Na noite em que Zohran Mamdani fez história ao se tornar o primeiro prefeito muçulmano e millennial de Nova York, os holofotes não se voltaram apenas para ele. Ao seu lado, Rama Duwaji, de 28 anos e representante da geração Z, atraiu os olhares com um visual carregado de propósito político e cultural, transformando sua estreia como primeira-dama em uma declaração de identidade e pertencimento geracional.
Como integrante de uma geração que transforma a moda em discurso, Duwaji representa uma juventude que usa o vestir para questionar padrões e afirmar causas. Seu estilo mistura arte, autenticidade e posicionamento político — traduzindo o olhar de quem enxerga a estética como ferramenta de resistência e a imagem como linguagem de engajamento social.
Te podría interesar
LEIA TAMBÉM: Muçulmano e socialista, Zohran Mamdani faz história e conquista prefeitura de Nova York
A celebração da vitória do “socialista democrático” — conhecido por defender o congelamento de aluguéis, creches universais e mercados públicos — apresentou ao mundo uma nova figura pública: uma artista sírio-americana que faz da moda um discurso sobre arte, identidade e ativismo político, unindo estética e propósito em um mesmo gesto.
Te podría interesar
Um novo estilo político
O prefeito mais jovem de Nova York desde 1892 representa não apenas uma mudança geracional, mas também uma nova estética na política. Longe dos ternos engomados e das gravatas convencionais, Mamdani prefere alfaiataria descontraída e anéis de prata, transmitindo autenticidade e proximidade com a juventude que o elegeu.
Ao seu lado, Rama Duwaji traduz esse mesmo espírito. Animadora e ilustradora, ela rompe com o estilo protocolar de uma primeira-dama tradicional. Na noite da vitória, optou por um visual pessoal e artístico, fiel ao seu cotidiano, mas também carregado de mensagens e valores.
Moda com mensagem
Rama usou um top preto sem mangas em jeans recortado a laser, criado por Zeid Hijazi, designer palestino-jordaniano radicado em Londres e formado pela prestigiada Central Saint Martins, referência mundial em design e moda.
Vencedor do Fashion Trust Arabia — prêmio que reconhece talentos do mundo árabe e impulsiona novas vozes no cenário global — Hijazi vem se destacando por uma estética ousada que combina artesanato tradicional do Oriente Médio com elementos de alta-costura e narrativas futuristas.
Seu trabalho parte de uma proposta conceitual: reinterpretar a herança palestina e as subculturas árabes contemporâneas sob a lente do futurismo distópico e da rebeldia estética. Ele se inspira em temas como civilizações antigas, misticismo, identidade queer e resistência política, criando peças que transitam entre o gótico, o experimental e o artesanal.
Em suas coleções, Hijazi frequentemente utiliza materiais reciclados, cortes assimétricos e técnicas manuais de bordado, buscando expressar a tensão entre memória e modernidade, tradição e ruptura. Seu manifesto artístico declara a intenção de “projetar o futuro árabe a partir das ruínas do passado colonial”.
Mais do que roupas, suas criações funcionam como comentários visuais sobre identidade e poder. E foi justamente essa linguagem que Rama Duwaji escolheu vestir — uma peça que traduz não apenas sofisticação estética, mas também solidariedade cultural e posicionamento político.
A peça foi combinada com uma saia de veludo e renda da designer nova-iorquina Ulla Johnson, cuja marca valoriza o artesanato e a feminilidade contemporânea.
Ela completou o look com brincos esculturais de Eddie Borgo, outro nome independente da moda nova-iorquina.
O resultado foi um visual sofisticado e profundamente simbólico. Para Duwaji, vestir Hijazi foi um gesto de solidariedade às vítimas da guerra em Gaza e também de apoio aos artesãos e trabalhadores da indústria têxtil nova-iorquina.
Em setembro, ela já havia demonstrado engajamento semelhante ao comparecer à primeira fila do desfile da marca Diotima, da estilista caribenha Rachel Scott.
O ativismo de Rama Duwaji
Além de artista visual, Rama Duwaji é também uma voz ativa no campo do ativismo político e humanitário. Filha de imigrantes sírios e criada entre múltiplas culturas, ela usa sua arte como plataforma para denunciar injustiças sociais e promover a solidariedade entre povos do Oriente Médio e das diásporas árabes.
