base da pirâmide distributiva do conjunto dos rendimentos do trabalho, ou seja, 47,8% do total da força de trabalho ocupada e 24,5% das remunerações do País, nota-se que a sua evolução recente encontra-se diretamente relacionada às transformações mais gerais da economia e da sociedade brasileira. Esse segmento social em especial não poderia estar associado ao conceito de classe média ascendente, tendo em vista as peculiaridades das ocupações e remuneração, conforme a literatura recente parece fazer crer. O debate a respeito da definição de classe social no capitalismo, em particular classe média, assume maior complexidade, para o qual pressupõe maior profundidade e investigação.</p>
<p>Em conformidade com a literatura internacional, esse segmento social deveria ser mais bem considerado na categoria analítica de trabalhadores de baixa renda, pois se trata fundamentalmente de ocupados de salário de base. A sua presença, em maior ou menor expressão, revela o padrão de trabalho existente e, por consequência, o modelo de expansão macroeconômica do País. Na maior parte dos casos, a categoria dos trabalhadores de baixa renda trata das ocupações que se encontram no entorno do salário mínimo oficial, cujo valor real determina a presença – em maior ou menor medida – de trabalhadores pobres e sua relação com o nível de consumo.</p>
<p>Após a regressão neoliberal, o Brasil passou a conviver com outro padrão de trabalho. Ainda que mais positivo, o sentido geral da ocupação e remuneração pós-neoliberal pressupõe avanços maiores a serem constituídos por um projeto nacional de desenvolvimento superior.</p>
<p><strong><em>Este artigo é parte integrante da Fórum 102.</em></strong></p>
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		<title>Agir ao inverso</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Sep 2011 21:39:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pochmann</dc:creator>
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		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
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		<description><![CDATA[Aperfeiçoar e aprofundar o eixo central do caminho perseguido pelo governo Lula torna-se um dos principais méritos da presidenta Dilma, garantindo que o conjunto dos resultados positivos obtidos até então possam ser mantidos nos próximos anos. Ou seja, o crescimento econômico acelerado e gerador de oportunidades menos desiguais e não tão agressivas ao meio ambiente. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aperfeiçoar e aprofundar o eixo central do caminho perseguido pelo governo Lula torna-se um dos principais méritos da presidenta Dilma, garantindo que o conjunto dos resultados positivos obtidos até então possam ser mantidos nos próximos anos. Ou seja, o crescimento econômico acelerado e gerador de oportunidades menos desiguais e não tão agressivas ao meio ambiente.</p>
<p>Nessa perspectiva, o Brasil poderá se situar, ao final do governo Dilma, entre as cinco economias mais importantes do mundo, tendo superado a pobreza extrema, uma das piores mazelas do capitalismo do século passado. Além disso, com o conjunto de obras previstas e já em curso, a matriz energética nacional manter-se-á entre as mais limpas do planeta, o que poderá tornar-se uma das primeiras experiências de combinação do desenvolvimento com sustentabilidade ambiental.</p>
<p>Isso não significa, contudo, algo trivial, tampouco a mera reprodução de uma cópia do governo anterior. Crescer de forma sustentada e com a redução das desigualdades sociais e regionais impõe sérias e fundamentais decisões governamentais frente ao contexto internacional desfavorável que se prolonga desde a crise global de 2008. Mesmo os países que conseguiram passar quase imunes à crise internacional não apresentam as mesmas qualidades para reduzir desigualdades sociais e desenvolver-se com sustentação ambiental, como nos casos da China e Índia.</p>
<p><span id="more-114"></span></p>
<p>Por isso, a aprendizagem com os erros do passado, bem como as medidas acertadas pelo presidente Lula, tenderão a confirmar o grau de maturidade alcançado pelo novo governo progressista no Brasil. O conteúdo dos dois discursos apresentados nos eventos de posse da presidenta Dilma evidencia o seu compromisso maior pela continuidade da transformação da luta contra a pobreza multidimensional no principal vetor de expansão econômica sustentada e de mobilidade social ascensional. O programa Brasil sem Miséria, anunciado recentemente, aponta para esse objetivo, com a reunião de esforços de todo o governo em iniciativas capazes de atender com serviços públicos, garantia de renda e oportunidades de inclusão produtivas ao núcleo duro da pobreza nacional.</p>
