À Beira da Palavra

28 de março de 2013, 18h43

As homenagens – Do bombril à escopeta

Opa, foram me chamar… então dá licença. Agradecendo o convite pra puxar uma coluna aqui, somando com o Fórum, com a roda, a ladeira, a viela de cada dia, o horizonte. Só dando mais linha na pipa que vem de muito longe e que segue no apetite, brincando pra não murchar de vez.

Opa, foram me chamar… então dá licença. Agradecendo o convite pra puxar uma coluna aqui, somando com o Fórum, com a roda, a ladeira, a viela de cada dia, o horizonte. Só dando mais linha na pipa que vem de muito longe e que segue no apetite, brincando pra não murchar de vez.

Entendo o convite como uma consideração, um reconhecimento às buscas e encontros que há mais de década uma leva de gente pôs pra girar nas periferias de SP e do mundão em torno da palavra, do texto, propondo estudos, revides e o privilégio doído de questionar com prosa e poesia na quebrada. Nosso movimento.

Boa hora pra manjar o que seja consideração e o que se pinta como homenagem. Nesse março choveu homenagem pra minha gente, das escancaradas às mais sutis, das que mandam o escalpo num só arregaço até às que se apresentam na miúda, disfarçadas de afeto e louvação.

Apoio de nuca, ‘headrest’ do povo dogon, que habita os atuais Mali e Burkina Faso

Num desfile de moda o cabelo crespo foi mote pra passarela, tirado de bombril. A hipocrisia reinante, quando foi chamada no rodo, logo se justificou: era uma homenagem, uma crítica e não mais um grão do racismo brasileiro. Assim caminha a bofetada, se disfarçando de beijo, rimando com o que se vende a granel, como os produtos para ‘amenizar cabelos ‘selvagens’. Afinal somos o avesso primitivo dessa gente civilizada.

Quer homenagear? Traz contextos de Zumbi pra passarela, traz Tereza de Quariterê, Luiz Gama…  traz Lélia González e suas viradas de cabelo e consciência, chama quem vive ou estuda a questão por dentro, quem sabe que não nos falta estética nem filosofia nos segredos e pelejas de cada dia.

Mas já nem sei o que é pior: expor presença deformada como em toda prática fuleira que sempre se diz bem intencionada, esse homicídio em gotas no banco duro da escola e na poltrona fofa do controle remoto, ou ausentar e deixar invisível. Será que assim pelo menos não arregaça nossa molecada ensinando a vergonha de si, estuprando nosso pensamento, emporcalhando nosso espelho.

Bobo eu, que esqueço quem faz e quem aplaude essas homenagens no circuito das mansões, das vernissages, pra purpurina e pro cetim servido pela bandeja que seguramos já faz muitas luas.

Quer homenagear, quer criticar nesse universo de pompa na modinha? Bem, se as modelos e estilistas pretos no ato perguntam porque são só 2% de quem pisa ali, então a maior crítica, no gesto mesmo, já seria equiparar a presença preta no passo do desfile. Quase pergunto, sem querer botar correia na criatividade alheia, no impulso artístico dos distintos: por que não bebe da larga fonte que a estética negra detalha há muitos séculos. (Quase pergunto, mas quando lembro de toda vampiragem e também do saque de toda estatuária africana que hoje ainda voga anestesiada nos museus europeus, aí me calo. Deixa quieto…)

 

Apoio de nuca, “headrest” do povo shona, que ocupa áreas dos atuais Zimbábwe, Moçambique e Zâmbia.

É cabelo a treta? Bom seria se soubessem que na história africana, vasta e onde o Brasil entra como continuidade e também ruptura, antes da zica da escravidão chupada pelo comércio transtlântico, vogou por séculos uma história de ciência, economia e arte majestosa, e que por lá até pra trato de cabelo sempre se teve refinamento, organização social, preceitos, seja em penteado pra guerra ou pro amor. Os headrests, apoios de nuca pra trançar ou descansar, com seus entalhes e equilíbrio ainda estão aí há séculos pra ensinar e admirar.

