Ativismo de Sofá

por Flávia Simas, Kel Campos e Thaís Campolina  

#Fórumcast, o podcast da Fórum
29 de abril de 2015, 21h33

Descaso com a educação e violência estatal, o que isso mostra?

Texto de Thaís Campolina

Malala, ativista pela educação de meninas.

Malala, ativista pela educação de meninas.

Eu, enquanto defensora dos direitos humanos e feminista, muitas vezes me peguei falando sobre a importância de uma educação de qualidade não só como um direito das pessoas, mas também como uma possível forma de transformar a sociedade. Teoricamente, acreditar na educação e achar que ela tem que melhorar é uma pauta que une todas as tribos, incluindo até políticos no poder e é o tipo de coisa que podemos falar num almoço de domingo em família sem causar discussões acaloradas. Na prática, a pauta não tem essa popularidade toda e isso se torna óbvio com a reação violenta que o Estado tem ao se deparar com greves de professores e o apoio de parcela da população às agressões.

Há greves e manifestações de professores em vários estados e municípios brasileiros acontecendo atualmente, o que por si só já é um indício e tanto do descaso do Estado com a educação. Em São Paulo, 40 mil professores em greve estiveram nas ruas e Alckmin, governador do estado, nega a existência da greve e fora da internet pouco se vê notícias sobre. A negligência está óbvia. Os atos e greves são por vários motivos: alguns pedem aumento de salário, outros se manifestam contra os cortes de gastos feitos na área, que ocasionam até em fechamento de centros educacionais, outros pedem melhorias nas estruturas físicas das escolas e nas condições de trabalho e outros dizem não ao corte de seus próprios direitos previdenciários. Os motivos são variados e isso só mostra a crise em que se encontra a educação.

Professores em luta!

Professores em luta!

Professores do Paraná foram agredidos por policiais militares a mando do governador Beto Richa e seu secretário, enquanto se manifestavam contra o projeto de lei que tem a intenção de reformar a previdência do estado, projeto que apresenta claras desvantagens para os direitos dos servidores. Até então, são cerca de 150 feridos, 8 em estado grave. Há alguns dias atrás, professores de Goiânia foram agredidos após se manifestarem em prol de melhores condições de trabalho e por melhorias na estrutura física das escolas. As reações completamente desproporcionais e violentas do Estado às greves e manifestações dos professores são frequentes e são mais uma amostra de como a popularidade da pauta é uma ilusão. Apesar do Estado num todo se dizer a favor de uma educação de qualidade e dizer que essa pauta é prioridade, na prática ele age negligenciando educadores ou mesmo agredindo professores e isso é violência estatal. Enquanto isso, parte da sociedade apoia essas reações de tanto ouvirem “manifestante e grevista é tudo vagabundo!”, mas ao mesmo tempo clamam por mais educação.

A redução da maioridade penal tem sido tratada como a solução de todos nossos problemas, enquanto isso, professores lutam por seus direitos e por isso são agredidos. As pessoas dizem que querem um país melhor, com mais educação, mas não apoiam os professores que buscam condições mínimas de exercer um trabalho de qualidade e não percebem que ao bradarem “esses vagabundos merecem apanhar” para os professores vítimas de violência estatal, enquanto defendem veementemente a redução da maioridade penal, estão dizendo em linhas tortas que é melhor aprisionar adolescentes do que fornecer uma educação de qualidade.

"Je suis professor!" - arte de Ribs

“Je suis professor!” – arte de Ribs

Eu acredito na educação e justamente por isso, eu não consigo me calar diante disso tudo. Mesmo que a minha visão de educação ideal seja bem diferente das práticas atuais, o sucateamento está na cara: professores são mal pagos, as condições de trabalho deles estão tão péssimas que vários profissionais estão desenvolvendo problemas de saúde, não há estrutura física adequada em várias escolas e o excesso de alunos na sala de aula é um problema frequente. Não dá para simplesmente se calar diante do fato de que professores foram agredidos ao buscarem o que todo mundo diz querer, que é um país que preza pela educação. E esse é um momento crucial para lutarmos contra a violência estatal e por uma educação que seja mais inclusiva e humanitária. E  por tudo isso, eu termino dizendo: “eu apoio a greve dos professores.”

 


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