Ativismo de Sofá

por Flávia Simas, Kel Campos e Thaís Campolina  

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20 de fevereiro de 2016, 13h13

Musas não, torcedoras

Por Thaís Campolina

Lugar de mulher é onde ela quiser!

Lugar de mulher é onde ela quiser!

O machismo no futebol é notável: somos vistas como objetos, somos eleitas musas, ouvimos piadinha sobre não entendermos de futebol, sofremos com perguntas como “mas você sabe mesmo a regra do impedimento?”, ouvimos a torcida xingar jogadores falando “mulherzinha” e usar nomes femininos pra ofender times adversários, fomos zoadas por jogarmos futebol na escola, crescemos ouvindo “mulher não gosta de futebol, qual é o seu problema?”, tememos sofrer abusos quando vamos no estádio e muita gente ainda acha que não gostamos de verdade do esporte e estamos fingindo só pra arrumar um namorado.

Mas o machismo não está presente só no público do esporte, também atinge as diretorias dos times e o desfile da nova camisa do Atlético-MG é uma prova disso. As modelos apresentaram-se vestidas de lingerie e com a camisa do time, enquanto os homens participantes do desfile usaram shorts.

O formato do desfile não foi uma novidade, mas a união das torcedoras em torno da reivindicação conquistar seu espaço na mídia foi. E assim o machismo no futebol virou uma pauta: o canal ESPN falou sobre, torcedoras de outros times mostraram suas insatisfações, a nota de repúdio publicada pela Elen Campos se espalhou, textos sobre o assunto surgiram na internet toda e isso é algo a comemorar, porque o futebol sempre foi considerado santo, imune, apolítico e masculino. E a gente finalmente conseguiu quebrar essa redoma e estamos colocando o dedo na ferida. Não nos calaremos mais e nossas vozes vão ecoar através da fala de outras mulheres.

É inegável que a mudança está acontecendo: o machismo, a homofobia e o racismo não são mais considerados aceitáveis nem no intangível futebol. Agora preconceito é motivo para nota de repúdio e vira discussão e é do debate que surgem propostas de transformação. E com isso vários fãs do esporte começaram a entender a importância de refletir sobre como tais preconceitos são perpetuados de forma tão naturalizada nessa modalidade esportiva.

E aí surge a pergunta: o que precisamos fazer para que o futebol deixe de ser esse ambiente que exalta o machismo? Quais mudanças precisamos buscar? E eu apresento algumas propostas:

Parar de falar para mulheres fãs de futebol “mas você sabe a regra do impedimento?”

É uma piadinha sim, eu sei, mas ela só existe porque consideram que o futebol é um tema masculino. Além de ser uma forma de demarcar que o assunto não pertence às mulheres, ele duvida da capacidade das mulheres de entender regras básicas de um jogo, que vamos combinar, são bem fáceis de serem assimiladas. Duvidar da capacidade das mulheres de entender algo é machismo.

Parar de vincular gostar de futebol a ser homem.

Nem só homens gostam de futebol e nem todo homem gosta desse esporte. Parar de fazer essa vinculação é libertar as crianças desses estereótipos de gêneros e deixá-las livres pra escolher o que gostam e o que não gostam.

Abandonar o uso de expressões como “mulherzinha” para xingar árbitros, jogadores e adversários.

Usar “mulherzinha” e nomes femininos para se referir aos adversários é machista por alimentar a ideia de que ser mulher é algo que diminui alguém e esses termos carregam isso em seu cerne.

Parar de usar as mulheres como um enfeite, um chamariz para os caras.

Objetificar mulheres é uma forma de nos desumanizar. É meio chato entrar num portal de esporte para se informar e ver várias mulheres seminuas eleitas musas, a gente sente isso como um lembrete de que somos intrusas ali, que estamos ali só pra deleite masculino. E essa sensação de não pertencimento se estende ao estádio, quando a gente é assediada e isso é visto como ok, porque a ideia vigente ainda é a de que “homem gosta é de mulher e futebol” e que a gente está ali não pra torcer, mas para sermos “apreciadas”. O que além de machista, é bem heteronormativo.