Mas essa elite brasileira sabe o quê de histórias e vivências pretas, ó raios? Essa que é ‘produtora cultural’ em jornais, secretarias, tevês, museus, bibliotecas e decora sobre bistrôs e fondues? Tive caso em editora graúda que, citando Abdias do Nascimento quando ainda vivo pra prefaciar um livro meu, ouvi “Quem é?”, “Ah, não. Ninguém conhece, nem nós, não dá visibilidade”. Se com Abdias… Sabem o quê dos pixains que pelas Américas todas, nas minas, cidades e fugas pra mocambos, cumbes, palenques e cimaroons guardavam pepitas e sementes entre os berlôs dos cabelos pra chegar na terra de ser livre, chacoalhar a cabeça e fazer a horta. Sabem o quê dos princípios dos rastas, leões de Judah, e o cabelo a se cultivar na crescença desde os mínimos birotes até os longos dreads, bem além do que vira moda pra quem gasta a mesada fazendo “o rasta” de uma vez na butique? Sabem o quê dos black power? Do bocado de técnicas de trançar e das estórias contadas no colo pela vó que trata a cabeça da neta?

Mas se dá lucro, ibope e promete um bafafá oco, já dá um bom caldo pra dizer que é homenagem. É muito agrado, louvação. Mereço não… e aquela celebração da Ypióca aos 150 anos da sua aguardente? No rótulo grande, a moenda movida a força negra, a do lombo abençoado pela cruz e pelo chicote. Imagina uma das tantas empresas alemãs que bancou o nazismo lançando um tênis, uma cerveja ou um analgésico especial com foto do genocídio semita na capa, reluzente, comemorativa?

Volta e meia, da humilhação na foto até o baque da escopeta gira toda essa dissimulação, jurando afeto ‘mal interpretado’ na esquiva. Do escárnio à bofetada, da chacota à rajada, da soberba empinada ao disparo de cima pra baixo, há a liga do desprezo. Assim, quem tomba é menos gente…é quase…

Talvez isso lembre a comemoração de ‘100 anos da declaração dos direitos do homem’ em 1889, com 11 índios onas exportados da Argentina pra Paris… os que não morreram no navio, chegaram e na jaula não comeram por mais três dias. Pra abocanhar mais vorazes os tecos de carne crua ganhos pela grade, num espetáculo oferecido ao público nobre comemorando os 100 anos de Direitos Humanos…

Apoio de nuca, “headrest” do povo baluba, que se encontra no Congo

Talvez isso explique melhor a fuleiragem na Começão dos Direitos Humanos, agora em Brasília. O pastor inventa pecado pra vender penitência e perdão, alisa sua cabeça e de mais um monte na bíblia usada lá pelos miliquinhentos pra entuchar ideia de maldição dos pretos, numa estória em que o representante negro, o Cam, pai dos camitas, viu Noé bebinho e peladão. Só que na contação, além dos outros dois filhos do pai da humanidade, Jafé e Sem, representando Indo-Europa e povo judeu, não tinha mais um indígena americano nem os extremo-orientais. Só quem tava mesmo envolvido já no interesse que chegaria à purgação dos pecados e do açúcar. As caravelas ainda mal começariam a trazer varíola, canhões e bacamartes pras Américas…

Quer agrado maior do que doar roupa pras aldeias? Detalhe menor se elas vão com sarna, como se fez no interior por décadas. Quer chamego maior que por uma aldeia mudar um curso de rio, só pra ter mais água de uma nascente? Se contaminar depois, pra empestear e abrir rumo pros trilhos do oeste paulista, isso é secundário… Nesse pé, a preocupação em mandar a Choque e suas balas de borracha pra despejar índios dos museus (vivos) do Maracanã e de Botafogo, no Rio, revive a consideração de sempre. Não entende quem não quer: ali teremos um estacionamento pras reluzentes Cherokees, homenageando não só a memória indígena brasileira mas a de todas Américas. É momento de copa, esporte, fraternidade sem fronteiras.

Em tempo: a ROTA também ganhou agorinha uma proposta de homenagem, mas na câmara dos vereadores, pelo vigor desde os porões da ditadura militar oficial até a que hoje assola as esquinas das favelas.

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