Vítima da Covid, Paulo Gustavo completaria 43 anos hoje; relembre os seus principais trabalhos

O ator se somou às milhares de pessoas que perderam as suas vidas em decorrência das políticas negacionistas do governo Bolsonaro e de atraso proposital da vacinação

Foto: TV Globo/DivulgaçãoCréditos: Divulgação/TV Globo
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O negacionismo do governo Bolsonaro (sem partido) diante do coronavírus, que já foi chamado de "gripezinha" pelo mandatário nacional, já ceifou mais de 600 mil vidas.

Na primeira onda da pandemia, o presidente, ao invés de apoiar as medidas não farmacológicas de prevenção ao vírus (máscara, distanciamento social etc.), foi no sentido contrário, atacou governadores e atrasou o quanto pôde a compra de vacinas.

Hoje, é consenso que o trabalho da CPI da Covid foi fundamental para pressionar o governo federal a adquirir imunizantes à população. E, apesar de Bolsonaro ter se aliado ao vírus, hoje o Brasil já tem mais da metade de sua população imunizada com a primeira dose.

Porém, muitas vítimas de tal política foram deixadas pelo caminho, entre elas a do comediante Paulo Gustavo, que parou o país e deixou milhares de fãs em luto.

O ator estava no auge de sua carreira e tinha planos para transformar a personagem Dona Hermínia, que o tornou nacionalmente famoso, protagonista da trilogia "Minha Mãe é Uma Peça", em uma série.

Se estivesse vivo, o ator completaria neste sábado (30) 43 anos de idade.

Em suas redes, o viúvo de Paulo Gustavo, o médico Thales Bretas prestou homenagem.
"Hoje, no seu aniversário, não temos mais sua vida para comemorar… Mas vou continuar agradecendo, pra sempre, o dia em que você veio ao mundo, e tudo o que você transformou nesses 42 anos que viveu aqui! Queria estar vibrando na alegria que você tanto espalhou e merece! Ainda não consigo… Mas estou com nossa família emanando muito amor, e tenho certeza que você vai sentir, de onde quer que esteja!", escreveu Bretas,

Luta contra a Covid

O ator Paulo Gustavo, um dos maiores comediantes do Brasil, morreu no dia 4 de maio, aos 42 anos, em decorrência da Covid-19. Ele estava internado desde o dia 13 de março no hospital Copa Star, no Rio de Janeiro.

“Às 21h12 desta terça-feira, 04/05, lamentavelmente o paciente Paulo Gustavo Monteiro faleceu, vítima da covid-19 e suas complicações. Em todos os momentos de sua internação, tanto o paciente quanto os seus familiares e amigos próximos tiveram condutas irretocáveis, transmitindo confiança na equipe médica e nos demais profissionais que participaram de seu tratamento”, diz nota divulgada por sua equipe.

O ator chegou a apresentar melhoras significativas no último domingo (2), quando chegou a ter redução de sedativos e bloqueadores, e interagiu com os médicos e com o seu marido, Thales Bretas. Porém, no decorrer da noite, Paulo Gustavo teve uma piora significativa do quadro sofrendo uma embolia pulmonar.

De acordo com o boletim médico realizado, “depois de alguma melhora, Paulo Gustavo subitamente piorou no dia de ontem. Ontem à tarde (domingo), após redução dos sedativos e do bloqueador neuromuscular, o paciente acordou e interagiu bem com a equipe profissional e com o seu marido”.

“Bicha Bichérrima”: o humor crítico e fora do armário de Paulo Gustavo

Além de ser um grande ator, Paulo Gustavo era um roteirista genial e conseguiu, com a perspicácia de poucos, colocar em suas personagens como Dona Hermínia, Senhora dos Absurdos e A fumante desnudar a hipocrisia e preconceitos de classe da sociedade brasileira e se tornar, rapidamente, um fenômeno do humor brasileiro no século XXI.