<p>Essa perspectiva somente se tornou realidade na medida em que houve coragem política suficiente para desconstruir o tripé ideológico liberal-conservador que por vários anos aprisionou os ocupantes do Palácio do Planalto. De um lado, a concepção atrasada de que as políticas sociais ampliadas representavam custos ineficientes ao setor produtivo e, de outro, a visão míope de que a política ambiental ativa constituía um entrave ao avanço econômico. Por fim, a perversidade da crença de que os recursos necessários à infraestrutura seriam de responsabilidade exclusiva do setor privado.</p>
<p>Atualmente, percebe-se generalizadamente, até mesmo para os que não apoiavam o fortalecimento das políticas sociais, que elas possibilitaram enfrentar a crise financeira internacional, sustentar a demanda interna ao setor produtivo e, por consequência, aumentar o nível do emprego, sobretudo o formal. Os resultados obtidos imediatamente não satisfizeram à emergência da crise internacional, mas soldaram a alternativa estrutural de o Brasil seguir descontaminado do cenário vivido pelas economias ricas. Neste terceiro ano da crise global, o antigo centro dinâmico do capitalismo mundial (Estados Unidos, União Europeia e Japão) segue apontando para a prevalência do quadro de desânimo de semi-estagnação e piora dos indicadores sociais, especialmente o aumento da pobreza e desigualdade de renda.</p>
<p>A decisão política adotada pela presidenta Dilma de provocar a desaceleração consciente do conjunto das atividades econômicas no início de 2011 buscou convergir a finalidade estratégica de sustentação dos investimentos, a base da garantia do desenvolvimento no médio e longo prazos. Mesmo assim, a desaceleração coordenada não se mostrou ainda suficiente para dar conta de questões inadiáveis, como a desindustrialização assentada em vários focos, a partir da prevalência da valorização do real. Sem agir ao inverso, o Brasil aprofunda sua inserção mundial cada vez mais amparado na produção de bens primários, o que pode garantir excedente comercial e estímulo ao crescimento econômico, embora sem ocupações de qualidade e internalização do desenvolvimento científico e tecnológico.</p>
<p>Também nos planos social e ambiental, sabe-se que, no conjunto dos desafios deste início do século XXI, cabe aos países não só a erradicação da pobreza e das desigualdades, mas a construção de uma nova plataforma do desenvolvimento em bases pós-industriais. O conhecimento como espinha vertebral da organização da estrutura produtiva e ativo aglutinador do desenvolvimento total da sociedade. A refundação do Estado não parece trivial, porém constitui a ponte que vai permitir a passagem ao novo e superior padrão civilizatório.</p>
<p>De um lado, o fortalecimento do Estado torna-se peça necessária da engrenagem a garantir a sustentação do espaço público e a efetividade do regime democrático diante da supermonopolização do capital expressa pelo poder crescente das grandes corporações transnacionais. Somente 500 delas respondem atualmente pela metade do PIB mundial, chegando a ser maiores que países e suficientes para impor os seus interesses de lucro acima do bem comum das nações. A reinversão da competição e colaboração entre os agentes econômicos ocorrerá na medida em que o Estado se reposicione também mais favoravelmente aos micro e pequenos empreendimentos. De outro lado, o Estado refundado pressupõe uma nova matriz de organização administrativa, capaz de permitir seu funcionamento matricial (no plano horizontal) e articulado descentralizadamente (no plano vertical). A lógica da setorialização das ações estatais mostra-se cada vez menos funcional e de alto custo. Ampliar o fundo público por meio de uma reforma que torne justa o sistema tributário, com progressiva tributação sobre a propriedade e suas formas de rendimento (lucro, juros, renda da terra e aluguéis), é tarefa essencial.</p>
<p>O Brasil do presente e herdado pela presidenta Dilma é muito diferente daquele recebido pelo presidente Lula. Este patamar de país distinto exige uma maneira distinta na forma de agir por parte do governo e da sociedade. As condições objetivas existem e devem ser usadas em prol da continuidade no caminho que possibilite levar ao pleno desenvolvimento nacional.</p>
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		<title>O neoliberalismo resiste</title>