Suas ilustrações e animações exploram temas como identidade, gênero, migração e resistência, com especial atenção às mulheres palestinas e sírias que vivem sob conflito. Em suas redes sociais, Duwaji compartilha trabalhos que dialogam com o noticiário — cartazes de protesto, retratos de vítimas civis e composições que unem poesia visual e crítica política.
Durante os bombardeios em Gaza, ela produziu uma série de pôsteres com a frase “End the genocide” (“Acabem com o genocídio”), que viralizou entre artistas e ativistas internacionais.
Também colaborou com campanhas em apoio à Global Sumud Flotilla, movimento civil que denuncia o bloqueio israelense à Faixa de Gaza, e realizou animações sobre a violência no Sudão e as operações do ICE — agência de imigração dos Estados Unidos — contra imigrantes.
Suas obras já foram publicadas em veículos como The New Yorker, The Washington Post e VICE, consolidando seu nome entre as novas artistas árabe-americanas que unem arte e engajamento político.
Para Duwaji, criar é uma forma de resistir e dar voz aos silenciados, como ela declarou em entrevista à revista Yung em abril deste ano.
“Com tantas pessoas sendo expulsas e silenciadas pelo medo, tudo o que posso fazer é usar minha voz — e minha arte — para falar sobre o que está acontecendo nos Estados Unidos, na Palestina e na Síria.”
Assim, sua atuação transcende o ateliê: Rama Duwaji transforma o ato de desenhar em um gesto de solidariedade internacional e empatia política, reafirmando que a arte, a estética e a militância podem caminhar lado a lado.
Quando o vestir é um ato político
Primeiras-damas historicamente usaram a moda como forma de comunicação, mas poucas transformaram o ato de se vestir em um gesto político explícito. Michelle Obama foi uma das primeiras a romper esse padrão, equilibrando elegância, empatia e representatividade.
Em um texto publicado na The Cut, Michelle refletiu sobre como a forma de se vestir pode expressar valores, identidade e resistência, especialmente para mulheres e pessoas negras.
Ela parte de uma lembrança simbólica: o quadro de Norman Rockwell que retrata Ruby Bridges, a menina negra que desafiou o racismo ao entrar em uma escola segregada nos anos 1960. Para Michelle, aquela imagem mostra que “nossa aparência comunica quem somos, de onde viemos e no que acreditamos”.
No início da carreira política do marido, Michelle se surpreendeu com o destaque dado às suas roupas — e não às suas ideias. Em vez de se irritar, transformou o estilo em estratégia, usando-o para valorizar causas e pessoas reais: mães, crianças e designers de origens diversas.
“Se queriam ver o que eu vestia, que vissem também o que eu representava”, escreveu.
Michelle também recordou as críticas machistas e racistas que enfrentou e afirmou que, hoje, se sente mais livre e confiante. Para ela, o estilo é um ato de empoderamento e resistência à homogeneização, uma maneira de afirmar a pluralidade.
“Estamos ainda aqui, ainda belas, ainda de cabeça erguida”, escreveu.
O texto antecipa o lançamento de seu novo livro, The Look, que reúne fotos e histórias sobre seu tempo na Casa Branca e sobre o poder simbólico da moda.
Assim como Michelle Obama, Rama Duwaji segue essa mesma lógica — com uma camada geracional. Seu guarda-roupa fala a língua de uma juventude que discute estilo e política no TikTok, analisa desfiles no Substack e entende a moda como ferramenta de expressão e posicionamento.
Uma nova imagem para Nova York
Ao subir ao palco com o marido, Rama não precisou dizer uma palavra. Sua roupa falava por ela — sobre origem, solidariedade, feminismo e autonomia. O visual fugia do padrão “esposa de político” e representava uma Nova York plural, jovem e global.
Enquanto Zohran Mamdani promete renovar a política da cidade, Rama Duwaji já está reinventando o papel de primeira-dama — não como figura decorativa, mas como voz ativa da arte e da diversidade.
Com autenticidade e propósito, ela mostra que a elegância do século 21 pode ser engajada — e que um top de denim inspirado na Palestina pode carregar mais significado do que qualquer vestido de gala.