À Beira da Palavra

Entrevista exclusiva com Lula
18 de abril de 2013, 18h26

Costas Lanhadas (Revides e Segredos antes do 13 de Maio)

O interior paulista era um paiol de pólvora nos anos antes do 13 de maio. O medo saía no mijo dos barões, donos de vastos alqueires, e dos advogados encastelados nos escritórios de luxo, mas também aterrorizava os sapatudos que tinham uma merreca de dois ou três escravos pras negociatas miúdas cotidianas, merreca de dois ou três mandados mal nascidos, chupados na jugular, gente, carne com sonho e memória, e raiva.

O interior paulista era um paiol de pólvora nos anos antes do 13 de maio. O medo saía no mijo dos barões, donos de vastos alqueires, e dos advogados encastelados nos escritórios de luxo, mas também aterrorizava os sapatudos que tinham uma merreca de dois ou três escravos pras negociatas miúdas cotidianas, merreca de dois ou três mandados mal nascidos, chupados na jugular, gente, carne com sonho e memória, e raiva. Meras peças para alguns, a negrada sentiu a hora do arranque, da retomada de si, sem dó. Décadas antes do 13 de maio que cuspiu uma liberdade requenguela, cagona e manca, vogou um tornado em SP, uma tormenta de legítima defesa e de vingança nem sempre comida fria, que fazia fornalhas das hortas e espetava zagaias em quem tava acostumado a levantar o chicote, a pena ou a xicrinha de porcelana.

Eram só um pedaço do mapa de sangue pisado e de dignidade remendada, as campanhas abolicionistas e as rinhas de tribunal onde reinava o amado e odiado Luiz Gama, proibido de entrar em uma pá de cidade, com a morte comprada uma penca de vezes mas que permanecia pilar na missão. As disputas em colunas de jornais liberais, monarquistas ou republicanos, os processos nos fóruns da hipocrisia que referendava com seu amém o direito à propriedade vampira… isso tudo era só um bocado da guerra que apavorou os abonados de São Paulo pelas estradas de vacaria, pelos chafarizes da capital e principalmente pelos campos de plantio, de tronco e de revide negro.

A paúra arrepiava duques do café, azedava o jantar, trincava os lustres e ilustres. Milhares de pretos já tinham devolvido com fogo um pouco da fuleiragem, já tinham debandado pra outras paisagens paulistas com ou sem os tais papéis que lhes garantiam serem gente encurvada por uma liberdade ganha ou comprada – e dessas tais cartas de alforria, sempre havia o risco da má-fé que engrupia o dinheiro juntado gota a gota, podiam valer só depois de muitas primaveras ou apenas na cidade onde foi carimbada.

Nossos avós seguiam varando rumo com os pés sempre descalços, mas agora levando nos ombros os sapatos que só gente livre podia ter, já que o pé não aceitava mais correias e apertos depois de uma vida pisando a sola direto no chão. Nos ranchos de meio de caminho, nas hortas novas, nas curvetas e nos becos urbanos onde mais gente buscava o remédio de vender seus doces, de barbear ou de carregar baldes e bacanas marcando o ritmo no lombo, rodavam as histórias dos acertos de contas com os fazendeiros. Histórias sem dó.

Era nesse clima que numa tarde em Capivari, dois homens subidos de Santos, já marcados queimados na pele alertando sua rebeldia, depois da carga levantada desde a manhã sentaram na sombra de uma mangueira. Mal a bunda assentou, de súbito a paranoia apontou o dedo da janela lá do casarão e o senhor gritou a acusação de levante. A madame, que desfilava com seus vestidos de cambraia e casimira, suas jóias cintilantes, veio até à janela ver a penitência com que as costas dos seus escravos pagariam a insolência de tramar a morte de seus amos e a queima da fazenda.

Negar não adiantou. Logo eles que ainda não tinham aceito participar do que se armava pra dali uma semana, com a malta de todas as fazendas vizinhas.

Tomado de ira, o sinhôzinho veio ele mesmo empunhando o chicote. Mandou amarrar um, mas começou por sovar quem estava ainda sentado num tamborete. E descendo as chibatadas despejava uma ladainha sobre a ingratidão e o peso de administrar o mundo. Mas a cada lambada desferida nas costas do negro mais velho, ouvia um canto sussurrado em vez de gritos de dor. E despejava o rabo de tatu com mais força, xingando, tremendo, mas a lábia do mais velho continuava soltando um chiado ameno e ritmado.

Ninguém diz se era curvado ou não que o angola recebia o arreio, mas a cada levada nas costas se ouvia um grito, agudo, que vinha era de dentro do casarão…

Depois das tantas 30 vergastadas que o barão achou já ser lição, justiça pra ensinar sua propriedade a não desejar morte nem derrocada de quem lhe salvou de ser órfão, de ser mais um morrido de fome, um demônio sem rumo; depois que acabaram as 30 chicotadas que o barão, empapado de suor, derrubou na espinha do seu escravo, ele respirou, esfriou e viu que as costas do negro que cantava sussurrado estavam intactas, o pano arregaçado da camisa de napão não tinha um pingo de sangue. Por tanta raiva, o barão se preparou pra açoitar mais uma vez, com toda a força e medo que tinha e não tinha, mas atinou prum berro que vinha distante.  Correu pra dentro da casa grande, ali ouviu uma longa agonia de último respiro e ali viu, debaixo do vestido intacto de cambraia e casimira branca que ele desabotoava trêmulo, as costas lanhadas e arregaçadas da senhora dona que tombou gemendo no chão empoçado de vermelho.


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