Quilombo

por Dennis de Oliveira

24 de junho de 2019, 15h25

A sacada de Glenn e o isolamento do Partido da Lava Jato

Dennis de Oliveira diz no Blog Quilombo: “É questão de tempo para Moro cair, talvez os poderosos de plantão estejam vendo uma forma de descartá-lo evitando fortalecer ainda mais a figura de Lula”

Sergio Moro (Foto: Arquivo/Lula Marques)

A notícia que ganhou destaque na agenda política deste final de semana (antecipada pela Revista Fórum no sábado pelo colega Renato Rovai) foi a parceria entre The Intercept e a Folha de S.Paulo, noticiada na edição de domingo do quase centenário jornal paulista. Na quarta-feira, já tinha sido anunciada a parceria com o colunista Reinaldo Azevedo que, em seu programa na Band, anunciou novos vazamentos da Lava Jato.

Esta notícia é importante pois expressa uma resposta inteligente e rápida de Glenn Greenwald, do The Intercept, ante a ameaças que foram disseminadas (em especial por uma matéria de capa da revista Isto É) de que o aparato da Polícia Federal seria mobilizado para criminalizar os jornalistas que estivessem vazando essas conversas comprometedoras do ex-juiz com os procuradores da Lava Jato.

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Era a cristalização da tática de defesa dos lavajatistas de desviar o foco do conteúdo da conversa (que compromete seriamente todos os atores da operação) para quem vazou a conversa. Esse foi o tom do depoimento de Sérgio Moro no Senado e de das declarações dos lavajatistas. Nas redes sociais, cresceram as hashtags dos bolsonaristas e lavajatistas pedindo a prisão e até a deportação de Glenn, sem contar a fantasiosa história de uma pretensa conspiração que envolveria os russos, Jean Willys, hackers e outros (aliás, esta foi a base da matéria da Isto É).

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Em outros momentos, afirmei que uma das dificuldades que o projeto de transformação do Estado brasileiro em uma instituição autoritária de caráter bonapartista que inspira o bolsonarismo é o enfrentamento com corporações tecnoburocráticas, que se fortaleceram justamente no arranjo institucional da democracia liberal.

A primeira corporação que mostrou sua indignação foi a da educação com as diatribes do MEC. Os cortes e as tentativas de intervir na autonomia universitária por parte dos terraplanistas do MEC uniu segmentos do campo educacional que não necessariamente sejam progressistas ou de esquerda – veja, por exemplo, os posicionamentos dos reitores das universidades estaduais paulistas. E isso redundou em manifestações massivas e vitórias em ações judiciais.

A tática dos lavajatistas agora ataca a imprensa. Entidades como a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e a Repórteres Sem Fronteiras, também com diretorias não necessariamente de esquerda condenaram as posições do ex-juiz e dos lavajatistas, que sinalizam para uma “criminalização” do jornalismo. (Sérgio Moro era convidado do Congresso da Abraji e, depois desta posição da entidade, decidiu não comparecer ao evento).

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Novamente um enfrentamento arriscado contra uma corporação – a dos jornalistas. E, justamente, com quem ele contou fortemente nas suas ações espetaculares da Lava Jato. Mas Moro já tinha mostrado que a liberdade de imprensa é seletiva, pois foi ele que mandou a Polícia Federal intimidar o blogueiro Eduardo Guimarães por este ter divulgado, antes, a intenção de conduzir coercitivamente o presidente Lula.

Greenwald é jornalista experiente e sabe do que os lavajatistas são capazes. Daí, rapidamente, ampliou o seu leque de apoio com a mídia hegemônica. E a primeira informação disseminada pela Folha de S.Paulo foi que constatou-se a veracidade do material. Na quinta-feira, o dono da Bandeirantes responsabilizou a Lava Jato pela crise econômica no país.

Diante de tudo isto, sobrou a Moro falar para a sua plateia mobilizando o sentimento que mais identifica: o pseudo-eruditismo arrogante. O seu tweet de domingo – uma frase do filósofo Horácio em latim – é precedido da fala Um pouco de cultura. Uma classe média medíocre que se regozija de comprar muambas em Miami e acha que ver o Jornal Nacional é estar bem informado tem-no como herói com estas pílulas de cultura de almanaque, no mesmo nível da personagem “Macabéa”, do conto A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, que tinha como única fonte de informação as curiosidades que ouvia em um programa de rádio.

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Só este núcleo de pessoas não sustenta mais Moro. O Partido da Lava Jato, todo poderoso que tinha simpatias imensas com a mídia hegemônica e setores do capital rentista, vai desmilinguindo. É questão de tempo para Moro cair, talvez os poderosos de plantão estejam vendo uma forma de descartá-lo evitando fortalecer ainda mais a figura de Lula.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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