À Beira da Palavra

22 de setembro de 2015, 19h11

O aborto e a praias cariocas censuradas. As muralhas no corpo negro e a moral dos negócios

Desculpem pelo óbvio.

Neste fim de setembro, abrindo a primavera, se vota em Brasília mais um projeto Cristino do sacrossanto Eduardo Cunha. A mira é impedir uma mulher estuprada de ser atendida no SUS pra interromper gravidez se acontecida. O aborto pra esses chupins é um crime, persiste a antiga moral muito macha e adaptada ao século 21: forrar cadeias e benzer pelo medo. O estuprador, pro deputado e seus sócios, talvez ganhe uma medalha.

É um negócio, uma teia de negócios. Se o guri nascer a ele também tá pensado o quinhão da tranca ou da vala, caso não junte a prata pra comprar um Iphone. Lucrativa a militarização do pensamento que voga no controle remoto da TV e da escola. Negócio bom. Nos pavilhões e celas empanturradas as cifras se multiplicam. As indústrias bélicas desenvolvem radares e armas de choque, alta tecnologia no graúdo das guerras internacionais e no miúdo do abate nas ruas. Arrastando as empresas alimentícias e de montagem encontram na penitenciária também o rebanho perfeito pra produção sem férias, direitos trabalhistas, décimo terceiro, seguro nenhum.

As experiências “médicas” também abundam nos corrós dos EUA e da Rússia, os exemplos da privatização das canas de cá. Os netos de imigrantes chamarem os atuais imigrantes de escória e tacar fogo em seus tornozelos também se trança bonito ao investimento, vai delimitando a cadeia como cafofo pros “ilegais” que não tem os “papéis” nem a pele desejada pra graciosa mestiçagem brasileira.

São os mesmos estrimiliques e gráficos empresariais que regem a redução da maioridade penal e os enquadros nos ônibus cheios da rapaziada negra e suburbana no caminho da praia carioca. Autorizados pelo governador do Rio, contemplando o medo e o ódio dos barões e seus herdeiros contemporâneos, da classe média que come mortadela e arrota peito de peru, os fardados gozam o cassetete nas costas pretas enquanto gelam diante da patota bem nascida da zona sul, os que podem quebrar janelas de ônibus e voando a 120 por hora passar por cima de trabalhador.

Pra esses, o sistema brasileiro de corpos não tem cadeira de réu.

Nada de novo: é a lógica do espaço. O apartheid brasileiro já tão escrito por tantos ancestrais, detalhado na forma e no miolo, mas que a cara pálida sempre insistiu ser paúra nossa.

Negócios e a fome psíquica de alguém pra pisar por cima.


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