Blog do Rovai

17 de outubro de 2018, 18h36

Em tempos de redes digitais não existe eleição ganha de véspera

Uma eleição com a diferença atual pode virar em três se um fato novo vier a ser potencializado pelas redes e mesmo que a mídia tradicional tente escondê-lo.

Outro dia Manuela D’Ávila,  candidata a vice na chapa de Fernando Haddad, disse que a maior fake news deste segundo turno era a de que a eleição já estava definida a favor de Bolsonaro.

Em princípio, a frase soa marqueteira. Afinal de contas, neste momento há um oceano a separar os dois candidatos. Dezoito pontos de diferença são quase 20 milhões de votos.

E numa eleição em um país continental tirá-la não é tarefa fácil.

Tudo isso é verdade, pero no mucho.

Porque já foi mais verdade ontem, anteontem do que nos dias de hoje.

E mesmo assim, essa verdade vem aos poucos perdendo força.

Em 2007,  David Ugarte, especialista em redes digitais, escreveu um livro quase despretensioso que virou clássico: O Poder da Redes –  Manual ilustrado para pessoas, organizações e empresas chamadas a praticar o ciberativismo.

No trabalho, ele discorre sobre uma série de temas e vai mostrando como a distribuição e a velocidade têm  dinâmicas não mais descentralizadas e, sim, distribuídas em tempos de redes digitais.

Veja também:  Weintraub resume proposta para bancar universidades: "Patrocínio, patrocinador, aluguel e parceria"

Ugarte mostra também como isso pode levar a grandes movimentos de massa e num capítulo cunha a expressão ciberturbas, que seriam movimentos de ruas com multidão organizados via aplicativos.

Em outro momento, chama a atenção para a “noite dos celulares” que levou à eleição de José Luiz Zapatero, em 14 de março de 2004, numa virada espetacular após o atentado à estação Atocha do metrô, em Madrid.

O atentado se deu no dia 11 de março e o governo, à época do PP, de direita, atribuiu a ação ao ETA, grupo que luta pela independência do País Basco.

E num acordo com os grupos de comunicação local garantiu que a versão fosse veiculada como um mantra em  todos os veículos.

No entanto, a Al Qaeda assumiu o atentado e registrou que ele foi motivado pela ação do governo espanhol que enviou tropas para a invasão ao Afeganistão. Isso levou o Partido Socialista, de Zapatero, crítico à entrada da Espanha na guerra, à vitória.

Mas se a notícia não foi veiculada na mídia como ela chegou à população? Sua circulação se deu fundamentalmente por mensagens de celulares.

Veja também:  Governo Bolsonaro quer acabar com liberação de FGTS em demissão sem justa causa

Ugarte define aquele momento como de ruptura em relação às disputas eleitorais. Mas aquilo não foi nada em relação à vitória de Bolsonaro no primeiro turno com 46% dos votos tendo apenas 8 segundos de TV.

O que ocorreu nesta eleição de 2018 foi uma virada completa de página em relação à força dos meios eletrônicos. Eles já não serão mais o centro das estratégias nas próximas disputas. O marqueteiro de TV terá que aprender estratégia de redes se quiser ter emprego nas disputas que virão. Claro, se elas vierem a existir se Bolsonaro for eleito.

Mas pau que bate em Chico pode bater em Francisco.

Se as redes digitais foram o principal destaque da vitória a Bolsonaro até o momento e o tornam o grande favorito para a eleição do dia 28, também podem ser as responsáveis pela sua derrota.

Não há virada impossível nos dias atuais.

Uma eleição com a diferença atual pode virar em três se um fato novo vier a ser potencializado pelas redes e mesmo que a mídia tradicional tente escondê-lo.

Veja também:  Osmar Terra em defesa de Bolsonaro: “problema grave no Brasil é a obesidade e não a fome”

A ausência de Bolsonaro nos debates, por exemplo, tem criado muitas suspeitas sobre o seu verdadeiro estado de saúde. Essas suspeitas cresceram muito nos últimos dias. E se algo mais sério for descoberto até o meio da semana que vem, isso pode vir a mudar totalmente o quadro eleitoral.

Trata-se apenas de um exemplo para dizer que não necessariamente algo tão grave quanto o atentado da estação Atocha precisa vir a se dar para o jogo mudar.

Não existe mão na faixa antes do tempo. Não existe eleição ganha com três dias de antecedência nos dias atuais.

O que aconteceu nas disputas estaduais do Rio de Janeiro e de Minas Gerais são exemplos.

Ainda há muito jogo a ser jogado. Muito mais do que parece.

Você pode fazer o jornalismo da Fórum ser cada vez melhor

A Fórum nunca foi tão lida como atualmente. Ao mesmo tempo nunca publicou tanto conteúdo original e trabalhou com tantos colaboradores e colunistas. Ou seja, nossos recordes mensais de audiência são frutos de um enorme esforço para fazer um jornalismo posicionado a favor dos direitos, da democracia e dos movimentos sociais, mas que não seja panfletário e de baixa qualidade. Prezamos nossa credibilidade. Mesmo com todo esse sucesso não estamos satisfeitos.

Queremos melhorar nossa qualidade editorial e alcançar cada vez mais gente. Para isso precisamos de um número maior de sócios, que é a forma que encontramos para bancar parte do nosso projeto. Sócios já recebem uma newsletter exclusiva todas as manhãs e em julho terão uma área exclusiva.

Fique sócio e faça parte desta caminhada para que ela se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie a Fórum