Há uma cena em Vai Que Cola, sitcom do canal Multishow, em que Paulo Gustavo, onde interpretava o golpista Valdomiro, contracena com Marcus Majella, o concierge Ferdinando, que explica de maneira rápida o sucesso estrondoso do ator nos palcos, no cinema e na televisão brasileira. Primeiro há uma rápida sátira sobre as bichas que disfarçam a viadagem para agradar aos homens heterossexuais, pois, devem se “dar ao respeito”, na sequência, a personagem é questionada, mas você não é bicha?”, no que ela responde, “não, eu sou bicha bichérrima, uma bichona, muito bicha, não tenho a menor condição de deixar de ser bicha, eu vou ser bicha pra sempre”.

https://www.youtube.com/watch?v=W1lqUnoekEk

Para muita gente pode parecer apenas uma cena muito engraçada e que nem os atores em cena aguentaram, mas, por detrás dessa frase de alguns poucos segundos está toda uma crítica feita pelas LGBT contra a reprodução dos estereótipos masculinistas e de como as bichas femininas são vítimas de machismo entre as… gays. Paulo Gustavo resumiu em segundos anos de colóquios acadêmicos.

Mas, também havia crítica ao modo de ser dos homens heterossexuais. No mesmo programa há uma outra esquete que, à época viralizou quando Ferdinando, a concierge bicha resolve se tornar heterossexual. Parodiando o linguajar geralmente falado por homens héterossexuais, a cena tira uma onda com os tipos que desqualificam as mulheres e as tratam como objetos. É impagável e, mais uma vez, em alguns minutos, uma síntese genial de séculos de crítica feminista à misoginia.

https://www.youtube.com/watch?v=Zc7xqyD2U_s

Outra personagem que se tornou um clássico tanto para falar do ódio às LGBT quanto ao ódio de classe presentes na sociedade brasileira é a Senhora dos Absurdos que, só em seu jargão resume um tanto do Brasil: “Sou branca, rica e heterossexual, nada acontece comigo”. No especial de fim de ano da Rede Globo, para resolver o problema da Covid, a Senhora dos Absurdos, que é uma paródia de uma socialite fascista, propõe criar um muro para isolar o Leblon do resto do Rio de Janeiro e cimentar as saídas do metrô, “onde sai pobre o dia inteiro”. Na mesma esquete, o texto de Paulo Gustavo faz, a partir de seu humor ácido, uma profunda crítica sobre o tratamento para Covid disponível para as classes mais pobres.

https://www.youtube.com/watch?v=xyvY2MYWy1g&t=10s

Além de carregar as críticas sobre padrões de sexualidade e do ódio de classe presentes no Brasil, os textos de Paulo Gustavo também versavam sobre outras hipocrisias tais como a questão da autointoxicação, eternizada na personagem A Fumante, mais do que tratar dos danos do cigarro, o ator queria ali cutucar toda a vigilância atual sobre os atos individuais, que se conectam diretamente com as outras esquetes sobre corpos libertos. Além disso, a personagem é uma crítica ao negacionismo científico, visto que em vários momentos A Fumante diz que “a ciência está errada” e o cigarro não prejudica a saúde.

https://www.youtube.com/watch?time_continue=51&v=siS6enfMqZU&feature=emb_title

Dona Hermínia, da peça e filme Minha Mãe é Uma Peça, serviu para muitas mães e famílias tratarem os seus filhos e parentes LGBT de outra maneira, não faltaram relatos sobre nas redes. Além disso, Dona Hermínia é também uma colcha de retalho das mães brasileiras.

https://www.youtube.com/watch?v=202HQBYpkds

De maneira genial, Paulo Gustavo conseguia transpor para os seus textos e atuações os dilemas presentes nas conversas de botecos e nas rodas acadêmicas do Brasil e foi por conta disso que o seu trabalho, em tão pouco tempo conquistou o Brasil e levou um país ao luto. Era genial demais.

Por fim, cabe lembrar outra esquete que vai influenciar outras gerações, nela assistimos um grupo de bichas intelectuais fazendo uma discussão antropológica das bichas femininas e masculinas, e sobre a reprodução dos papeis de gênero entre as pessoas LGBT.

https://www.youtube.com/watch?v=UtcRqkcMYJY&t=125s