Ativismo de Sofá

por Flávia Simas, Kel Campos e Thaís Campolina  

28 de maio de 2014, 22h03

Feminicídio e misoginia: por que é tão importante usar essas palavras?

Machismo mata mulheres todo dia – Grafites Feministas

Texto de Thaís Campolina

Mais um caso de massacre com motivação misógina ocorreu na última sexta-feira (23/05). Elliot Rodger esfaqueou três colegas de quarto e atirou em duas mulheres no campus, além de atirar sem alvo até ser encontrado morto em sua BMW. E a mídia, em sua grande maioria, mais uma vez, ignora a questão de gênero que está por trás desse crime.

Elliot Rodger deixou claro o quanto odiava mulheres em um vídeo gravado por ele em que ele culpava as mulheres por sua solidão e jurava vingança contra todas as mulheres que o rejeitou se referindo a elas como “vagabundas mimadas”. Foi achado um diário de 140 páginas em que ele destila seu ódio com frases como “Mulheres não merecem ter qualquer direito”. 

No Brasil, ocorreu um massacre em Realengo, em 2011, quando Wellington Menezes entrou numa escola e assassinou dez meninas e dois meninos. Quando isso ocorreu, por mais que o crime claramente tivesse sido motivado pela misoginia e essas meninas tivessem sido vítimas por serem mulheres, a mídia não se pronunciou a respeito. E assim como Elliot, Wellington tinha vínculo com grupos masculinistas. 

Fonte

Mas a misoginia não influencia apenas ataques em massa, mas também nos assassinatos de mulheres por seus maridos, ex-namorados e até mesmo pais. Quando a cultura misógina diz que mulheres devem obediência aos homens, que pertencem a eles e que valem menos que eles, ela influencia esse tipo de crime. O feminicídio de Eloá é emblemático: seu ex-namorado, Lindemberg, invadiu a casa de Eloá, onde ela estava fazendo trabalhos escolares e ela e uma amiga foram mantidas por ele em cárcere privado . A amiga dela foi liberada e participou das negociações e depois de 100 horas, Eloá foi assassinada pelo ex, após uma ação mal efetuada pela polícia. O feminicídio foi televisionado, entretanto, jamais foi falado do caráter misógino da ação do ex. 

Chamar um feminicídio de crime passional é ignorar os aspectos culturais que induzem homens acharem que mulheres são propriedade deles e assumir que paixão/amor são capazes de fazer pessoas agirem com tamanha violência. Sendo que não é o amor, paixão ou desejo que motivam essa violência e sim as relações de poder e a naturalização de relacionamentos abusivos como românticos.

É importante desmistificar que só é misoginia e machismo quando chega a ocorrer tais crimes. Afinal, por trás dessa violência, há o descaso e despreparo da polícia para atender as vítimas de violência doméstica e de estupro, o que dificulta que as denúncias sejam feitas e que quando feitas, surtam efeitos. E há também toda uma cultura que reafirma que os corpos das mulheres são disponíveis, de culpabilização da vítima e desumanização das mulheres num todo, e que coloca o ciúme e o controle da vida do parceiro como românticos, o que naturaliza os relacionamentos abusivos. 

Elliot Rodger já tinha demostrado antes seu ódio por mulheres. Por exemplo, ele jogou café em duas mulheres numa lanchonete, porque elas não sorriram de volta para ele. No diário citado acima, ele afirma que queria que o café estivesse mais quente, para queimá-las. Se vocês tiverem estômago, leiam esse texto aqui, que expõe várias barbaridades que ele escrevia.

Homens: Mulheres não te devem nada. Isso mesmo, nem mesmo um sorriso

A importância da mídia nomear esse tipo de crime como um crime de gênero é que ao fazer isso, ela reconhece que a misoginia e o machismo existem e devem ser combatidos para evitar mais mortes. O reconhecimento de que existe sim uma cultura que coloca a mulher como inferior ao homem e de ódio contra tudo que é feminino e a influência dessa cultura na existência de alguns crimes, faz parte do processo de conscientização de que ela tem que mudar.

 Só é possível combater a misoginia, usando essa palavra toda vez que comportamentos e discursos que a reproduzem aparecer.  É necessário dizer que é misoginia, quando frases como “Aquela vadia dá para todo mundo, menos pra mim. Odeio essa vagabunda” são ditas e assim aos poucos destruir a ideia de que mulheres devem alguma coisa para os homens. Nomear o problema é um passo essencial para que ele passe a ser combatido como deve e não ter aspectos essenciais de mecanismo de desconstrução negligenciados.

Quem o machismo matou hoje? 
Vale muito a pena dar uma olhada na hasthtag “#YesAllWomen” (“#YesAllWoman”)
 

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