Cinegnose

por Wilson Ferreira

12 de julho de 2017, 13h52

Filme “O Círculo” reforça a “Hipótese Fox Mulder”

Ao lado da torta de maçã e da bandeira estrelada dos EUA, não há nada mais norte-americano do que a imagem do ator Tom Hanks. Pois agora, no filme “O Círculo” (The Circle, 2017) ele é um vilão, o CEO de uma poderosa empresa de tecnologia de informação que emula o Google e o Facebook com sombrios projetos de vigilância e invasão da privacidade global. O que significa um filme estrelado pelo patriótico Tom Hanks denunciando a ameaça de uma dominação orwelliana pelo maior produto norte-americano, a tecnologia da informação desenvolvida pelo Vale do Silício? “O Círculo” transpõe para a ficção toda a agenda crítica relacionada a ameaça da espionagem e vigilância global através das comunicações eletrônicas e do “big data” extraído das redes sociais digitais. Será que a repercussão hollywoodiana das denúncias sobre os supostos planos de dominação global do Vale do Silício confirmaria a hipótese conspiratória do agente especial Fox Mulder da série “Arquivo X”? Seria “O Círculo” uma tentativa de tornar a crítica uma ficção? Assim como os filmes “Margin Call” e “A Grande Aposta” ficcionalizaram os motivos da explosão da bolha financeira de 2008? 

Para aqueles leitores não familiarizados com a chamada “hipótese Fox Mulder”, vamos explicar mais uma vez: em um dos episódios da série Arquivo X vemos o agente especial do FBI, Fox William Mulder, participando como convidado especial de um congresso de Ufologia. 

A certa altura, alguém lhe pergunta o motivo pelo qual ao mesmo tempo em que o governo dos EUA tenta esconder o fenômeno UFO também permite que Hollywood produza tantos filmes sobre invasões alienígenas e OVNIs. E Mulder responde: “para que todos pensem que o fenômeno UFO é do mundo da ficção, coisa de cinema. Por isso, quando surgem notícias verdadeiras, ninguém acredita”.

Assistindo ao filme O Círculo e vendo Tom Hanks no papel de um vilão, misto de Steve Jobs com Mark Zuckenberg (um CEO cujos projetos ameaçam a privacidade de todo o planeta através de uma poderosa tecnologia de vigilância que faria o ex-CIA e NSA Edward Snowden ficar de cabelo em pé), nos perguntamos: por que um ator com uma emblemática imagem patriótica como Hanks (cuja foto facilmente poderia ser colocada ao lado de uma torta de maçã e da bandeira dos EUA) foi contratado para fazer um vilão? 

Mais do que um vilão comum. Um vilão dono de uma empresa (“O Círculo”) que emula as empresas gigantes norte americanas de tecnologia da informação como Google e Facebook. 

O filme O Círculo é uma produção hollywoodiana que pega o carisma patriótico de Tom Hanks para fazer uma síntese de todas as denúncias sobre a invasão de privacidade e controle político das gigantes de tecnologia da informação dos EUA. Misturando alusões a filmes como Show de Truman e A Rede, a narrativa de O Círculo nos faz coçar a cabeça e perguntar: por que Hollywood de repente nos apresenta um filme denunciando os sombrios propósitos dos CEOs do vizinho californiano Vale do Silício?

 

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Wall Street, Hollywood e Vale do Silício

Claro, O Círculo vem aos cinemas num momento em que as denúncias de Snowden impactaram o mundo e as críticas às manipulações do Big Data pelo marketing político (principalmente após a vitória de Trump nas eleições norte-americanas) são mais intensas. Abrindo a suspeita  de que a digitalização das nossas informações privadas nas redes sociais serve a algum propósito oculto que envolva uma nova forma de vigilância, controle e engenharia social. 

Ironicamente, assistimos ao mainstream da indústria cinematográfica, bancado pelos fundos de investimento de Wall Street que também investem nas start ups do Vale do Silício, produzindo um filme denunciando os perigos da perda das fronteiras entre o público e o privado na Internet.