		<link>http://revistaforum.com.br/marciopochmann/2011/08/25/o-neoliberalismo-resiste/</link>
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		<pubDate>Thu, 25 Aug 2011 17:22:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pochmann</dc:creator>
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		<category><![CDATA[governo FHC]]></category>
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		<category><![CDATA[L. C. Mendonça de Barros]]></category>
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		<description><![CDATA[O resultado do processo político das três últimas eleições nacionais parece não ter sido suficiente para inibir – pelo menos – a arrogância dos defensores do neoliberalismo no Brasil. Permanecem resistentes como se nada houvesse mudado na sociedade, fazendo desconhecer, inclusive, a regressão socioeconômica pela qual mantiveram o país prisioneiro por quase duas décadas. No [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O resultado do processo político das três últimas eleições nacionais  parece não ter sido suficiente para inibir – pelo menos – a arrogância  dos defensores do neoliberalismo no Brasil. Permanecem resistentes como  se nada houvesse mudado na sociedade, fazendo desconhecer, inclusive, a  regressão socioeconômica pela qual mantiveram o país prisioneiro por  quase duas décadas. No ano 2000, por exemplo, o Brasil situava-se na  posição de 14ª economia do mundo, ocupando o terceiro posto no ranking  do desemprego global, enquanto em 1980 encontrava-se entre as oito  economias mais importantes do planeta e estava na 13ª posição do  desemprego mundial.</p>
<p>A estabilização monetária a partir do Plano Real foi um avanço, não  obstante a demora assistida até a sua obtenção, após mais de quatro anos  de experimentalismo neoliberal. Por conta disso, o Brasil se tornou um  dos últimos países a superar a superinflação, posto que desde os anos  1990 ela praticamente se afastou do alto patamar verificado nas décadas  de 1970 e 1980. Mesmo assim, a estabilidade monetária obtida no país  desde 1994 se mostrou incompleta e insuficiente para permitir a volta  sustentável ao desenvolvimento nacional, uma vez que o dinamismo  econômico esteve contido e extremamente vulnerável, com perversos  efeitos sociais. Naquela época, por exemplo, bastava que algum país  tossisse para que o Brasil registrasse uma baita pneumonia, o que foi  comprovado nas crises financeiras da segunda metade da década de 1990  (mexicana, asiática e russa). Todas elas, por sinal, acompanhadas tanto  pela elevação interna dos juros e da carga tributária como pela  contração do gasto público e dos investimentos. O resultado era a  ampliação do desemprego e a redução da participação dos salários na  renda nacional. Com isso, o conjunto da renda dos proprietários (lucro,  juro, aluguel e renda da terra) se mantinha inatingível e com maior  presença na riqueza do país.</p>
<p>O contrário ocorreu em 2008, quando os países ricos se contaminaram com  uma grave pneumonia que atingiu o mundo todo. O Brasil, contudo, acusou  um resfriado. Um ano depois, a economia nacional encontrava-se entre as  sete principais do mundo, ao passo que, juntamente com a China e a  Índia, transformou-se em uma das novas locomotivas a puxar o crescimento  econômico global. Evidentemente, isso não resultou de simples mágica,  mas da alteração profunda nas opções de políticas econômicas e sociais  desde o primeiro mandato do governo Lula. O corte gradual na taxa de  juros, com suave recomposição da carga tributária, ocorreu  simultaneamente à difusão dos investimentos e do gasto público, com  elevação real do poder aquisitivo do salário mínimo e a ampliação da  rede de proteção social. Mesmo durante a crise global do capitalismo, em  2008, o Brasil seguiu reduzindo a pobreza e a desigualdade de renda, a  ponto de oferecer até 2015 o horizonte de superação da miséria e do  reposicionamento da economia nacional entre as cinco mais importantes do  mundo. É nesse contexto que a participação do rendimento do trabalho  voltou a recuperar o terreno perdido frente à renda do conjunto dos  proprietários. O quadro atual é de escassez de mão de obra qualificada,  somente vivido pelo país durante a primeira metade da década de 1970.</p>
<p><span id="more-110"></span></p>
