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17 de maio de 2019, 20h36

Ameaça de rompimento de barragem em Barão de Cocais (MG) aterroriza população

De acordo com documento da própria Vale, ruptura pode ocorrer a partir do próximo domingo (19)

Vista aérea da barragem de Barão de Cocais, em Minas (Vale / Google Maps)
Por Lu Sodré, no Brasil de Fato  A população de Barão de Cocais (MG) está vivendo em estado de alerta máximo. Conforme documento ao qual o Ministério Público teve acesso, a barragem da mina do Gongo Soco, localizada no município, pode se romper a partir de domingo (19). Segundo o MP, a mineradora Vale identificou a existência de uma deformação no talude norte da mina, plano de terreno inclinado que limita uma área para garantir sua estabilidade. Caso ele se rompa, provocará vibrações que poderão comprometer a estrutura da barragem Sul Superior em Gongo Soco, localizada a 1,5 km de distância, e...

Por Lu Sodré, no Brasil de Fato 

A população de Barão de Cocais (MG) está vivendo em estado de alerta máximo. Conforme documento ao qual o Ministério Público teve acesso, a barragem da mina do Gongo Soco, localizada no município, pode se romper a partir de domingo (19).

Segundo o MP, a mineradora Vale identificou a existência de uma deformação no talude norte da mina, plano de terreno inclinado que limita uma área para garantir sua estabilidade. Caso ele se rompa, provocará vibrações que poderão comprometer a estrutura da barragem Sul Superior em Gongo Soco, localizada a 1,5 km de distância, e ocasionar a ruptura. Órgãos públicos da região foram informados no início da semana.

A Vale estima que, na velocidade em que está a movimentação, a ruptura do talude poderá ocorrer entre domingo (19) e o dia 25 de maio. A iminente ameaça ocorre quase cinco meses após a tragédia de Brumadinho, quando outra barragem da mineradora, no Córrego do Feijão, se rompeu e deixou 240 mortos. Outras 30 pessoas ainda estão soterradas.

Em março, o nível de alerta dessa mesma barragem, que possui 85 metros de altura e 5 milhões de m³ de rejeitos, subiu para nível 3. No mês anterior, 400 pessoas que moravam na chamada Zona de Autossalvamento (ZAS) da barragem (comunidades de Piteiras, Socorro, Tabuleiro e Vila do Gongo) foram evacuadas.

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Falta de informações

Maxwell Felipe de Andrade, 31 anos, morador de Barão dos Cocais, afirma que há meses a população vive com medo de uma tragédia acontecer, sentimento que se intensificou na última semana com o alerta do MP.

“Eu desesperei. Fui buscar informações e não consegui. A Vale não nos fala nada, não nos informa nada. É sempre essa jogada de esconder toda essa situação. De olhar com sorrisinho na cara e tentar passar uma sensação de tranquilidade, o que não funciona. Passamos as noites em claro e hoje estamos nessa apreensão”, conta.

Em nota oficial, a mineradora afirma que não há elementos técnicos até o momento para se afirmar que o eventual escorregamento do talude norte da cava da mina Gongo Soco desencadeará  a ruptura da barragem sul superior, mas que, mesmo assim, está reforçando o nível de alerta e prontidão para o caso extremo de rompimento.

A empresa também alega que vem mantendo interlocução com as comunidades e que, além de ter instalado sete pontos de encontro com funcionamento 24h por dia no município,  já realizou simulados de emergência com moradores de Barão de Cocais. Conduzido pela Defesa Civil, um novo simulado de evacuação será realizado neste sábado (18).

No entanto, Maxwell sustenta que a falta de informações é o maior problema.

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“Estamos sem saber o que acontece, o que pode acontecer. Não temos respostas, é uma situação horrorosa. Não tem nem palavras pra descrever o que estamos passando nesse momento”, desabafa o servidor público, morador da Vila São Geraldo, um dos bairros que seriam atingidos caso a barragem Gongo Soco se rompesse.

Para Maria Júlia Andrade, da coordenação nacional do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), “o terror que a população de Barão de Cocais está vivendo é mais uma situação reveladora deste modelo de mineração de morte”.

“Isso parece que aconteceu ‘de repente’, mas não foi. Os problemas destes empreendimentos da Vale já existiam, mas as informações estavam sendo escondidas da população. O projeto da Vale em Barão existe há décadas, a barragem e mina sequer operam mais. Só agora as informações de que existem riscos vieram à tona? Por quê? Isso significa, concretamente, que a população de Barão de Cocais já convivia com essa bomba relógio e não sabia. E não sabia porque a Vale estava escondendo as informações e o Estado não estava monitorando e fiscalizando devidamente”, denuncia Andrade.

“Mais uma vez a Vale, esta empresa criminosa, está colocando em risco a vida das pessoas. Até quando vamos ficar refém da Vale? O lucro dessa empresa privada Vale mais que a vida dos moradores de Barão?”, questiona enfaticamente a representante do MAM.

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Pablo Dias, da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), também critica a atuação da empresa no estado.

“Esse novo elemento da movimentação do talude deixa claro o tanto que a não preocupação com as vidas humanas, a não preocupação com o meio ambiente, não preocupação com a segurança das barragens e da operação das mineradoras aqui no estado de MG é gritante. Mostra o tanto que o interesse pelo lucro e o interesse por aumentar lucro exorbitantes coloca a população em risco ”, reforça.

Segundo Dias, mais de seis mil moradores do município de Barão dos Cocais poderão ser atingidos casos haja uma ruptura na mina Gongo Soco. Ele endossa que a população local não está sendo apoiada pela Vale.

“Muitos moradores estão saindo de suas casa voluntariamente, sem qualquer tipo de apoio ou acompanhamento dos órgãos responsáveis ou financiamento da Vale, que é a responsável por colocar as pessoas nessa situação. Existe, de fato, uma situação de pânico no local”, disse.

O coordenador do MAB defende que a evacuação opcional deveria ser garantida minimamente pela mineradora.

Os bairros de Três Moinhos, Ponte Paixão, Vila São Geraldo, Centro, Vila Regina e Sagrada Família, assim como o Rio São João, são algumas das localidades que seriam fortemente impactadas caso a barragem Gongo Soco rompesse.

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