Contando os dias para salvar vidas – Por Pati Cornils

A secretária de Saúde de Araraquara, Eliana Honain, mostra duas vezes por dia que existe um país melhor do que o das atrocidades diárias do presidente da República.

“Olá, boa tarde. Estamos aqui para o nosso tricentésimo nonagésimo sexto Boletim Diário do Comitê de Contingência de Coronavírus, 15 de abril de 2021.” Todos os dias, Eliana Honain, secretária de Saúde de Araraquara (SP), grava um vídeo sobre a situação da Covid-19 no município, publicado no Facebook da Prefeitura de Araraquara. Na hora do almoço, lá está o boletim. O marido implica com o método de contagem: acha que ela não deveria usar números ordinais. Desde o número dez, que virou “décimo”, a contagem que estica a passagem dos dias se parece com o tempo infindável da pandemia no Brasil. Amanhã será o tricentésimo nonagésimo sétimo boletim.

O primeiro vídeo foi gravado em 16 de março de 2020. Era o boletim da primeira reunião diária do comitê de contingência, que começou a funcionar quando ainda não havia casos de Covid-19 em Araraquara. Desde então, de domingo a domingo, a secretária faz dois vídeos. Toda manhã, faz boletins que se chamam “extraordinários”, mas não são extras, são diários. E no almoço, o boletim do comitê.

O conteúdo dos boletins é informação nua e crua. À primeira vista, trata-se principalmente de números. O que se ouve e vê, no entanto, é um poder público que combate uma catástrofe sanitária e respeita seus cidadãos. Uma administração que deseja salvar vidas: o avesso do que sofremos, diariamente, com as declarações do presidente do Brasil. O boletim de Araraquara mobiliza um repertório de transparência e de responsabilidades, tanto de autoridades quanto da sociedade. O presidente ignora atribuições e obrigações de seu próprio cargo e já disse, orgulhoso: “Minha especialidade é matar”.

Na presidência, Bolsonaro faz guerra contra o lockdown, nome que decidiu usar para qualquer medida de isolamento social a fim de conter o coronavírus. Eliana Honain encerra todos os seus boletins assim: “Não se esqueçam. Há transmissão de coronavírus no município de Araraquara. Se protejam. Fiquem em casa.”

No tricentésimo quadragésimo dia, ela usava duas máscaras: uma de pano e, por baixo, uma cirúrgica. Naquela manhã, havia gravado o Boletim Extraordinário em que informou que 49% das amostras de exames feitos no município deram positivo para Covid-19 e 100% dos leitos de enfermaria e de UTI de Araraquara estavam ocupados. E entre os falecidos, um homem de 33 anos sem comorbidades, internado em hospital público desde 10 de fevereiro. Era o efeito da variante P1 do coronavírus se manifestando em Araraquara.

As informações atualizadas nos boletins são datas, locais, horários e pessoas que podem se vacinar, como colaborar com a rede de solidariedade doando alimentos e produtos de higiene e limpeza, quantas primeiras e segundas doses das vacinas foram aplicadas, quantos novos casos foram registrados no dia, nas redes pública e privada, o número de testes realizados e o percentual positivo, quantos casos a cidade registrou até aquele dia, quantas pessoas estão em quarentena e quantas saíram, quantos pacientes internados em leitos de enfermarias e UTIs públicas e particulares, qual o percentual de ocupação dos leitos, quantos internados são de Araraquara, quantos de outros municípios e onde residem, perfil dos óbitos mais recentes. Todos os casos são monitorados pelas equipes de saúde, para garantir que cumpram a quarentena. Araraquara realiza entre mil e dois mil testes por dia, qualquer pessoa com sintoma de gripe é testada. E os resultados saem no mesmo dia. Os boletins extraordinários prestam conta das autuações por descumprimento de quarentena, do número de atendimentos realizados na rede de saúde, número de atendimentos no 0800.

Eliana não gravou seus vídeos no tricentésimo quadragésimo primeiro dia. Havia contraído o coronavírus. Em duas outras ocasiões não gravou: quando perdeu o pai e quando perdeu a cunhada para a doença. “O comitê volta a reforçar a importância do cumprimento das regras mais restritas da quarentena e a atenção com as medidas sanitárias no caso das pessoas que atuam em serviços essenciais e que precisam se deslocar para trabalhar. É imprescindível o uso da máscara da maneira correta, cobrindo o nariz e a boca, a higienização das mãos e o distanciamento entre as pessoas nos espaços públicos. Os demais devem permanecer em sua casa, em isolamento. Vale destacar mais uma vez que os contatos domiciliares de positivados devem cumprir corretamente o isolamento de 14 dias. A situação é grave, é preciso a participação de todos no enfrentamento da pandemia”, dizia o vídeo do Boletim 341. Os vídeos foram feitos por outras pessoas da equipe por duas semanas, até Eliana se curar e voltar ao trabalho.

Entre 21 de fevereiro e 4 de março de 2021, a prefeitura de Araraquara decretou um lockdown que merece este nome. Fechou a cidade, por recomendação do Comitê de Contingência do Coronavírus e do Comitê Científico da cidade, onde estão diretores clínicos e responsáveis pelas áreas de covid-19 da rede hospitalar da cidade, pesquisadores de faculdades de saúde pública, infectologistas e pneumologistas. Fechou supermercados e postos de gasolina. Parou o transporte público. Fez barreiras sanitárias no município. E garantiu R$ 800 de auxílio emergencial, para as famílias mais vulneráveis ficarem em casa sem passar fome. Os boletins posteriores mostram o resultado: uma queda de 70% na média diária de casos, de 83% no número de pessoas contagiadas e em quarentena. A ocupação dos leitos em Araraquara hoje é de 50% nas enfermarias e 90% nas UTIs – onde 52% das pessoas são residentes de outras cidades.

O lockdown de Araraquara contou com o apoio do que Bolsonaro chama de “economia”: as maiores empresas da cidade. Seu início foi marcado pelo toque das sirenes das fábricas da Cutrale, Lupo e Nigro Alumínios. Os boletins diários são parte de um amplo processo de comunicação e diálogo com todos os setores econômicos e sociais do município, e foi este diálogo que permitiu a medida radical e necessária. Lockdown não se decreta, se constrói”, diz a secretária. “Se você não mostra à sociedade o que está acontecendo, não cria credibilidade.”

No Dia Mundial da Saúde, 7 de abril, Eliana Honain concedeu uma longa entrevista no Facebook do Conselho das Secretarias Municipais de Saúde de São Paulo (COSEMS SP), onde conta como Araraquara estruturou sua Atenção Primária à Saúde para enfrentar a pandemia. Não é um hit na rede. Tem somente 738 visualizações e 71 curtidas. Não é binário: lockdown ou não-lockdown. É um vídeo onde se entende o contexto dos boletins diários e onde entendemos que salvar vidas é possível. Basta querer e trabalhar – muito – para isso. “Vamos ficar marcados pelo número de caixões que a gente enfileirou”, diz ela sobre os gestores públicos brasileiros. No boletim em que anunciou, depois do lockdown, que havia 48 horas não morria ninguém em Araraquara, ela, finalmente, chorou.

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Patrícia Cornils

jornalista e ativista da comunicação