<p>Apesar disso, os defensores do neoliberalismo seguem atualmente  inflexíveis, com críticas contínuas ao papel do Estado e ao gasto  público, bem como à ausência das reformas de segunda geração  (privatização do que ficou, como o Banco do Brasil, a Petrobrás, a  Eletrobrás, a previdência e assistência social, entre outros). Exemplos  disso não faltam e podem ser encontrados recorrentemente na mídia, como  no caso dos artigos publicados no jornal <em>Valor Econômico</em>, no dia 13 de  junho, e, especialmente, na <em>Folha de S.Paulo</em>, do dia 17 de junho, quando  L. C. Mendonça de Barros introduziu uma novidade mágica. Ou seja, a  atribuição ao governo FHC – do qual participou ativamente na  privatização do setor produtivo estatal – a responsabilidade principal  pela construção da nova economia brasileira. Para isso, utilizou-se do  argumento central relativo à evolução real da massa de salários para  negar a existência de uma “herança maldita” ao governo Lula.</p>
<p>Interessante a resistência dos neoliberais, sobretudo em argumentos como  os adotados por Mendonça de Barros, que considera o comportamento da  remuneração do trabalho desconectado da evolução da renda dos  proprietários no Brasil. Destaca-se que a estabilidade monetária obtida  nos governos Itamar/FHC não recompôs a distribuição entre lucros e  salários, mantendo-a aberta à sangria dos juros altos e do elevado  desemprego. Somente a ruptura com as políticas de corte neoliberal  durante o governo Lula permitiu que a participação do rendimento do  trabalho na renda nacional passasse a crescer continuamente,  ultrapassando o peso relativo da renda somada dos proprietários e mista  ao final da década de 2000.</p>
<p>Entre 1990 e 1996, por exemplo, a participação do rendimento do trabalho  na renda nacional diminuiu 15,4%, com sua leve e não sustentável  recuperação de 4,9% entre 1996 e 2001. De 2001 a 2004 houve nova queda  de 2,1% no peso relativo do rendimento do trabalho na renda nacional,  para, a partir de então, registrar a tendência de elevação dos salários  acima da renda dos proprietários, cuja estimativa de aumento acumulado  seria de 10,3% até 2010. Neste ano, em especial, o peso relativo do  total da remuneração dos trabalhadores na renda nacional teria  ultrapassado o conjunto das demais rendas pela primeira vez desde a  ascensão das políticas neoliberais. Ou seja, quase 20 anos depois.</p>
<p>A resistência dos neoliberais segue inviabilizada pela verdade dos  fatos. Seus argumentos procuram menosprezar o sucesso das políticas  econômicas e sociais atuais, quando, na realidade, nada apresentam de  conexão com a regressão socioeconômica da década de 1990. Apenas a  ilustração referente à evolução da distribuição funcional da renda  nacional permite constatar o sucesso do Brasil pós-neoliberal.</p>
<p><em>Esta coluna faz parte da <a href="http://www.revistaforum.com.br/conteudo/edicao_mes.php" target="_blank">edição nº 100 de <strong>Fórum</strong></a>.</em></p>
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		<title>A nova divisão internacional do mundo</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Jun 2011 13:35:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Pochmann</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Até a metade do século XVIII, o espaço geográfico que compreende os países asiáticos respondia pela maior parte da produção mundial, tendo em vista a combinação de sua grande dimensão populacional e territorial. Com o surgimento da primeira Revolução Industrial (motor a vapor, ferrovias e tear mecânico), a partir de 1750, o centro dinâmico do mundo deslocou-se para o Ocidente, especialmente para a Inglaterra, que rapidamente se transformou na grande oficina de manufatura do mundo por conta de sua original industrialização.</p>
<p>A divisão internacional do trabalho, que resultou do movimento de deslocamento da estrutura da produção e exportação na manufatura inglesa em relação aos produtos primários exportados pelo resto do mundo, sofreu modificações importantes somente com o avanço da segunda Revolução Industrial (eletricidade, motor a combustão e automóvel) no último quartel do século XIX. Naquela época, a onda de industrialização retardatária em curso nos Estados Unidos e Alemanha, por exemplo, protagonizou as principais disputas em torno da sucessão da velha liderança inglesa. A sequência de duas grandes guerras mundiais (1914 e 1939) apontou não apenas para o fortalecimento estadunidense como permitiu consolidar o novo deslocamento do centro dinâmico mundial da Europa (Inglaterra) para a América (EUA).</p>
