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08 de novembro de 2015, 12h15

Emancipação da mulher em Moçambique: da cosmética para o divino!

“Quais lutas as moçambicanas enfrentaram pela independência nacional e quais os desafios atuais pela independência cotidiana, desde seus ritos de iniciação até as esferas institucionais e econômicas?”

tina mucavele ***
(Agora é que são Elas)

Emancipação da mulher em Moçambique: da cosmética para o divino!
Por Tina Mucavele

Quero falar sobre a minha vivência no feminino Moçambicano, mas desde já confesso que não usarei apenas as lentes sócio-políticas, pese embora qualquer abordagem social não se divorcia do político.

No meu país, desde a independência ha 40 anos que se fala regularmente da emancipação da mulher. As mulheres destacaram-se na luta de libertação, foram pioneiras até de acções políticas importantes desde o nível comunitário até ao nível nacional. Desde que sou gente que ouvi falar de mulheres em posições de chefia do Estado. Associações femininas com objectivos variados, incluindo o do avanço da mulher na área econômica, jurídica e social são continuamente criadas. Actualmente, Moçambique é atualmente o pais lusófono com maior número de mulheres no parlamento, e destaca-se no ranking mundial por seu décimo terceiro lugar. Na economia informal, que constitui grande parte da economia nacional, os principais actores são mulheres. Portanto, quero concordar até aqui com os proponentes da tese de que no meu país as mulheres ganham cada vez mais espaços na esfera política e econômica.

Mas sou cautelosa em comover-me com isto. Para mim, a emancipação da mulher significou até agora que ela, por um lado, é concedida – estes espaços na esfera política, através da sua representação nas instituições do estado, são raramente conquistados pelas mulheres. Esta concepção nos espaços masculinos significou e continua a significar que as mulheres lutam para manterem-se neles usando armas masculinizadas. Nestes espaços, para manterem-se “vivas” as mulheres não ousam trazer a agenda feminina ou feminista. Embora a sua posição de liderança de certa forma ouse desafiar a percepção de que ela não é capaz, ao mesmo tempo não serve à sua sobrevivência discursar em prol dos direitos humanos das mulheres. Um assento no parlamento não tem implicações directas na provisão de serviços eficientes e equitativos – como a educação – para as mulheres e muito menos no domínio familiar, onde ela continua a ser subjugada à violência domestica e à privação dos seus direitos.
Eu não sou advogada da igualdade entre homens e mulheres. As mulheres não são homens e os homens não são mulheres. Acredito sim que as mulheres podem fazer muitas coisas que os homens fazem e que os homens também podem fazer coisas que as mulheres fazem, em todas as esferas. Assim, requer-se que lhes sejam concedidas oportunidades iguais as que são concedidas aos homens para que elas possam progredir e contribuir equitativamente na sociedade e na família.

Mas ainda mais importante para mim é o reconhecimento do seu direito divino de existir e ter liberdade para dirigir o seu destino. A emancipação de que se fala no meu país não traz uma real mudança na percepção que as próprias mulheres tem sobre o que são os direitos humanos. Um exemplo gritante é a construção da identidade feminina que ocorre em quase todos os grupos étnicos do país. Desde pequenas que as mulheres são ensinadas a servir os outros. Na idade escolar, a ter que escolher, os pais preferem enviar os meninos à escola que enviar uma menina. Na adolescência, grande parte da população do país realiza ritos de iniciação que ensinam as meninas a serem mulheres que servem com delegacia, consistência e sensualidade aos seus futuros esposos. Na véspera do casamento, elas são expostas a um detalhada check-lista do que fazer e não fazer para agradar o esposo, os sogros, os familiares e filhos (nessa ordem) e que este é o veiculo para a sua felicidade.

Na minha experiência de vida, e com toda a certeza, estas contradições sobre o que podemos considerar nossos direitos tem sido uma consternação para muitas de nós. É que, por mais que uma mulher conquiste os espaços sócio-políticos, ela só goza do respeito da sociedade quando demonstra habilidades de servidão à família. O irônico nisto é que essa opressão é feita por outras mulheres, já que as mulheres são responsáveis por moldar outras mulheres desde a infância até a idade adulta. Daí que haja tanta demonstração de desprezo e ódio entre mulheres por estarem constantemente a criticarem-se e julgarem-se uma as outras com base nesta construção identitária que falei anteriormente.

Nesta contramão, acabamos por nos esquecer da nossa essência humana e daquilo que constitui a nossa própria caminhada enquanto humanos, aquilo que nos traz prazer e que nos gera alegria. O resultado disto é que as mulheres, absortas a esta caminhada tão interna (que eu chamo de divina por estar ligada a sua existência como contribuinte no equilíbrio da natureza e do universo) entra em conflitos constantes consigo própria e com os demais à sua volta. É que, a meu ver, só é realmente feliz quem consegue em primeiro lugar satisfazer-se a si próprio e sentir-se auto-realizado. Veja bem, a entrega a causas altruístas que mulheres historicamente entregaram-se foram decisões pessoais e não impostas na formação da sua identidade. Se encontraram realização, foi auto-realização.

Por isso concluo que, o paradigma de subjugação da mulher nos espaços privados – e até públicos – já saiu do prazo ha muito tempo no mundo e Moçambique não é uma excepção. Isto nós próprias devemos perceber e absorver, entendendo os processos que ocorrem universalmente (até de nível metafísico) e compreender que continuaremos a desempenhar o nosso papel de mulheres buscando a nossa essência humana, cuidando no nosso bem estar psicossocial em primeiro lugar, para melhor servirmos a humanidade. Ao contrario da concepção de espaços na esfera política e do trabalho, este exercício os homens não poderão fazer por nós.

(fotos de Allan da Rosa nas províncias de Gaza e Maputo)

Tina Mucavele é mãe, activista para a consciência humana e da humanidade, nascida em Maputo, onde vive e trabalha. É assistente social de profissão, e é estudante de yoga, reiki, meditação, metafísica e da espiritualidade no geral. Interessa-se pela escrita de artigos de auto-conhecimento, poesia e contos.


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