Ativismo de Sofá

por Flávia Simas, Kel Campos e Thaís Campolina  

O que o brasileiro pensa?
01 de abril de 2013, 18h10

Convivendo com intolerantes.




Acredito que uma pergunta que sempre surge em nós quando começamos a militar em prol de direitos iguais é: como conviver com pessoas intolerantes? 

Eu sei que é bem cansativo discutir com reaças e mascus que não conhecemos, online ou mesmo em salas de aula. Porém, a coisa muda quando se trata de pessoas próximas a nós, seja da família, ou mesmo amizades antigas. Não é raro ver esse tipo de discussão em grupos online, que acabam servindo de momentos de auto-ajuda, mas… a pergunta fica. 

Como lidar? Eu confesso que o meu caso é um pouco mais confortável nesse sentido que o de muita gente. Porque meu contato com muitas pessoas que conheço há tempos se restringe à internet. Morar fora do país tem inúmeras desvantagens mas, em se tratando de evitar atritos diários, eu diria que é uma bênção. 

Porém, mesmo comigo já aconteceu de bloquear/ser bloqueada. Tratavam-se de pessoas queridas. Pessoas que eu queria ter perto de mim, ainda que “perto” significasse apenas curtir status no facebook. Em todos os episódios, ficou a amarga constatação: as diferenças ideológicas entre eu e essas pessoas eram tão imensas, que já não dava mais para tê-las em estima. E assim elas se foram. E eu sofri. E por um bom tempo, eu me perguntei se fazia algum sentido sofrer por alguém que publica comentários odiosos no facebook como se estivesse fazendo um grande favor à toda humanidade. 

Hoje eu vejo que fazia, e faz, muito sentido. Isso de sofrer a perda. Faz sentido porque houve um momento, lá no passado, em que essas pessoas me demonstraram humanidade. Essas pessoas foram legais comigo. Elas me ouviram em algum ponto em que precisei ser ouvida. E eu também as ouvi. Houve troca. Houve sentimentos. 

Porém, nem tudo na vida segue de acordo com aquilo que almejamos. Eu queria dizer “nada” ao invés de “nem tudo”, mas prometi a mim mesma que serei mais otimista. Então, chega um momento em que precisamos, de verdade, fazer escolhas. E não digo “escolhas” no sentido pieguinha do termo (“você é o que escolhe ser”), mas… escolha. Um momento em que você opta por não se desgastar. Porque, convenhamos, a vida já é difícil demais pra ficar em atrito o tempo todo com alguém que veementemente discorda de nós. 

Eu acho chato, muito chato, que o feminismo e os direitos humanos sejam vistos, por muitxs, como mera questão de opinião. Eu sonho verdadeiramente com o dia em que será ponto pacífico que mulheres e minorias merecem ser tratadxs com dignidade, em igualdade de direitos. Que o respeito é para todxs, independentemente de gênero, raça, crença, orientação sexual, status social. Entretanto, eu tenho consciência que esse dia ainda está bem longe. O andar da carruagem da política do nosso país, e do mundo, é prova disso. 

Como os tempos são difíceis para os sonhadores, como bem disse a nossa querida Amélie Poulain, a prática do nosso ativismo muitas vezes se torna angustiante, insuportável. Não é rara a sensação de perda de tempo, a frustração em ver que não estão lhe ouvindo, ou ainda, que lhe taxam de rebelde sem causa, que isso é “fase”, ou então, que você enlouqueceu de vez. Em maior ou menor grau, eu já ouvi tudo isso. 

Mas então… o que me faz caminhar, o que me motiva a continuar, mesmo entre trancos e barrancos, com longos períodos de silêncio e muitas oportunidades em que eu simplesmente não encontro forças para falar? Eu acredito que a resposta está na sororidade. Está em encontrar espaços, no meu caso online, em que eu posso discutir idéias, estar com pessoas que acreditam no mesmo que eu. Está em ver minhas amigas indo para marchas diversas e vibrar com isso. Está em saber que alguma amiga que você jamais imaginava que concordaria contigo foi lá e curtiu seu status. Está em perceber que há meninas que enfrentam um verdadeiro calvário em suas famílias porque resolveram ser elas mesmas, ou seja: seres humanas dotadas de inteligência, personalidade própria, sexualidade, sonhos que ultrapassam tradições. 


