A paz dos cemitérios – Por Bia Abramo

Governo Bolsonaro celebra o agricultor que passa fogo em quem invadir propriedade privada

Ontem foi Dia do Agricultor. Não precisa ser nenhum especialista em semiótica para captar imediatamente o que o governo de Jair Bolsonaro quis dizer com essa peça, veiculada pela SecomVc, @secomvc. Criada em agosto de 2019 para dar um verniz mais civilizado, por assim dizer, à comunicação selvagem do bolsonarismo, uma vez que, bem, eles estavam no poder já há 8 meses, a SecomVc se apresenta no Twitter como “o canal da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República”. Sua missão? “Aqui vamos manter diálogo direto e combater as fake news.”

Missão certamente impossível, dado que Bolsonaro não apenas se elegeu a partir de uma campanha baseada em mentiras, notícias falsas, terror calculado para criminalizar o adversário (quem se esquece da mamadeira de piroca?) e recusa ao debate (em conluio com alguns grandes veículos de comunicação que deram entrevistas individuais combinadas enquanto os outros candidatos em 2018 se enfrentavam nos debates de TV) como, uma vez empossado como presidente, prosseguiu prometendo um Brasil que só existia na cabeça dele – e de seus ministros. Até que veio a pandemia, em 11 de março de 2020, e os planos do governo Bolsonaro começaram a fazer água.

O vírus de altíssima letalidade pegou o mundo da ciência e da medicina de calças curtas e fez Tedros Adhanom, diretor geral da OMS, anunciar que a humanidade estava diante de uma pandemia. Palavra que muitos de nós ouvimos ou compreendemos pela primeira vez naquele dia, quando começamos a ver as imagens de cidades inteiras na Europa desertas pela quarentena, profissionais de saúde lutando desesperados para salvar pacientes da morte por asfixia e notícias cada vez mais alarmantes (e, muitas vezes, desencontradas) sobre a duração, a taxa de mortalidade, as maneiras de evitar ou combater a contaminação.

O susto, o medo e o luto ensombreceram o mundo: percebemos que estávamos diante de uma ameaça que exigiria serenidade, fé na ciência, solidariedade, generosidade.

Eles não. Jair Bolsonaro e seus capangas entraram em modo primeiro apenas negacionista e, muito rapidamente, enveredaram por uma trilha perigosamente  anticientífica e, sabemos hoje, genocida. Está aí a CPI da Pandemia revelando, todos os dias, o espetáculo tenebroso da agenda bolsonarista: tratamento precoce, imunidade de rebanho, negociatas indecentes e atrasos indesculpáveis na aquisição de vacinas. Hoje, são 552 mil mortos no Brasil e nos tornamos o segundo país em número de mortos (o primeiro ainda são os Estados Unidos, com 611 mil óbitos em uma população de 328.2 milhões contra os 211 milhões de brasileiros).

A Secretaria Especial de Comunicação, de atuação burocrática e apagada desde sua criação em agosto de 2019, ganhou ares da “Voz do Brasil bolsonarista” desde que Bolsonaro recriou o Ministério das Comunicações em junho de 2020 para dar de presente para Fábio Faria, casado com uma das herdeiras do Grupo Silvio Santos, a apresentadora Patrícia Abravanel. Naquele mês de 2020, a gripezinha que mataria, nos cálculos de Bolsonaro, uns 800 brasileiros que tinham mesmo que morrer (“Quem tiver uma idade avançada e for fraco, se contrair o vírus, vai ter dificuldade. Quem tem doenças, comorbidades, também vai ter dificuldades. Esse pessoal que tem que ser isolado pela família, o Estado não tem como zelar por todo mundo, não”), já tinha matado 10 vezes mais pessoas, o presidente já tinha destituído dois ministros da Saúde para botar o militar da ativa Eduardo Pazuello, “especialista em logística” no cargo.

Faria, deputado no seu quarto mandato, jovem e, ahn, “antenado” injetou estratégias marqueteiras para tentar conter as crises de imagem causadas pelos desmontes sucessivos do governo Bolsonaro, pelo desprezo insistente de Jair pela pandemia e pela catástrofe sanitária já instalada. O Brasil estava queimando, sufocando e Jair perambulava pelos jardins do palácio perseguindo as emas com uma caixa de cloroquina.

E a economia, estúpido? A economia, com o gélido ministro Paulo Guedes, dava seus pulinhos e saltos no escuro. Como o terror de Bolsonaro sempre foi a paralisação da atividade econômica – na verdade, ter de injetar dinheiro do Estado para não aumentar o já grande contingente de pobres, mais pobres ainda, paupérrimos e  miseráveis – , o titular da pasta da Economia fazia seus cálculos mirabolantes segurar minimamente o consumo, manter a inflação sob controle e, claro, entregar o que pudesse à iniciativa privada.

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O receituário liberal pinochetista, de onde Guedes tirou toda a inspiração para seu plano econômico, aplicado a um país complexo, com população maior e mais diversa que teve pelo quase duas décadas de políticas públicas de inclusão e reparação histórica, já não ia dar certo.  No momento em teve de enfrentar necessidades inéditas de gastos – auxílio emergencial, compra de insumos, de vacinas, de remédios -, aí que desceu mesmo ladeira abaixo.

Último dos ministros “técnicos” do governo Bolsonaro, Guedes hoje segura uma das duas pontas da tal da narrativa de Bolsonaro desde março de 2020: temos de cuidar de vidas, mas não podemos descuidar da economia. Desprezaram as primeiras e nem vamos falar da economia, né? Inflação de produtos básicos assustando quem vai ao mercado, gasolina, eletricidade e gás de cozinha fora do alcance da renda de muitas famílias, fome matando e se aproximando de cada vez mais pessoas – e não só nas periferias.

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E aí vem esse dia do agricultor (ou do agronegócio) e a SecomVc vem com essa imagem de violência.  Vale a pena se deter sobre, ahn, a narrativa da sequência dos tuítes.

“O Governo do Brasil trabalha para que os agricultores possam trabalhar em paz: -SEGURANÇA: invasões de terras em baixa histórica.” —>  Além de estender a posse de arma do proprietário rural a toda a sua propriedade, para proteção das famílias, reduzimos DRASTICAMENTE as invasões de terra”.

Segue-se uma sequência de dados, na qual pretende-se demonstrar que de 1995 até 2016, os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (comunista!), os dois de Lula (comunista safado!!!), o mandato e meio de Dilma (comunista terrorista!!!!!!!!) deixaram os agricultores pobres indefesos contra os “bandidos” que ocupam terras improdutivas.

E seguem: “O @Govbr também conseguiu reduzir a invasão de terras e está melhorando a infraestrutura das estradas, o que reduz os custos de transporte dos alimentos. Além disso, o Presidente @jairbolsonaro estendeu a posse de arma do proprietário rural a toda a sua propriedade”. Ou seja, a bala está garantida por Jair de modo que o boi e a soja não sejam ameaçados por nenhum assentamento que queira plantar mandioca, feijão, tomates etc., porque o agricultor que a SecomVc retrata de arma em punho não o homem do campo, mas o empregado do agronegócio que, segundo o governo vigente, vai transformar o país deles em “uma das potências mundiais com segurança alimentar” (com? em? preposição é mesmo o diabo, né? acho que não entendi esse pedaço).  Por fim, o futuro se anuncia brilhante: “E a previsão é de que a produção do agro brasileiro continue crescendo”.

Brasil, o país que vai em frente, com um jagunço armado e um operário (?) branco e sorridente.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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Bia Abramo

Jornalista e assessora de comunicação

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