o colunista

por Cleber Lourenço

17 de junho de 2019, 06h13

As duas contradições do Deltan

Cleber Lourenço: "Assim como os casos que julgavam eram apenas de via única, seus respectivos juízos de valores também são apenas de via única. Tudo aos amigos do rei, nada para quem estiver para o outro lado"

Foto: Arquivo

Deltan vive no olho de um furacão que o Brasil pode em breve tratar de abafar.

Afinal de contas as revelações feitas até agora pelo site The Intercept Brasil teriam sérios efeitos em um país minimamente comprometidos com o estado democrático de direito e a justiça, além de o STF pleitear anular o julgamento de Lula com base nas conversas entre Moro e procuradores ambos os envolvidos seriam afastados de seus cargos públicos e submetidos a investigações severas.

Infelizmente o judiciário neste Brasil flerta com a delinquência jurídica, o que torna imprevisível e surpreendente.

Fora estes absurdos ainda temos o festival de incoerências, nesse texto irei comentar duas, total ditas pelo procurador, padrinho e garoto-propaganda das 10 medidas contra a corrupção: Deltan Dallagnol.

Qualquer pessoa minimamente comprometida com a verdade ficaria constrangida com o Tweet acima, principalmente Deltan. Afinal de contas o que o procurador propõe é justamente algo presente nas famigeradas 10 medidas contra a corrupção: o teste de integridade.

Veja só o que diz logo o primeiro parágrafo do documento disponível no próprio site das 10 medidas:

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1) Prevenção à corrupção, transparência e proteção à fonte de informação
Para prevenir a corrupção, o MPF sugere a possibilidade da realização de testes de
Integridade, isto é, a “simulação de situações, sem o conhecimento do agente público ou
Empregado, com o objetivo de testar sua conduta moral e predisposição para cometer crimes
Contra a Administração Pública”. A realização desses testes é incentivada pela Transparência
Internacional e pela Organização das Nações Unidas (ONU) e é um exemplo de sucesso em alguns lugares do mundo.

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Vejam só, Deltan alega que o suposto hacker se passou por um procurador para poder induzir todos eles ao erro. Não é muito diferente do que coloquei ali em cima. Logo não há motivo para indignação do procurador, já que o mesmo busca banalizar o tipo de atitude que agora ele critica.

Outro ponto presente no site deles são as provas obtidas por meios ilícitos, embora tanto Deltan quanto Moro se mostrem indignados com os vazamentos do The Intercept Brasil o texto é claro:

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A proposta altera o § 2º do art. 157 do CPP, incluindo dez incisos que enumeram as exceções à ilicitude das provas. Assim, uma prova não pode ser considerada ilícita, por exemplo, se obtida em legítima defesa. Ora, como se sabe, se a legítima defesa é causa de absolvição de homicídios, não há razão para que não exclua a ilicitude de uma prova também.

Com estes dois pontos colocados na mesa fica o questionamento:

Caso as 10 medidas fossem aprovadas, Deltan e Moro estariam indignados com o furacão em que se colocaram?

Estariam falando de “hackers aqui”, “assessor 2”e semelhantes?

Acontece que assim como os casos que julgavam eram apenas de via única, seus respectivos juízos de valores também são apenas de via única. Tudo aos amigos do rei, nada para quem estiver para o outro lado.

Embora o suposto Hacker seja uma cortina de fumaça que criaram para desacreditar as revelações de diálogos nada republicanos ainda há de se estranhar o receio de membros do MPF entregarem seus telefones celulares para perícia na polícia federal. Qual o medo? Deltan ainda não entregou seu celular.

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