A limpa da lameira nas ocupações das escolas de São Paulo

Em São Paulo metralham de cima pra baixo uma Educação oficial rala. Aliás, faz décadas que chamar isso de educacão já é mesclar ilusão e má-fé. Ela continua a gerar entupimentos e lameiras perpétuas e se enrijece no reforço escolar praticado nos out-doors e nas aulas porcas, de mediocridade, ministradas pelas tevês e jornais que […]

Em São Paulo metralham de cima pra baixo uma Educação oficial rala. Aliás, faz décadas que chamar isso de educacão já é mesclar ilusão e má-fé. Ela continua a gerar entupimentos e lameiras perpétuas e se enrijece no reforço escolar praticado nos out-doors e nas aulas porcas, de mediocridade, ministradas pelas tevês e jornais que têm sociedade com o governo. Nas novelas, nos silêncios sobre os desmandos e o mega-crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus e de seus ministérios e deputados, seja a Rede Record ou a Globo com seu embrutecimento racista e vampiragem histórica… Aí voga a reciclagem, a atualização do esgoto mental. Que nessa fonte podre beba a nossa juventude, pensam o xerife e o barão. A escola pública, se não mais frequentada principalmente pela elite, como até décadas atrás, já teria então cumprido seu papel histórico de anestesia e colonização. Agora há meios mais sedutores, ágeis e high-tech.

Lama escoa. A lama tóxica da ignorância, do pânico e da superficialidade desce queimando pelas veias. Sustenta cada amém que consente com a vampiragem, cada “sim sinhô” abençoado pela resignação, cada vergonha trincando o espelho de quem desconhece a própria história. Barreiro envenenado da ignorância se empapuce em nossas orelhas e nos chape o coco. Pra brilharmos por qualquer vitrine, entusiasmar por qualquer celular ou carro novo e se afogar na baba de estupidez que nos injetam.

Escola… Centro cultural que contemple, encante e invente com os conhecimentos brotados da necessidade e curiosidade humana. Que trance a geografia ao que pisamos e vestimos, ao prato fumegante ou vazio. Que ponha a biologia pra costurar e a física pra empinar seus pipas. Que dance e beba a matemática, que ponha as mãos e os poros pra pensar. Escola com sabor e respeito. Pra quê? Que se entupa com 40, 60, 80 numa sala uma penca de gente obrigada a sentar. Bocejando ou traquinando. Assim acreditaremos que a ziquizira da carestia de água é mesmo o nosso banho de 10 ou 15 minutos. Que o espinho na leitura e a travação chatona do conhecimento é responsa nossa e não dos jeitos e lugares que nos enfiaram depois da matrícula.

Mesmo as escolas que são mais masmorras do que jardins, as que seguem acorrentando mentes e entediando corpos, as das pedagogias e didáticas que não contemplam nosso cotidiano nem nossa ancestralidade, as da burocracia repelente e da frustração profissional de quem roga todo dia pela aposentadoria ou por conseguir zarpar mais cedo, mesmo as escolas descendentes das linhas de produção capenga e robótica da “Revolução Industrial”, as que trituram o desejo e entornam cansaço, mesmo estas os estudantes ocuparam e demonstraram amar. Ali brilha o mapa de sua turma e a juventude não as larga, imagina um quintal e luta por sua enxada de plantar saberes. Cantando e pulando chamam todas as outras pra se ocupar, se aninhar e revidar. Saltar os destroços enquanto é possível.

Várias escolas ocupadas por jovens a cuidar de seus banheiros, a pintar paredes e reformar fiações, colorindo jardins e mexendo os panelões do refeitório se conseguem suprir o bloqueio decretado pelo governo estadual que manda desligar luz, baixar o cacete militar e barrar água enquanto manda mensagens de condolência aos franceses e de paz aos povos.

As estudantes ocupam e desafiam as ordens de diretoras e professores que ameaçam reprova-las se persistirem lutando. E por carinho à sua escola, por inteligência e sensibilidade, por negação da inércia e da coleira de rebanho, resistem até ao cárcere privado (como o ocorrido em Santos) e à truculência policial nas escolas das periferias paulistanas, feita com algemas, coturnadas e gás lacrimogêneo solto em professores e alunos que não abandonam seus pátios, lutando pra não terem salas entulhadas até o teto, algo que alguns secretários burocratas do ensino chamariam de aula e espaço educativo, apoiados por muitos que foram às avenidas empunhando cartazes com o slogan “Mais educação”.

São mais de 60 escolas ocupadas em São Paulo. É uma barragem florida e de onde brota tronco aprumado e sementes de sonho. São 60 ou 600 os professores estafados das escolas que suplicam afastamento? São 600 ou 6000 os valores do seu salário indigno? São números que não se medem em estatística, mas em fé e lástima, em proceder e desespero, em paixão e penúria. Regendo a batuta seguem os coronéis contemporâneos e gravatas multinacionais, os saudosos da “grade curricular” e das “delegacias de ensino”, que há anos tocam o terror pra devastar as salas noturnas de Educação de Jovens e Adultos e que já perderam a vergonha em decretar 25 anos de sigilo aos documentos de suas maracutaias no metrô ou nos assassínios da PM. Politiqueiros que já não coram suas caras pálidas mandando trancar ou estrumbar escolas, apostando em nosso desmoronamento mental. O plano é que aceitemos a desgraça orquestrada por quem brinda feliz na beira da piscina os nossos corpos chafurdados na lama da vala ou mortos em pé, no ping-pong de um serviço pro outro.

(Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

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