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09 de outubro de 2017, 12h34

FHC deve ser lido com atenção

Até meados do ano que vem, deve chegar ao fim o "neoliberalismo de guerra". A perspectiva é iniciar o processo de dispensa dos trabalhos da "banda de música" neofascista, composta por MBL e Lava Jato e por figuras como Jair Bolsonaro e João Dória.

Até meados do ano que vem, deve chegar ao fim o “neoliberalismo de guerra”. A perspectiva é iniciar o processo de dispensa dos trabalhos da “banda de música” neofascista, composta por MBL e Lava Jato e por figuras como Jair Bolsonaro e João Dória.

Por Gilberto Maringoni*

Em importante artigo publicado no Estadão deste domingo (8), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso define as bases programáticas da direita política para 2018. Ele busca apartar-se da histeria do extremismo regressista.

O texto é uma espécie de roteiro explicativo das desavenças no interior do campo conservador pós-golpe. A brutalidade das reformas está terminando, com orçamento engessado, trabalho em grande parte desregulamentado e reforma política feita, entre outras mudanças.

Até meados do ano que vem, deve chegar ao fim o “neoliberalismo de guerra”, com as prometidas alterações na Previdência e a privatização até da Petrobras. A perspectiva é iniciar o processo de dispensa dos trabalhos da “banda de música” neofascista, composta por MBL e Lava Jato e por figuras como Jair Bolsonaro e João Dória.

É tática aparentada – de muito longe – à de Getúlio Vargas, em 1937. Depois incentivar o crescimento da fronda integralista, como forma de eliminar contrapontos à esquerda e alicerçar seu governo na sociedade, Vargas colocou na ilegalidade a Ação Integralista Brasileira, com o advento do Estado Novo. Evidentemente os tempos e contextos são diversos, mas a experiência histórica mostra que a direita política tende a se livrar de seus aloprados tão logo o serviço sujo seja entregue.

Isso explica a capa de Veja detonando Bolsonaro, o pesado ataque de Alberto Goldman ao prefeito paulistano e os vários artigos da mídia monopolista contra a ação obscurantista em cima de manifestações artísticas. Há incêndios a se apagar, como travar os black blocs togados e impor limites à insubordinação militar, mas isso se faz adiante.

Se as diretrizes do príncipe dos sociólogos vingarem, podemos assistir a um arrefecimento do binarismo político na conjuntura e a adoção de uma conduta formalmente mais civilizada por parte de facções ditas “modernas” da direita.
Isso não significa que a expressão política da polarização social deva arrefecer.

Não se sabe ainda o que acontecerá com a candidatura Lula, se estará ou não no páreo. Se estiver, desconhece-se a conduta que o ex-mandatário terá em campanha. Pode radicalizar verbalmente ou dar curso a tentativas de entendimento com setores ultraliberais (o que inclui golpistas) como forma de ampliar suas chances. Nessa hipótese, teríamos, na prática, uma repetição de 2002, através de novo pacto que mantenha intocadas as reformas de Temer. Lula seria assim – apesar de sua retórica inflamada – um legitimador do golpe. É a tendência mais provável, dada a história pregressa do personagem.

Não é possível avançar muitas casas no pensamento de FHC. Pode ser que ele – e os setores que se alinham às suas formulações – aposte na manutenção das regras do jogo. Se tudo correr como planejado, tais setores devem entrar em campo com Geraldo Alckmin ano que vem. Diga-se de passagem que todas as acusações de corrupção contra o governador paulista merecem zero de atenção por parte dos meios de comunicação. Nesse quadro, teríamos também um Lula desossado de dinâmicas transformadoras.

Vai aqui outra especulação: a perspectiva do artigo do Estadão embute a prorrogação do prazo de validade do enfrentamento PT X PSDB na disputa presidencial, tradição desde 1994. E a tendência de uma campanha que caminhe para o centro e não para os extremos. Nesse caso, o arrefecimento da polarização – no sentido de se enunciarem claramente projetos para a sociedade – será fatal para qualquer perspectiva mudancista nas eleições presidenciais.

*Gilberto Maringoni é professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC. É também jornalista e cartunista.

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil/Fotos Públicas


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