Cinegnose

por Wilson Ferreira

30 de dezembro de 2014, 07h20

Blog censurado pelo delírio digital do Google AdSense

Blog censuradoPara minha surpresa, o blog “Cinema Secreto: Cinegnose” foi acusado, julgado e executado às vésperas do Natal. Acusação: disseminação de conteúdos “chocantes” de “violência”, “pornografia”, “sangue” e “atitudes repulsivas”. Pelo menos é o que disseram os robôs e scripts do Google AdSense, lembrando a elite de juízes de rua do filme “Judge Dredd” que julgava e executava instantaneamente os violadores – “veiculação de anúncio do Google AdSense foi desativada no seu site por violação do regulamento do programa”, informava o e-mail executor!. Esse será o admirável mundo novo do Google: o delírio digital dos códigos binários que, sem compreender contextos, reduzirá a realidade ao denominador comum do 0/1. Como um blog que analisa filmes e a mídia como sintomas do imaginário social de uma determinada época, poderá tratar dessa temática sem cair na “malha fina” dos onipresentes e oniscientes robôs digitais? Bem vindo à futura blogosfera “disneyficada” e pacificada em tons pastéis semelhantes à cidade cenográfica de Seaheaven do filme “Show de Truman”.

Entre um e-mail e outro na caixa de entrada na véspera de Natal, com os tradicionais desejos de boas festas, surge um com título ameaçador: “A veiculação do anúncio do Google Adsense foi desativada para o seu site”. Um estranho e-mail cujo conteúdo narra algum tipo de julgamento feita à minha revelia no qual fui acusado, condenado e executado! Isso depois de seis meses de anúncios adsense no blog.

Olá, Este e-mail é um alerta de que um de seus websites não está em conformidade com os regulamentos do programa Google AdSense e, como resultado, a veiculação de anúncios foi desativada no website.ID do problema: 30407422A veiculação de anúncios foi desativada em:cinegnose.blogspot.comExemplo de página onde a violação foi detectada:http://cinegnose.blogspot.ie/2013/08/sexo-em-um-pais-dividido-no.html

Ação necessária: Verifique se os outros sites de sua conta estão em conformidade com os regulamentos.
Status atual da conta: ativa
Explicação da violaçãoVIOLÊNCIA/SANGUE: conforme especificado nos regulamentos do programa, os editores do Google AdSense não estão autorizados a colocar anúncios do Google em páginas com conteúdo violento ou chocante, incluindo sites com imagens ou textos repulsivos. Para obter mais informações sobre esse regulamento, acesse a Central de Ajuda (https://www.google.com/adsense/support/bin/answer.py?hl=pt-BR&answer=105954)
Os anúncios do Google não podem ser inseridos em conteúdo adulto. Isso inclui qualquer site que contenha:•   nudez completa
•   jogos, vídeos ou imagens pornográficas
•   animes ou desenhos pornográficos (hentai/ecchi)

Surpreso, levei alguns minutos para restabelecer o fôlego: em plena véspera de Natal,  fui julgado e condenado por crime de pornografia, incitação à violência e atos repulsivos? Eu e meu blog nos tornamos o inimigo publico número?

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Restabelecido do meu surto paranoico, preenchi o chamado “formulário de apelação” (temos que admitir que a terminologia utilizada pelo Google Adsense é dramática). Vá lá! Tirei a postagem em questão do blog para verificação e possível reformulação.

Saída: ferramenta para rastrear conteúdo do blog

Fusca bomba semiótica

Postagem “A Bomba Semiótica do fusca em chamas”: para o Google AdSense, “Violência/Sangue”

Mas eis que surge novo e-mail, após as comemorações natalinas: mais julgamento/execuções, sob a acusação de violar a política Google com conteúdo  sob a rubrica “violência/sangue”, dessa vez na postagem “A bomba semiótica do fusca em chamas” de 2013.

Percebi que a maior perplexidade de tudo isso é que os e-mails das comunicações de execução informavam sempre um link como “exemplo”. Isso queria dizer que os “problemas” poderiam estar disseminados por todo o blog. Ou seja, os gestores do Google AdSense sugeriam que rastreasse em quase mil postagens resultantes de cinco anos de atividades, conteúdos (textos e/ou fotos) que eu poderia porventura interpretar como aquilo que o AdSense supostamente entende por “violação das diretrizes do programa”.

