Ativismo de Sofá

por Flávia Simas, Kel Campos e Thaís Campolina  

O que o brasileiro pensa?
02 de junho de 2013, 21h42

O que está acontecendo em Istambul

O texto a seguir é uma tradução de “What is happening in Istanbul“, publicado pela escritora Defne Suman em seu blog. O texto é um relato dos conflitos em Istanbul, de como eles começaram e do que os “motivou”. Como diz a própria autora, a internet é basicamente o único meio que restou para se disseminar informação, pois a mídia do país vem ignorando os acontecimentos. A tradução também pode ser encontrada aqui.



O que está acontecendo em Istambul

Para meus amigos que moram fora da Turquia: Estou escrevendo para que vocês saibam o que tem acontecido em Istambul nos últimos cinco dias. Eu preciso escrever porque a maioria das fontes de mídia foram desligadas pelo governo e o boca a boca e a internet são as únicas formas que restaram para nos explicarmos e pedirmos ajuda e apoio.

Há quatro dias um grupo de pessoas que não pertencem a nenhuma organização ou ideologia específica se reuniram em Gezi Park, em Istambul. Entre eles, muitos dos meus amigos e alunos. A razão era simples: para evitar e protestar contra a iminente demolição do parque para a construção de mais um shopping no centro da cidade. Existem inúmeros shoppings centers em Istambul, pelo menos um em cada bairro! 

A demolição das árvores deveria começar no início da manhã de quinta-feira. As pessoas foram para o parque com seus cobertores, livros e crianças. Elas montaram suas tendas e passaram a noite sob as árvores. No início da manhã, quando os tratores começaram a puxar as árvores de cem anos de idade, os manifestantes se levantaram contra eles para interromper a operação.Eles não fizeram nada além de se colocar diante das máquinas. Nenhum jornal, nenhum canal de televisão estava lá para cobrir o protesto. Foi um blackout total da mídia.

Foto da página Occupy Gezi no Facebook


Mas a polícia chegou com os veículos com canhões de água e spray de pimenta. Eles expulsaram as multidões para fora do parque.À noite, o número de manifestantes se multiplicou, assim como o número de forças policiais ao redor do parque. Enquanto isso, o governo local de Istambul fechou todos os caminhos que levam à Praça Taksim, onde o Gezi Park está localizado. O metrô foi fechado, as balsas foram canceladas, estradas foram bloqueadas.

No entanto, mais e mais pessoas fizeram o caminho até o centro da cidade a pé. Elas vieram de toda Istambul. São pessoas de todas as origens, diferentes ideologias, diferentes religiões. Todas elas se reuniram para impedir a demolição de algo maior do que o parque: O direito de viver como cidadãos honrados neste país.

Elas se reuniram e marcharam. A polícia perseguiu-as com spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo e jogou seus tanques sobre as pessoas, que devolviam o ataque com porções de comida. Dois jovens foram atropelados pelos tanques e foram mortos. Outra jovem, uma amiga minha, foi atingida na cabeça por uma das bombas de gás lacrimogêneo. A polícia estava atirando diretamente contra a multidão. Após uma operação de três horas ela ainda está na UTI em estado muito crítico. Enquanto escrevo isto, não sabemos se ela vai ficar bem. Este blog é dedicado a ela.
Essas pessoas são meus amigos. São meus alunos, meus parentes. Elas não têm nenhuma “agenda escondida” como o Estado gosta de dizer. Sua agenda está lá fora. É muito claro. O país inteiro está sendo vendido para as empresas pelo governo para a construção de shoppings, condomínios de luxo, estradas, barragens e usinas nucleares. O governo está procurando (e criando, quando necessário) qualquer desculpa para atacar a Síria contra a vontade de seu povo.

Acima de tudo, o controle governamental sobre a vida pessoal de seu povo tornou-se insuportável nos últimos tempos. O Estado, sob sua agenda conservadora, passou muitas leis relativas ao aborto, à cesariana, à venda e uso de álcool e até mesmo em relação à cor do batom usado pelas aeromoças.

As pessoas que estão marchando para o centro de Istambul estão exigindo seu direito de viver livremente e ter justiça, proteção e respeito do Estado. Elas exigem participar dos processos de tomada de decisão em relação à cidade em que vivem.

O que elas receberam, pelo contrário, é força excessiva e enormes quantidades de gás lacrimogêneo disparado diretamente em seus rostos. Três pessoas perderam a visão.No entanto, elas ainda marcham. Centenas de milhares se juntam a elas. Milhares atravessaram a Ponte Bósforo a pé para apoiar as pessoas em Taksim.

Nenhum jornal ou canal de TV estava lá para relatar os acontecimentos. Eles estavam ocupados com a transmissão de notícias sobre Miss Turquia e “o gato mais estranho do mundo”.A polícia continuou perseguindo as pessoas e pulverizando spray de pimenta a ponto de cães e gatos de rua morrerem envenenados. 

Escolas, hospitais e até hotéis cinco estrelas em toda a Praça Taksim abriram suas portas para os feridos. Os médicos encheram salas de aula e quartos de hotel para prestar os primeiros socorros. Alguns policiais se recusaram a pulverizar pessoas inocentes com gás lacrimogêneo e abandonaram seus postos. Ao redor da praça foram instalados aparelhos para evitar o acesso à internet e as redes 3G foram bloqueadas, então moradores e empresas da região cederam suas redes wi-fi para as pessoas nas ruas. Restaurantes ofereceram água e comida de graça.

Pessoas em Ankara e Izmir foram para as ruas para apoiar a resistência em Istambul.A grande mídia continuou mostrando a Miss Turquia e “o gato mais estranho do mundo”.
***
Estou escrevendo esta carta para que vocês saibam o que está acontecendo em Istambul. Meios de comunicação não lhe dirão nada sobre isso. Não no meu país, pelo menos. Por favor, postem tantos artigos quanto puderem, espalhem as notícias.
Eu estava postando artigos que explicam o que está acontecendo no Facebook na noite passada e alguém me perguntou o seguinte:
“O que você espera conseguir reclamando do nosso país para estrangeiros?”
Este blog é a minha resposta a essa pessoa.Pelo chamado “reclamar” sobre o meu país, espero ganhar:
Liberdade de expressão e discurso,
Respeito dos direitos humanos,
Controle sobre as decisões que tomo em relação ao meu próprio corpo,
O direito de me reunir legalmente em qualquer parte da cidade sem ser considerada uma terrorista.
Mas, acima de tudo, por espalhar os acontecimentos aos meus amigos que vivem em outras partes do mundo, eu espero obter o seu conhecimento, apoio e ajuda!
Por favor, espalhem as notícias e compartilhem este blog.
Obrigada!

Defne Suman.


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