Parabéns, São Paulo – Teu mar arde em meus olhos

PARABÉNS, SÃO PAULO – TEU MAR ARDE EM MEUS OLHOS São Paulo, teu peito é um desbarranco Teu mar arde em meus olhos São Paulo boteco, carquéra e cascaio. Teus cachorros montam cabritos E aqui até as pombas aprendem a cantar São Paulo oito cores no arco-íris Céu rosa e roxo, pincel sujo Teu crepúsculo […]

PARABÉNS, SÃO PAULO – TEU MAR ARDE EM MEUS OLHOS

São Paulo, teu peito é um desbarranco
Teu mar arde em meus olhos

São Paulo boteco, carquéra e cascaio.
Teus cachorros montam cabritos
E aqui até as pombas aprendem a cantar

São Paulo oito cores no arco-íris
Céu rosa e roxo, pincel sujo
Teu crepúsculo é o mais belo

São Paulo Bolívia e Haiti, Senegal Japão
São Paulo caméla, São Paulo função
São Paulo onde os táxis não vão
São Paulo funk, São Paulo Buda, São Paulo baião

Meu pescoço tua viela
Donde brotam gírias, lamentos e senhas
Poesia magrela
Que duques copiam quadrado
Pra vender redondo

São Paulo,
Teus salmos são bóias, teus dízimos poupança, tuas gravatas chicote.
Tua madrugada vai mais fundo que o Tempo
África em seus quintais
Teimosos hortelãs
Florestas nas janelas e beirais

São Paulo preta e branca
São Paulo vermelha
Dos barracos, de nossas vistas e tuas valas
São Paulo, pipa rasgada insistindo em voar

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São Paulo do cabelo branco e seu olhar de vidro
Passo arrastado na ladeira
São Paulo anciã, sua malícia e sua graça
Seus traumas, suas lascas, sua pirraça

São Paulo dos trilhos trincados
Vai de pé e apertada minha esperança
Da Cidade Tiradentes a Perus
Do Jaçanã a Parelheiros
Em goteiras pinga a alma
Batalhando alguns cruzeiros

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São Paulo barreiro, palacetes e torres
Rosa despetalada que alucina
São Paulo das tranças
São Paulo das trancas
Cadeados nas veias meninas
São Paulo muleca gingando em sequelas
São Paulo da janta, o virado em gamelas
Partilhado por buracos no muro

Sorrindo cabreira
São Paulo feira
Sacolona furada leva sonhos pechinchados
Carrinho tropicando a doçura em seus buracos

São Paulo
No teu golzinho de chinelo no asfalto
Rola meu coração
Ficou o tampo do meu dedão
E aqueles craques que tu esmigalhou

São Paulo
Na lousa da várzea, rege as chuteiras a bateria
Come as unhas da alegria
Que domingo, em cada xingo um carinho
No terrão faz seu ninho
Pois na segunda volta o espinho

São Paulo vasta
Cabe num varal
De cabeça pra baixo
Pinga teu pânico

São Paulo dos sabiás
São Paulo das ratazanas
Teu rancor a lixaiada no beco
Teu tesão a fogueira no escadão
São Paulo teu choro é a enchente do verão
Teu segredo, muquiado no último vagão

São Paulo fardada que escolta o herdeiro
Helicópteros, Lamborghini, diamante
São Paulo Nordeste, meu cangote tem teu cheiro
São Paulo centro, mil abelhas no vespeiro

Folha seca respingada de cimento
A saliva de teus rios fedendo lambe o vento

São Paulo, teu mar arde em meus olhos

Foto de capa: Marcelo Camargo/ABr