<p>Com a Guerra Fria (1947 – 1991), prevaleceu a polarização mundial entre o bloco de países liderados pelos Estados Unidos e pela antiga União Soviética. Na década de 1970, com a crise capitalista impulsionada pela elevação dos preços de matéria-prima e petróleo, a economia dos EUA apresentou sinais de enfraquecimento, simultaneamente ao fortalecimento da produção e exportação japonesa e alemã. Especialmente com a adoção das políticas neoliberais pelos EUA, o mundo novamente voltou a se curvar ao poder norte-americano, sobretudo nos anos 1990, com o desmoronamento soviético que favoreceu o exercício unipolar da dinâmica econômica mundial.</p>
<p><span id="more-104"></span></p>
<p>A manifestação da grave crise global desde 2008 tornou mais claro o conjunto de sinais da decadência relativa dos Estados Unidos. A ineficácia das políticas neoliberais e o poder concentrado e centralizado das grandes corporações transnacionais adonaram-se do Estado em grande parte dos países desenvolvidos, sendo responsável pela adoção de políticas caracterizadas como “socialismo dos ricos”. Enquanto os trabalhadores pagam com a perda de seus empregos e a precarização das ocupações, os grandes grupos econômicos se ajustam com grandes somas do orçamento público, este, incapaz de recuperar a dinâmica produtiva, priorizando a financeirização da riqueza.</p>
<p>Simultaneamente, percebe-se o reaparecimento da multicentralidade geográfica mundial com um novo deslocamento do centro dinâmico da América (EUA) para a Ásia (China). Ao mesmo tempo, países de grande dimensão geográfica e populacional voltaram a assumir maior responsabilidade no desenvolvimento mundial, como no caso da China, Brasil, Índia, Rússia e África do Sul, que já respondem atualmente pela metade da expansão econômica do planeta. São cada vez mais chamados de “países baleia”, que procuram exercer efeitos sistêmicos no entorno de suas regiões, fazendo avançar a integração supra-regional, como no caso do Mercosul e Asean, que se expandem com maior autonomia no âmbito das relações Sul-Sul. Não sem motivos, demandam reformulações na ordem econômica global (reestruturação do padrão monetário, exercício do comércio justo, novas alternativas tecnológicas, democratização do poder e sustentabilidade ambiental).</p>
<p>Uma nova divisão internacional do trabalho se vislumbra associada ao desenvolvimento das forças produtivas assentadas na agropecuária, mineração, indústria e construção civil nas economias “baleia”. Também ganham importância as políticas de avanço do trabalho imaterial conectado com a forte expansão do setor de serviços. Essa inédita fase do desenvolvimento mundial tende a depender diretamente do vigor dos novos países que emergiram cada vez mais distantes dos pilares anteriormente hegemônicos do pensamento único (equilíbrio de poder nos Estados Unidos, sistema financeiro internacional intermediado pelo dólar e assentado nos derivativos, Estado mínimo e mercados desregulados), atualmente desacreditados.</p>
<p>Nestes termos, percebe-se que a reorganização mundial desde a crise global em 2008 vem se apoiando numa nova estrutura de funcionamento que exige coordenação e liderança mais ampliada. Os “países baleia” podem contribuir muito para isso, tendo em vista que o tripé da nova expansão econômica global consiste na alteração da partilha do mundo derivada do policentrismo, associado à plena revolução da base técnico-científica da produção e do padrão de consumo sustentável ambientalmente.</p>
<p>A conexão dessa totalidade nas transformações mundiais requer o resgate da cooperação e integração supranacional em novas bases. A começar pela superação da antiga divisão do trabalho entre países assentada na reprodução do passado (menor custo de bens e serviços associado ao reduzido conteúdo tecnológico e valor agregado dependente do uso trabalho precário e da execução em longas jornadas sub-remuneradas). Com isso, o desenvolvimento poderia ser efetivamente global, evitando combinar a riqueza de alguns com a pobreza de outros.</p>
<p>As decisões políticas de hoje tomadas pelos países de grandes dimensões territoriais e populacionais podem asfaltar, inexoravelmente, o caminho do amanhã voltado à constituição de um novo padrão civilizatório global. Quem sabe faz acontecer, como se pode observar pelas iniciativas brasileiras recentes. Todavia, elas ainda precisam ser crescentemente aprimoradas, avançando no enfrentamento dos problemas de ordem emergencial, como valorização cambial e elevada taxa de juros, que comprometem a competitividade, para as ações estratégicas que atuam sobre a nova divisão internacional do trabalho.</p>
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