Parar de achar mulheres que entendem do esporte são raríssimas e parar de colocá-las num pedestal.

As fãs de futebol não são troféus. São pessoas que gostam de um esporte, que tem como hobbie acompanhar seu time de coração, que curtem jogar uma partidinha no videogame e fazer uns gols. Gostar de futebol é só mais uma característica. Exaltar dessa forma é anular a pessoa como indivíduo completo e de, mais uma vez, duvidar da capacidade das outras mulheres de entender regras básicas.

Não assediar mulheres.

Isso é uma dica válida pra combater o machismo em qualquer espaço, mas é bom ressaltar a importância disso, porque o assédio afasta mulheres de frequentar o estádio livremente, ir aos bares que passam jogos e afins.

Aprender a ouvir mulheres quando elas falam sobre o esporte.

Não convivo com machistas clássicos, mas muitas vezes me senti ignorada quando fiz algum comentário relativo ao esporte. Era como se eu não estivesse ali. Eu não era considerada parte da conversa só por causa do meu gênero. E isso aconteceu comigo e acontece com outras porque consideram que não entendemos do assunto por sermos mulheres.

Ter mais mulheres comentaristas de futebol nos canais de esporte.

A maioria das mulheres do meio são apresentadoras e não comentaristas e isso perpetua a ideia de que mulheres não entendem sobre o assunto, que é um assunto masculino.

Não duvidar da capacidade das mulheres de serem treinadoras, árbitras ou bandeirinhas

São pouquíssimas treinadoras no mundo, tanto no futebol masculino, quanto no feminino e elas são muito criticadas. Assim como várias bandeirinhas e árbitras, elas ouvem coisas como “volta pra cozinha”, “seu lugar não é aqui” ou até mesmo “vai posar para alguma revista masculina”. E quando alguma mulher que trabalha com futebol comete um erro, esse erro é usado para desqualificar a capacidade de todas as mulheres.

Entender que uma mulher não conhecer ou gostar do esporte não significa que nenhuma gosta.

Uma mulher não saber fazer algo não significa que todas as outras não saibam ou tenham dificuldade com aquilo. Cada mulher é um indivíduo e tem suas particularidades. O machismo tem a mania de considerar o erro de uma mulher como uma prova da incapacidade de todas as mulheres. Já comentei sobre isso no texto “Machismo no futebol: pode isso, Arnaldo?” e reitero.

Valorizar o futebol feminino.

O futebol feminino é completamente invisibilizado no Brasil, apesar da Marta ser brasileira. E essa desvalorização tem bastante a ver com a ideia errada de que o futebol é algo masculino e que as atletas são intrusas.

E concluo esse texto perguntando: vocês lembram quando o Marco Aurélio Cunha, coordenador do futebol feminino, colocou a beleza das atletas e o fato delas estarem mais arrumadas em campo como uma esperança para maior visibilidade do futebol feminino? Isso tem tudo a ver com o desfile da nova camisa do Galo, com a mania do jornalismo esportivo de eleger musas, com duvidarem da capacidade das mulheres de entenderem sobre futebol e também com a desvalorização do futebol feminino. Essa fala, o desfile, o preconceito no meio, apenas mostra que a sociedade ainda encara a mulher como objeto. Para muitos, não interessa o talento de nossas jogadoras, se elas não servem como objetos de desejo e isso é causa e consequência do machismo no meio. Para muitos não interessam o amor de uma mulher pelo seu time, se ela não aceita ser considerada parte do entretenimento masculino.

Quando o Atlético-MG faz um desfile em que as modelos usam lingerie com a camisa do time e não ouve as críticas das atleticanas incomodadas, ele diz que as torcedoras não são vistas como parte da torcida, elas são apenas um atrativo para a outra parte. E eu, como feminista, fã de futebol e frequentadora do Independência, quero ver esse episódio ser o prelúdio para que a gente deixe de ser vista como parte do entretenimento de uma parcela da torcida: a dos homens héteros que encaram a nossa presença como um agrado para eles.


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