Blog do Rovai

28 de junho de 2011, 16h49

Fora do Eixo e a esquerda que a direita gosta

Costuma-se dizer que a esquerda que a direita gosta é aquela que aceita dialogar. Considero exatamente o contrário.

A direita adora aquela esquerda que atua no gueto e fica fazendo discurso pseudo-revolucionário.

É muito mais fácil para os setores conservadores lidarem com esse tipo de militância esquemática, que acha que só há um caminho da salvação para toda a humanidade.

É muito mais fácil para a direita lidar com esse esquerdismo dogmático e messiânico do que com aquele que aceita a multiplicidade de pensamentos e atua no sentido de construir avanços levando em consideração as possibilidades do real.

Ou como se convencionou denominar, a tal “correlação de forças”.

Essa esquerda que a direita gosta fala em nome de algo que supõe muito superior a tudo e a todos. Por isso não aceita o contraditório. Não gosta do debate.

E em nome das suas supostas convicções justifica qualquer autoritarismo.

Como também permite todo tipo de ataque ao suposto adversário – que sempre é tratado como inimigo.

Digo isso porque fiquei pasmo com algo que li recentemente.

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Não exatamente com um artigo que foi escrito no site Passa Palavra (A Esquerda Fora do Eixo), onde esse coletivo que leva ao trocadilho do título, não tem apenas suas práticas organizativas questionadas, como também é desqualificado como espaço de reflexão criativa.

No texto acima lincado o Fora do Eixo é apresentado como um grupo que vive de editais e apenas almeja ser “uma classe de gestores que visa renovar a burocracia”.

Mesmo sendo um tanto rancoroso e cometendo erros de informação, como onde afirma que “foi fundado o “Partido da Cultura”, o PCult, uma organização suprapartidária contra a ministra Ana Buarque, pela retomada e “continuidade das políticas do Gilberto Gil” , seria interessante ver certos aspectos do artigo levados ao debate.

Até para entender como o Fora do Eixo se posicionaria acerca de certas questões que de fato merecem reflexão e dizem respeito a construções futuras deste novo movimento de redes.

Mas isso não vai acontecer.

Porque o movimento Passa Palavra, que é “o caminho, a verdade e a vida e ninguém vai a revolução senão por eles”, assim respondeu a provocação de Pablo Capilé.

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 O Passa Palavra recebeu a seguinte mensagem de Pablo Capilé, do Fora do Eixo:

«Olá, Gostaria de convidar o coletivo Passa Palavra para um debate público sobre a “Esquerda Fora do Eixo” e a Marcha da Liberdade, que foi tema de artigo do site na semana passada. Acredito que o objetivo de vocês ao escrever a referida reportagem tenha sido o de ampliar o debate, portanto gostaria de dar sequência a essa iniciativa com um debate aberto, público e com transmissão ao vivo, na data que escolherem e no local que escolherem. Estaremos a disposição.

Fico no aguardo.
abs!»

E deu a seguinte resposta:

“Enquanto espaço de debates do campo anticapitalista, não participamos de eventos organizados por entidades do “ativismo empresarial”, já que para nós as classes existem e são bem definidas. Porém, nos preocupamos com o caminho que seguirão daqui para a frente as lutas sociais. Por isso, a continuidade da reflexão – pública e ampla – segue aqui, em forma de uma série de artigos, e não numa atividade a ser protagonizada por aqueles que se colocam como os novos gestores das redes.”

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A resposta é da linha da xenofobia política.

Não “me misturo” com aqueles que não pensam como eu.

E diz muito mais sobre o grupo que a escreveu do que qualquer outro texto que produziram.

É uma pena ver potenciais ativistas agindo com tamanho nível de autoritarismo e sectarismo.

PS: Vale a pena ler dois artigos discutindo o texto em questão. O primeiro da professora Ivana Bentes (UFRJ) e o outro do professor Pablo Ortellado (USP).

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