Blog do Maringoni

política

16 de junho de 2017, 12h00

Míriam Leitão e a Globo armaram uma arapuca. Não vale a pena ajudá-los nessa tarefa

Ninguém, em sã consciência, é a favor de atos de vingança pessoais em meio à luta política. Ao mesmo tempo, não se podem condenar, no atacado, escrachos feitos a torturadores e criminosos dos tempos da ditadura e nem constrangimentos lançados a parlamentares que estão votando nas medidas de regressão social e de penalização aos pobres no Congresso Nacional.

Ninguém, em sã consciência, é a favor de atos de vingança pessoais em meio à luta política. Ao mesmo tempo, não se podem condenar, no atacado, escrachos feitos a torturadores e criminosos dos tempos da ditadura e nem constrangimentos lançados a parlamentares que estão votando nas medidas de regressão social e de penalização aos pobres no Congresso Nacional.

Por Gilberto Maringoni*

O caso Míriam Leitão não é o caso de uma suposta agressão feita por militantes de esquerda a uma jornalista num voo Brasília-Rio. O caso Míriam Leitão parece tomar ares de “case” da relação entre um monopólio de comunicação e a reação popular a uma escalada golpista, num momento de virada da institucionalidade brasileira.

Para começar, até agora a única prova que se tem de “duas horas de gritos, xingamentos, palavras de ordem contra mim e contra a TV Globo”, no fraseado da articulista, é sua própria delação, logo premiada com farta divulgação e reverberação pelos órgãos em que trabalha.

Nesta quinta (15), a palavra de Míriam foi multiplicada pela diatribe algo histérica do ex-trotskista Demétrio Magnoli. O também comentarista da Globo, que há quase quarenta anos se esmerava em ver êmulos de Stalin em cada assembleia estudantil de que participava, volta à carga em potência máxima. Busca analogias históricas com obscuros episódios da Revolução Russa para tirar de cena o principal – se houve ou não tal agressão – e exacerbar o clima de intolerância pelo qual o país atravessa. O ex-cabeludo a topar qualquer parada passa por Stalin, Putin, Yoani Sanches, Feira de Santana, nazismo e outros souvenires até aterrissar, concluindo que a bordo do voo não havia ativistas, mas uma “milícia petista”.

LEÃO DESDENTADO

(O tom irônico do ocorrido é que nem Demétrio, nem Míriam e nem seus repetidores se lembram que os governos petistas adularam e prestigiaram a Globo a mais não poderem, valendo-se até de fartas verbas publicitárias. Em 13 anos, deixaram de lado qualquer iniciativa pela regulamentação dos meios de comunicação. Os dois comentaristas sabem estar diante de um leão desdentado. A prova cabal foi dada pela nova presidente nacional do PT. Pega de surpresa, Gleisi Hoffmann lançou três desencontradas notas oficiais sobre o tema e fez uma ligação telefônica à suposta vítima dos apupos, em menos de 48 horas).

A delação premiada de Míriam Leitão não é ato de revide intempestivo. A jornalista esperou longos dez dias para botar a boca no mundo sobre “as duas horas de gritos e xingamentos” numa rota que – em condições normais – dura metade desse tempo. Ou a aeronave apresentou contratempos operacionais ou os “gritos e xingamentos” tiveram início na sala de embarque em Brasília e foram terminar no charmoso saguão do aeroporto Santos-Dumont, no Rio.

Curioso é que os relatos são desencontrados e – além de Míriam – ninguém corrobora sua versão sobre o ataque stalino-castro-nazi-putinesco que foi vítima, no dizer do sempre alerta Magnoli.

Mais misteriosos do que os acontecimentos naquelas duas horas são as dúvidas, reflexões e decisões tomadas nos dez dias transcorridos entre fato e versão. É possível que, ao aterrissar na capital fluminense, nem mesmo a estrela da Globo News tenha dado tanta importância ao fato. Não se sabe se conversou com alguém ou se chegou sozinha à conclusão de que fora vítima de um raid miliciano. E, tão logo divulgado o fato, a repercussão pelos próprios veículos da casa teve início.

QUAIS OS MOTIVOS?

Por que a Globo – como monopólio midiático – decidiu abrir esse front de ataque contra não apenas alguns militantes, mas contra a esquerda, em geral?

Porque não vivemos em tempos mornos. Desde 17 de maio – quando Lauro Jardim escancarou a gravação de Joesley Batista com Michel Temer – a Globo fez uma aposta arriscada, que estava longe de ser unanimidade entre as classes dominantes: o presidente golpista que ajudara a colocar no poder tinha de ser derrubado. Seguiram-se centenas de minutos em seus telejornais e pelo menos dois contundentes editoriais em O Globo para selar o tiro de misericórdia em um mandatário inepto – tem dificuldades em aprovar as reformas regressivas -, e cujo apetite por propinas e prebendas não cessa de surpreender o país.

A Globo assumiu sérios riscos políticos ao se deslocar de apoiadora a detratora do governo num momento em que a temperatura social sobe – com manifestações públicas e greves cada vez mais maciças – e em que o cenário econômico ameaça sair do controle. Tudo bem o “Fora Temer”, mas sem diretas e com reformas. É preciso estipular limites ao caminho escolhido.

Um dos limites caiu quicando na área com o caso do voo da Avianca. Possivelmente a conduta a se tomar a partir do acontecido não fosse claro de início, mas a conclusão veio a público em dez dias. Estigmatizar a esquerda na figura de sua ala mais moderada é um alerta de que “até aqui vamos”. A queda de Temer não incluirá quem se opõe à agenda do golpe para mudar o funcionamento do Estado brasileiro.

CASCA DE BANANA

É precisamente nesse ponto que parcela da esquerda caiu estrepitosamente numa casca de banana. Comprou a mercadoria de Míriam Leitão pelo valor de face e adotou a narrativa de que a suposta agressão se voltara contra uma pessoa física.

Ninguém, em sã consciência, é a favor de atos de vingança pessoais em meio à luta política. Ao mesmo tempo, não se podem condenar, no atacado, escrachos feitos a torturadores e criminosos dos tempos da ditadura e nem constrangimentos lançados a parlamentares que estão votando nas medidas de regressão social e de penalização aos pobres no Congresso Nacional.

É preciso lembrar: todas as centrais sindicais estão promovendo atos públicos contra deputados e senadores apoiadores de medidas que piorarão irremediavelmente a vida do povo por décadas. Estão fazendo isso em aeroportos e em frente às suas residências. É preciso saber: os trabalhadores e suas entidades devem abandonar essa legítima via de combate a quem se julga invulnerável e deixar o dano ao país passar em branco?

A Globo armou uma arapuca para as forças progressistas. Não cabe a elas passarem recibo. Míriam Leitão – que exacerba seu viés de ativista política – precisa provar as acusações feitas e não repetir o comportamento recorrente em nosso sistema judiciário, de se insistir na exaltação ruidosa de uma meia-verdade.

Que é também uma meia-mentira, como lembrava Millôr Fernandes.

 

*Professor do Bacharelado em Relações Internacionais (BRI)

Membro corpo docente da Pós-Graduação em Ciências Humanas e Sociais

Universidade Federal do ABC (UFABC)

Bloco Delta, Sala 322 – São Bernardo do Campo
tel: 11-2320-6330 – 98259-0255

 


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