Blog da Cidinha

CIDINHA DA SILVA é prosadora e dramaturga. Tem nove livros de literatura publicados. No campo da dramaturgia escreveu Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas (encenada por Os Crespos, 2013 a 2015) e Os coloridos (espetáculo infantil encenado por Os Crespos em 2015 e 2016). Como ensaísta organizou:Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014). Anteriormente foi organizadora de Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos 10 primeiros livros sobre o tema publicados no Brasil.

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16 de janeiro de 2017, 17h18

Elza Soares, a voz e a máquina

Por Cidinha da Silva

Um comentário frequente ao final dos shows de Elza Soares é que além do alumbramento de sua música e de sua voz em nós, sua performance como artista completa, como mulher do fim de um mundo e anúncio de outro, em que gostaríamos de viver, depois daquele momento fugidio do espetáculo, nos assoma e nos convoca.

Elza Soares é mesmo uma diva. Um ser além deste tempo, e sim, projetada por seu corpo, hoje fragilizado e merecedor de mais cuidados. Senhora de rosto em que se flagra tensão e dor física aparente no início da apresentação. O mesmo vemos no semblante de Beth Carvalho, também com problemas de coluna. Mas, em ambas, o anestésico do canto, da música que toma conta de tudo parece ter efeito lenitivo e revigorante.

E Elza transcende, transborda quando coloca a mão delicada na frente do rosto para proteger-se do flash dos malditos celulares e canta: Você abusou / tirou partido de mim / abusou. E a idiotada dos celulares não entende, insiste na luz artificial emitida pelo aparelho e ela, com a mão, outra vez avisa que o flash a agride e, dessa feita nos chama para cantar (quem sabe assim a platéia mal educada se toca): Você abusou / tirou partido de mim / abusou.

Elza é tudo, é o todo e toda se entrega a nossa leitura, como Lazzo Matumbi: Minha pele é linguagem / e a leitura é toda sua. Elza é dona de nós, do melhor de nós, e por isso a amamos tanto. Assim como amamos Mandela, o grande espelho da liberdade.

Elza sabe disso e quando nos chama de irmãos e irmãs é algo tão de dentro que nos religa com o sagrado que nos sustenta. E não se trata de religião, trata-se de bem-querer, amor universal, generosidade, sabedoria, perdão. Ela, para surpresa do nosso coração duro, perdoou as pedras e os apedrejadores que a perseguiram por décadas. E este perdão para ela é atitude política, é sua entrega de amor à humanidade. É crença reiterada na humanidade e na transformação das pessoas.

Elza é a Máquina atenta a tudo, ao errinho do DJ que solta a entrada do violão fora de hora. Ela é senhora do canto, não entra errado, não segue o erro, contudo, corrige quando necessário, quando o mesmo companheiro de trabalho, na tentativa de ser simpático, revela-se impávido sudestino e diz que “a Bahia é só festa”, que ali o carnaval começa mais cedo e não contente, conclui que “na Bahia é carnaval o tempo todo”.

Elza é a Voz. Ela que hoje é dona de movimentos muito sutis, vira o pescoço de modo lento e grave na direção do companheiro de palco falastrão e diz apenas: não! A platéia entende e não responde ao desrespeito do músico, parece ser suficiente perceber que Elza não compactua com os preconceitos regionais e de raça do DJ. Ele se desculpa sem graça. Elza canta. Seu canto e sua presença iluminada são o melhor da festa. Estamos ali para vê-la, para eternizá-la dentro de nós.

Eu, fã que ouço, assisto e admiro Elza Soares desde antes de ela se tornar unanimidade, pela primeira vez (na vida) aceitei os préstimos de um cambista que aplicou ágio de quarenta dinheiros num ingresso que lhe custou dez (ou que ele conseguiu como cortesia).

Mas, se é verdade que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, irmão que explora irmã, discípula de Elza Soares, também deve ter. Salve Elza Soares! A mulher que, por meio de sua existência mesma, propõe o fim desse mundo de espertalhões.

Foto: Divulgação


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