Anarca é a mãe

06 de dezembro de 2014, 07h27

Braços demais – o mito da mulher multifuncional

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Essa é a imagem da deusa do patriarcado capitalista: uma mulher com diversos braços, fazendo mil coisas ao mesmo tempo.

Não basta ser mulher. Tem que ser supermãe, mulherão, esposa perfeita, dona de casa impecável, profissional ultraeficiente. Desde pequenas, somos expostas figuras como essa ou às ideias que remetem a ela e nos é ensinado que esse é o ideal a ser alcançado.

Tem que ser mãe. E ser mãe mesmo sem apoio de ninguém, menos ainda do pai da criança – talvez, aliás, ele seja tão inútil ou nocivo que se prefira até mesmo que ele fique longe. Mas a mulher tem que ser mãe, senão ela não é mulher “de verdade”. Não está “realizada”. E não é só mãe, tem que ser a melhor mãe. Supermãe. Tem que amar mais as crianças do que a si mesma (só não mais que ao maridão, né?), tem que viver sorrindo e falando docemente, tem que ter as crianças mais bem-comportadas, mais bem-vestidas, mais estudiosas e mais limpinhas do mundo.

mulher_faztudoTem que ser mulherão. Ser “gostosa”, bonita e perfumada o tempo todo. Tem que faxinar a casa toda e ainda cheirar a sabonete e ter as mãos suaves como algodão. Tem que “se cuidar”, né? Não pode “relaxar”, não pode engordar, não pode deixar de usar maquiagem, tratar cabelos, pele, unhas. Tem que ser bonita até fazendo cocô.

Tem que ser esposa. Porque uma mulher sem marido é como um peixe sem uma bicicleta água. E não basta casar, tem que “segurar seu homem”, e para segurar o seu homem, ela tem que ser perfeita. Não pode incomodar o maridinho, esse ser tão frágil, com seus problemas do dia-a-dia; quando ELE chega em casa é para descansar, porque ele sim trabalha duro, não é como ela, que praticamente não faz nada o dia inteiro. Tem que ser compreensiva com as “necessidades” dele e estar sempre sorrindo e pronta para fazer sexo olímpico de todas as formas que ELE quiser, porque, né, senão ele vai “procurar lá fora”. E aí você pode até “perder seu homem”. Que vergonha (para você).

Tem que ser dona de casa. Mas tem que ser impecável mesmo. A casa tem que estar brilhando, reluzindo, ofuscando “azinimiga”. Cada coisa no seu lugar, nem mesmo um grão de poeira no chão, nenhuma roupa por lavar, nenhum brinquedo espalhado. E, de novo, tudo isso sem deixar as mãos calejarem, sem ficar fedendo a produto de limpeza e SOZINHA. Porque homem não tem jeito para essas coisas, sabe? E, mesmo que tivesse, não se pode atribulá-los com esse tipo de tarefa, porque eles se aborrecem. E não devemos jamais correr o risco de aborrecê-los.

mulher faz tudo 2Tem que ser profissional. Porque, né, mulher que não trabalha está se aproveitando do marido, é vagabunda encostada em homem. Caçadora de pensão. Então ela tem que trabalhar, e muito, mesmo ganhando menos que os homens que fazem o mesmo que ela faz; tem que ser ultraeficiente, na verdade, trabalhar mais que eles, porque tem que se provar o tempo todo, a menos que queira que insinuem que está ali por ter concedido favores sexuais. Muitas vezes ela inclusive agrega tarefas como fazer cafezinho, atender telefone e ser bibelô de escritório, afinal, esses são “papéis femininos”. Homens não são capazes de dominar a complicada ciência de fazer passar água quente por pó de café, ou atender a um telefonema. Além disso, ela tem que ficar de olho na concorrência, já que “não existe amizade entre mulheres”.

Mas não basta exigir tudo isso da mulher. Tem que incutir nela a ideia de que ELA é quem quer isso tudo para si. De que o valor dela é diretamente proporcional à sua proximidade desse paradigma impossível. Que essa sobrecarga, essa martirização, esse moedor de carne feminina, é uma espécie de calvário, algo que lhe enobrece o espírito e a torna uma pessoa melhor. Que todas as outras mulheres são suas adversárias e que é só preenchendo todos esses requisitos o tempo todo que ela vai ganhar das outras. E que ela tem que ganhar das outras. Sempre.

Kali01-282Na religião hindu há uma deusa que se parece com essa imagem – é, aliás, a referência para muitas das versões dela. Kali, segundo a Wikipédia, “É considerada uma manifestação da deusa Parvati, a esposa de Xiva. Aprecia sacrifícios sangrentos e é representada manchada de sangue, com cobras e um colar de crânios de seus filhos”.

Muito menos assustadora, à primeira vista, é a imagem da deusa do patriarcado capitalista. Ela também aprecia sacrifícios de sangue, desde que não menstrual, e suor, de preferência sem cheiro, e lágrimas, desde que sem manchar a maquiagem. Mas muitas vezes é representada sorrindo, olha só.

Porque show deve continuar.

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***Meus agradecimentos a Lulu Anders, que também colaborou no post “Despir para Proteger”, por ter me provocado pela primeira vez a reflexão sobre esse tipo de gravura.

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