Imagem retirada do blog Cabeça Tédio


Eu sei que o texto já está demasiadamente longo, mas queria deixar uma história que ouvi esses dias, em um curso que estou tentando fazer fazendo online: é sabido que o racismo impera nos Estados Unidos. Houve um tempo, porém, em que ser negrx era muito mais insuportável do que hoje em dia. Nesse tempo, que no caso do curso se trata do final do século XIX e início do XX, as pessoas negras viviam amedrontadas, pois havia uma alta probabilidade de serem linchadas em público, especialmente no sul do país. 

Imperava, então, a noção de que as raças deveriam permanecer separadas, mas sem diferenças no tratamento dado a todxs. Dessa forma, um bonde dedicado a brancxs deveria ter o mesmo conforto que um bonde dedicado a negrxs e todxs viveriam felizes para sempre, fechadxs em suas bolhas. 

Acontece que na vida real as coisas não eram tão simples. Não era raro que algum branco entrasse em lotações destinadas a negrxs, e os motoristas simplesmente pediam que algum negro cedesse o lugar ao branco. Também era bem difícil para os negrxs, que precisavam do transporte coletivo bem mais que as pessoas brancas, que dispunham muitas vezes de condução própria para se locomoverem pela cidade. E bem. O “conforto igual” só existia mesmo no papel. 

Então. Várixs negrxs resolveram burlar a lei, entrando nas lotações que não lhes eram alocadas. E houve brigas. E tumultos. E linchamentos. E protestos. E processos. Contudo, xs negrxs, que foram se organizando cada vez mais, perceberam que talvez fosse mais fácil – e eficaz – boicotar o transporte público. Daí que elxs resolveram andar. 

Campanhas e mais campanhas foram feitas para angariar pessoas ao boicote. E dentre as inúmeras histórias que a professora contou, uma ficou na minha mente: a de uma empregada doméstica cujo patrão, branco, não aceitava que ela andasse. Ela teria que levar o almoço para o patrão todos os dias, e voltar para a casa dele e preparar o seu jantar. Se ela caminhasse, o almoço chegava frio. 

Essa empregada discutia diariamente com o seu patrão. Pelos registros, percebe-se que ela realmente colocava a sua voz sempre que necessário. Parece que ficou acordado que ela pegaria a condução para levar o almoço a ele, mas voltaria a pé para casa. Mas, todos os dias eles discutiam a respeito. E ela, vendo que não poderia contrariar o patrão totalmente, encontrou a mencionada saída. 

Pode ser que o patrão realmente amasse a sua comida. Pode ser que seu dote culinário sobrepujava-se ao inconveniente de discutir com ela. Porém, uma análise mais atenta a tudo o que acontecia na época nos dá a dica: ele certamente não procurava uma outra empregada porque sabia que seria a mesma coisa. Porque todas aderiram ao boicote.

Aquela empregada fazia o que estava a seu alcance fazer. Mesmo tendo que pegar o tal do ônibus uma vez ao dia, ela fez o que podia fazer. Dentro das suas possibilidades. Porque ela sabia que aquilo era maior que ela. Que ela pertencia a algo grande. 




E é assim que eu me vejo. É nesse tipo de história que eu encontro forças para continuar a fazer o que eu posso, ou seja, escrever de vez em quando, em prol de uma causa que eu sei que é muito, muito maior que eu. 

Chegou um momento em minha vida em que percebi que o sofrimento é inevitável. Ficar em silêncio, entretanto, é opcional. É por isso que tenho tentado, cada vez mais, seguir adiante com a minha militância. Com o foco naquilo que realmente importa. Portanto, quando a convivência é compulsória, é preciso tentar encontrar uma forma de militar sem que a relação se deteriore tanto. E pra quando não houver necessariamente a obrigação de conviver:

“Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar” – Geraldo Vandré. 


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