Ativismo de Sofá

por Flávia Simas, Kel Campos e Thaís Campolina  

21 de julho de 2014, 18h56

Chega de violência obstétrica! Pelo direito de parir e nascer sem violência.

Texto de Thaís Campolina
Retratos da violência obstétrica
A violência obstétrica acontece quando profissionais de saúde desrespeitam a vontade e autonomia da grávida, omitem informações sobre parto e saúde que possibilita a mulher de fato escolher se quer parto normal ou cesariana, utilizam-se de técnicas arcaicas e agressivas contra o corpo designado como feminino e tratam a grávida de forma completamente desumanizada, fazendo piadinhas com sua sexualidade e impedindo que a grávida manifeste suas emoções . 

“A violência obstétrica existe e caracteriza-se pela apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização e patologia dos processos naturais, causando a perda de autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade” 

Ela é naturalizada em nossa sociedade por causa da misoginia tão enraizada na nossa cultura e nas práticas médicas. Uma das fontes dessa naturalização da violência é a ideia de que o corpo da mulher é público, especialmente durante a gravidez. Muitas mulheres relatam que ao noticiar a gravidez todos se sentem no direito de opinar sobre o corpo delas e se o comportamento delas é coerente com o de uma futura mãe e até mesmo passam a tocar na barriga sem consentimento. 
Se a grávida se mostra incomodada com as intromissões e toques não consentidos, ela ouve frases como “Nossa, mas grávida fica muito sensível mesmo, não é?” e até mesmo “Nossa, bem que dizem que grávida fica beirando a histeria”. Essa visão de que grávidas são malucas, histéricas e não sabem o que querem e o que fazem contribui muito para a naturalização da violência obstétrica porque é uma forma de desvalorizar a voz das mulheres que ousam denunciar. As denúncias de violência obstétrica são encaradas pela maioria das pessoas como um exagero, excesso de sensibilidade, sendo que é uma violência e é necessário dar visibilidade a voz das mulheres que foram vítimas dessa desumanização para que as pessoas parem de encarar uma violência sistêmica como uma bobagem. 
 
Na maioria dos relatos de sobreviventes dessa violência a gente vê como a demonização da sexualidade feminina influencia nas frases tão agressivas que são ditas para as pacientes. Frases comuns nos relatos são “Na hora de fazer você não gritou” e “Pensava nisso antes de abrir as pernas” e elas escancaram como a dor na hora do parto muitas vezes é vista como uma punição para a mulher que exerce sua sexualidade. 
 
Um procedimento médico comum nos hospitais brasileiros é a episiotomia de rotina e posteriormente, o “ponto do marido”. A episiotomia é um corte cirúrgico na área do períneo pra ajudar na saída do bebê que é, na grande maioria das vezes, desnecessário. A episiotomia de rotina, procedimento tão naturalizado no mundo médico, é uma violência obstétrica, principalmente porque ela ocorre muitas vezes sem o consentimento da grávida. O “ponto do marido” ocorre na sutura da episiotomia e consiste em dar um pontinho a mais. Normalmente também ocorre sem o consentimento e sem o médico dar as devidas informações para a grávida. A violência do “ponto do marido” é escancarada, já que o corpo da mulher, sua recuperação e sua sexualidade são colocados como menos importantes que o prazer do parceiro e também por ter muito a ver com a visão arcaica que vaginas “relaxam” e da valorização da virgindade feminina.
 

No Brasil e em outros países, temos o agravante do chamado “ponto do marido”, a apertada adicional da vulva supostamente para “devolver à mulher a condição virginal”, muito freqüentemente associada a dores na relação sexual e mesmo à impossibilidade da penetração, necessitando correção cirúrgica“.

 
Não só o machismo influencia nas agressões, mas também o racismo, visto que as mulheres negras sofrem com o mito, que se funda no racismo, de que elas são mais resistentes. Por causa desse mito, mulheres negras recebem menos anestesia durante o parto. 
A violência obstétrica está presente na história das mulheres que engravidam e sua gravidade não é reconhecida pela sociedade. Falar sobre violência obstétrica, lutar pela humanização do parto, utilizar a internet e conversas para informar mulheres sobre seus direitos e sobre procedimentos considerados arcaicos e agressivos é lutar contra a violência contra a mulher.

Por isso, no dia 24 de julho, haverá um tuitaço com a hashtag #ParirSemViolência, a partir das 16 horas. Ajude dar visibilidade a esse problema e diga conosco: Chega de violência obstétrica! (a hashtag #NascerSemViolência também pode ser usada em conjunto com a outra)


 
Para quem quer saber mais sobre o assunto, eu indico os sites Paula IrRita, Para BeatrizFemmaterna, Estude, Melania, estuda, Cientista que virou mãe e os nossos textos sobre maternidade e feminismo.
 
Cientifique-se humana –  Paula Mariá 
 
Quanta dor cabe em um corte de cesária –  Paula Mariá

Não deixem de conhecer o projeto Retratos da violência obstétrica e sua página no facebook Projeto 1 : 4.

Mais textos:

Violência obstétrica é violência de gênero. Ou até quando vamos tolerar misoginia? – Para Beatriz 

Negra e grávida: ainda mais invisível? – Blogueiras Negras

Grávida, pobre e negra – quando a violência e a omissão obstétrica matam e parir vira uma questão de coragem – Blogueiras Negras

Na hora de fazer não gritou 

Observação: homens trans e pessoas não binárias com útero também podem engravidar.  A reivindicação de um parto sem violência é alcança também essas pessoas. (Nem todas as mulheres podem engravidar e tem útero). 


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