Democracia e Vertigem é um filmaço, por Gilberto Maringoni

A sensação de estupefação e entorpecimento de espectador no final da fita pouco a pouco se desvanece quando atentamos para o som ao redor e percebemos que o admirável mundo novo dos milicianos de toga, farda e terno começa a apresentar rombos no casco.

Acabo de assistir ‘Democracia em vertigem’, de Petra Costa, no Netflix. Quando a tela escurece e começam os créditos finais, me pego em estado catatônico na poltrona. A cabeça lateja, enquanto, por alguns minutos, encaro o nada diante do nariz.

Petra mistura crônica pessoal e familiar com as monumentais turbulências nacionais dos últimos anos. É o traço maior de sua narrativa: combinar intimismo – em sua voz quase infantil – com imagens absolutamente bestiais de esperança e tragédia, numa costura que recua e avança, ao longo de quatro décadas. Ela vai das greves de São Bernardo à posse de Bolsonaro, numa toada magnética que nos suga por pouco mais de duas horas.

HÁ POUCOS DEPOIMENTOS para tanto tempo. Dois são especialmente afiados, os de Roberto Requião e de Gilberto Carvalho.

O ex-senador do Paraná externa frases curtas, como se declamasse um conto de seu conterrâneo Dalton Trevisan, nos instantes que antecedem a votação do golpe pela Câmara, em abril de 2016. “É a economia, e não a corrupção! Se a economia estivesse bem, nada disso aconteceria”. Petra insiste e ele retoma, ‘é a economia”. As opções de Dilma ajudaram a construir o desastre.

O ex-ministro, por sua vez, destoa da maioria dos líderes petistas e vai também ao que importa: “Achamos que poderíamos ser amigo dos grandes. Esquecemos do que nos propúnhamos na luta política com o que chamávamos ‘pé-dentro, pé-fora’. Ou seja, um pé na luta institucional; o outro na mobilização social. Ficamos concentrados no pé-dentro. “
Começamos a fazer como os outros naquilo que condenávamos em financiamento de campanhas. É dali que vem a corrupção”.

A CINEASTA INTEGRA, com seus pais, a ala esquerda de um importante clã mineiro, acionista da empreiteira Andrade Gutierrez. Não os poupa: “Grande parte de minha família votou em Bolsonaro”. Evidencia não haver bons ou maus, mas “a luta de classes”, como diz a certa altura, sem chavões panfletários ou lições de moral.

Narrativas sempre são datadas. Ou se recontextualizam a cada tempo. Ler Machado de Assis hoje é diferente de lê-lo no final dos oitocentos. Uma ideia comumente difundida, de que o escritor teria ignorado a escravidão, cai por terra em novo exame. Ao mostrar aspectos da vida de altos funcionários públicos e de uma diminuta classe média que prosperara a partir do crescimento econômico pós-Guerra do Paraguai, Machado nos abre frestas perceptíveis em comportamentos atuais da pequena burguesia para cima. A brutalidade do cativeiro e da distinção social está implícita em cada linha de seus romances maduros, mesmo que ele não toque diretamente no assunto. A elite econômica machadiana, em sua sede de status, está em cena na vida real hoje.

PETRA TERMINOU o filme antes das grandes manifestações de maio/junho último e das revelações do Intercept que desnudam a farsa judicial que condenou Lula, manipulou a opinião pública e levantou suspeitas de fraude sobre o resultado das eleições de 2018. Agora, ele ganha nova leitura.

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A sensação de estupefação e entorpecimento de espectador no final da fita pouco a pouco se desvanece quando atentamos para o som ao redor e percebemos que o admirável mundo novo dos milicianos de toga, farda e terno começa a apresentar rombos no casco.

Não sei se é meu vício militante que me impede de aceitar situações sem saída, mas o certo banzo na poltrona é substituído em poucos minutos por uma raiva imensa desses filhos da puta.

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Raiva faz a gente andar para frente.

Filmaço! Dá vontade de aplaudir de pé…

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Gilberto Maringoni

Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC. É também jornalista e cartunista.

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