Porém, uma “denúncia” através da linguagem ficcional, na qual vemos a delicada questão que envolve a política das regulamentações públicas e os gulosos interesses das gigantes de tecnologia da informação reduzida a um conflito entre mocinhos e vilões.

 

Por que ficcionalizar uma agenda crítica da oposição às políticas de privacidade do Google e Facebook? Será que o paranoico agente especial Fox Mulder tinha razão? Será que Hollywood não é uma mera máquina de criar fantasias? Será que seu objetivo principal é ficcionalizar questões e denúncias no mundo real para que depois a opinião pública não mais acredite nelas? Será que mais uma vez o patriota Tom Hanks foi escalado, dessa vez como vilão, para limpar a barra do Vale do Silício? Estamos diante de uma engenharia de opinião pública do Google e Facebook?

O Filme

A narrativa do filme segue a clássica Jornada do Herói. Mae Holland (Emma Watson) tem um modorrento trabalho, inserida em uma das baias de uma burocrática empresa. Seu pai sofre de doença degenerativa e, para esquecer dos seus problemas, sobe num caiaque para remar até o meio da Baia de São Francisco para ficar sozinha, longe dos problemas e ter um pouco de privacidade.

Até que um dia recebe o telefonema da sua amiga Annie (Karen Gillan)que trabalha numa poderosa empresa de tecnologia, The Circle, oferecendo-lhe uma oportunidade em um processo seletivo. 

Depois de passar por um estranha entrevista (o entrevistador parece estar mais interessado no mapa das suas associações mentais do que experiência profissional), Annie consegue o emprego: assistência técnica on line aos usuários da empresa, onde é constantemente avaliada pelos próprios usuários. Annie é constantemente estimulada a conquistar as pontuações mais altas.

Nesse momento, a heroína entra em um mundo maravilhoso: uma empresa situada em um imenso campus no qual vemos a rotina de trabalho flexível – festas e atividades esportivas acontecem junto com a jornada de trabalho, enquanto vemos de repente monges budistas passarem (o toque holístico da empresa). Tudo apresentado pela amiga Annie, uma workholic que trabalha 24 horas viajando pelo mundo representando os interesses da empresa.

 

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Até o momento em que Mae participa de uma reunião geral com uma palestra do CEO Eamon Balley (Tom Hanks), no melhor estilo Steve Jobs ou TED-Talk – ele introduz a todos os funcionários o novo projeto: o SeeChange. Uma grande rede mundial formada por imperceptíveis micro câmeras esféricas distribuídas para todo o planeta criando uma estrutura orwelliana de vigilância.

Qual o propósito? Os mais altruístas possíveis: “Compartilhar é demonstrar interesse”, ensina Eamon apontando para a nova moral digital. Em um mundo transparente no qual todos compartilhem com o mundo suas experiências pessoais, não existirão segredos… e, portanto, nem mentiras ou corrupção.

Mae está perplexa e, a princípio, resistente a essa filosofia – com em toda Jornada, o herói no início é relutante. Ainda mais quando gerentes da empresa sugerem a ela que todo o seu final de semana também seja partilhado com The Circle, por meio de vídeos mostrando a todos o que faz em casa e no lazer.

Porém, sua resistência é quebrada quando vê o SeeChange aplicado aos cuidados médicos do seu pai – ele passa a ser monitorado em tempo real pelos médicos da empresa.

Depois de “vestir a camisa” da empresa, Mae tem uma ascensão meteórica, cujo ápice é quando propõe um projeto de sua autoria chamado “SoulSearch”: tecnologia que permite buscar qualquer pessoa que queira com a participação de todos, em qualquer parte do mundo, através de celulares ou tablets conectados com a rede mundial da The Circle.

 

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Do altruísmo à vigilância total

Como sempre, os interesses de início são altruístas: achar pedófilos, por exemplo, ajudando o serviço da polícia. Porém, acaba se voltando contra ela própria e sua família – Mae passa a ser a primeira pessoa monitorada 24 horas por câmeras da SeeChange, transformando sua vida num reality show análogo a Show de Truman. Isso trará consequências mortais ao seu amigo chamado Mercer (Ellar Coltrane): ele é acusado nas redes por haiters de matar cervos para fazer lustres artesanais com chifres de animais.

 

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