A equipe de gestores do AdSense até me forneceram um link com uma ferramenta, através da busca do Google, para rastrear conteúdos violadores no blog Cinegnose. Apliquei a ferramenta com o seguinte resultado: páginas e mais páginas com postagens supostamente violadoras dos quesitos violência, sangue, pornografia, nudez, atos repulsivos e uma infinidade de lascívias, devassidão, sadomasoquismo e assim por diante!. O que torna o blog e esse humilde blogueiro que escreve essas mal traçadas linhas em hipotética péssima companhia para os incautos internautas.

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Em outras palavras, o Google AdSense conduz esse blogueiro a única solução prática para se manter dentro das “diretrizes do programa”: deletar todas as postagens passadas e recomeçar do zero, dessa vez rigidamente enquadrado no que eu acho como o Google vai interpretar os conteúdos das postagens.

Jogue o passado na fogueira!

Isso faz lembrar as narrativas distópicas como 1984 de George Orwell ou o filme Fahrenheit 451 onde livros censurados eram jogados na fogueira para que a memória e a História fossem alterados em um sistema totalitário.

fahrenheit

“Fahrenheit 451”: Google AdSense quer que a História vá para a fogueira?

Cinema Secreto: Cinegnose é um blog que analisa filmes, mídia, tendências culturais e políticas à luz do Gnosticismo, Semiótica e Psicanálise. Partimos de um princípio metodológico de que o Cinema e produtos midiáticos são sintomas do imaginário social ou sensibilidade de uma determinada época. Por isso, temas como “violência”, “sangue” ou “sexo” vão aparecer, mas sempre dentro de um CONTEXTO, jamais como pornografia gratuita ou conteúdo “slasher”.

As postagens apontadas pelo Google AdSense como exemplos de violação (“Sexo em País Dividido” e “A Bomba Semiótica do fusca em chamas”) são os casos de CONTEXTO: o primeiro sobre a revolução sexual na década de 1960 e o impacto nos países comunistas do Leste Europeu e o segundo uma  análise semiótica da cobertura midiática das manifestações de rua em São Paulo.

A resposta padrão dos gestores do Google AdSense ao meu caso e de tantos outros lembra a defesa dos nazistas no Tribunal de Nuremberg: “apenas cumprimos ordens” ou “você assinou um contrato”…

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“Nada pessoal, são apenas scripts!”

Mas há um subtexto que parece dizer o seguinte: “Não há nada pessoal, são apenas scripts”. Na verdade não são seres humanos, mas robôs do Google que rastreiam os conteúdos da Internet, sem distinguir os contextos onde estão inseridas palavras como sexo, morte, violência, pedofilia etc. “O ideal é que o editor evite esses temas na construção de seus posts”, foi uma das respostas dadas em uma discussão que esse humilde blogueiro travou no Google Groups.

digital delirium

Livro “Digital Delirium”: essa é a cara de um dos robôs do Google AdSense?

Esse admirável mundo novo que o Google vislumbra para o futuro, alguma coisa situada entre a disneyficação da realidade ou a assepsia e perfeição em tons pastéis da cidade cenográfica de Seaheaven no filme Show de Truman, se aproxima daquilo que o pesquisador canadense Arthur Kroker chamava de “delírio digital” (veja KROKER, Arthur. Digital Delirium, Palgrave Mcmillan, 1997).

O código binário somente assimila o mundo a partir do 0 e 1. Não há mais contextos ou ambiguidades. Tudo isso é visto pelo código como “ruídos” ou “incertezas” (ou “violações”, no caso do Google AdSense), que devem ser deletados para a ótima transmissão dos dados.

O delírio digital do 0/1

O mundo Google é a colocação em prática das teses da Teoria da Informação e Cibernética de Norbert Wiener (1894-1964): Informação é redução da incerteza sob o custo do empobrecimento da própria informação pela redução da variedade de mensagens – o princípio do “caráter dual da informação”. Robôs, scripts ou algoritmos não conseguem entender contextos, pois estão limitados ao mundo da informação, enquanto os “contextos” pertencem ao mundo da comunicação.  No mundo da informação contextos viram incertezas, reduzindo qualquer coisa ao denominador comum do 0/1.

Por isso máquinas e programas são incapazes de pensar: não compreendem contextos comunicativos, reduzindo qualidades em quantidades de dados e informação.

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