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23 de janeiro de 2018, 12h33

Nos tempos da febre amarela, por Gilberto Maringoni

“Para vocês verem, o Brasil do meu tempo era assim: febre amarela, manteiga francesa e agulhas alemãs. Isso aqui era o fim do mundo”, dizia meu bisavô

Esta jovem senhora alta, magra e com um ar meio pândego no meio da foto é minha avó materna, Hilda Loureiro Maringoni (1897-1978). Abril de 1916, numa fazenda dos arredores de Bauru.

Pois acredite, ilustre passageiro, ela quase morreu de febre amarela, além de levar marcas de paralisia infantil por toda a vida.

Dona Hilda não era fácil. Descendente de uma aristocracia decadente, guardava dessa linhagem dinheiro pouco, gosto voraz pela leitura, tentativas de aprender música – havia um belo piano em casa – e um certo nariz empinado. Mesclava senso de humor com momentos de ira hilária e uma curiosidade aberta. Era dona de invejável biblioteca para os tempos e assinava o que de melhor se editava no Rio de Janeiro. Falava palavrões quando não era de bom tom a uma dama sujar a boca pelas fronteiras do derradeiro broto do lácio.

Tudo indica ser ela quem mandava na casa, pois meu avô seguia a senda – me contam – de pacato e operoso bonachão.

Pois a filha do capitão João Antônio Loureiro, nascida em Barra do Piraí e criada no Rio, com menos de um ano de idade, contraiu febre amarela. O caso se deu quase duas décadas antes do dr. Osvaldo Cruz erradicar a doença da cidade. A capital da jovem República era então um aglomerado urbano infecto, com a população pobre vivendo sem saneamento básico e em condições para lá de deploráveis (Todas as semelhanças com as modernidades líquidas, sólidas e gasosas não são mera coincidência).

Foi assim. Uma noite, inícios de 1898, a família se preparava para sair. Quando a mãe a coloca no colo, um vômito amarelado escorre pelo vestido e a menina fica pálida como gelo. Desespero. A noitada acaba ali e busca-se algum socorro. Não existia vacina.

Em meio a altíssima taxa de letalidade provocada pela epidemia, o bebê passa maus bocados. Sobrevive, sabe-se lá como.

Anos adiante, o capitão João Antonio fazia troça da filha mais velha: “Hilda é tão ruim que nem a febre amarela pode com ela”. Minha avó ria ao se lembrar da frase.

Logo mudava a expressão – isso anos 1960-70 -, empertigava-se e emendava: “Para vocês verem, o Brasil do meu tempo era assim: febre amarela, manteiga francesa e agulhas alemãs. Isso aqui era o fim do mundo”.

Tivesse vivido mais quarenta anos, dona Hilda veria o Brasil dos novos tempos: febre amarela, manteiga francesa e agulhas chinesas.

Ela provavelmente ficaria assustada. E emendaria em voz baixa: “Que merda, viu…”


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