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política

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16 de maio de 2017, 20h14

Impressões superficiais de quinze dias em Moscou

UMA

Queria ter feito como Tintin, ido ao país dos sovietes. Claro, sem o ranço e o preconceito de Hergé, seu autor, nos anos 1920. Cheguei tarde. Mas o panorama é impactante. Em inglês há uma palavra melhor: “astonishing”.

O centro da capital russa surpreende ao primeiro olhar, pela monumentalidade e grandiosidade do ambiente. Se quem vai a Paris e baba com a avenida Champs-Élysées e com outras largas vias abertas pelas reformas pós-Comuna de Haussmann, nos anos 1870, quem chega a Moscou se depara com dez ou doze artérias com mais de 70 metros de largura e edifícios imponentes.

DUAS

Joseph Stalin e o governo soviético, entre os anos 1920-50, fizeram da cidade o modelo de uma metrópole planificada, a um custo humano brutal, em um país agrário que teve a mais rápida passagem para uma sociedade industrial em toda a História. Mais de 200 estações de metrô – o maior do mundo – foram construídas entre 1935 e 1970, sem poupança interna, sem crédito externo e sem tecnologia para tanto. As estações – boa parte de mármore e com detalhes em bronze e aço – formam uma obra de arte à parte, numa urbe com um eficiente serviço de transporte público.

A Meca do socialismo tinha de exaltar a grandiosidade dos trabalhadores em cada esquina. E assim foi feito.

TRÊS

As marcas da Era Soviética estão por toda parte. Além do metrô, podem ser vistas em edifícios e em boa parte dos mais de 250 parques públicos e áreas verdes da cidade.

Nos anos 1950-60, o déficit habitacional foi zerado com velocidade recorde. Os edifícios de apartamentos foram construídos em bairros por vezes distantes do centro e podiam não ser bonitos ou da melhor qualidade. Mas ninguém ficou sem teto.

E mais: nos anos de Nikita Khrushchev (1953-64), o poder público decidiu valer-se de um ativo relativamente barato e abundante – a terra – e possibilitar a cada família trabalhadora a posse de uma casa de campo, ou dacha. Existem até hoje, aos milhares, nos arredores de Moscou. Isso torna as saídas da cidade um inferno nos finais de semana.

Vale a pena espiar o link:

http://www.archdaily.com.br/br/779437/movimento-urbano-de-moscou-existe-esperanca-para-um-futuro-melhor

QUATRO

A zeladoria urbana enfrentou sérios problemas de degradação nos anos 1980-90, com a crise econômica vivida pelo país. Isso mudou. Há uma recuperação constante de edifícios históricos, áreas verdes e vias das áreas centrais, que fazem do lugar um canteiro de obras interminável. Embora o transporte público cubra toda a extensão urbana – com bilhetes a um dólar – o sistema parou de crescer nas últimas três décadas. Mesmo assim, não é nada que se compare à estação Sé, em São Paulo, em horários de rush.

CINCO

Há uma “arquitetura stalinista” que marca o horizonte moscovita. As sete irmãs – série de edifícios enormes, construídos em sua maioria para abrigar ministérios, nos anos 1950, dominam a cena.

Eram uma espécie de tradução local do Empire State, de Nova York. Não são tão altos, mas guardam boa semelhança, na espécie de brutalismo-socialista que marca o tecido urbano.

SEIS

A cidade é muito mais segura do que Rio de Janeiro, São Paulo ou outra metrópole brasileira. Nem sempre foi assim. Boris Yeltsin (1991-99) e seu primeiro-ministro, o ultraliberal Yegor Gaidar, levaram o PIB a cair pela metade na virada do século, logo após o fim do socialismo. A tensão social explodiu e a criminalidade idem.

A Rússia dos anos de Vladimir Putin deixou o período para trás. Centralizador, autoritário e partidário de um desenvolvimentismo conservador, Putin inviabilizou a oposição ultraliberal, escanteou a esquerda mais radical e controla firmemente o parlamento. Não dão sinais de saírem do poder tão cedo. Voltar a ter a segurança de décadas anteriores foi algo obtido nem sempre com as melhores maneiras que se conhecem.

O consultor político Evgeny Minchenko, no texto “Politburo 2.0 e a Rússia pós-Crimeia” (http://www.minchenko.ru/netcat_files/File/Politburo_2014_ENG1_pre_final1.pdf), que me foi sugerido por Thiago Menezes, chama atenção para a organização do poder. Putin e mais dez dirigentes – entre eles o primeiro-ministro Dmitri Medvedev – comandam o país de forma muito semelhante ao antigo poder soviético. O atual presidente não seria um líder unipessoal, mas um árbitro de diversos interesses setoriais.

SETE

A popularidade do ex-agente da KGB é assombrosa internamente. Putin é visto como o homem que devolveu à Rússia o orgulho nacional e colocou ordem na casa – no bom e no mau sentido da expressão. Se há contestações pontuais – e por vezes explosivas – ao autoritarismo governamental, a política externa é unanimidade nacional.

As ações na Ucrãnia e na Síria são vistas como a reafirmação das glórias da II Guerra Mundial, quando praticamente sozinha, a ex-URSS derrotou o nazismo em seu território.

OITO

Aliás, se há algo que Putin maneja com maestria é o nacionalismo russo. Não é por outro motivo que os festejos do Dia da Vitória (9 de maio) seguem merecendo toda atenção e empenho oficial. É sentimento concreto e real. O desfile espontâneo de familiares pela avenida Tverskaya, com os retratos de seus mártires, funde-se com a emulação patriótica de construção do Estado.

Aliás, se há algo que segue forte na Rússia é o Estado nacional. Responsável por mais de 55% do PIB, o poder público recuperou as estatais de energia e concentrou investimentos na indústria bélica. Na Rússia, as forças armadas e o setor, pelo próprio histórico do conflito contra o nazismo, se tornaram fator de orgulho. Isso é potencializado pelo contraste com o sucateamento enfrentado nos anos Yeltsin.

Há problemas sérios, que não são enfrentados. A alíquota fiscal para pessoas físicas é única – 15% -, o que torna o sistema tributário regressivo em uma economia que incentiva a desigualdade social. Embora tenha vivido uma recessão nos últimos cinco anos, a recuperação tem sido lenta, mas de certa forma segura.

NOVE

Poucos brasileiros que viajam ao exterior vêm à Rússia. O país poderia se abrir mais ao turismo. Os preços não são caros – alimentação e hospedagem chegam a ser ligeiramente mais baratos que no Brasil -, mas a língua é barreira séria. Flanar por uma metrópole em que o cirílico domina a maior parte das placas indicativas e em que poucos falam inglês faz qualquer um não versado no idioma se sentir um analfabeto. Aplicativos virtuais ajudam, mas não resolvem.

Etnicamente, há uma divisão clara: brancos eslavos compõem as classes alta e média e migrantes da Ásia Central formam o contingente  os trabalhadores de menor qualificação em restaurantes, construção civil e serviços pesados de limpeza urbana.

O país não é mais o dos sovietes. Mas vale a pena juntar dinheiro e vir. Comprando com bastante antecedência e buscando hospedagens alternativas é algo relativamente factível.

Para quem se formou politicamente tendo o socialismo como Norte, é viagem que vale a pena. Super!

Na foto, dois dos edifícios das “Sete irmãs”.

(Agradeço as conversas com Thiago Melamed de Menezes e Nadya Bobyleva. Nenhum deles tem responsabilidade sobre o que opino aqui)


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