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O Nobel da Paz foi pra Corina Machado. E Trump? Perdeu, mané – Por Washington Araújo

A Casa Branca fez beicinho, Oslo manteve o pulso firme — e o mundo descobriu que vaidade não traz paz

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Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.
O Nobel da Paz foi pra Corina Machado. E Trump? Perdeu, mané – Por Washington Araújo
Maria Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz 2025. JUAN BARRETO / AFP

Era de se esperar: a revolta de Donald Trump por não conquistar o Nobel da Paz 2025 estourou como tempestade. A decisão do comitê norueguês, anunciada nesta sexta-feira, premiou a líder da oposição venezuelana María Corina Machado — e não o presidente dos Estados Unidos — o que levou a Casa Branca a reagir com fogo e veneno.

Nos principais jornais do mundo, a manchete é unânime: “Trump perde o Nobel da Paz para Corina Machado” (The Guardian); “Trump volta a ficar de fora do Nobel, mesmo com nomeações de peso” (Associated Press); “Comitê do Nobel prioriza política em vez da paz, acusa Casa Branca” (Reuters); “Governo Trump critica escolha e ameaça retaliações” (Bloomberg/análise); e ainda: “Noruega teme reação agressiva de Trump se ele não ganhar o prêmio” (The Guardian).

A frustração da Casa Branca diante da decisão do Nobel da Paz foi explícita. O governo de Donald Trump criticou a decisão do comitê norueguês por conceder o prêmio da paz a María Corina Machado e não ao presidente dos EUA.

“O presidente Trump continuará fazendo acordos de paz, encerrando guerras e salvando vidas. Ele tem o coração de um humanitário, e nunca haverá ninguém como ele, capaz de mover montanhas com a força de sua vontade”, disse o porta-voz da Casa Branca, Steven Cheung, em uma publicação no X.

“O Comitê do Nobel provou que prioriza a política acima da paz”, insistiu. Em outras palavras, o discurso oficial ecoa o ressentimento: Trump afirma ter sido preterido por razões políticas, não por falta de méritos para a paz.

No noticiário internacional, analistas lembram que muitas das nomeações ao Nobel para Trump chegaram após o prazo limite, o que inviabilizou formalmente sua candidatura para 2025 — não era suficiente apenas “ganhar apoios” depois. Também se apontam contradições mais amplas: Trump reivindica papéis de mediador em conflitos globais, como o cessar-fogo entre Israel e Hamas, mas seus críticos questionam até que ponto essas iniciativas foram efetivas — ou se foram exageros retóricos.  

Do lado norueguês, fala-se que o comitê tomou a decisão antes do anúncio público do plano de paz para Gaza, justamente para evitar que o impulso momentâneo influenciasse o resultado.  E há temor oficial em Oslo: autoridades vinham se preparando para uma eventual retaliação diplomática ou econômica por parte de Trump.  

Trump, segundo declarou, já teria “parado oito guerras” — algo que, segundo ele, “nunca antes havia ocorrido” — e essas alegações reforçariam a mágoa de não ser reconhecido.  Em entrevistas anteriores, ele insinuou que seria um “grande ultraje” se não ganhasse.  

Ontem, a Casa Branca se valeu desse discurso heroico: para os apoiadores, Trump é um tipo de redentor global que está sendo injustamente punido. A tática retórica é clara — como ele próprio disse: o comitê “prioriza política acima da paz”.

A repercussão não cai apenas sobre Trump, mas sobre o próprio valor simbólico do Nobel da Paz. Se um ex-presidente tão controverso — com elevada rejeição interna e políticas polarizadoras — é publicamente hostilizado por não receber o prêmio, o Nobel corre o risco de parecer politizado.

Mesmo entre americanos, a desaprovação é expressiva: uma pesquisa do Washington Post–Ipsos mostrava que 76% dos cidadãos acreditam que Trump não merece o Nobel da Paz.  

A decisão de premiar María Corina Machado vai além de ignorar Trump — ela é interpretada por muitos como uma manifestação clara de onde o comitê quis colocar seu voto: na democracia, na oposição ao autoritarismo, no símbolo da resistência venezuelana.  

Talvez isso magnifique ainda mais a ira de Trump — que terá agora de fazer da sua revolta discurso internacional, maratona diplomática e – inevitavelmente – nova narrativa política. 

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum

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