Ativismo de Sofá

por Flávia Simas, Kel Campos e Thaís Campolina  

O que o brasileiro pensa?
24 de maio de 2013, 12h14

A rua também é minha – a misoginia no trânsito

Olá! Inicio a postagem, e minha participação nesse blog, me apresentando. Sou Kelly, de apelido Kel (use esse meu codinome, por favor), tenho a sensação eterna de inadequação e insatisfação, sou feminista, acredito que a dignidade só é plena quando somos livres e iguais. E agora sou uma ativista de sofá.

Ah, me esqueci de uma característica. Sou boa motorista. Apesar do pavor de dirigir em engarrafamentos. E fazer balizas. E de não ter senso direção sem o uso de GPS. Talvez eu não seja assim tão boa, apesar de cautelosa. Mas, por favor, eu não represento todo o gênero feminino no trânsito. Então, não queira ofender todas as mulheres, se eu cometer algum deslize, gritando para mim algo como “tinha que ser mulher”.

O trânsito é um ambiente selvagem. Essa mesma abordagem já foi realizada, com maestria, aquiMotoristas, de todos os gêneros, agindo de modo egocêntrico, desrespeitando regras e cometendo falhas. Conhece o icônico desenho em que Pateta se transforma em “Motorista Diabólico” ao administrar o volante? 


É fácil notar que, apesar de ser o trânsito um ambiente público, o interior do veículo é o espaço privado dxs indivíduos. Quem nunca lidou com a raiva de algumx motorista que decidiu compartilhar seu gosto musical nas ruas? Ou umx motorista asseadx que não tira o dedo do nariz? Fácil lembrar de alguns tipos caricatos de motoristas. Certamente você me apontaria muitos. A psicóloga especialista em trânsito Neuza Corassa elaborou um rol de tipos de principais motorista. Tente se reconhecer.

A solução para o caos no trânsito parece cada dia mais inalcançável, com o aumento do número de carros circulando nas ruas (e a diminuição do IPI), a conservação inadequada das vias e incapacidade da turma que gerencia o tráfego. Um fato. Mas, e na parte que cabe à civilidade dxs motoristas? Comportamento adequado dos usuários não amenizaria o problema? Ver o trânsito como um ambiente de compartilhamento e não de competição?

Sim, competição! De quem tem maior poder financeiro, ou de quem é mais másculo, ou de quem é mais independente, ou de quem é mais impetuoso, ou de quem tem o espírito mais jovem, ou de quem não leva desaforo para casa. Uma rinha. É ambiente público, logo de dominação masculina. Com muitos aspectos que caracterizam a presença feminina como uma intrusão.

O elemento não humano essencial ao trânsito é o veículo. Ele não é mero objeto funcional que cuida do deslocamento das pessoas, é o ícone máximo do consumismo. A materialização do poder alcançado, do espírito indomável, do desempenho, indicativo de posição social. A combinação ideal para o másculo motorista, proativo, racional e invencível. 
Soma-se a isso a ideia de exclusividade, mesmo que a maior parte da população só tenha acesso a carros produzidos em série. A sensação de que se é especial pode ser suprida pela presença de belas mulheres, como troféu. O que importa é causar competição e provar masculinidade. Já ouviu a saga do rapaz que teve seus problemas afetivos resolvidos com a aquisição de um Camaro Amarelo? Foi essa a resposta de Gabriel Gava. Na humildade. 

“De Land Rover é fácil, é mole, é lindo
Quero ver jogar a gata no fundo da Fiorino”
Quando direcionado ao público o feminino, as características são outras. Um carro para pequenas distância, algo entre fazer compras e buscar as crianças na escola. Com linhas arrendondadas, de preferência  pequeno, fácil de estacionar. A publicidade da Ferrari, é muito elucidativa. Enquanto ele se aventura velozmente por pistas arborizadas ou rochosas, ela cautelosamente guia pelo trânsito urbano, em busca de objetos de luxo.

“Mulheres dirigem, essa é uma realidade, o que mais vocês querem?” – dirão alguns tentando nos silenciar. Mas, o papel de motorista ou passageira pode estar condicionado à presença masculina. Já observou que, dentre casais heterossexuais que saem juntos, raramente é a mulher que guia? E que às mulheres não costumam ser ensinadas, no processo de instrução pré habilitação, a parte mecânica além daquelas enfadonhas aulas teóricas do Centro de Formação do Condutor? Ou mesmo que em muitas famílias a única tarefa doméstica que é declinada ao homem é a de lavar o carro? 

A cobrança, interna e de toda a sociedade, é imensa. As estatísticas apontam a mulher como motorista que menos causa acidente. Ah, e claro, há até aquela compensação de um preço menor no seguro por ser uma “boa menina”. 

Extreme de dúvidas que a mulher é socialmente considerada incapaz de dirigir com a mesma destreza dos homens. A cada mulher que apresenta dificuldade de dirigir há uma consequência: todo o gênero feminino é diminuído, ridicularizado.
Consequência disso é que dxs motoristas fóbicxs, lá daquele quadro elaborado pela especialista em trânsito, a maioria são mulheres. Uma segurança alimentada constantemente, pelos brinquedos, pela tevê, pelas convenções sociais e por piadas. Que, espero, você, leitorx desse blog, não reproduza nunca mais.

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