À Beira da Palavra

09 de janeiro de 2014, 14h45

Hoje, anos 70

Por Allan da Rosa

(Imagem: Wickicommons)

Estamos nos anos 70. As forças armadas continuam descendo o reio, a farda quer mandar pro calabouço, pro cala-boca, escalpelar o mocambo. Na porteira do Quilombo do Rio dos Macacos, na Bahia, o fuzil berra, arrebenta os gangas, estrangula Dona Rose, mantém na mira o pé preto da molecada. Eis os votos de feliz ano novo e a governança do império silencia.

A gente em plenos anos 70: exportar é o que importa. Seja soja, seja boi. Pra indiazada que atrasa o trem do progresso, o flit, a land rover e a high lux, é farta a cachaça, o açúcar e a beira de estrada, dá pra acampar em asfalto a perder de vista. Mendingando se vive? Ah, Pindorama… terra das eternas palmeiras que sustentam o céu de nosso pai Nhanderú, deve estar à venda em algum shopping, pague no cartão pra algum funcionário com crachá e gel no cabelo. Vendem pindoba com o óleo da semente, a folha e o tronco. Vendem fibra? Quarqué pobrema, a Federal tá aí pra arrematar. Sumariar a Tekoha, esculhambar a Opy.

Hoje, anos 70. Nosso tom não é bem quisto, matrícula indesejável, querem branquear a bandeira? Médici e Fleury ainda abençoam o Afeganistão de qualquer porão de delegacia. As pontes da marginal Pinheiros, da Cisjordânia ou da rua Guian no Jabaquara continuam cabreiras, mais barrando que congraçando. Pra quem volta com as olheiras e o medo da guarita de amanhã, a vista busca frustrada uma estrela no céu, nesse furto nosso de cada dia debaixo do fumacê automobilístico… e como não encontra uma constelaçãozinha busca um brilho na tela mesmo, enquanto não despenca no sono da marmita.

Estamos nos anos 70, pelos mili e oitocentos. Nas ruas se conserta charrete e hiunday, nas esquinas o ganho, levando nas costas os tachos e a lona da banca. No terminal vendendo mingau de picumã e pendrive, marretando tapioca e recarga pra celular, esteira e DVD. No beco da catedral vendendo chamego e panela. No bar mangueando livro e videogame. Mascates, perfumes e consolos. E lá vem o rapa, a Guarda Nacional.

1870. Terror no travesseiro ou sossego no lençol? Pra cada mordomo que sopra os ciscos do baronato e lhe arruma as almofadas, tem três prometendo revide e há um Luiz Gama tramando nos tribunais. Enquanto a guilhotina ou o fio de cerol trabalham no pescoço do rebanho, na penitenciária onde rico só cola pra onguizar, entre o alívio distante e o pavor, o dedo do bacana apalpa o gogó e manda chamar outro cálice. Engaiola pássaros bicudos e que se tire um lucro disso terceirizado.

Estamos nos 70. 1770. Ouro no sonho do peão. Achar a lavra certa, encontrar a cata farta, garimpagem diamantina. Bancar alforria, festa e fazenda nova. Mandar fazer lagoa no alto da serra. Dedo rachado vai colocar anel e tomar banho de vinho. Daqui algumas luas descavar o galão escondido, cheinho até à boca de gema branca pura e cintilante. Seja no casarão, na toca ou na miragem da forca de Isidoro.

Anos 70, século 21, estamos em 2070. Partilhamos o tambú e a mesa, já não vigora a comida plastificada. Dizem que se cultuava uma entidade chamada Chester, bomba injetada no cocho digital, num laboratório pra encher peito e coxão dum monstro lendário que ninguém viu vivo. Há quem não acredite… gente descrente, que vai fazer? Mas eis os deuses de um tempo recente. Dizem que em SP tinha mais prédio vazio calculando juros que gente morando na calçada… é?

E vamo rodando o mundo, quem quiser vem. Caíram alfândegas, já morreram as fronteiras. Com respeito e girando o aprendizado, trazendo uma história na boca, seja ela uma flor ou um doce, chegando as duas orelhas com sede de viver, cada pessoa pode colar que tem pouso e guia. Liberdade que só tinham os bilhões virtuais das finanças.

Vamos aos Andes, altiplanos aimarás, debulha maíz e quinua, pega um agasalho, a paisagem hipnotiza e felicita. Bora pro Djibouti descendo pras Etiópias e versando em amárico. Vamo pros nortes de Odin, chegar pra Dublin do lago dos Leprechauns, pras cachoeiras do Jequitinhonha, pras fontes de Hokkaido. Balança a rede, abre os cadernos, dá agua pras crianças. Vamo carpir esse quintal. Quer passear só? Vai na paz. Depois, tu querendo a gente assiste um filme, come um arrozinho com pequí. Sabe jogar mankala? Tá eu e meu filho daruê todo dia nessa matemática gostosa. Vem.

2070, escambamos sementes e melodias, ciências e suor. Mi casa tu casa. Tocamos o peito, esquentamos as bochechas, são 70 graus no século do nosso abraço.

                                                                                          *

                                                             (08/01/2014, seis da manhã, Diamantina, Minas)


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