Ativismo de Sofá

por Flávia Simas, Kel Campos e Thaís Campolina  

O que o brasileiro pensa?
29 de março de 2013, 16h38

“Não vale o quanto pesa” e a indignação sem profundidade.




A páscoa está chegando e faz um tempinho que eu tenho visto uma movimentação nas redes sociais a respeito dos preços abusivos dos ovos de chocolate no Brasil. Meu face tem mostrado a ampla divulgação de cartazes de “não vale o quanto pesa”, ou ainda “compre carne, não ovo”. Confesso que o tema gerou em mim uma certa inquietação, que se traduz em forma de questionamentos. São perguntas para as quais eu não tenho necessariamente respostas, mas ainda assim eu creio ser importante colocá-las para discussão. 


Acho que a minha primeira reação ao ver tais posts foi de surpresa, com uma boa dose de frustração por perceber que, hoje em dia, o preço das coisas gera muito mais indignação do que questões sérias envolvendo direitos humanos. Parece, e isso é um desabafo mesmo, que as pessoas de uma forma geral só se preocupam com aquilo que mexe diretamente com o bolso delas. 


Mas, uma pergunta que sempre me vem à mente quando vejo tais posts é: essa pessoa tem noção de que preço é diferente de valor? Eu sei que parece uma pergunta besta – e básica – mas eu acredito mesmo que ela se faz pertinente, pois repassa-se o post à exaustão, como se realmente o valor de um ovo de páscoa estivesse puramente restringido ao seu peso. 


Ora, Flávia, mas você não acha que o valor agregado ao ovo de páscoa está exorbitante, abusivo? A resposta imediata é: sim, o preço realmente está muito além do que seria aceitável. Assim como o preço de praticamente tudo no Brasil. Porém…eu não vejo como posts como esse, que procuram uma solução para o problema mais aparente, ou seja, o preço final do produto, possam ser transformadores. Não consigo entender como esse tipo de campanha pode exercer alguma influência no sistema, alguma pressão para que o sistema mude, sabe? 


Daí que o questionamento acima me leva a outra questão: como o capitalismo convenientemente nos deixa à parte de todo o processo de produção. Chegamos num ponto em que a única coisa que verdadeiramente importa é o suor que gastamos para… comprar produtos. Parece que, ao demandar por preços mais baixos, as pessoas fazem pouca questão de entender que a redução do preço não vai implicar necessariamente em redução de lucros por parte das empresas e corporações. 


Acho que é aí que reside o aperto no meu peito, quando vejo tais mobilizações online. Para além do óbvio “classe média sofre”, eu chego à conclusão que, hoje em dia, preocupa-se muito pouco com uma compreensão mais profunda do mundo que nos rodeia. E, pelo menos pra mim, isso é perigoso. Porque nessa equação, fica de fora a mão-de-obra barata, o trabalho escravo, o sofrimento – de humanos e animais – para que possamos exercer nosso poder de barganha em paz. 

Porque é essa a idéia que a preocupação exclusiva com preços faz. Vejo pessoas gabando-se de ter comprado 6 caixas de bombons ao invés do maldito ovo de páscoa caro. Burlaram o sistema? Não sei. Não vejo como o fato de comprar bombons ao invés de ovos possa ser visto como “consumo consciente”. Seria consumo consciente de quê? De que não vale o quanto pesa? Mas será que é SÓ isso que importa? 


Hoje em dia está cada vez mais difícil ver indignação com algo que vá além dos nossos bolsos. Não nos vemos mais como parte do problema. E se o problema aparentemente não está em nós, então não há muito o que fazer, certo? Afinal de contas, por que eu deveria me preocupar com o trabalho escravo da Zara, se o que eu quero mesmo é um look daora? Pra que me preocupar com o ciclo de exploração do trabalho infantil envolvido na produção de chocolate, se o que importa mesmo é eu contar prxs amigxs que eu fui zuper esperta e comprei 6 caixas de bombom ao invés do ovo? Pra que estressar com o fato de que o diamante que eu ganhei do bofe é fruto de trabalho escravo no continente africano? Pra que me preocupar com os componentes do meu computador, que foram montados na China, se lá a super-exploração da mão-de-obra barata se justifica pelo enorme contingente populacional do país? 

Acho que já deu pra expressar bem a minha inquietação. O capitalismo se mantém e se reforça ao fazer com que os produtos cheguem a nós como se fosse um passe de mágica, como se nenhum processo complicado, com N fatores que incluem a opressão de muita gente, incluindo nós mesmxs, estivesse envolvido. A forçação de barra chegou a tal ponto que, hoje em dia, é sinal de inteligência o fato de alguém conseguir fazer com que algo – a maquiagem, o visual, a decoração da casa – pareça “natural” sem realmente sê-lo. Pra mim, isso diz muito. A mensagem, clara e sem rodeios, de que você precisa passar uma idéia de despretensão, de que não fez muito esforço para conseguir tal e tal efeito, é resultado direto dessa ideologia em que estamos mergulhadxs – a de que o processo precisa, a todo custo, ser escondido. E a pergunta fica: quem está, realmente, ganhando com isso? 

Deixo aqui duas sugestões de vídeo: A história das coisas e esse aqui da Folha, rapidinho, sobre escravos da moda.  


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